
← Voltar à lista de fanfics
0 curtida
Blé
Fandom: Fantasia
Criado: 15/06/2026
Tags
FantasiaRomanceFatias de VidaDor/ConfortoFofuraHistória DomésticaSobrevivênciaEstudo de PersonagemHumorCrack / Humor Paródico
O Predador de Olhos de Obsidiana
Lice nunca se considerou uma pessoa de sorte. A sorte, para ela, era algo que pertencia aos nobres de bochechas rosadas que passavam em carruagens de seda, ou talvez aos heróis de canções que o bardo da taverna local entoava por algumas moedas. Ela era apenas Lice: a órfã que vivia em um casebre úmido na orla da floresta, que tinha as unhas sempre sujas de terra e o estômago costumava roncar mais do que sua voz conseguia falar. Ela não era corajosa; se ouvisse um galho quebrando à noite, escondia-se sob o cobertor puído e rezava para deuses em que mal acreditava.
Por isso, o fato de ela estar sendo perseguida por um monstro era algo que ela não conseguia processar.
Não era um monstro comum. Não era um lobo ou um urso. Era Flins.
Lice apertou o passo, sentindo a lama fria infiltrar-se em seus sapatos furados. Ela carregava uma cesta de raízes amargas e cogumelos, embora suas mãos tremessem tanto que os vegetais ameaçassem pular para fora. Atrás dela, a cerca de vinte passos de distância, estava ele.
Flins era... errado. Essa era a única palavra que Lice conseguia encontrar. Ele era alto demais, com ombros largos que pareciam ocupar todo o caminho da floresta. Sua pele era de um branco cadavérico, como mármore que nunca viu o sol, contrastando violentamente com o cabelo e os olhos pretos como o abismo. Ele usava roupas de camponês, mas as vestes pareciam desconfortáveis nele, como se o tecido estivesse ofendido por tocar sua pele.
— Lice — a voz dele ecoou. Não era uma voz humana. Era profunda, vibrante, um som que parecia vir do fundo de uma caverna e que fazia os ossos dela chacoalharem.
Ela não parou. Na verdade, começou a correr.
— Lice, a gravidade está agindo de forma estranha hoje? — perguntou ele, a poucos centímetros de seu ouvido.
Lice soltou um grito agudo e saltou para o lado, derrubando metade de suas raízes. Flins estava lá. Ele não correu; ele simplesmente *estava* ali. Seus movimentos eram desconexos, desajeitados, como se ele esquecesse que humanos têm articulações. Ele inclinou a cabeça em um ângulo quase impossível de noventa graus, observando-a com aqueles olhos de obsidiana que não possuíam pupila ou brilho de vida.
— Por que você foge? — perguntou ele, piscando um olho de cada vez. — Eu calculei que minha presença deveria causar... conforto. Os humanos gostam de companhia, não gostam?
— Você... você me assusta! — Lice exclamou, as costas batendo contra o tronco de um carvalho antigo. — Por que você está me seguindo há três dias? O que você quer de mim? Eu não tenho nada! Não sou rica, não sou bonita, eu nem sou uma boa pessoa! Eu roubei um pão da padaria ontem!
Flins deu um passo à frente. O cheiro dele era uma mistura estranha de ozônio, enxofre e algo antigo, como pedra aquecida pelo sol. Ele estendeu uma mão pálida e longa, cujos dedos terminavam em unhas que pareciam perigosamente afiadas, apesar de sua tentativa de escondê-las.
— Eu vi o pão — disse ele, com uma seriedade mortal. — Ele tinha pouco fermento. Eu poderia queimar o padeiro se isso lhe trouxesse satisfação.
— Não! Não queime o padeiro! — Lice estava hiperventilando. — Flins, por favor, me deixe ir.
Ele parou, a expressão fria e calculista vacilando por um segundo. Ele olhou para as próprias mãos, depois para ela. Flins era um dragão. Um ser de escamas de ébano e chamas que poderiam derreter montanhas, uma criatura que dormia sobre ouro e devorava exércitos. Ele havia passado séculos desprezando a carne frágil dos humanos, até que a viu.
