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Amor Picante
Fandom: Sem fandom
Criado: 16/06/2026
Tags
RomanceDramaEstudo de PersonagemCiúmesNoir GóticoLinguagem ExplícitaAngústiaPsicológicoSombrioRecontarObra ClássicaHistória Doméstica
O Eco do Silêncio e o Brilho da Prata
O despertador de Norman Enric Hazel não precisou tocar. Às seis da manhã, seus olhos azul-índigo já estavam abertos, fixos no teto alto e adornado de seu quarto vasto. O silêncio da mansão Hazel era pesado, uma substância quase sólida que preenchia os corredores, interrompida apenas pelo som distante de algum empregado preparando o café da manhã. Para Norman, aquele silêncio era um lembrete constante do vazio deixado por seu irmão mais velho. Seus pais haviam apagado o nome dele das molduras, mas a ausência ainda ecoava nas paredes.
Ele se levantou, os 186 centímetros de altura movendo-se com uma graça letárgica. O reflexo no espelho mostrava um jovem de físico definido, resultado de anos de natação e treinos que ele realizava mais por obrigação do que por prazer. A pele pálida contrastava com os cabelos pretos que caíam em mechas desalinhadas sobre a testa. Norman vestiu o uniforme da Greastudy High School com o desleixo calculado de quem não tem nada a provar: a camisa branca larga, a gravata frouxa e o blazer aberto.
Ao descer para a sala de jantar, encontrou seus pais. O café era servido em porcelana fina, mas o ambiente era gélido.
— Esperamos que mantenha sua posição este ano, Norman — disse seu pai, sem tirar os olhos do jornal financeiro. — O décimo lugar no ranking nacional é aceitável, mas o primeiro é o esperado para um Hazel.
— Eu sei — respondeu Norman, sua voz um barítono monótono.
Ele não sentia raiva naquele momento, apenas um tédio profundo. Pegou um pequeno doce de chocolate sobre a mesa, o único prazer genuíno de sua manhã, e saiu sem se despedir.
Do outro lado da cidade, em uma mansão igualmente opulenta, mas imersa em um tipo diferente de tensão, Lizzie Stelle terminava de escovar seus longos cabelos prateados. Seus olhos azuis cintilantes refletiam uma melancolia que ela escondia atrás de um sorriso doce e treinado. No corredor, passou por seus irmãos, que a ignoraram completamente, como se ela fosse apenas um móvel caro e inconveniente.
— Bom dia — ela murmurou, mas não obteve resposta.
Lizzie suspirou, ajustando o blazer perfeitamente abotoado e a saia preta. Ela era a "ovelha negra", a garota que preferia o piano e os animais aos negócios da família. Para o mundo, ela era o anjo da Greastudy; para seus pais, era uma falha de investimento. Ela pegou sua mochila de couro e saiu, sentindo o peso da solidão, mesmo sendo cercada por admiradores assim que pisou no campus da escola.
O primeiro dia de aula na Greastudy High School era sempre um espetáculo de ostentação. Carros de luxo se enfileiravam e alunos desfilavam marcas caras. Norman caminhava pelo pátio como se estivesse em uma bolha. Ele sentia os olhares — de desejo das garotas, de inveja dos garotos —, mas nada o atingia. Ele só queria encontrar um canto sossegado na biblioteca para continuar o rascunho de seu livro.
No entanto, o destino tinha planos diferentes para o último ano.
A primeira aula era Literatura Avançada. Norman escolheu a última mesa, perto da janela. Poucos minutos depois, o burburinho no corredor aumentou. Lizzie Stelle entrou na sala, e o ambiente pareceu se iluminar. Ela cumprimentou a todos com sua habitual doçura, embora seus olhos buscassem algo que ela mesma não sabia explicar.
O único lugar vago era ao lado de Norman.
Lizzie hesitou por um segundo. Ela conhecia a reputação de Norman: o prodígio frio, o garoto que intimidava com um simples olhar. Mas ela também via algo nele que os outros não notavam — um cansaço que espelhava o seu.
— Com licença — disse ela, sua voz suave como veludo — posso me sentar aqui?
Norman nem sequer levantou os olhos do livro que estava lendo.
