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Fandom: O príncipe cruel
Criado: 15/06/2026
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O Vinho de Amora e a Teia de Aranha
O Grande Rei de Elfhame não era conhecido por sua paciência, muito menos por sua benevolência. Sentado em seu trono entalhado, com a coroa de ouro sobre os cachos rebeldes e uma taça de vinho na mão, Cardan Greenbriar parecia a personificação do tédio aristocrático. Seus olhos, no entanto, não estavam focados nos embaixadores das Cortes Menores ou nas intrigas sussurradas pelos cantos do salão. Eles estavam fixos no jovem mortal que tentava, sem muito sucesso, equilibrar um prato de frutas enquanto conversava animadamente com uma das ninfas do palácio.
Leo era uma anomalia naquele mundo de espinhos e veneno. Com seus cabelos loiros que pareciam reter a luz do sol e sua pele pálida, quase translúcida, ele parecia uma criatura feita de açúcar e bondade. Para Cardan, ele era a única coisa que tornava a imortalidade suportável. E também a maior fonte de sua frustração.
— Você vai acabar furando o garoto com o olhar, Majestade — sussurrou a Barata, aproximando-se do trono com sua habitual discrição. — Se continuar assim, ele vai começar a fumegar.
Cardan desviou o olhar lentamente, oferecendo ao espião um sorriso preguiçoso e perigoso.
— Não seja ridículo. Estou apenas garantindo que ninguém coloque veneno na comida dele. Seria um desperdício perder um amigo tão... divertido.
— Amigo — repetiu a Barata, com um tom de deboche que poucos ousariam usar com o Rei. — Se é isso que você chama o desejo de trancá-lo em uma gaiola de ouro e esconder a chave, então sim, ele é seu melhor amigo.
Cardan apertou a haste da taça até que seus nós dos dedos ficassem brancos. Ele não respondeu. Em vez disso, levantou-se com uma elegância fluida, as vestes de seda negra arrastando-se pelo chão de pedra. Ele caminhou em direção a Leo, ignorando as reverências e os olhares temerosos das fadas ao seu redor.
Leo o viu se aproximar e abriu um sorriso radiante, aquele tipo de sorriso que fazia o estômago de Cardan dar voltas desconfortáveis.
— Cardan! — exclamou Leo, os olhos brilhando. — Você viu como as flores de hibisco estão maiores hoje? A ninfa Lyra estava me contando que elas florescem de acordo com o humor da terra. Não é fascinante?
Cardan parou a poucos centímetros dele, invadindo seu espaço pessoal com uma naturalidade possessiva. Ele estendeu a mão e, com as pontas dos dedos, limpou uma pequena mancha de suco de amora do canto da boca de Leo. O toque foi demorado, quase uma carícia, mas Leo apenas piscou, parecendo achar o gesto a coisa mais normal do mundo.
— Fascinante — murmurou Cardan, sua voz caindo para um tom aveludado e sombrio. — Mas eu preferiria que você não desse tanta atenção às ninfas, Leo. Elas têm o hábito de levar mortais para o fundo dos lagos e esquecer de trazê-los de volta.
Leo soltou uma risadinha suave, balançando a cabeça.
— Você é sempre tão dramático. Lyra é adorável. Ela só estava sendo gentil.
— Gentil — Cardan repetiu a palavra como se fosse um insulto. — Em Elfhame, a gentileza é apenas uma faca escondida atrás das costas. Você é ingênuo demais para o seu próprio bem.
— E é por isso que eu tenho você, não é? — Leo deu um tapinha amigável no braço do Rei, sem perceber como o corpo de Cardan ficou rígido sob o toque. — Meu melhor amigo, o Grande Rei, cuidando de mim. Quem ousaria me machucar?
Cardan sentiu um gosto amargo na boca. "Melhor amigo". Aquela frase era como um feitiço de vinculação que ele não conseguia quebrar. Ele queria gritar que não queria ser amigo, que queria ser a razão pela qual Leo perdia o fôlego, o motivo de seus pesadelos e de seus sonhos mais profundos. Ele queria marcar aquela pele pálida, reivindicar cada centímetro daquele garoto mortal que parecia não entender nada do que estava acontecendo diante de seus olhos.
— Venha — disse Cardan, segurando o pulso de Leo. — O ar aqui dentro está saturado de falsidade. Vamos para os jardins privados.
— Mas eu nem terminei minhas uvas! — protestou Leo, embora deixasse Cardan puxá-lo.
— Eu lhe darei uvas melhores. E vinho que não faz sua cabeça girar tanto quanto essa conversa fiada.
Eles caminharam pelos corredores sinuosos do palácio até chegarem a um terraço escondido, onde as trepadeiras de luar brilhavam com uma luz prateada. Era um lugar onde ninguém ousava entrar sem a permissão expressa do Rei. Para Leo, era apenas "o jardim do Cardan".
O Rei sentou-se em um banco de pedra e puxou Leo para sentar-se ao seu lado, garantindo que suas coxas se tocassem. Leo, alheio à tensão que emanava de Cardan, suspirou de satisfação, olhando para as estrelas.
