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Contra todas as minhas regras
Fandom: The Karatê Kid
Criado: 15/06/2026
Tags
DramaRomanceDor/ConfortoAçãoEstudo de PersonagemRecontarCenário CanônicoDivergência
Sombras e Promessas de Pequim
A notícia da chegada de Dre foi como uma pedra jogada em um lago calmo: as ondas continuaram se espalhando por dias. Para o meu tio, era apenas mais um sobrinho chegando. Para mim, era a certeza de que o equilíbrio precário que eu havia construído em Pequim estava prestes a ser testado.
Eu morava na China há tempo suficiente para saber que aqui as coisas funcionavam de um jeito diferente. O ritmo, o respeito, a disciplina. Eu tinha meu próprio sistema de sobrevivência. Eu era a S/N Parker, a garota que não levava desaforo para casa e que sabia exatamente quais ruas evitar.
Infelizmente, Dre não tinha esse manual.
Algumas semanas depois, lá estava eu, parada no aeroporto, observando o reencontro efusivo da minha tia Sherry com meu tio. Dre parecia menor do que eu lembrava, ou talvez a bagagem cultural que ele estava prestes a carregar fosse pesada demais. Ele tinha aquele sorriso de quem achava que estava apenas mudando de bairro, e não de continente.
— S/N! — Dre exclamou, vindo em minha direção com os braços abertos.
Eu o impedi com a palma da mão no peito dele, mantendo uma distância segura.
— Nem pense nisso, pivete. Você ainda cheira a avião e comida processada.
— Também senti sua falta, prima — ele disse, rindo e revirando os olhos. — Preparada para ter a melhor companhia do mundo de novo?
— Estou preparada para garantir que você não seja expulso do país em menos de um mês — respondi, embora um pequeno sorriso tenha escapado. — Vamos. O carro está esperando.
Os primeiros dias foram um caos esperado. Dre reclamava da comida, do calor, da língua e, principalmente, do fato de que eu não queria ser a guia turística dele vinte e quatro horas por dia. Mas o destino, ou talvez apenas a má sorte dos Parker, decidiu acelerar as coisas.
Foi numa tarde de sol forte que tudo mudou. Dre tinha decidido que precisava ir ao parque. Ele queria ver as pessoas, talvez jogar um pouco de basquete ou apenas se sentir menos confinado. Eu fui junto, mais por obrigação moral do que por vontade.
— S/N, olha aquilo — Dre apontou para um grupo de garotos perto de uma fonte.
Eles usavam uniformes de uma escola de artes marciais. Movimentos precisos, rápidos, quase hipnóticos. No centro do grupo, um garoto se destacava. Ele era um pouco mais alto que os outros, com cabelos pretos curtos e uma postura que exalava uma autoridade silenciosa. Cada golpe que ele desferia no ar parecia carregar o peso de uma montanha.
— Eles são incríveis — Dre murmurou, fascinado.
— Eles são perigosos, Dre — eu corrigi, sentindo um calafrio estranho na nuca. — Aquela é a galera da Fighting Dragon. Eles não brincam em serviço. Vamos sair daqui.
Mas Dre já estava caminhando. Ele tinha aquela mania irritante de achar que o carisma de Detroit funcionava em qualquer lugar. Ele se aproximou de uma garota que tocava violino por perto, Mei Ying. Eu vi o momento exato em que o desastre começou a se desenhar.
O garoto no centro do grupo de artes marciais parou o que estava fazendo. O olhar dele, frio e afiado como uma lâmina, fixou-se em Dre.
— Quem é aquele? — Dre perguntou, já perto demais.
— Aquele é o Cheng — respondi, alcançando meu primo e tentando puxá-lo pelo braço. — E ele não parece estar de bom humor. Nunca está.
Cheng caminhou em nossa direção. A cada passo, os outros garotos abriam caminho, como se ele fosse um rei cruzando seu domínio. Quando ele parou na nossa frente, a diferença de energia era palpável. Dre era como um filhote de cachorro curioso; Cheng era um lobo que já tinha esquecido como era brincar.