— O lugar é público. Faça o que quiser.
Lizzie sentou-se, organizando seu material com uma precisão quase rítmica. Norman sentiu o perfume dela — algo que lembrava flores de laranjeira e papel novo. Era irritante. Ele odiava distrações.
Durante a aula, o professor solicitou que formassem duplas para o projeto semestral de análise literária. Antes que os pretendentes de Lizzie pudessem se manifestar, o professor apontou para o fundo da sala.
— Hazel e Stelle. Vocês formam a dupla com o maior potencial intelectual desta sala. Não me decepcionem.
Norman finalmente fechou o livro e olhou para o lado. Lizzie o encarava com um sorriso tímido, mas firme.
— Parece que seremos parceiros, Norman — disse ela, estendendo a mão de forma amigável.
Norman olhou para a mão dela como se fosse um objeto estranho. Ele detestava ser tocado. A regra de ouro de seu espaço pessoal era inviolável.
— Não toque em mim — disse ele, a voz baixa e perigosamente fria.
Lizzie recolheu a mão imediatamente, as bochechas corando de leve, mas ela não se encolheu.
— Sinto muito. Não foi minha intenção incomodar.
— Apenas... não faça de novo — ele murmurou, voltando sua atenção para o quadro negro.
O dia seguiu seu curso arrastado. No intervalo, Norman se refugiou nos fundos do jardim da escola, um lugar onde as árvores antigas escondiam os alunos do sol. Ele estava com um pirulito na boca e seu caderno de notas aberto, perdendo-se nas palavras que ele mesmo criava.
— Você escreve muito bem.
Ele quase derrubou o caderno. Lizzie estava ali, a alguns metros de distância, segurando um pequeno gato de rua que costumava rondar o campus. O animal parecia perfeitamente à vontade nos braços dela.
— Você está me perseguindo? — Norman perguntou, cerrando os olhos índigo.
— Não. Eu venho aqui todos os dias para alimentar os gatos — ela respondeu, aproximando-se devagar, respeitando o espaço que ele havia demarcado na sala de aula. — Eu vi algumas frases enquanto você escrevia na aula. Sua gramática é impecável, mas o sentimento por trás das palavras... é muito solitário.
Norman sentiu uma pontada de algo que não conseguia identificar. Ninguém nunca analisava o que ele fazia; as pessoas apenas aplaudiam o resultado final por causa de seu sobrenome.
— O que você sabe sobre solidão? — ele perguntou, com um sarcasmo defensivo. — Você é a garota de ouro. Todos te amam.
Lizzie baixou o olhar para o gato, acariciando suas orelhas.
— Muitas pessoas me cercam, Norman. Mas poucas me veem. Meus pais nem sequer sabem qual é a minha cor favorita ou que eu ganhei o concurso nacional de piano no ano passado. Para eles, eu sou apenas uma decepção que não quer cursar Administração.
Norman tirou o pirulito da boca, observando-a com mais atenção. Pela primeira vez, a beleza dela não era apenas um fato estético, mas algo que parecia carregar uma carga dramática. O corpo ampulheta, os lábios rosados, os olhos que brilhavam com uma tristeza contida... havia uma harmonia perturbadora nela.
— Por que está me contando isso? — ele questionou.
— Porque você parece ser a única pessoa aqui que não está tentando me usar para subir na hierarquia social — Lizzie deu um passo à frente, e desta vez Norman não recuou. — E porque eu acho que, no fundo, somos iguais. Dois troféus em prateleiras diferentes.
Norman soltou um suspiro curto, o que para ele era o equivalente a uma gargalhada.
— Você é estranha, Stelle.
— E você é entediado, Hazel.
Houve um silêncio entre eles, mas não era o silêncio opressor de suas casas. Era algo novo. Norman sentiu uma curiosidade estranha. Ele nunca se importara com prazer ou com a companhia de outras pessoas, achando a luxúria e o romance distrações fúteis para mentes fracas. No entanto, ao olhar para Lizzie, para a forma como o uniforme apertava levemente suas curvas e como a luz do sol atravessava seu cabelo prateado, ele sentiu um formigamento desconhecido na boca do estômago.