Ele a vira tropeçar em uma pedra enquanto tentava colher amoras. Ela xingara a pedra, depois pedira desculpas à pedra, e então comera uma amora estragada e fizera uma careta tão expressiva que algo nas entranhas de fogo do dragão se contorceu. Ele não sabia o que era aquilo, então decidiu que precisava possuí-la. Ou protegê-la. Ou observá-la até entender por que o coração dele, que batia uma vez a cada hora, agora parecia um tambor de guerra.
— Eu não desejo causar medo — disse Flins, tentando sorrir. O resultado foi um arreganhar de dentes brancos e perfeitos demais que parecia uma promessa de morte. — Eu estou praticando ser... humano. Veja.
Ele tentou cruzar os braços, mas acabou batendo o cotovelo no próprio peito com tanta força que o som foi como um golpe de martelo em uma bigorna. Ele tropeçou nos próprios pés, que pareciam grandes demais para o chão, e quase caiu sobre ela.
Lice, apesar do terror, sentiu uma pontada de algo diferente. Ele era tão... patético. Um predador de pesadelo que não conseguia caminhar em linha reta sem parecer um boneco de madeira mal montado.
— Você é muito estranho — murmurou ela, apertando a cesta contra o peito.
— Eu sou eficiente — corrigiu ele, recuperando a postura com uma rigidez antinatural. — Eu posso caçar para você. Eu trouxe isto.
Ele enfiou a mão em um saco de couro que carregava e puxou um cervo inteiro. Não estava limpo ou preparado; estava apenas morto, com o pescoço quebrado de forma limpa.
— Flins, eu não posso comer um cervo inteiro! — Lice exclamou, horrorizada. — E como você carregou isso sem eu ver?
— Eu sou muito rápido quando você pisca — explicou ele, sério. — Meus cálculos indicam que você precisa de proteína. Sua pele é pálida. Não de um jeito bom como a minha, mas de um jeito que sugere que você vai quebrar se o vento soprar.
Lice olhou para o homem-dragão à sua frente. Ele era aterrorizante, sim. Ele era um perseguidor louco que não entendia conceitos básicos de privacidade ou higiene social. Mas, ao olhar para aqueles olhos escuros, ela viu uma confusão profunda. Ele a olhava como se ela fosse o tesouro mais precioso de sua caverna, algo que ele não sabia se devia lamber ou guardar em uma caixa de veludo.
— Por que eu? — perguntou ela, a voz falhando. — Há moças na vila que são lindas. A filha do ferreiro tem cabelos como ouro...
— Ouro é entediante — interrompeu Flins, dando um passo para o espaço pessoal dela, forçando-a a olhar para cima devido à sua altura impressionante. — Eu tenho montanhas de ouro. O ouro não tropeça em pedras. O ouro não pede desculpas a objetos inanimados. Você... você é caótica. Você é frágil. Eu sinto uma urgência biológica de garantir que você continue respirando.
Lice sentiu o rosto esquentar. Era um elogio? Ou uma ameaça de que ele a manteria em uma gaiola? Com Flins, era difícil dizer.
— Você está me assustando menos agora — admitiu ela, soltando um suspiro longo. — Mas você precisa parar de aparecer do nada. Humanos usam algo chamado "anunciar a chegada".
— Anunciar a chegada — repetiu ele, como se gravasse a informação em sua mente eterna. — Como um rugido?
— Não! — Lice riu, um som curto e nervoso. — Como um "olá" ou um assobio.
Flins inclinou a cabeça, processando.
— Entendido. Da próxima vez, eu emitirei um som de advertência antes de entrar no seu campo de visão.
Ele estendeu a mão novamente, desta vez com mais cautela. Seus dedos roçaram uma mecha do cabelo castanho e desgrenhado de Lice. O toque era frio, mas havia uma força ali que a fazia sentir-se, pela primeira vez na vida, absolutamente segura. O que era estranho, considerando que ele era a coisa mais perigosa da floresta.
— Você vai comer o cervo? — perguntou ele, esperançoso.
— Eu não consigo nem carregar esse bicho, Flins.
— Eu carrego. Eu sou forte. Eu posso carregar você e o cervo. E a sua casa, se a fundação for instável. Eu verifiquei ontem enquanto você dormia, a fundação está apodrecendo.