— Afaste-se dela — disse Cheng em mandarim, a voz baixa e carregada de uma agressividade contida.
Dre piscou, confuso.
— O que ele disse?
— Ele disse para você dar o fora — eu respondi, dando um passo à frente e ficando entre os dois.
Cheng mudou o foco do olhar. Seus olhos escuros e expressivos caíram sobre mim. Por um segundo, a frieza pareceu vacilar, substituída por uma curiosidade irritada. Ele me conhecia de vista da escola, mas nunca tínhamos trocado uma palavra.
— Parker — ele disse meu sobrenome, pronunciando com uma precisão cortante. — Seu primo não sabe as regras deste lugar?
— Ele acabou de chegar, Cheng — respondi, cruzando os braços e sustentando o olhar dele. Eu sentia meu coração bater mais rápido, mas me recusava a recuar. — Ele não quer problemas.
— Problemas costumam seguir quem não sabe onde pisa — Cheng rebateu, dando um passo para o lado para tentar encarar Dre novamente.
— Ele só estava sendo amigável — insisti, movendo-me novamente para bloquear a visão dele. — Não precisa agir como se fosse o dono do parque.
Um sorriso de canto, desprovido de qualquer humor, surgiu nos lábios de Cheng. Era uma expressão de pura arrogância, mas por trás dela, eu vi algo mais. Uma tensão nos ombros, uma rigidez que não vinha apenas do treinamento, mas de uma pressão invisível.
— Eu não preciso agir, Parker. Eu sou.
Cheng avançou um passo rápido, um movimento de intimidação que fez Dre tropeçar para trás. Antes que Cheng pudesse fazer qualquer outra coisa, eu coloquei a mão no peito dele, exatamente como tinha feito com Dre no aeroporto.
O tempo pareceu parar. O contato físico era um tabu silencioso ali. Os amigos de Cheng pararam de rir. O silêncio no parque se tornou ensurdecedor.
A pele sob minha mão estava quente, e eu podia sentir a batida firme do coração dele. Cheng olhou para minha mão e depois para os meus olhos. A fúria inicial deu lugar a algo que eu não conseguia identificar. Surpresa? Desafio?
— Não toca em mim — ele sibilou, mas não se afastou.
— Então não assuste o meu primo — respondi, a voz firme apesar do tremor interno. — Ele é idiota, mas é meu sangue. Se você quer brigar com alguém, brigue com alguém que saiba o que está fazendo.
Cheng soltou uma risada seca.
— Você? Você não saberia se defender de um golpe de vento, Parker.
— Tente a sorte — eu desafiei, por puro impulso.
Cheng inclinou a cabeça, estudando-me como se eu fosse um quebra-cabeça irritante. Ele deu um passo para trás, quebrando o contato.
— Leve ele embora. Da próxima vez, eu não vou ser tão paciente.
— Você chama isso de paciência? — murmurei, enquanto puxava Dre pela camisa. — Vamos, Dre. Agora.
Caminhamos apressadamente para longe, mas eu não pude evitar olhar para trás uma última vez. Cheng ainda estava parado no mesmo lugar, observando-nos partir. Ele parecia solitário, apesar de estar cercado por seus seguidores. Uma estátua de gelo sob o sol escaldante de Pequim.
⸻
Os dias que se seguiram foram tensos. Dre, sendo Dre, não desistiu de Mei Ying, o que significava que ele continuava cruzando o caminho de Cheng. E eu, sendo a protetora oficial da família, acabava sempre no meio do fogo cruzado.
Certa noite, eu estava voltando da biblioteca da escola. O campus estava quase vazio, as luzes de LED banhando o asfalto com um brilho azulado. Eu estava distraída com meus pensamentos quando ouvi o som de impactos rítmicos vindos de uma das áreas de treinamento ao ar livre.
Curiosa, desviei o caminho.