— O projeto — Norman disse, mudando de assunto para recuperar o controle. — Precisamos decidir o livro.
— Que tal "O Retrato de Dorian Gray"? — sugeriu ela. — Fala sobre aparências e a podridão por baixo delas. Acho que combina conosco.
— Escolha aceitável — ele concordou, fechando seu caderno. — Podemos começar na biblioteca depois das aulas.
— Na verdade... — Lizzie hesitou. — Meus pais estarão fora hoje. Poderíamos usar a sala de música da minha casa. O piano me ajuda a pensar.
Norman hesitou. Entrar no território de outra pessoa era arriscado. Mas o tédio dele era tão vasto que qualquer mudança de cenário parecia uma aventura.
— Tudo bem. Mas se alguém encostar em mim ou nas minhas coisas, eu vou embora.
Lizzie sorriu, e desta vez o brilho em seus olhos não era de melancolia.
— Prometo que ninguém vai te incomodar.
Ao final do dia, o carro de Norman seguiu o de Lizzie até a propriedade dos Stelle. A mansão era um monumento à frieza moderna. Eles entraram e Lizzie o conduziu por corredores silenciosos até uma sala vasta, onde um piano de cauda Steinway brilhava sob o lustre de cristal.
Lizzie deixou sua mochila de couro sobre uma poltrona e começou a tirar o blazer, revelando a camisa branca que acentuava sua figura. Norman sentou-se em um sofá de veludo, observando cada movimento dela. Ele se sentia como um predador que, pela primeira vez, encontrou uma criatura que não fugia, mas o convidava para mais perto.
— Você quer um doce? — ela perguntou, abrindo uma pequena caixa de cristais sobre a mesa. — São trufas artesanais. Meu único consolo nesta casa.
Norman pegou uma, seus dedos roçando levemente os dela por acidente. Ele não recuou imediatamente como de costume. O toque da pele de Lizzie era quente, em contraste com a atmosfera gélida da sala.
— É bom — ele admitiu, saboreando o chocolate.
Lizzie sentou-se ao piano e começou a tocar uma melodia suave, quase hipnótica. Norman abriu o livro, mas seus olhos não conseguiam focar nas letras. Ele estava focado nela. No movimento de seus ombros, na curva de seu pescoço, na forma como ela parecia se entregar à música.
Ele se levantou e caminhou até o piano, parando logo atrás dela. A diferença de altura era notável; ele a envolvia com sua sombra.
— Você toca como se estivesse tentando escapar de algum lugar — ele comentou, sua voz vibrando perto do ouvido dela.
Lizzie parou de tocar, as mãos ainda sobre as teclas. Ela sentiu o calor emanando do corpo de Norman. Era uma sensação intensa, algo que ela nunca permitira que ninguém fizesse.
— E você escreve como se já estivesse morto por dentro — ela rebateu, virando o rosto para encará-lo.
Eles estavam perigosamente próximos. Norman podia ver as nuances de azul nos olhos dela, o tremor leve de seus lábios carnudos. Pela primeira vez em dezoito anos, o conceito de luxúria começou a fazer sentido para ele. Não era apenas sobre o corpo, era sobre a vontade de dominar e ser compreendido ao mesmo tempo.
Norman estendeu a mão, mas não para afastá-la. Seus dedos longos e pálidos tocaram uma mecha do cabelo prateado dela, deslizando até a nuca. Lizzie soltou um suspiro trêmulo, mas não se moveu.
— Eu disse para não me tocar — ele sussurrou, a voz carregada de uma tensão nova — mas não disse nada sobre eu tocar você.
Lizzie sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O olhar intimidante de Norman agora tinha um fogo contido, algo que prometia quebrar o tédio de ambos de uma forma irreversível.
— Eu não me importo — ela respondeu em um sussurro — se for você.
Naquele momento, o primeiro dia de aula deixou de ser apenas o início de um novo ano letivo. Era o começo de algo sombrio, doce e profundamente perigoso. Entre o silêncio da mansão e o eco das notas do piano, dois herdeiros quebrados encontraram um no outro o que o mundo nunca lhes deu: uma razão para sentir.