Lice empalideceu novamente.
— Você entrou na minha casa enquanto eu dormia?
— Eu fiquei no telhado — disse ele, como se isso tornasse tudo melhor. — Eu pesei demais. Algumas telhas quebraram. Eu as substituí por escamas minhas pintadas de marrom. Elas são indestrutíveis. De nada.
Lice cobriu o rosto com as mãos, soltando um gemido abafado.
— Você é um desastre, Flins. Um desastre lindo e assustador.
— "Lindo" — repetiu ele, e pela primeira vez, uma cor leve pareceu subir pelo pescoço pálido do dragão. — Meus cálculos não previram esse adjetivo. Isso é... aceitável.
Ele se abaixou, pegou o cervo com uma mão e a cesta de Lice com a outra, agindo como se ambos pesassem menos que uma pena.
— Vamos, Lice. Eu vou levar a proteína para sua habitação inadequada. E depois, eu vou lhe ensinar como identificar predadores. O primeiro passo é saber que eu sou o único que você deve permitir por perto.
Lice começou a caminhar ao lado dele, sentindo-se a pessoa mais bizarra do reino. Ela era uma camponesa covarde, e ele era um monstro antigo que não sabia como ser humano, mas que tentava com uma dedicação maníaca.
— Flins? — chamou ela, enquanto saíam da sombra das árvores.
— Sim, fêmea humana?
— Não me chame de fêmea humana. E... obrigada pelas telhas.
O dragão transformado em homem parou, tropeçou em uma raiz que ele certamente deveria ter visto, recuperou o equilíbrio com uma pirueta desajeitada e olhou para ela.
— A gratidão é uma troca de energia interessante — disse ele, os olhos de obsidiana brilhando com uma intensidade nova. — Eu decididamente não vou queimar ninguém hoje.
Lice sorriu, balançando a cabeça. Talvez ter um dragão obcecado por ela não fosse a pior sorte do mundo. Pelo menos, ela nunca mais teria frio no inverno. E, se tivesse sorte, talvez ele aprendesse a beijar sem tentar morder sua cabeça.
— Vamos logo — disse ela, ganhando um pouco de coragem. — E tente não quebrar o chão do meu alpendre.
— Eu farei o meu melhor — prometeu Flins, caminhando de um jeito que lembrava uma garça bêbada, mas com o olhar fixo nela, como se Lice fosse o único ponto fixo em um mundo em constante mutação.
E, na mente de Lice, ele era quase, quase fofo. De um jeito mortal, é claro.
Por isso, o fato de ela estar sendo perseguida por um monstro era algo que ela não conseguia processar.
Não era um monstro comum. Não era um lobo ou um urso. Era Flins.
Lice apertou o passo, sentindo a lama fria infiltrar-se em seus sapatos furados. Ela carregava uma cesta de raízes amargas e cogumelos, embora suas mãos tremessem tanto que os vegetais ameaçassem pular para fora. Atrás dela, a cerca de vinte passos de distância, estava ele.
Flins era... errado. Essa era a única palavra que Lice conseguia encontrar. Ele era alto demais, com ombros largos que pareciam ocupar todo o caminho da floresta. Sua pele era de um branco cadavérico, como mármore que nunca viu o sol, contrastando violentamente com o cabelo e os olhos pretos como o abismo. Ele usava roupas de camponês, mas as vestes pareciam desconfortáveis nele, como se o tecido estivesse ofendido por tocar sua pele.
— Lice — a voz dele ecoou. Não era uma voz humana. Era profunda, vibrante, um som que parecia vir do fundo de uma caverna e que fazia os ossos dela chacoalharem.
Ela não parou. Na verdade, começou a correr.
— Lice, a gravidade está agindo de forma estranha hoje? — perguntou ele, a poucos centímetros de seu ouvido.
Lice soltou um grito agudo e saltou para o lado, derrubando metade de suas raízes. Flins estava lá. Ele não correu; ele simplesmente *estava* ali. Seus movimentos eram desconexos, desajeitados, como se ele esquecesse que humanos têm articulações. Ele inclinou a cabeça em um ângulo quase impossível de noventa graus, observando-a com aqueles olhos de obsidiana que não possuíam pupila ou brilho de vida.