Era Cheng. Ele estava sozinho, chutando um saco de pancadas com uma ferocidade que beirava o desespero. Ele não usava a camisa do uniforme, e eu podia ver as marcas de suor brilhando em suas costas. Cada golpe era acompanhado por uma respiração pesada, quase um rosnado.
Fiquei observando por alguns minutos, escondida nas sombras de uma árvore. Havia algo doloroso na maneira como ele treinava. Não parecia alguém querendo ser o melhor, parecia alguém tentando expulsar algo de dentro de si.
De repente, ele parou. Ele não olhou na minha direção, mas eu sabia que ele tinha me sentido ali.
— É falta de educação espiar, Parker.
Saí da sombra, ajeitando a mochila no ombro.
— É falta de educação ser um babaca o tempo todo, mas aqui estamos nós.
Cheng se virou, pegando uma toalha no chão e limpando o rosto. Seus olhos pareciam mais escuros sob a luz da lua, menos intimidadores e mais… cansados.
— O que você quer? Veio pedir para eu poupar seu primo de novo?
— Vim apenas passar por aqui — menti descaradamente. — Mas você parece que vai quebrar o saco de pancadas. Ou o seu pé.
Cheng soltou um suspiro pesado, sentando-se em um banco de pedra próximo. Ele parecia diferente sem o seu "exército" ao redor. Menos como um vilão de filme e mais como um garoto da minha idade que carregava o mundo nas costas.
— Meu mestre diz que a dor é a melhor professora — ele disse, a voz desprovida da arrogância habitual.
— Seu mestre parece um cara bem divertido — brinquei, sentando-me na outra extremidade do banco.
Cheng olhou para mim, surpreso pelo meu atrevimento de me sentar ali.
— Ele exige perfeição. Nada menos que o primeiro lugar é aceitável.
— E o que o Cheng quer? — perguntei, olhando-o nos olhos. — Sem ser o que o seu mestre ou seus pais querem. O que você quer?
Houve um longo silêncio. Cheng desviou o olhar para as próprias mãos, que estavam com as juntas avermelhadas e levemente esfoladas.
— Ninguém nunca me perguntou isso — ele confessou em um sussurro.
— Bom, eu não sou todo mundo. Eu sou a garota americana irritante que não sabe as regras, lembra?
Um pequeno sorriso — um de verdade desta vez — surgiu nos lábios de Cheng. Foi rápido, quase imperceptível, mas mudou completamente o rosto dele. Ele parecia… humano.
— Você é corajosa, Parker. Ou muito burra.
— Um pouco dos dois — admiti. — Olha, o Dre não é uma ameaça para você. Ele só quer fazer amigos. Ele não entende a hierarquia daqui.
— Ele desafia a ordem natural das coisas — Cheng disse, voltando à sua postura rígida. — Se eu deixar ele passar, eu pareço fraco. E eu não posso ser fraco.
— Ser forte não significa esmagar quem é menor que você, Cheng. Isso é apenas ser um valentão. A verdadeira força é saber quando não lutar.
Cheng levantou-se abruptamente. A fachada fria estava voltando.
— Você fala demais. Volte para casa, Parker. Pequim não é um lugar seguro para quem tem o coração mole.
— Meu coração não é mole — retruquei, levantando-me também. — Eu apenas sei a diferença entre um guerreiro e um agressor. E eu acho que, no fundo, você também sabe.
Caminhei para longe, sentindo o olhar dele queimando em minhas costas. Eu sabia que as coisas não seriam fáceis. Sabia que a rivalidade entre ele e Dre ainda causaria muitos problemas. Mas, por um breve momento, eu tinha visto o garoto por trás da máscara.
⸻
As semanas seguintes foram um borrão de treinos de Kung Fu para o Dre (que de alguma forma conseguiu convencer o zelador do prédio, o Sr. Han, a ensiná-lo) e encontros tensos nos corredores da escola.
Cheng e eu não voltamos a conversar daquela forma, mas algo havia mudado. Quando nos cruzávamos, não havia mais apenas hostilidade. Havia um reconhecimento silencioso. Ele ainda agia de forma agressiva com Dre, cumprindo o papel que lhe fora designado, mas eu percebia a hesitação em seus olhos às vezes.
