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Fandom: Nenhum

Criado: 16/06/2026

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Entre o Caos e o Abrigo

A madrugada era uma mancha escura e úmida que engolia a rodovia. O asfalto, ainda brilhante por causa da chuva fina que caíra horas antes, parecia um espelho negro refletindo apenas a luz fraca de postes espaçados e solitários. Emanuel sentiu a vibração estranha no volante antes mesmo do motor dar o último suspiro metálico. Ele praguejou baixo, encostando o utilitário de luxo no acostamento poeirento, bem em frente a um posto de gasolina decadente que também servia como uma rodoviária improvisada de beira de estrada.

— O que foi isso, Manu? — A voz de Eduarda saiu pequena, carregada daquela fragilidade que sempre despertava o instinto protetor de Emanuel.

Ela estava no banco de trás, encolhida em um cardigã de tricô bege, os olhos castanhos arregalados e expressivos brilhando no escuro.

— O motor abriu o bico, Duda — respondeu Emanuel, apertando o volante com força, a tensão já se acumulando em seus ombros largos. — Droga, logo agora.

— Ótimo, simplesmente maravilhoso — Sara, sentada no banco do passageiro, cruzou os braços sobre o decote generoso da blusa de seda vermelha. — No meio do nada, às três da manhã. Eu avisei que esse barulho não era normal, mas ninguém me ouve nessa família disfuncional.

— Não começa, Sara — Emanuel advertiu, a voz rouca de cansaço. — Vou ligar para o guincho.

Ele desceu do carro para abrir o capô, mas o sinal de celular ali era inexistente. O cenário ao redor não ajudava. O posto tinha luzes de neon que piscavam de forma intermitente, e o pátio de cimento rachado estava ocupado por figuras que pareciam saídas de um filme noir de baixo orçamento. Mulheres com roupas mínimas e maquiagens pesadas se encostavam nas vigas de sustentação, observando o carro caro com uma mistura de curiosidade e deboche.

— Manu, não demora... — Eduarda sussurrou da janela entreaberta, a voz trêmula.

Emanuel olhou para as mulheres que começavam a se aproximar, os saltos estalando no chão. Uma delas, de cabelos tingidos de um rosa desbotado, soprou a fumaça de um cigarro na direção dele, sorrindo de forma sugestiva enquanto exibia as curvas.

— Precisa de uma mãozinha, bonitão? Ou de algo mais... relaxante? — a mulher perguntou, a voz rouca.

— Não, obrigado. Só estou esperando o guincho — Emanuel respondeu seco, a postura rígida, a expressão fechada que costumava usar para intimidar clientes problemáticos em seus estúdios.

— O guincho demora por aqui, querido. A gente pode te fazer companhia — outra mulher se aproximou, tocando levemente o braço de Emanuel.

Ele se esquivou imediatamente. O clima pesou. Sara, dentro do carro, não aguentou. Ela abriu a porta e desceu, os saltos altos batendo com autoridade no chão.

— Ele disse que não, querida. Será que a audição está tão ruim quanto esse rímel barato? — Sara disparou, parando ao lado de Emanuel. Ela não tinha medo. A confiança de Sara era uma armadura, mas Emanuel via a forma como ela apertava a bolsa contra o corpo. Era um blefe, um mecanismo de defesa.

— Olha só o que temos aqui... — a mulher de rosa riu, chamando as outras. — Uma loira de farmácia querendo dar ordens.

Emanuel percebeu que a situação poderia escalar. Ele viu um grupo de homens, provavelmente os cafetões ou seguranças do local, se desencostarem das sombras no fundo da rodoviária.

— Todo mundo para dentro do carro. Agora — ordenou Emanuel, a voz de comando que não admitia réplicas.

— Mas Manu... — Eduarda começou, aparecendo na porta de trás, parecendo uma criança perdida em meio a lobos.

— Entra, Duda! — Ele a empurrou gentilmente para dentro e fez o mesmo com Sara, que ainda queria retrucar.

Emanuel entrou logo em seguida, travando as portas. O calor dentro do veículo era agora um refúgio, mas a sensação de insegurança persistia. As mulheres do lado de fora batiam levemente nos vidros, rindo, provocando, enquanto os homens observavam de longe.

— Eu odeio este lugar — sussurrou Eduarda, rastejando para o banco da frente, buscando o contato físico que tanto precisava.