— Por que você foge? — perguntou ele, piscando um olho de cada vez. — Eu calculei que minha presença deveria causar... conforto. Os humanos gostam de companhia, não gostam?
— Você... você me assusta! — Lice exclamou, as costas batendo contra o tronco de um carvalho antigo. — Por que você está me seguindo há três dias? O que você quer de mim? Eu não tenho nada! Não sou rica, não sou bonita, eu nem sou uma boa pessoa! Eu roubei um pão da padaria ontem!
Flins deu um passo à frente. O cheiro dele era uma mistura estranha de ozônio, enxofre e algo antigo, como pedra aquecida pelo sol. Ele estendeu uma mão pálida e longa, cujos dedos terminavam em unhas que pareciam perigosamente afiadas, apesar de sua tentativa de escondê-las.
— Eu vi o pão — disse ele, com uma seriedade mortal. — Ele tinha pouco fermento. Eu poderia queimar o padeiro se isso lhe trouxesse satisfação.
— Não! Não queime o padeiro! — Lice estava hiperventilando. — Flins, por favor, me deixe ir.
Ele parou, a expressão fria e calculista vacilando por um segundo. Ele olhou para as próprias mãos, depois para ela. Flins era um dragão. Um ser de escamas de ébano e chamas que poderiam derreter montanhas, uma criatura que dormia sobre ouro e devorava exércitos. Ele havia passado séculos desprezando a carne frágil dos humanos, até que a viu.
Ele a vira tropeçar em uma pedra enquanto tentava colher amoras. Ela xingara a pedra, depois pedira desculpas à pedra, e então comera uma amora estragada e fizera uma careta tão expressiva que algo nas entranhas de fogo do dragão se contorceu. Ele não sabia o que era aquilo, então decidiu que precisava possuí-la. Ou protegê-la. Ou observá-la até entender por que o coração dele, que batia uma vez a cada hora, agora parecia um tambor de guerra.
— Eu não desejo causar medo — disse Flins, tentando sorrir. O resultado foi um arreganhar de dentes brancos e perfeitos demais que parecia uma promessa de morte. — Eu estou praticando ser... humano. Veja.
Ele tentou cruzar os braços, mas acabou batendo o cotovelo no próprio peito com tanta força que o som foi como um golpe de martelo em uma bigorna. Ele tropeçou nos próprios pés, que pareciam grandes demais para o chão, e quase caiu sobre ela.
Lice, apesar do terror, sentiu uma pontada de algo diferente. Ele era tão... patético. Um predador de pesadelo que não conseguia caminhar em linha reta sem parecer um boneco de madeira mal montado.
— Você é muito estranho — murmurou ela, apertando a cesta contra o peito.
— Eu sou eficiente — corrigiu ele, recuperando a postura com uma rigidez antinatural. — Eu posso caçar para você. Eu trouxe isto.
Ele enfiou a mão em um saco de couro que carregava e puxou um cervo inteiro. Não estava limpo ou preparado; estava apenas morto, com o pescoço quebrado de forma limpa.
— Flins, eu não posso comer um cervo inteiro! — Lice exclamou, horrorizada. — E como você carregou isso sem eu ver?
— Eu sou muito rápido quando você pisca — explicou ele, sério. — Meus cálculos indicam que você precisa de proteína. Sua pele é pálida. Não de um jeito bom como a minha, mas de um jeito que sugere que você vai quebrar se o vento soprar.
Lice olhou para o homem-dragão à sua frente. Ele era aterrorizante, sim. Ele era um perseguidor louco que não entendia conceitos básicos de privacidade ou higiene social. Mas, ao olhar para aqueles olhos escuros, ela viu uma confusão profunda. Ele a olhava como se ela fosse o tesouro mais precioso de sua caverna, algo que ele não sabia se devia lamber ou guardar em uma caixa de veludo.
— Por que eu? — perguntou ela, a voz falhando. — Há moças na vila que são lindas. A filha do ferreiro tem cabelos como ouro...