— É tão calmo aqui — disse o mortal. — Às vezes eu esqueço que você é o Rei de todo esse lugar. Para mim, você é apenas o Cardan que gosta de reclamar do peso da coroa.
Cardan inclinou-se para o lado, apoiando o rosto na mão, observando o perfil de Leo.
— Você é a única pessoa em todo o Reino que se esquece disso, Leo. E é a única razão pela qual eu ainda não mandei você para as masmorras por sua insolência.
Leo virou o rosto para ele, os olhos grandes e curiosos.
— Você nunca faria isso. Você gosta de mim.
— Eu odeio você — mentiu Cardan, a voz carregada de uma intensidade que contradizia suas palavras. — Odeio o modo como você entra nos meus aposentos sem bater, odeio como você come as frutas mais caras do meu pomar e odeio como você me olha como se eu fosse... bom.
Leo inclinou a cabeça, um sorriso travesso brincando em seus lábios.
— Você é bom para mim. Isso é o que importa.
Cardan soltou um rosnado baixo, frustrado pela incapacidade do mortal de ver a escuridão que borbulhava sob a superfície. Ele se aproximou mais, seu hálito roçando a orelha de Leo.
— Eu não sou bom, Leo. Eu sou egoísta. Eu sou possessivo. Se eu pudesse, eu o envolveria em uma teia de aranha para que ninguém mais pudesse vê-lo ou tocá-lo. Eu o manteria aqui, nesta pequena ilha, para sempre.
Leo soltou uma pequena exclamação de surpresa, mas não se afastou. Em vez disso, ele olhou para Cardan com uma expressão de ternura que quase quebrou o coração do Rei.
— Isso é muito fofo, de um jeito meio assustador de fada — comentou Leo. — Você realmente valoriza nossa amizade, não é? Prometo que não vou a lugar nenhum, Cardan. Eu gosto de estar com você.
Cardan fechou os olhos por um momento, lutando contra o impulso de sacudir o garoto ou beijá-lo até que ele finalmente entendesse. Leo era inteligente, ele sabia como sobreviver em Elfhame, mas quando se tratava de Cardan, ele parecia ter um ponto cego do tamanho do oceano.
— Você é um tolo — murmurou Cardan, abrindo os olhos e encontrando o olhar límpido de Leo.
— Talvez — admitiu Leo. — Mas sou o seu tolo favorito.
Cardan sentiu uma pontada de posse tão forte que suas unhas cravaram na pedra do banco. Ele queria dizer que Leo não era apenas seu tolo favorito, ele era sua propriedade, seu vício, sua obsessão. Mas ele sabia que, se dissesse isso, a luz nos olhos de Leo poderia mudar. E, por mais que Cardan fosse um monstro, ele não suportaria ser o monstro que apagaria aquela luz.
— Sim — disse Cardan, a voz rouca. — Você é.
Ele estendeu a mão e começou a brincar com uma mecha do cabelo loiro de Leo, enrolando-a no dedo. Leo encostou a cabeça no ombro do Rei, soltando um suspiro relaxado.
— Sabe, Cardan... as pessoas dizem coisas terríveis sobre você no palácio. Eles dizem que você é cruel e sem coração.
— Eles estão certos — respondeu Cardan, observando como o cabelo de Leo brilhava sob o luar.
— Não para mim — insistiu Leo, fechando os olhos. — Para mim, você é apenas o meu Cardan.
"Meu Cardan".
Aquelas palavras agiram como um bálsamo e um veneno ao mesmo tempo. Cardan envolveu o ombro de Leo com o braço, puxando-o para mais perto, escondendo o rosto na curva do pescoço do mortal. Ele inalou o cheiro de Leo — algo como baunilha e chuva fresca — e permitiu-se, apenas por um momento, fingir que Leo sabia exatamente o que estava dizendo.
— Sim — sussurrou Cardan contra a pele quente de Leo. — Eu sou seu.
Mas, em sua mente, o pensamento era muito mais sombrio: "E você, pequeno mortal, nunca terá a menor chance de pertencer a mais ninguém."
Leo bocejou, aninhando-se mais profundamente no abraço do Rei, sem ter a menor ideia de que estava nos braços de um predador que o devoraria por inteiro se isso significasse mantê-lo por perto. Para Leo, era apenas uma noite tranquila com um amigo. Para Cardan, era mais uma noite de uma guerra silenciosa entre seu desejo de possuir e sua necessidade de ser amado.
— Você está muito tenso — comentou Leo, quase pegando no sono. — Relaxe, Majestade. Eu não vou fugir.
— Eu sei que não — disse Cardan, um sorriso sarcástico e sombrio surgindo em seu rosto enquanto ele observava a sombra das árvores ao redor, onde seus guardas pessoais vigiavam cada saída. — Eu nunca deixaria.
Leo não ouviu a última parte. Ele já estava mergulhando no sono, seguro na ilusão de uma amizade pura, enquanto o Rei de Elfhame planejava mil maneiras de garantir que aquela ilusão nunca fosse quebrada, mantendo o seu tesouro mortal exatamente onde ele queria: ao seu alcance, sob seu poder, e completamente seu.