O ápice chegou com o torneio de Kung Fu.
O ginásio estava lotado, a energia elétrica. Eu estava na arquibancada, as mãos suadas de nervosismo enquanto assistia Dre avançar surpreendentemente nas eliminatórias. Mas meu olhar sempre voltava para Cheng. Ele era uma máquina no tatame. Implacável, preciso, devastador.
No entanto, toda vez que ele vencia uma luta, ele não comemorava. Ele olhava para o seu mestre, buscando uma aprovação que nunca parecia ser suficiente, e depois seus olhos vagavam pela multidão até me encontrarem.
Eu não desviava o olhar. Eu queria que ele soubesse que eu estava vendo o que ele estava fazendo.
A final foi entre Dre e Cheng. O clima era de guerra.
Quando Cheng usou aquele golpe ilegal na perna de Dre — por ordem direta de seu mestre —, eu senti meu sangue ferver. Eu me levantei, pronta para gritar, para descer lá e tirar o Dre daquela loucura. Mas então eu vi o rosto de Cheng.
Ele estava pálido. Ele tinha feito o que lhe mandaram, mas a vitória parecia ter um gosto de cinzas. Ele olhou para mim, e a vulnerabilidade que ele tanto tentava esconder estava ali, exposta para quem quisesse ver. Ele estava preso entre a lealdade ao seu mestre e sua própria consciência.
Dre, contra todas as probabilidades, levantou-se. A luta continuou. E quando Dre desferiu o golpe final, o chute da garça que o Sr. Han lhe ensinara, o ginásio explodiu.
Cheng caiu. Mas, enquanto ele estava lá no chão, olhando para o teto, eu vi algo que ninguém mais viu: um alívio profundo. O peso da expectativa tinha sido quebrado.
Após a cerimônia, em meio à confusão de pessoas comemorando e câmeras piscando, eu consegui me aproximar de Cheng. Ele estava em um canto afastado, entregando o troféu para o Sr. Han em um gesto de respeito que silenciou seus próprios colegas de equipe.
Quando ele se virou para sair, eu bloqueei seu caminho.
— Cheng.
Ele parou. Ele tinha um corte no lábio e um hematoma começando a se formar na bochecha, mas seus olhos estavam limpos.
— Você veio zombar de mim, Parker?
— Não — eu disse, suavizando a voz. — Eu vim dizer que você foi incrível. E que eu sei o quanto foi difícil fazer o que você fez no final.
Cheng olhou para o chão, o orgulho ainda lutando para se manter de pé.
— Eu perdi.
— Você não perdeu nada que valesse a pena manter — respondi, dando um passo à frente. — Você se libertou. Isso é muito mais importante que um troféu de plástico.
Cheng soltou um longo suspiro, a postura firme finalmente relaxando.
— Meu mestre vai me matar.
— Deixe ele tentar — eu disse com um sorriso sarcástico. — Agora você tem a mim e ao Dre para te dar dor de cabeça. E acredite, nós somos muito mais persistentes que o seu mestre.
Cheng olhou para mim e, pela primeira vez, ele riu abertamente. Não era uma risada de deboche, mas algo leve e genuíno.
— Você é realmente um problema, S/N Parker.
— O melhor problema que você já teve, Cheng.
Ele estendeu a mão, hesitante. Eu a peguei, mas em vez de um aperto de mão formal, eu o puxei para um abraço rápido. Ele ficou rígido por um segundo, sem saber como reagir, antes de descansar as mãos cautelosamente nas minhas costas.
— Bem-vindo ao lado dos perdedores legais — sussurrei.
— Acho que posso me acostumar com isso — ele murmurou de volta.
Enquanto nos afastávamos, eu soube que as coisas em Pequim nunca mais seriam as mesmas. Dre tinha encontrado seu caminho através das artes marciais, e Cheng estava começando a encontrar o dele através da liberdade de errar. E eu? Eu tinha descoberto que, às vezes, a pessoa mais intimidante é apenas aquela que mais precisa de alguém que não tenha medo de olhar além da fachada.
