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Casamento arranjado

Fandom: DC

Criado: 14/06/2026

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O Peso da Coroa e o Perfume de Baunilha

A Mansão Wayne nunca pareceu tão silenciosa e, ao mesmo tempo, tão barulhenta. O silêncio vinha dos corredores vastos e mal iluminados, mas o barulho ecoava dentro da mente de Bruce. Ele ajustou os punhos da camisa de seda branca, observando-se no espelho de moldura dourada. Aos trinta anos, ele já havia dominado a arte de vestir máscaras, mas aquela noite exigia uma que ele raramente usava em sua intimidade: a do herdeiro obediente.

O terno de alfaiataria italiana, em um tom de azul-marinho tão escuro que beirava o preto, moldava-se perfeitamente aos seus ombros largos e físico robusto. Ele passou a mão pelo rosto perfeitamente barbeado, sentindo a pele lisa. Não havia espaço para a barba por fazer do vigilante naquela noite. Hoje, ele era apenas Bruce Wayne, o bilionário que estava prestes a selar um acordo comercial através de um altar.

— O carro está pronto, patrão Bruce — anunciou Alfred da porta, sua voz carregada de uma simpatia contida. — E, se me permite dizer, o senhor parece... apropriadamente civilizado.

Bruce soltou um suspiro curto, pegando o paletó.

— É apenas um negócio, Alfred. Os Rockfeller precisam da nossa infraestrutura logística, e nós precisamos da influência deles nos portos do sul. Um casamento arranjado é arcaico, mas resolve décadas de disputas judiciais em uma única assinatura.

— Um negócio que envolve uma jovem dama, senhor — lembrou Alfred, entregando-lhe o sobretudo. — Sophia Rockfeller não é uma planilha de custos. Ouvi dizer que é uma moça de uma doçura rara nestes círculos sociais.

Bruce não respondeu. Ele sabia quem era Sophia. Tinha lido o dossiê — não o tipo de dossiê que o Batman faria sobre um criminoso, mas as informações que circulavam na alta sociedade. Vinte anos, bailarina, pianista, uma alma reclusa. O oposto total da imagem de "playboy mimado" que ele projetava para o mundo.

O trajeto até a propriedade de veraneio dos Rockfeller foi feito em silêncio. Quando Bruce desceu do carro, os flashes dos paparazzi o atingiram como tiros. Ele imediatamente mudou sua postura. O olhar focado e inteligente deu lugar a um sorriso preguiçoso e charmoso, o olhar levemente desfocado de quem já teria tomado uma taça de champanhe antes mesmo de chegar à festa.

— Bruce! Por aqui! — gritou um repórter.

Ele apenas acenou, entrando na mansão onde o jantar de noivado seria realizado. O ar lá dentro era diferente. Cheirava a lírios e a algo mais doce, mais quente.

No salão principal, cercada por seus pais, estava ela.

Sophia Rockfeller parecia ter saído de uma pintura renascentista. Ela era pequena, medindo pouco mais de um metro e meio, o que a fazia parecer ainda mais delicada diante da estatura imponente de Bruce. Seus cabelos escuros caíam em cachos perfeitos sobre os ombros, e a pele bronzeada brilhava sob a luz dos lustres de cristal. Quando ela levantou os olhos castanhos para encontrá-lo, Bruce sentiu um solavanco inesperado no peito. Não era o medo de um confronto, nem a adrenalina da caçada. Era... algo novo.

Ele se aproximou com passos lentos, a elegância de um predador disfarçada pela indolência do bilionário.

— Sr. Rockfeller. Sra. Rockfeller — Bruce cumprimentou os pais dela com um aceno de cabeça polido antes de se voltar para a jovem. — E você deve ser Sophia.

Ele pegou a mão dela. Era pequena, macia e levemente trêmula. Ao levá-la aos lábios, o perfume de baunilha o atingiu em cheio. Era doce, reconfortante e puramente inocente.

— É um prazer conhecê-lo, Sr. Wayne — a voz dela era baixa, melódica, carregada de uma timidez que não parecia fingida.

— Por favor, me chame de Bruce — ele disse, mantendo o sorriso de fachada, embora seus olhos estivessem analisando cada detalhe dela com uma precisão cirúrgica. — "Sr. Wayne" me faz sentir como se eu estivesse em uma reunião de conselho, e eu prometi a mim mesmo que não pensaria em trabalho enquanto estivesse diante de uma mulher tão bela.

Sophia corou instantaneamente, as bochechas assumindo um tom rosado que combinava com seus lábios. Ela baixou o olhar, o que fez Bruce sentir uma pontada estranha de culpa. Ele estava usando seu charme barato de Gotham com alguém que parecia não ter defesas contra ele.

O jantar foi uma sucessão de conversas sobre fusões, aquisições e expansões de mercado. Bruce desempenhou seu papel com perfeição, rindo das piadas sem graça dos sogros e contando anedotas sobre suas supostas viagens de iate. No entanto, ele percebeu que Sophia permanecia em silêncio, apenas observando o prato ou lançando olhares furtivos para ele.

Após a sobremesa, os pais de Sophia sugeriram que os noivos dessem um passeio pelos jardins para "se conhecerem melhor". Bruce sabia que era apenas uma formalidade para que os advogados pudessem discutir os detalhes do contrato nupcial na biblioteca.

O ar da noite estava fresco. Eles caminharam em silêncio por alguns minutos, longe dos olhos curiosos. Sophia mantinha as mãos entrelaçadas à frente do corpo, caminhando com a leveza de quem passou anos em sapatilhas de ponta.

