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O encontro

Fandom: One piece

Criado: 16/06/2026

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O Eco de uma Dor Infinita

O céu sobre a Ilha Whole Cake tinha tons de roxo e rosa, como se o próprio ar estivesse impregnado pelo excesso de açúcar e extravagância da Rainha Pirata. No entanto, para Miu, o cenário parecia sufocante. O cheiro doce das florestas de sedução apenas a deixava enjoada. Ela ajustou as cordas que prendiam Charlotte Brûlée, sentindo o peso da culpa esmagar seus ombros tanto quanto a missão que lhe fora imposta.

— Por favor, tente não se mexer tanto — murmurou Miu, sua voz saindo como um sopro gentil, quase inaudível. — As cordas podem machucar sua pele, e eu realmente não quero causar mais desconforto do que o necessário.

— Me solte, sua pirralha insolente! — gritou Brûlée, contorcendo-se no chão de grama de chocolate. — Você tem ideia de quem eu sou? Você tem ideia do que a Mama vai fazer com você? Ela vai arrancar sua alma e servir como sobremesa!

Miu estremeceu, seus olhos rosa-pastel enchendo-se de uma tristeza genuína. Ela se ajoelhou ao lado da prisioneira, as mãos pequenas e delicadas tremendo levemente. Seus longos cabelos ondulados caíram sobre o rosto enquanto ela verificava os nós.

— Sinto muito, de verdade — disse Miu, os lábios comprimidos em uma linha fina. — Eu não queria estar aqui. Eu nunca quis ser uma pirata, nem lutar com ninguém. Mas eles... eles disseram que se eu não fizesse isso, eles iriam atrás da minha vila. Eu só quero uma vida tranquila, Brûlée-san. Uma casa pequena, um jardim... nada disso deveria estar acontecendo.

— Guarde suas desculpas para o inferno! — cuspiu a filha de Big Mom, cujos olhos brilhavam com fúria. — Quando meus irmãos chegarem, você vai desejar nunca ter nascido!

Miu suspirou, uma expressão de resignação em seu rosto de boneca. Ela sabia que Brûlée tinha razão. No mundo dos piratas, a gentileza era vista como fraqueza, e a beleza como um adorno inútil. Ninguém olhava para ela e via a "Fábrica Humana". Ninguém via a abominação que seu corpo representava para aqueles que buscavam recursos infinitos. Para o mundo, ela era apenas uma garota frágil que se perdeu no mar.

De repente, o ar pareceu ficar mais pesado. O som dos pássaros de biscoito e o farfalhar das árvores de algodão-doce cessaram instantaneamente. Um silêncio sepulcral e gélido desceu sobre a clareira.

Miu sentiu um calafrio percorrer sua espinha, um instinto de sobrevivência que ela havia desenvolvido após anos de dor constante. O suor frio brotou em sua testa. Ela não precisava olhar para trás para saber que a morte havia chegado.

Lentamente, como se estivesse movendo-se através de melado, ela se virou.

Parado a poucos metros de distância, imponente e absolutamente aterrorizante, estava Charlotte Katakuri.

O homem era uma montanha de músculos e intenção assassina. O cachecol de lã cobria a parte inferior de seu rosto, mas seus olhos — afiados como lâminas e carregados de uma autoridade inquestionável — estavam fixos nela. A aura que emanava dele não era apenas de força física, mas de uma superioridade absoluta.

— Irmão! — gritou Brûlée, sua voz mudando instantaneamente de fúria para alívio. — Katakuri-niisan! Acabe com essa garota!

Katakuri não disse uma palavra. Ele não precisava. O simples fato de ele estar ali já era uma sentença de morte. Miu tentou se levantar, mas suas pernas pareciam feitas de chumbo. Ela nunca tinha sentido um Haki tão denso. Era como se o próprio espaço ao redor dele estivesse sendo dobrado por sua vontade.

— Eu... eu só... — Miu tentou falar, mas as palavras morreram em sua garganta.

O olhar de Katakuri se estreitou. Ele viu a fragilidade dela, mas também viu algo que o intrigou por um breve milésimo de segundo: uma resiliência espiritual que não condizia com sua aparência. No entanto, ela era uma intrusa. Uma ameaça à sua família.

Antes que Miu pudesse formular qualquer pensamento de defesa, uma onda de choque invisível a atingiu. O Haki do Conquistador de Katakuri se expandiu como uma explosão silenciosa.

A visão de Miu oscilou. O mundo girou e as cores pastel da ilha se fundiram em um borrão escuro. O impacto mental foi tão violento que seu sistema nervoso simplesmente desligou para protegê-la. Ela desabou no chão, a consciência desaparecendo antes mesmo de seu corpo atingir a grama.

...

A escuridão foi substituída por uma dor familiar e pulsante.

Miu abriu os olhos lentamente, sentindo o peso de correntes em seus pulsos. Ela não estava mais na floresta. O ambiente era frio, com paredes de pedra escura e o som distante de água pingando. Uma prisão.

— Vejo que finalmente acordou.

A voz era profunda, rouca e carregada de uma calma que dava mais medo do que qualquer grito.

Miu olhou para cima. Katakuri estava sentado em um banco de pedra à frente dela, os braços cruzados sobre o peito largo. Ele não usava mais o cachecol, revelando a mandíbula larga e as cicatrizes que ele normalmente escondia. Mas Miu não sentiu repulsa; ela estava ocupada demais tentando processar a dor em seus braços.

As correntes estavam apertadas, e ela percebeu que seus pulsos estavam em carne viva. De forma instintiva, seu corpo começou a reagir.

— O que... onde estou? — perguntou ela, a voz trêmula.