Norman inclinou-se, o rosto a centímetros do dela. O cheiro de doces e flores de laranjeira era inebriante. O mundo lá fora, com suas regras, pais negligentes e troféus de ouro, desapareceu. Só restava o agora.
— Isso vai ser um problema — murmurou Norman, antes de finalmente quebrar a distância.
O beijo foi o encontro de dois desertos famintos por chuva. Era desajeitado no início, mas rapidamente tornou-se urgente, carregado de anos de repressão e solidão. Lizzie envolveu o pescoço de Norman com os braços, puxando-o para mais perto, enquanto ele a segurava pela cintura com uma possessividade que o surpreendeu.
Aquele era apenas o primeiro capítulo de uma história que nenhum deles estava preparado para escrever, mas que ambos estavam ansiosos para viver, página por página, até o fim.
Ele se levantou, os 186 centímetros de altura movendo-se com uma graça letárgica. O reflexo no espelho mostrava um jovem de físico definido, resultado de anos de natação e treinos que ele realizava mais por obrigação do que por prazer. A pele pálida contrastava com os cabelos pretos que caíam em mechas desalinhadas sobre a testa. Norman vestiu o uniforme da Greastudy High School com o desleixo calculado de quem não tem nada a provar: a camisa branca larga, a gravata frouxa e o blazer aberto.
Ao descer para a sala de jantar, encontrou seus pais. O café era servido em porcelana fina, mas o ambiente era gélido.
— Esperamos que mantenha sua posição este ano, Norman — disse seu pai, sem tirar os olhos do jornal financeiro. — O décimo lugar no ranking nacional é aceitável, mas o primeiro é o esperado para um Hazel.
— Eu sei — respondeu Norman, sua voz um barítono monótono.
Ele não sentia raiva naquele momento, apenas um tédio profundo. Pegou um pequeno doce de chocolate sobre a mesa, o único prazer genuíno de sua manhã, e saiu sem se despedir.
Do outro lado da cidade, em uma mansão igualmente opulenta, mas imersa em um tipo diferente de tensão, Lizzie Stelle terminava de escovar seus longos cabelos prateados. Seus olhos azuis cintilantes refletiam uma melancolia que ela escondia atrás de um sorriso doce e treinado. No corredor, passou por seus irmãos, que a ignoraram completamente, como se ela fosse apenas um móvel caro e inconveniente.
— Bom dia — ela murmurou, mas não obteve resposta.
Lizzie suspirou, ajustando o blazer perfeitamente abotoado e a saia preta. Ela era a "ovelha negra", a garota que preferia o piano e os animais aos negócios da família. Para o mundo, ela era o anjo da Greastudy; para seus pais, era uma falha de investimento. Ela pegou sua mochila de couro e saiu, sentindo o peso da solidão, mesmo sendo cercada por admiradores assim que pisou no campus da escola.
O primeiro dia de aula na Greastudy High School era sempre um espetáculo de ostentação. Carros de luxo se enfileiravam e alunos desfilavam marcas caras. Norman caminhava pelo pátio como se estivesse em uma bolha. Ele sentia os olhares — de desejo das garotas, de inveja dos garotos —, mas nada o atingia. Ele só queria encontrar um canto sossegado na biblioteca para continuar o rascunho de seu livro.
No entanto, o destino tinha planos diferentes para o último ano.
A primeira aula era Literatura Avançada. Norman escolheu a última mesa, perto da janela. Poucos minutos depois, o burburinho no corredor aumentou. Lizzie Stelle entrou na sala, e o ambiente pareceu se iluminar. Ela cumprimentou a todos com sua habitual doçura, embora seus olhos buscassem algo que ela mesma não sabia explicar.
O único lugar vago era ao lado de Norman.
Lizzie hesitou por um segundo. Ela conhecia a reputação de Norman: o prodígio frio, o garoto que intimidava com um simples olhar. Mas ela também via algo nele que os outros não notavam — um cansaço que espelhava o seu.
— Com licença — disse ela, sua voz suave como veludo — posso me sentar aqui?
Norman nem sequer levantou os olhos do livro que estava lendo.
— O lugar é público. Faça o que quiser.