Pequim ainda era uma cidade de sombras e regras, mas agora, havia uma luz nova brilhando entre nós. E eu não trocaria isso por paz nenhuma no mundo.
Eu morava na China há tempo suficiente para saber que aqui as coisas funcionavam de um jeito diferente. O ritmo, o respeito, a disciplina. Eu tinha meu próprio sistema de sobrevivência. Eu era a S/N Parker, a garota que não levava desaforo para casa e que sabia exatamente quais ruas evitar.
Infelizmente, Dre não tinha esse manual.
Algumas semanas depois, lá estava eu, parada no aeroporto, observando o reencontro efusivo da minha tia Sherry com meu tio. Dre parecia menor do que eu lembrava, ou talvez a bagagem cultural que ele estava prestes a carregar fosse pesada demais. Ele tinha aquele sorriso de quem achava que estava apenas mudando de bairro, e não de continente.
— S/N! — Dre exclamou, vindo em minha direção com os braços abertos.
Eu o impedi com a palma da mão no peito dele, mantendo uma distância segura.
— Nem pense nisso, pivete. Você ainda cheira a avião e comida processada.
— Também senti sua falta, prima — ele disse, rindo e revirando os olhos. — Preparada para ter a melhor companhia do mundo de novo?
— Estou preparada para garantir que você não seja expulso do país em menos de um mês — respondi, embora um pequeno sorriso tenha escapado. — Vamos. O carro está esperando.
Os primeiros dias foram um caos esperado. Dre reclamava da comida, do calor, da língua e, principalmente, do fato de que eu não queria ser a guia turística dele vinte e quatro horas por dia. Mas o destino, ou talvez apenas a má sorte dos Parker, decidiu acelerar as coisas.
Foi numa tarde de sol forte que tudo mudou. Dre tinha decidido que precisava ir ao parque. Ele queria ver as pessoas, talvez jogar um pouco de basquete ou apenas se sentir menos confinado. Eu fui junto, mais por obrigação moral do que por vontade.
— S/N, olha aquilo — Dre apontou para um grupo de garotos perto de uma fonte.
Eles usavam uniformes de uma escola de artes marciais. Movimentos precisos, rápidos, quase hipnóticos. No centro do grupo, um garoto se destacava. Ele era um pouco mais alto que os outros, com cabelos pretos curtos e uma postura que exalava uma autoridade silenciosa. Cada golpe que ele desferia no ar parecia carregar o peso de uma montanha.
— Eles são incríveis — Dre murmurou, fascinado.
— Eles são perigosos, Dre — eu corrigi, sentindo um calafrio estranho na nuca. — Aquela é a galera da Fighting Dragon. Eles não brincam em serviço. Vamos sair daqui.
Mas Dre já estava caminhando. Ele tinha aquela mania irritante de achar que o carisma de Detroit funcionava em qualquer lugar. Ele se aproximou de uma garota que tocava violino por perto, Mei Ying. Eu vi o momento exato em que o desastre começou a se desenhar.
O garoto no centro do grupo de artes marciais parou o que estava fazendo. O olhar dele, frio e afiado como uma lâmina, fixou-se em Dre.
— Quem é aquele? — Dre perguntou, já perto demais.
— Aquele é o Cheng — respondi, alcançando meu primo e tentando puxá-lo pelo braço. — E ele não parece estar de bom humor. Nunca está.
Cheng caminhou em nossa direção. A cada passo, os outros garotos abriam caminho, como se ele fosse um rei cruzando seu domínio. Quando ele parou na nossa frente, a diferença de energia era palpável. Dre era como um filhote de cachorro curioso; Cheng era um lobo que já tinha esquecido como era brincar.
— Afaste-se dela — disse Cheng em mandarim, a voz baixa e carregada de uma agressividade contida.
Dre piscou, confuso.
— O que ele disse?
— Ele disse para você dar o fora — eu respondi, dando um passo à frente e ficando entre os dois.
