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E quando ninguém esperava

Fandom: Escola

Criado: 14/06/2026

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O Ritmo dos Corredores e o Eco de um Sorriso

O sinal da Escola Estadual Monteiro Lobato ecoou pelo pátio, anunciando o fim do intervalo, mas para Sofia, o som parecia vir de algum lugar muito distante. Ela estava encostada na mureta do pátio, os dedos longos brincando com a alça da mochila. Sendo a mais alta do seu grupo de amigas, ela costumava se sentir um pouco desajeitada, como se seus braços e pernas não soubessem exatamente onde ficar, mas naquele momento, sua mente estava flutuando longe das preocupações com a postura.

— Sofia? Terra chamando Sofia! — Rafaella estalou os dedos na frente do rosto da amiga, rindo da expressão distraída dela.

Sofia piscou, balançando a cabeça para afastar os devaneios. Suas bochechas ganharam um tom rosado, denunciando sua timidez repentina.

— Desculpa, Rafa. Eu só estava... pensando na aula de biologia.

— Sei, biologia — interveio Isabel, que se aproximou com um sorriso cúmplice, ajustando os óculos no rosto. — E essa "biologia" por acaso tem um metro e sessenta e cinco, usa camisetas de bandas de rock e vive fazendo piada com o professor de história?

— Ele não é tão baixo assim — murmurou Sofia, tentando esconder o sorriso que teimava em aparecer.

— Ahá! Então você admite que estava pensando no Bernardo! — Rafaella exclamou, batendo palmas de leve. — Eu sabia. A forma como vocês se olharam durante o grupo de estudos ontem foi quase cinematográfica.

Rafaella era o porto seguro de Sofia. Embora fosse mais reservada com pessoas desconhecidas, com as amigas ela era uma força da natureza, sempre observadora e pronta para dar o empurrãozinho que faltava. Isabel, por outro lado, era a voz da razão prática, a amiga que não fazia rodeios e que valorizava a sinceridade acima de tudo.

— Ele é legal, só isso — disse Sofia, embora seu coração batesse num ritmo muito mais acelerado do que a palavra "legal" sugeria. — Ele é engraçado, e quando ele sorri... ele tem aquela covinha, sabem?

— Nós sabemos, Sofia. Você descreve essa covinha pelo menos três vezes por semana — brincou Isabel, passando o braço pelos ombros da amiga. — Mas falando sério, por que você não vai falar com ele? O Bernardo é um bobo, no bom sentido. Ele também fica todo estranho quando você chega perto.

Sofia suspirou, olhando para o final do corredor, onde um grupo de meninos jogava uma bola de papel de um lado para o outro. No centro deles estava Bernardo. Ele era visivelmente mais baixo que Sofia, mas sua personalidade preenchia qualquer espaço. Ele estava rindo de alguma bobagem que um de seus amigos dissera, os olhos brilhando com aquela alegria contagiante que fora a primeira coisa a chamar a atenção de Sofia.

Bernardo era um misto curioso. Ao mesmo tempo que era o palhaço da turma, capaz de imitar qualquer professor com uma precisão assustadora, ele tinha momentos de uma timidez quase infantil, especialmente quando o assunto envolvia sentimentos reais.

— Eu não sei — confessou Sofia. — E se eu parecer uma girafa desengonçada perto dele?

— Primeiro: você é elegante, não desengonçada — corrigiu Rafaella com firmeza. — Segundo: o Bernardo adora o seu jeito. Eu vi como ele ficou te olhando quando você apresentou aquele trabalho sobre astronomia. Ele parecia estar vendo uma estrela de verdade.

— Que poético, Rafa — disse Isabel, embora concordasse com a cabeça. — Mas é verdade, Sofi. Vai lá. O sinal já bateu, mas o professor de matemática sempre se atrasa cinco minutos. É a sua chance.