Emanuel puxou Eduarda para o seu colo, deixando que ela se aninhasse contra seu peito. O corpo esguio dela tremia levemente. Ao mesmo tempo, ele estendeu o braço e puxou Sara, que estava no banco do passageiro, para mais perto. Sem espaço, Sara acabou sentada em sua outra coxa, o corpo curvilíneo pressionado contra o dele.

Ali, no silêncio tenso do carro cercado pela decadência daquela rodoviária, Emanuel era o pilar.

— Calma, eu estou aqui — ele murmurou, a voz suavizando apenas para elas. — Ninguém vai encostar em vocês.

— Elas são tão... vulgares — Sara comentou, embora sua voz tivesse perdido a acidez usual, substituída por um desconforto genuíno. — O jeito que olharam para você... como se você fosse um pedaço de carne.

— Inveja, Sara. Só isso — Emanuel tentou tranquilizá-la, sentindo o perfume caro dela se misturar ao cheiro suave e natural de Eduarda.

Eduarda escondeu o rosto no pescoço de Emanuel, as mãos pequenas segurando a camiseta dele.

— Eu queria estar em casa — ela murmurou, a voz abafada. — Por que a gente não ficou na casa da sua mãe até amanhã?

— Porque eu tenho uma reunião em Londres por videoconferência às oito da manhã, Duda — Emanuel suspirou, sentindo o estresse pulsar em suas têmporas. — E a Sara precisa organizar a papelada do estúdio de Berlim.

— Que eu já terminei, inclusive — Sara interveio, passando a mão pelo cabelo loiro perfeitamente alinhado. — Mas você sabe como é, se eu não estiver lá para conferir os números, a equipe de administração vira um caos.

Emanuel olhou para Sara. Ela era difícil, impaciente e muitas vezes agressiva, mas era sua rocha no mundo dos negócios. Ele confiava nela de olhos fechados para gerir seu império de tatuagens enquanto ele se concentrava na arte. E depois olhou para Eduarda, a doçura em forma de mulher, a estudante de História da Arte que via o mundo através de cores e sentimentos, mas que se recusava a dar o passo final de morar com ele.

— Se você morasse comigo, Duda — Emanuel começou, a voz carregada de uma frustração antiga —, não estaríamos nessa situação de ter que te levar para a casa dos seus pais às quatro da manhã. Estaríamos indo todos para o mesmo lugar. Protegidos.

Eduarda se encolheu um pouco mais, sentindo a pontada de culpa.

— Meus pais são tranquilos, Manu... você sabe. Eles gostam de você. Mas eu... eu ainda não me sinto pronta para sair de lá. É tudo tão rápido.

— Rápido? — Sara soltou uma risada irônica, embora não houvesse maldade real. — Duda, querida, vocês estão juntos há dois anos. Eu moro com ele há três e ainda não o matei. É um recorde.

— Você é diferente, Sara — Eduarda respondeu com uma voz mansa, sem olhar para a outra. — Você é forte, sabe lidar com as coisas. Eu sinto que... que vou atrapalhar a rotina de vocês.

Emanuel apertou o abraço nas duas. A dinâmica era complexa, às vezes exaustiva, mas ele não conseguia imaginar sua vida sem nenhuma delas. A racionalidade de Sara o mantinha no chão; a sensibilidade de Eduarda o lembrava de que havia beleza além do trabalho e do dinheiro.

— Você não atrapalha nada, Eduarda — ele disse com firmeza. — Mas eu não aguento mais essa distância. Eu quero cuidar de você o tempo todo, não só nos fins de semana. Olha onde estamos agora. Se acontecesse algo e eu não estivesse por perto?

— Mas você está aqui — ela sussurrou, levantando o olhar expressivo para ele. — Você sempre está.

O momento foi interrompido por um estrondo no vidro traseiro. Um dos homens do lado de fora havia jogado uma pedra pequena, apenas para assustar.

— Ei! — Sara gritou, virando-se para trás, os olhos faiscando. — Se quebrar esse vidro, eu desço e acabo com a raça de vocês!

— Sara, fica quieta! — Emanuel rosnou, segurando-a pela cintura para impedir que ela realmente tentasse sair. — Não piora as coisas.

— Eles estão rindo, Manu! — ela reclamou, sentindo a adrenalina subir.

— Deixa eles rrirem. O guincho deve estar chegando. Eu consegui enviar a localização antes do sinal cair totalmente.

