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E quando ninguém esperava

Fandom: Escola

Criado: 14/06/2026

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O Eco dos Risos no Corredor C

A luz do sol da tarde atravessava as janelas altas do Colégio Santo Agostinho, projetando retângulos dourados sobre o piso de granilite desgastado. Sofia Ribeiro caminhava pelo corredor C, equilibrando uma pilha de livros de literatura contra o peito. Ela era alta, o que às vezes a fazia se sentir como uma girafa desajeitada entre os armários, mas havia uma leveza em seus passos que denunciava sua natureza sonhadora. Naquele momento, sua mente não estava na aula de gramática que acabara de terminar, mas sim nas nuvens que flutuavam lá fora, desenhando formas que só ela parecia notar.

Sofia era o tipo de garota que iluminava uma sala com um sorriso, embora, nos momentos de silêncio, uma timidez repentina a fizesse baixar o olhar e brincar com uma mecha de seu cabelo castanho. Ela gostava de acreditar que a vida era um livro à espera de um grande acontecimento.

— Ei, cuidado com a torre de Pisa! — Uma voz familiar e brincalhona ecoou pelo corredor.

Sofia parou bruscamente, fazendo com que o livro de cima da pilha escorregasse perigosamente. Antes que ele atingisse o chão, uma mão rápida o capturou no ar. Ela olhou para baixo — literalmente, já que ele era um pouco mais baixo que ela — e encontrou os olhos castanhos e brilhantes de Bernardo Ferreira.

Bernardo era uma contradição ambulante. Tinha a energia de um furacão e o senso de humor de um comediante de palco, mas, às vezes, quando o assunto ficava sério, ele corava até a ponta das orelhas. Ele estendeu o livro para ela com um sorriso travesso.

— Obrigado — disse Sofia, sentindo o rosto esquentar. — Eu estava meio distraída.

— Meio? — Bernardo riu, acompanhando-a enquanto ela voltava a andar. — Você estava em Marte, Sofia. Dava para ver as crateras refletidas nos seus olhos.

— Não exagera, Bernardo. Eu só estava pensando no festival de talentos.

Bernardo deu um salto fingido de surpresa, seus passos rápidos tentando acompanhar as passadas longas de Sofia.

— O festival? Não me diga que a grande Sofia Ribeiro vai finalmente subir naquele palco para ler seus poemas secretos?

— Nem morta! — Ela exclamou, rindo da audácia dele. — Eu morreria de vergonha antes de chegar no microfone.

— Que desperdício — comentou ele, o tom de voz mudando subitamente para algo mais suave, quase ousado. — Eu leria para você, se você deixasse. Mas acho que minha voz de taquara rachada estragaria a arte.

Eles chegaram ao pátio central, onde o barulho dos outros alunos formava um burburinho constante. Sentaram-se em um dos bancos de madeira sob a sombra de uma mangueira antiga. Bernardo começou a batucar um ritmo qualquer no banco, sua energia habitual transbordando.

— E você? — perguntou Sofia, observando as mãos dele. — Vai fazer alguma gracinha no palco este ano?

— Eu estava pensando em um show de mágica — disse ele, tirando uma moeda de trás da orelha de Sofia com uma agilidade impressionante. — Mas acho que o truque de fazer o meu dever de casa desaparecer já foi usado demais pelos professores.

Sofia soltou uma gargalhada alta, daquelas que vinham do fundo da alma e faziam seus olhos brilharem. Bernardo parou de batucar por um segundo, apenas observando-a. Havia algo naquela alegria dela que o desarmava completamente. Ele gostava de ser o motivo daquele riso.

— Você é bobo, sabia? — disse ela, recuperando o fôlego.

— Sou o bobo da corte oficial desta instituição — ele fez uma reverência exagerada, ainda sentado. — Mas falando sério... você vai à festa na casa do Leo no sábado?

Sofia hesitou. Festas grandes sempre a deixavam um pouco deslocada, como se ela não soubesse exatamente o que fazer com as mãos ou sobre o que conversar.

— Não sei. Acho que não faço muito o tipo "festa barulhenta".

— Eu também não — confessou Bernardo, para a surpresa dela. — Mas eu vou se você for. Podemos ficar no canto perto da mesa de comida, julgando as escolhas musicais do Leo. Prometo que te faço rir se você começar a ficar tímida.

Sofia olhou para ele, sentindo uma pontada diferente no peito. Não era apenas a amizade de infância ou as piadas de corredor. Havia uma segurança no jeito que Bernardo a tratava, uma mistura de proteção e admiração que ela nunca tinha notado com tanta clareza.

— É uma promessa? — perguntou ela, com a voz um pouco mais baixa.

— Juramento de escoteiro — ele disse, embora nunca tivesse sido escoteiro na vida.

Nos dias que se seguiram, algo mudou na atmosfera entre os dois. Os encontros "por acaso" no intervalo tornaram-se mais frequentes. Bernardo passou a deixar pequenos bilhetes com desenhos engraçados dentro do armário de Sofia, e ela, por sua vez, começou a guardar o lugar dele na biblioteca, mesmo sabendo que ele raramente aparecia lá para estudar.