Cheng mudou o foco do olhar. Seus olhos escuros e expressivos caíram sobre mim. Por um segundo, a frieza pareceu vacilar, substituída por uma curiosidade irritada. Ele me conhecia de vista da escola, mas nunca tínhamos trocado uma palavra.
— Parker — ele disse meu sobrenome, pronunciando com uma precisão cortante. — Seu primo não sabe as regras deste lugar?
— Ele acabou de chegar, Cheng — respondi, cruzando os braços e sustentando o olhar dele. Eu sentia meu coração bater mais rápido, mas me recusava a recuar. — Ele não quer problemas.
— Problemas costumam seguir quem não sabe onde pisa — Cheng rebateu, dando um passo para o lado para tentar encarar Dre novamente.
— Ele só estava sendo amigável — insisti, movendo-me novamente para bloquear a visão dele. — Não precisa agir como se fosse o dono do parque.
Um sorriso de canto, desprovido de qualquer humor, surgiu nos lábios de Cheng. Era uma expressão de pura arrogância, mas por trás dela, eu vi algo mais. Uma tensão nos ombros, uma rigidez que não vinha apenas do treinamento, mas de uma pressão invisível.
— Eu não preciso agir, Parker. Eu sou.
Cheng avançou um passo rápido, um movimento de intimidação que fez Dre tropeçar para trás. Antes que Cheng pudesse fazer qualquer outra coisa, eu coloquei a mão no peito dele, exatamente como tinha feito com Dre no aeroporto.
O tempo pareceu parar. O contato físico era um tabu silencioso ali. Os amigos de Cheng pararam de rir. O silêncio no parque se tornou ensurdecedor.
A pele sob minha mão estava quente, e eu podia sentir a batida firme do coração dele. Cheng olhou para minha mão e depois para os meus olhos. A fúria inicial deu lugar a algo que eu não conseguia identificar. Surpresa? Desafio?
— Não toca em mim — ele sibilou, mas não se afastou.
— Então não assuste o meu primo — respondi, a voz firme apesar do tremor interno. — Ele é idiota, mas é meu sangue. Se você quer brigar com alguém, brigue com alguém que saiba o que está fazendo.
Cheng soltou uma risada seca.
— Você? Você não saberia se defender de um golpe de vento, Parker.
— Tente a sorte — eu desafiei, por puro impulso.
Cheng inclinou a cabeça, estudando-me como se eu fosse um quebra-cabeça irritante. Ele deu um passo para trás, quebrando o contato.
— Leve ele embora. Da próxima vez, eu não vou ser tão paciente.
— Você chama isso de paciência? — murmurei, enquanto puxava Dre pela camisa. — Vamos, Dre. Agora.
Caminhamos apressadamente para longe, mas eu não pude evitar olhar para trás uma última vez. Cheng ainda estava parado no mesmo lugar, observando-nos partir. Ele parecia solitário, apesar de estar cercado por seus seguidores. Uma estátua de gelo sob o sol escaldante de Pequim.
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Os dias que se seguiram foram tensos. Dre, sendo Dre, não desistiu de Mei Ying, o que significava que ele continuava cruzando o caminho de Cheng. E eu, sendo a protetora oficial da família, acabava sempre no meio do fogo cruzado.
Certa noite, eu estava voltando da biblioteca da escola. O campus estava quase vazio, as luzes de LED banhando o asfalto com um brilho azulado. Eu estava distraída com meus pensamentos quando ouvi o som de impactos rítmicos vindos de uma das áreas de treinamento ao ar livre.
Curiosa, desviei o caminho.
Era Cheng. Ele estava sozinho, chutando um saco de pancadas com uma ferocidade que beirava o desespero. Ele não usava a camisa do uniforme, e eu podia ver as marcas de suor brilhando em suas costas. Cada golpe era acompanhado por uma respiração pesada, quase um rosnado.
Fiquei observando por alguns minutos, escondida nas sombras de uma árvore. Havia algo doloroso na maneira como ele treinava. Não parecia alguém querendo ser o melhor, parecia alguém tentando expulsar algo de dentro de si.