— Você está no mundo dos espelhos — respondeu Katakuri, observando-a com uma intensidade desconfortável. — Minha irmã me contou sobre suas "desculpas" enquanto a mantinha refém. Mas o que me interessa não são suas palavras. É isso.

Ele apontou para os pulsos dela.

Miu olhou para baixo e soltou um gemido abafado. O tecido de sua pele estava se fechando sozinho. As feridas causadas pelo atrito das correntes de kairouseki — que deveriam anular seus poderes — estavam sendo curadas, embora de forma muito mais lenta e dolorosa devido à pedra do mar. O som de ossos estalando e fibras musculares se tecendo preenchia o silêncio da sala.

— Ah... hã... — Miu arqueou o corpo, as lágrimas escorrendo por seu rosto. — Por favor... dói... dói tanto...

— O kairouseki deveria impedir a ativação de Akuma no Mi — disse Katakuri, levantando-se e caminhando até ela. — No entanto, sua regeneração parece ser uma função biológica intrínseca agora. Seu corpo se recusa a morrer, mesmo sob a influência da pedra.

Ele parou diante dela, uma sombra colossal.

— Eles a chamam de "Fábrica Humana" no submundo — continuou ele. — Dizem que você pode fornecer órgãos, membros e sangue infinitos. Um recurso valioso para qualquer exército.

Miu fechou os olhos com força, soluçando.

— Não me chame assim... — sussurrou ela entre dentes cerrados. — Eu não sou uma fábrica. Eu sou uma pessoa. Eu sinto tudo... cada fibra que cresce de novo... é como se eu estivesse sendo queimada viva todas as vezes.

Katakuri observou o processo de regeneração terminar. A pele de Miu agora estava lisa e perfeita novamente, sem qualquer cicatriz, embora ela estivesse pálida e exausta.

— Por que uma pirata com esse poder se deixaria capturar tão facilmente por uma missão suicida? — perguntou ele. — Você poderia ter fugido de quem a forçou. Com essa imortalidade, o tempo está do seu lado.

Miu soltou uma risada amarga, que terminou em um acesso de tosse.

— Fugir? Para onde? — Ela levantou o olhar, encontrando os olhos de Katakuri. — Se eu fugir, eles matam as pessoas que eu amo. E se eu ficar, sou usada como um pedaço de carne. Não existe liberdade para alguém como eu, Katakuri-san. A morte seria um presente, mas meu corpo nem sequer me permite morrer.

Houve um longo silêncio. Katakuri, que passou a vida inteira escondendo suas próprias "imperfeições" e carregando o peso de proteger sua família, sentiu uma pontada de algo que raramente experimentava: empatia. Ele via nela uma forma diferente de prisão. Ele era prisioneiro de sua imagem de perfeição; ela era prisioneira de sua própria biologia.

— Você capturou Brûlée — disse ele, voltando à sua postura fria. — Isso é um crime contra a família Charlotte. Normalmente, eu a mataria aqui mesmo.

Miu baixou a cabeça, esperando o golpe final.

— Por favor, faça isso — pediu ela, com sinceridade absoluta. — Se você for forte o suficiente para superar minha regeneração... se puder me apagar completamente... eu ficaria agradecida.

Katakuri descruzou os braços. Ele viu o futuro por um breve momento com seu Haki da Observação. Ele viu Miu sendo levada perante Big Mom. Viu sua mãe rindo enquanto ordenava que os médicos da tripulação começassem a "colher" a garota para experimentos de imortalidade. Viu o sofrimento interminável que aguardava aquela jovem.

— A Mama teria muitos usos para você — disse Katakuri, sua voz ecoando nas paredes de pedra.

— Eu sei — respondeu Miu, as lágrimas voltando a cair. — É por isso que eu imploro... acabe com isso.

Katakuri aproximou-se e, para a surpresa de Miu, não levantou a lança nem os punhos. Ele estendeu a mão e tocou o queixo dela, forçando-a a olhar para ele.

— Você diz que quer uma vida tranquila — disse ele, estudando o rosto delicado e os olhos rosa que transbordavam dor. — Mas o mundo não permite tranquilidade aos que possuem poder. Ou você esmaga, ou é esmagado.

— Eu não quero esmagar ninguém — soluçou ela.

— Então você continuará sofrendo — afirmou Katakuri. — No entanto... eu não gosto de desperdício. E não gosto de ver alguém que possui tal resistência mental ser reduzido a uma mercadoria.

Ele se afastou, virando as costas para ela.

— Vou dizer à Mama que você morreu durante o interrogatório — disse ele, surpreendendo-se com as próprias palavras. — Que seu corpo não resistiu ao kairouseki e se desintegrou.

Miu arregalou os olhos, o coração batendo descompassado.

— Por que... por que faria isso?

Katakuri parou na porta da cela, olhando por cima do ombro.

— Porque você não pertence a este mar de monstros — respondeu ele de forma ríspida. — Há um navio de suprimentos saindo pela costa oeste em duas horas. Se você conseguir chegar lá sem ser vista, poderá desaparecer. Mas se eu a encontrar novamente, Miu... não haverá misericórdia.

Ele saiu, deixando a porta da cela destrancada.

Miu ficou em silêncio por um longo tempo, o som de sua própria respiração sendo a única coisa que preenchia o vazio. Seus pulsos ainda doíam, o eco da dor da regeneração ainda latejava em seus nervos. Ela se levantou, as pernas trêmulas, mas o olhar agora carregava uma faísca de algo que ela pensou ter perdido há muito tempo: esperança.

Ela não era uma fábrica. Ela não era apenas um poder.

Pela primeira vez em dezenove anos, Miu decidiu que, se seu corpo se recusava a morrer, ela teria que aprender a fazê-lo viver.

— Obrigada... Katakuri-san — sussurrou ela para as sombras, antes de correr em direção à liberdade que nunca pensou que teria.
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