Na tarde de sexta-feira, o céu decidiu desabar em uma chuva torrencial de verão bem na hora da saída. A maioria dos alunos correu para os carros dos pais ou para o ponto de ônibus, mas Sofia e Bernardo ficaram retidos sob a marquise da entrada principal.

— Parece que o universo quer que a gente revise o conteúdo de biologia aqui mesmo — brincou Bernardo, observando as cortinas de água que caíam.

— Ou talvez seja um sinal para eu não ir para casa e terminar aquele livro — respondeu Sofia, abraçando a si mesma para se proteger do vento frio que soprava.

Bernardo percebeu que ela estava encolhida. Sem dizer uma palavra, ele tirou o casaco de moletom azul que usava e o estendeu para ela.

— Toma. Você é alta demais para o vento não te acertar em cheio.

— Mas e você? Vai ficar com frio.

— Eu sou compacto, Sofia. O calor fica concentrado — ele piscou, e aquela ousadia repentina fez o coração dela dar um solavanco.

Ela aceitou o casaco, que cheirava a amaciante e ao perfume cítrico que Bernardo sempre usava. Ao vestir, sentiu-se envolta por ele de uma forma que a fez perder as palavras por um momento. Eles ficaram em silêncio, observando a chuva, até que Bernardo quebrou o gelo.

— Sofia, eu andei pensando... — Ele começou, chutando uma pedrinha invisível no chão. — Sabe aquela coisa de ir à festa com você?

— Sei.

— Eu não quero ir só como o seu amigo brincalhão que te faz rir.

Sofia virou-se para ele, o coração batendo tão forte que ela tinha certeza de que ele podia ouvir. Bernardo estava vermelho, a timidez finalmente vencendo sua faceta de palhaço da turma.

— O que você quer dizer com isso? — ela perguntou, a voz quase um sussurro.

— Quero dizer que... — Bernardo respirou fundo, recuperando um pouco da coragem. — Eu acho que estou gostando de você de um jeito que não cabe em uma piada. E olha que eu sou bom em fazer as coisas caberem em piadas.

Sofia sentiu um sorriso involuntário surgir em seu rosto. A sinceridade dele era a coisa mais linda que ela já tinha visto. Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre os dois.

— Sabe, Bernardo... para alguém que é baixo, você tem uma coragem bem grande.

— Isso foi um elogio ou uma piada com a minha altura? — ele perguntou, voltando a sorrir, o alívio inundando suas feições.

— Os dois — ela riu, e então tomou a iniciativa, algo que nunca imaginou fazer. Ela se inclinou e depositou um beijo rápido e suave na bochecha dele. — Eu também gosto de você. E não é pouco.

Bernardo ficou estático por um segundo, processando o que acabara de acontecer. O mundo ao redor deles, com o barulho da chuva e o cheiro de terra molhada, parecia ter parado. Ele olhou para ela, seus olhos brilhando com uma intensidade nova.

— Então... — ele começou, a voz um pouco trêmula, mas carregada de alegria. — Isso significa que eu posso segurar sua mão na festa?

— Só se você prometer não fazer nenhum truque de mágica com ela — respondeu Sofia, estendendo a mão para ele.

Bernardo entrelaçou seus dedos nos dela. A mão dele era quente e se encaixava perfeitamente na sua.

— Promessa cumprida. Mas não prometo que não vou tentar te fazer rir a noite inteira.

— Disso eu nunca tive dúvida.

A chuva continuava a cair, mas para Sofia e Bernardo, o corredor da escola e aquela marquise cinzenta tinham se transformado no cenário de um sonho que estava apenas começando. Eles ficaram ali, de mãos dadas, esperando o tempo passar, descobrindo que, às vezes, as melhores histórias de amor começam com um livro salvo da queda e um riso compartilhado no meio do caminho.

— Sabe de uma coisa? — disse Bernardo, enquanto viam o ônibus de Sofia se aproximar.

— O quê?

— Eu acho que ser alto não é tão ruim assim. Me dá uma visão privilegiada do seu sorriso.

Sofia corou, escondendo o rosto na gola do casaco dele, que ainda cheirava a ele.

— E ser baixo tem suas vantagens — ela retrucou. — Fica mais perto do meu coração.

Bernardo soltou uma risada sonora, sentindo-se o garoto mais sortudo do colégio. A timidez ainda estava lá, escondida em algum lugar, mas a alegria de terem encontrado um ao outro era muito maior. Eles se despediram com a promessa de um sábado inesquecível, sabendo que, a partir daquele dia, os corredores da escola nunca mais seriam os mesmos. Cada passo, cada riso e cada bilhete trocado agora faziam parte de uma melodia que só os dois conseguiam ouvir: a música de dois corações que, entre uma aula e outra, decidiram bater no mesmo ritmo.
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