De repente, ele parou. Ele não olhou na minha direção, mas eu sabia que ele tinha me sentido ali.
— É falta de educação espiar, Parker.
Saí da sombra, ajeitando a mochila no ombro.
— É falta de educação ser um babaca o tempo todo, mas aqui estamos nós.
Cheng se virou, pegando uma toalha no chão e limpando o rosto. Seus olhos pareciam mais escuros sob a luz da lua, menos intimidadores e mais… cansados.
— O que você quer? Veio pedir para eu poupar seu primo de novo?
— Vim apenas passar por aqui — menti descaradamente. — Mas você parece que vai quebrar o saco de pancadas. Ou o seu pé.
Cheng soltou um suspiro pesado, sentando-se em um banco de pedra próximo. Ele parecia diferente sem o seu "exército" ao redor. Menos como um vilão de filme e mais como um garoto da minha idade que carregava o mundo nas costas.
— Meu mestre diz que a dor é a melhor professora — ele disse, a voz desprovida da arrogância habitual.
— Seu mestre parece um cara bem divertido — brinquei, sentando-me na outra extremidade do banco.
Cheng olhou para mim, surpreso pelo meu atrevimento de me sentar ali.
— Ele exige perfeição. Nada menos que o primeiro lugar é aceitável.
— E o que o Cheng quer? — perguntei, olhando-o nos olhos. — Sem ser o que o seu mestre ou seus pais querem. O que você quer?
Houve um longo silêncio. Cheng desviou o olhar para as próprias mãos, que estavam com as juntas avermelhadas e levemente esfoladas.
— Ninguém nunca me perguntou isso — ele confessou em um sussurro.
— Bom, eu não sou todo mundo. Eu sou a garota americana irritante que não sabe as regras, lembra?
Um pequeno sorriso — um de verdade desta vez — surgiu nos lábios de Cheng. Foi rápido, quase imperceptível, mas mudou completamente o rosto dele. Ele parecia… humano.
— Você é corajosa, Parker. Ou muito burra.
— Um pouco dos dois — admiti. — Olha, o Dre não é uma ameaça para você. Ele só quer fazer amigos. Ele não entende a hierarquia daqui.
— Ele desafia a ordem natural das coisas — Cheng disse, voltando à sua postura rígida. — Se eu deixar ele passar, eu pareço fraco. E eu não posso ser fraco.
— Ser forte não significa esmagar quem é menor que você, Cheng. Isso é apenas ser um valentão. A verdadeira força é saber quando não lutar.
Cheng levantou-se abruptamente. A fachada fria estava voltando.
— Você fala demais. Volte para casa, Parker. Pequim não é um lugar seguro para quem tem o coração mole.
— Meu coração não é mole — retruquei, levantando-me também. — Eu apenas sei a diferença entre um guerreiro e um agressor. E eu acho que, no fundo, você também sabe.
Caminhei para longe, sentindo o olhar dele queimando em minhas costas. Eu sabia que as coisas não seriam fáceis. Sabia que a rivalidade entre ele e Dre ainda causaria muitos problemas. Mas, por um breve momento, eu tinha visto o garoto por trás da máscara.
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As semanas seguintes foram um borrão de treinos de Kung Fu para o Dre (que de alguma forma conseguiu convencer o zelador do prédio, o Sr. Han, a ensiná-lo) e encontros tensos nos corredores da escola.
Cheng e eu não voltamos a conversar daquela forma, mas algo havia mudado. Quando nos cruzávamos, não havia mais apenas hostilidade. Havia um reconhecimento silencioso. Ele ainda agia de forma agressiva com Dre, cumprindo o papel que lhe fora designado, mas eu percebia a hesitação em seus olhos às vezes.
O ápice chegou com o torneio de Kung Fu.