As duas amigas deram um empurrãozinho suave em Sofia, que quase tropeçou nos próprios pés. Ela respirou fundo, ajeitou o cabelo e começou a caminhar em direção ao grupo de meninos.

Enquanto isso, Bernardo tentava manter o foco na conversa sobre o jogo de futebol da noite anterior, mas sua visão periférica já havia detectado a silhueta alta e esguia de Sofia se aproximando. Ele sentiu aquele frio na barriga que costumava associar a descer uma montanha-russa.

— E aí, Berna, vai encarar ou vai ficar só olhando? — sussurrou um de seus amigos, dando uma cotovelada em suas costelas.

— Cala a boca — respondeu Bernardo, sentindo o rosto esquentar.

Ele se separou do grupo e fingiu estar procurando algo dentro da mochila quando Sofia se aproximou.

— Oi, Bernardo — disse ela, a voz um pouco mais aguda do que o normal.

Bernardo levantou a cabeça e abriu um sorriso largo, o tipo de sorriso que fazia Sofia esquecer como se formavam frases completas.

— Oi, Sofia! — Ele se endireitou, tentando ganhar cada centímetro de altura possível. — Tudo certo? Sobreviveu à prova de química?

— Acho que sim — respondeu ela, soltando uma risadinha nervosa. — Embora eu tenha certeza de que inventei um novo elemento químico na questão quatro.

Bernardo soltou uma gargalhada genuína, o que fez Sofia relaxar os ombros.

— Não se preocupa. Eu provavelmente transformei água em suco de uva na minha prova, de tanto que confundi as fórmulas — ele brincou, dando um passo discreto para mais perto dela. — Você vai para a biblioteca depois da aula? Sabe... para o grupo de estudos?

Sofia sentiu um brilho de esperança.

— Eu ia, mas a Isabel e a Rafaella têm treino de vôlei hoje. Por quê?

Bernardo hesitou por um segundo. A ousadia que ele usava para fazer piadas na sala de aula parecia ter fugido, deixando apenas o garoto tímido que ele tentava esconder. Ele coçou a nuca, um gesto típico de quando estava nervoso.

— É que... eu estava pensando se você não queria me ajudar com aquela parte de literatura — ele disse, olhando para os próprios tênis antes de criar coragem para encarar os olhos castanhos dela. — Ou a gente podia só... sei lá, tomar um sorvete naquela padaria da esquina? Eles dizem que o de pistache é horrível, mas o de chocolate é passável.

Sofia sentiu o coração dar um salto. Ela olhou para trás e viu, ao longe, Rafaella e Isabel observando tudo de trás de uma pilastra. Rafaella fez um sinal de "joinha" e Isabel fingiu estar limpando uma lágrima de emoção.

— Eu adoraria, Bernardo — respondeu Sofia, e desta vez o sorriso dela foi pleno, sem qualquer sombra de timidez. — Mas eu aviso logo: eu sou uma crítica feroz de sorvetes de chocolate.

— Aceito o desafio! — exclamou ele, recuperando sua confiança habitual. — Se você não gostar, eu faço a sua lição de casa de matemática por uma semana.

— Fechado. Mas você sabe que eu vou cobrar, não sabe?

— Eu conto com isso — disse ele, baixando um pouco o tom de voz, num tom que soou quase doce.

Eles ficaram ali por alguns segundos, apenas se olhando, ignorando o burburinho dos outros alunos que corriam para as salas. Havia uma harmonia estranha e perfeita entre eles: a altura dela e o jeito brincalhão dele, a doçura de Sofia e a energia de Bernardo.

— É melhor a gente ir para a sala — lembrou Sofia, embora não fizesse menção de se mover.

— É, o professor de matemática não perdoa atrasos — concordou Bernardo. — Mas, Sofia?

— Sim?

— Você está muito bonita hoje. Quer dizer, você é bonita sempre, mas hoje o azul dessa blusa combina com... com tudo.