— Você não precisa fingir comigo, Bruce — disse ela, subitamente.

Bruce parou, sua máscara de playboy oscilando por um segundo.

— Fingir? Não sei do que está falando, querida. Eu sou exatamente o que você vê. Um homem que gosta de carros rápidos e festas longas.

Sophia parou e se virou para ele. Ela era tão pequena que precisava inclinar a cabeça consideravelmente para trás para encará-lo.

— Eu leio muito — ela disse suavemente. — E eu pinto. Quando você observa as pessoas, aprende a ver as camadas. Seus olhos não combinam com o seu sorriso. Seus olhos são... tristes. E muito inteligentes para alguém que diz não gostar de pensar em trabalho.

Bruce sentiu um calafrio. Aquela garota de vinte anos, com cheiro de baunilha e rosto de anjo, tinha acabado de atravessar uma barreira que muitos vilões de Gotham levaram anos para sequer arranhar.

— Você é muito observadora para o seu próprio bem, Sophia — ele respondeu, desta vez sem o tom jocoso. Sua voz caiu para o registro mais grave e sombrio que ele costumava usar apenas na Batcaverna.

— Eu não me importo — ela deu um passo à frente, e Bruce notou como ela era delicada, mas havia uma força silenciosa em sua postura. — Eu sei que este casamento é um contrato. Eu sei que meu pai quer sua influência e você quer os portos dele. Mas eu... eu não quero ser apenas uma cláusula no seu contrato, Bruce.

Ele a observou em silêncio. A luz da lua refletia nos olhos castanhos dela, que brilhavam com uma mistura de medo e esperança. Bruce sentiu um peso no estômago. Ele vivia uma vida de violência, segredos e sombras. Colocar Sophia naquele mundo era perigoso. Mas, ao mesmo tempo, a doçura dela era como um oásis no deserto de sua existência.

— O que você quer, então? — perguntou ele, a voz quase um sussurro.

— Eu quero a verdade. Pelo menos quando estivermos sozinhos.

Bruce deu um passo em direção a ela, diminuindo a distância. O porte atlético dele parecia envolver o espaço dela. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que raramente se permitia, tocou uma mecha do cabelo cacheado dela.

— A verdade é um fardo pesado, Sophia. Tem certeza de que quer carregá-lo?

— Eu sou mais forte do que pareço — ela respondeu, esticando-se um pouco para tocar o braço dele. Ela sentiu a musculatura rígida, as cicatrizes escondidas sob o tecido caro do terno. — Você não precisa ser o "Bruce Wayne de Gotham" para mim.

Por um momento, o Batman e o Playboy desapareceram. Sobrou apenas o homem que, há muito tempo, esqueceu como era ser cuidado. Bruce olhou para Sophia e viu nela algo que ele não possuía: paz.

— Este casamento... — Bruce começou, sua voz voltando a ser a do empresário focado, mas com uma suavidade nova — ...pode ter começado como um negócio. Mas eu garanto que você será protegida. Eu cuidarei para que nada e ninguém a machuque.

Sophia sorriu, e foi o sorriso mais doce que Bruce já vira.

— Eu acredito em você.

— Você deveria — ele disse, aproximando o rosto do dela. — Eu sou muito bom em cumprir minhas promessas.

Ele não a beijou. Não ainda. Mas ele inclinou a cabeça e aspirou o perfume de baunilha em seu pescoço, um gesto de posse e, estranhamente, de entrega. Sophia fechou os olhos, suspirando contra o peito dele, sentindo-se segura pela primeira vez desde que o acordo fora anunciado.

— Vamos entrar? — ela sugeriu após um tempo. — Meus pais devem estar terminando de vender meu futuro para você.

Bruce soltou uma risada curta e seca, a primeira risada genuína que dava em semanas.

— Eles estão apenas facilitando o inevitável. Mas deixe-me avisar, Sophia: eu sou um homem difícil de conviver. Tenho hábitos... noturnos.

— Eu também — ela brincou, os olhos brilhando. — Às vezes fico acordada até as três da manhã terminando um poema ou uma tela. Acho que vamos nos dar bem.

Bruce sorriu, mas desta vez o sorriso chegou aos seus olhos azuis, embora com uma sombra de melancolia. Se ela soubesse o que ele realmente fazia às três da manhã... Mas, por enquanto, ele permitiria que aquele momento existisse.

Eles voltaram para o salão de braços dados. Para os convidados e para as câmeras, era o início de uma união de poder. Para Sophia, era o começo de um mistério que ela estava ansiosa para desvendar. E para Bruce Wayne, era o início de uma complicação que cheirava a baunilha e que, talvez, fosse a única coisa capaz de mantê-lo ancorado à sua própria humanidade.

Ao cruzarem a porta, Bruce sentiu o celular vibrar no bolso. Um alerta do Bat-sinal. O dever o chamava, como sempre. Mas, ao olhar para a jovem ao seu lado, ele percebeu que a noite não seria mais apenas sobre sombras. Havia uma luz nova em Gotham, e ela estava segurando seu braço.

— Sophia? — ele chamou, antes de entrarem totalmente no salão.

— Sim?

— Obrigado por não me pedir para ser normal.

Ela apertou o braço dele com carinho.

— O normal é entediante, Bruce. E você é qualquer coisa, menos entediante.

Eles entraram, e as luzes da festa os envolveram. O contrato estava assinado. O destino estava selado. E, no submundo de Gotham, o Batman tinha agora algo muito mais precioso do que sua cidade para proteger.
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