— Ouro é entediante — interrompeu Flins, dando um passo para o espaço pessoal dela, forçando-a a olhar para cima devido à sua altura impressionante. — Eu tenho montanhas de ouro. O ouro não tropeça em pedras. O ouro não pede desculpas a objetos inanimados. Você... você é caótica. Você é frágil. Eu sinto uma urgência biológica de garantir que você continue respirando.
Lice sentiu o rosto esquentar. Era um elogio? Ou uma ameaça de que ele a manteria em uma gaiola? Com Flins, era difícil dizer.
— Você está me assustando menos agora — admitiu ela, soltando um suspiro longo. — Mas você precisa parar de aparecer do nada. Humanos usam algo chamado "anunciar a chegada".
— Anunciar a chegada — repetiu ele, como se gravasse a informação em sua mente eterna. — Como um rugido?
— Não! — Lice riu, um som curto e nervoso. — Como um "olá" ou um assobio.
Flins inclinou a cabeça, processando.
— Entendido. Da próxima vez, eu emitirei um som de advertência antes de entrar no seu campo de visão.
Ele estendeu a mão novamente, desta vez com mais cautela. Seus dedos roçaram uma mecha do cabelo castanho e desgrenhado de Lice. O toque era frio, mas havia uma força ali que a fazia sentir-se, pela primeira vez na vida, absolutamente segura. O que era estranho, considerando que ele era a coisa mais perigosa da floresta.
— Você vai comer o cervo? — perguntou ele, esperançoso.
— Eu não consigo nem carregar esse bicho, Flins.
— Eu carrego. Eu sou forte. Eu posso carregar você e o cervo. E a sua casa, se a fundação for instável. Eu verifiquei ontem enquanto você dormia, a fundação está apodrecendo.
Lice empalideceu novamente.
— Você entrou na minha casa enquanto eu dormia?
— Eu fiquei no telhado — disse ele, como se isso tornasse tudo melhor. — Eu pesei demais. Algumas telhas quebraram. Eu as substituí por escamas minhas pintadas de marrom. Elas são indestrutíveis. De nada.
Lice cobriu o rosto com as mãos, soltando um gemido abafado.
— Você é um desastre, Flins. Um desastre lindo e assustador.
— "Lindo" — repetiu ele, e pela primeira vez, uma cor leve pareceu subir pelo pescoço pálido do dragão. — Meus cálculos não previram esse adjetivo. Isso é... aceitável.
Ele se abaixou, pegou o cervo com uma mão e a cesta de Lice com a outra, agindo como se ambos pesassem menos que uma pena.
— Vamos, Lice. Eu vou levar a proteína para sua habitação inadequada. E depois, eu vou lhe ensinar como identificar predadores. O primeiro passo é saber que eu sou o único que você deve permitir por perto.
Lice começou a caminhar ao lado dele, sentindo-se a pessoa mais bizarra do reino. Ela era uma camponesa covarde, e ele era um monstro antigo que não sabia como ser humano, mas que tentava com uma dedicação maníaca.
— Flins? — chamou ela, enquanto saíam da sombra das árvores.
— Sim, fêmea humana?
— Não me chame de fêmea humana. E... obrigada pelas telhas.
O dragão transformado em homem parou, tropeçou em uma raiz que ele certamente deveria ter visto, recuperou o equilíbrio com uma pirueta desajeitada e olhou para ela.
— A gratidão é uma troca de energia interessante — disse ele, os olhos de obsidiana brilhando com uma intensidade nova. — Eu decididamente não vou queimar ninguém hoje.
Lice sorriu, balançando a cabeça. Talvez ter um dragão obcecado por ela não fosse a pior sorte do mundo. Pelo menos, ela nunca mais teria frio no inverno. E, se tivesse sorte, talvez ele aprendesse a beijar sem tentar morder sua cabeça.
— Vamos logo — disse ela, ganhando um pouco de coragem. — E tente não quebrar o chão do meu alpendre.
— Eu farei o meu melhor — prometeu Flins, caminhando de um jeito que lembrava uma garça bêbada, mas com o olhar fixo nela, como se Lice fosse o único ponto fixo em um mundo em constante mutação.
E, na mente de Lice, ele era quase, quase fofo. De um jeito mortal, é claro.