Sofia sentiu que poderia flutuar até o teto do ginásio.

— Obrigada, Bernardo. Você também está... bem, você é o Bernardo.

Ele riu, e dessa vez, ele ousou tocar de leve o braço dela enquanto começavam a caminhar em direção à sala de aula.

— Isso é um elogio ou uma constatação de um problema? — perguntou ele, voltando ao seu tom brincalhão.

— Definitivamente um elogio — respondeu ela, sentindo-se mais leve do que nunca.

Ao entrarem na sala, Rafaella e Isabel já estavam sentadas em suas respectivas carteiras. Rafaella fingia estar profundamente interessada em um livro de história, mas seus olhos acompanhavam cada movimento do casal. Isabel apenas deu uma piscadinha para Sofia quando ela passou.

A aula começou, mas para Sofia e Bernardo, os números na lousa eram apenas borrões. Eles trocaram bilhetes rápidos durante a explicação sobre funções de segundo grau.

"Pistache às 17h?", dizia o papel dobrado que Bernardo jogou na mesa dela.

Sofia escreveu embaixo: "Só se você prometer não imitar o professor de matemática enquanto eu estiver tomando sorvete, ou eu vou acabar engasgando de rir".

Ele devolveu com um desenho rápido de um boneco palito com óculos enormes e uma régua na mão, e a legenda: "Promessa é dívida".

O restante da tarde passou como um borrão de expectativa. Quando o último sinal finalmente tocou, a escola parecia vibrar com uma energia diferente. Sofia encontrou as amigas na saída.

— E então? — perguntou Isabel, cruzando os braços com um sorriso de satisfação. — O plano "Sorvete e Romance" está de pé?

— Está — confirmou Sofia, guardando os livros com pressa. — Obrigada, meninas. De verdade. Eu acho que teria ficado apenas olhando para ele até o dia da formatura se vocês não tivessem me empurrado.

— É para isso que servimos — disse Rafaella, dando um abraço rápido na amiga. — Agora vai lá. O seu cavaleiro não tão alto está te esperando no portão.

Sofia riu e caminhou em direção à saída. Bernardo estava lá, encostado no portão de ferro, balançando a mochila em um ombro só. Quando a viu, ele se empertigou e acenou.

— Pronta para o pior sorvete de chocolate da sua vida? — perguntou ele, conforme ela se aproximava.

— Pronta — respondeu Sofia, caminhando ao lado dele.

Enquanto se afastavam da escola, a diferença de altura entre eles parecia não importar nem um pouco. Eles caminhavam em um ritmo próprio, entre risadas e confissões tímidas, descobrindo que, às vezes, o melhor lugar do mundo é exatamente ao lado de alguém que nos faz rir das nossas próprias inseguranças.

— Sabe, Sofia — disse Bernardo, enquanto atravessavam a rua —, eu estava muito nervoso para te convidar.

— Sério? — Ela olhou para ele, surpresa. — Você sempre parece tão seguro de si.

— É tudo fachada — confessou ele, com uma sinceridade que aqueceu o coração dela. — Perto de você, eu sinto que minhas piadas podem não ser tão engraçadas assim.

— Elas são as melhores — disse ela, e sem pensar muito, deslizou sua mão até encontrar a dele.

Os dedos deles se entrelaçaram timidamente. A mão de Bernardo era firme e quente, e a de Sofia se encaixou ali como se sempre devesse estar naquele lugar.

— Então eu vou ter que me esforçar em dobro hoje — brincou ele, apertando levemente a mão dela.

Eles continuaram caminhando, dois jovens sonhadores sob o sol da tarde, descobrindo que o amor, assim como a escola, é um aprendizado constante, cheio de descobertas, pequenos erros e grandes momentos de felicidade. E naquele dia, o sorvete de chocolate acabou sendo o melhor que Sofia já havia provado, não pelo sabor, mas pela companhia de quem o dividia com ela.
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