Eduarda começou a soluçar baixo, o medo finalmente transbordando. Emanuel sentiu o peito apertar. Ele odiava ver Eduarda sofrer e odiava o fato de Sara sempre buscar o confronto, mesmo quando era perigoso.

— Shhh... Duda, olha para mim — Emanuel forçou Eduarda a encará-lo, ignorando as batidas rítmicas que as mulheres lá fora agora faziam na lataria do carro, como uma provocação tribal. — Eu estou aqui. Nada vai acontecer. Sara, para de encarar eles.

Sara bufou, mas obedeceu, encostando a cabeça no ombro de Emanuel, do lado oposto ao de Eduarda. Por um instante, o silêncio voltou para dentro do carro, contrastando com o barulho externo.

— Você é muito teimoso, sabe? — Sara murmurou, fechando os olhos. — Podia ter comprado um carro que não quebrasse.

— É um carro novo, Sara. Máquinas falham.

— As minhas não falham — ela retrucou, referindo-se à gestão dos estúdios.

Emanuel deu um meio sorriso, o primeiro daquela noite.

— Eu sei. Você é impecável.

Eduarda, sentindo a tensão diminuir levemente, tocou a mão de Sara que estava apoiada no braço de Emanuel. Foi um toque tímido, quase imperceptível. Sara não retirou a mão, apenas moveu os dedos, aceitando o contato. Elas não eram amigas, mas naquele pequeno ecossistema criado por Emanuel, havia um entendimento silencioso. Ambas o amavam, e ambas dependiam daquela força bruta e protetora que ele emanava.

— Duda? — Emanuel chamou baixo.

— Oi...

— Quando sairmos daqui e eu te deixar na casa dos seus pais... eu quero que você pense de verdade. O quarto que eu fiz para você lá em casa ainda está vazio. As cores que você escolheu, a luz para pintar... está tudo lá.

Eduarda suspirou, o calor de Emanuel sendo a única coisa que a mantinha sã naquele lugar hostil.

— Eu vou pensar, Manu. Prometo.

— Pensar não é agir — Sara provocou, mas sem a dureza habitual. — Sinceramente, Duda, seria bem mais fácil se você estivesse lá. Eu canso de ser a única a segurar as pontas quando esse homem fica estressado com o trabalho. Você acalma ele. Eu só dou mais dor de cabeça.

Emanuel riu, uma risada curta e sem humor.

— Pelo menos você assume.

— Sou honesta, querido. É uma das minhas poucas virtudes.

Longe, na estrada, luzes giratórias alaranjadas surgiram. O guincho estava finalmente se aproximando. Emanuel sentiu o alívio percorrer seu corpo, relaxando os músculos que ele nem percebera que estavam tão contraídos.

As mulheres na calçada começaram a se dispersar, sabendo que a diversão — ou a oportunidade de lucro — havia acabado. Os homens voltaram para as sombras.

— Estão vendo? — Emanuel disse, dando um beijo no topo da cabeça de Eduarda e depois na têmpora de Sara. — Eu disse que ia resolver.

— Você sempre resolve — Eduarda sussurrou, sentindo-se segura novamente.

— É o que eu faço — ele respondeu, embora por dentro estivesse exausto.

Enquanto o motorista do guincho manobrava, Emanuel permaneceu ali, com as duas namoradas em seu colo. O contraste entre elas nunca fora tão evidente quanto naquela noite: a seda e o tricô, a agressividade e a submissão, o batom vermelho e os lábios naturais. Mas, para Emanuel, elas eram as duas metades de um equilíbrio que ele lutava diariamente para manter.

Ele sabia que a batalha para levar Eduarda para casa ainda não estava ganha, e que Sara continuaria testando seus limites a cada nova manhã. No entanto, naquele momento, em meio ao cheiro de óleo diesel e à luz incerta daquela rodoviária, ele tinha tudo o que importava sob sua proteção.

E, para um homem que construiu um império do nada, manter aquele pequeno e caótico mundo seguro era sua maior realização.

— Vamos para casa — ele disse, enquanto o carro era içado. — As duas.

Sara apenas sorriu, vitoriosa de alguma forma, enquanto Eduarda fechava os olhos, permitindo-se, pela primeira vez na noite, dormir sob a guarda do homem que era seu único e verdadeiro porto seguro.
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