O ginásio estava lotado, a energia elétrica. Eu estava na arquibancada, as mãos suadas de nervosismo enquanto assistia Dre avançar surpreendentemente nas eliminatórias. Mas meu olhar sempre voltava para Cheng. Ele era uma máquina no tatame. Implacável, preciso, devastador.
No entanto, toda vez que ele vencia uma luta, ele não comemorava. Ele olhava para o seu mestre, buscando uma aprovação que nunca parecia ser suficiente, e depois seus olhos vagavam pela multidão até me encontrarem.
Eu não desviava o olhar. Eu queria que ele soubesse que eu estava vendo o que ele estava fazendo.
A final foi entre Dre e Cheng. O clima era de guerra.
Quando Cheng usou aquele golpe ilegal na perna de Dre — por ordem direta de seu mestre —, eu senti meu sangue ferver. Eu me levantei, pronta para gritar, para descer lá e tirar o Dre daquela loucura. Mas então eu vi o rosto de Cheng.
Ele estava pálido. Ele tinha feito o que lhe mandaram, mas a vitória parecia ter um gosto de cinzas. Ele olhou para mim, e a vulnerabilidade que ele tanto tentava esconder estava ali, exposta para quem quisesse ver. Ele estava preso entre a lealdade ao seu mestre e sua própria consciência.
Dre, contra todas as probabilidades, levantou-se. A luta continuou. E quando Dre desferiu o golpe final, o chute da garça que o Sr. Han lhe ensinara, o ginásio explodiu.
Cheng caiu. Mas, enquanto ele estava lá no chão, olhando para o teto, eu vi algo que ninguém mais viu: um alívio profundo. O peso da expectativa tinha sido quebrado.
Após a cerimônia, em meio à confusão de pessoas comemorando e câmeras piscando, eu consegui me aproximar de Cheng. Ele estava em um canto afastado, entregando o troféu para o Sr. Han em um gesto de respeito que silenciou seus próprios colegas de equipe.
Quando ele se virou para sair, eu bloqueei seu caminho.
— Cheng.
Ele parou. Ele tinha um corte no lábio e um hematoma começando a se formar na bochecha, mas seus olhos estavam limpos.
— Você veio zombar de mim, Parker?
— Não — eu disse, suavizando a voz. — Eu vim dizer que você foi incrível. E que eu sei o quanto foi difícil fazer o que você fez no final.
Cheng olhou para o chão, o orgulho ainda lutando para se manter de pé.
— Eu perdi.
— Você não perdeu nada que valesse a pena manter — respondi, dando um passo à frente. — Você se libertou. Isso é muito mais importante que um troféu de plástico.
Cheng soltou um longo suspiro, a postura firme finalmente relaxando.
— Meu mestre vai me matar.
— Deixe ele tentar — eu disse com um sorriso sarcástico. — Agora você tem a mim e ao Dre para te dar dor de cabeça. E acredite, nós somos muito mais persistentes que o seu mestre.
Cheng olhou para mim e, pela primeira vez, ele riu abertamente. Não era uma risada de deboche, mas algo leve e genuíno.
— Você é realmente um problema, S/N Parker.
— O melhor problema que você já teve, Cheng.
Ele estendeu a mão, hesitante. Eu a peguei, mas em vez de um aperto de mão formal, eu o puxei para um abraço rápido. Ele ficou rígido por um segundo, sem saber como reagir, antes de descansar as mãos cautelosamente nas minhas costas.
— Bem-vindo ao lado dos perdedores legais — sussurrei.
— Acho que posso me acostumar com isso — ele murmurou de volta.
Enquanto nos afastávamos, eu soube que as coisas em Pequim nunca mais seriam as mesmas. Dre tinha encontrado seu caminho através das artes marciais, e Cheng estava começando a encontrar o dele através da liberdade de errar. E eu? Eu tinha descoberto que, às vezes, a pessoa mais intimidante é apenas aquela que mais precisa de alguém que não tenha medo de olhar além da fachada.
Pequim ainda era uma cidade de sombras e regras, mas agora, havia uma luz nova brilhando entre nós. E eu não trocaria isso por paz nenhuma no mundo.