Lizzie sentou-se, organizando seu material com uma precisão quase rítmica. Norman sentiu o perfume dela — algo que lembrava flores de laranjeira e papel novo. Era irritante. Ele odiava distrações.
Durante a aula, o professor solicitou que formassem duplas para o projeto semestral de análise literária. Antes que os pretendentes de Lizzie pudessem se manifestar, o professor apontou para o fundo da sala.
— Hazel e Stelle. Vocês formam a dupla com o maior potencial intelectual desta sala. Não me decepcionem.
Norman finalmente fechou o livro e olhou para o lado. Lizzie o encarava com um sorriso tímido, mas firme.
— Parece que seremos parceiros, Norman — disse ela, estendendo a mão de forma amigável.
Norman olhou para a mão dela como se fosse um objeto estranho. Ele detestava ser tocado. A regra de ouro de seu espaço pessoal era inviolável.
— Não toque em mim — disse ele, a voz baixa e perigosamente fria.
Lizzie recolheu a mão imediatamente, as bochechas corando de leve, mas ela não se encolheu.
— Sinto muito. Não foi minha intenção incomodar.
— Apenas... não faça de novo — ele murmurou, voltando sua atenção para o quadro negro.
O dia seguiu seu curso arrastado. No intervalo, Norman se refugiou nos fundos do jardim da escola, um lugar onde as árvores antigas escondiam os alunos do sol. Ele estava com um pirulito na boca e seu caderno de notas aberto, perdendo-se nas palavras que ele mesmo criava.
— Você escreve muito bem.
Ele quase derrubou o caderno. Lizzie estava ali, a alguns metros de distância, segurando um pequeno gato de rua que costumava rondar o campus. O animal parecia perfeitamente à vontade nos braços dela.
— Você está me perseguindo? — Norman perguntou, cerrando os olhos índigo.
— Não. Eu venho aqui todos os dias para alimentar os gatos — ela respondeu, aproximando-se devagar, respeitando o espaço que ele havia demarcado na sala de aula. — Eu vi algumas frases enquanto você escrevia na aula. Sua gramática é impecável, mas o sentimento por trás das palavras... é muito solitário.
Norman sentiu uma pontada de algo que não conseguia identificar. Ninguém nunca analisava o que ele fazia; as pessoas apenas aplaudiam o resultado final por causa de seu sobrenome.
— O que você sabe sobre solidão? — ele perguntou, com um sarcasmo defensivo. — Você é a garota de ouro. Todos te amam.
Lizzie baixou o olhar para o gato, acariciando suas orelhas.
— Muitas pessoas me cercam, Norman. Mas poucas me veem. Meus pais nem sequer sabem qual é a minha cor favorita ou que eu ganhei o concurso nacional de piano no ano passado. Para eles, eu sou apenas uma decepção que não quer cursar Administração.
Norman tirou o pirulito da boca, observando-a com mais atenção. Pela primeira vez, a beleza dela não era apenas um fato estético, mas algo que parecia carregar uma carga dramática. O corpo ampulheta, os lábios rosados, os olhos que brilhavam com uma tristeza contida... havia uma harmonia perturbadora nela.
— Por que está me contando isso? — ele questionou.
— Porque você parece ser a única pessoa aqui que não está tentando me usar para subir na hierarquia social — Lizzie deu um passo à frente, e desta vez Norman não recuou. — E porque eu acho que, no fundo, somos iguais. Dois troféus em prateleiras diferentes.
Norman soltou um suspiro curto, o que para ele era o equivalente a uma gargalhada.
— Você é estranha, Stelle.
— E você é entediado, Hazel.
Houve um silêncio entre eles, mas não era o silêncio opressor de suas casas. Era algo novo. Norman sentiu uma curiosidade estranha. Ele nunca se importara com prazer ou com a companhia de outras pessoas, achando a luxúria e o romance distrações fúteis para mentes fracas. No entanto, ao olhar para Lizzie, para a forma como o uniforme apertava levemente suas curvas e como a luz do sol atravessava seu cabelo prateado, ele sentiu um formigamento desconhecido na boca do estômago.
— O projeto — Norman disse, mudando de assunto para recuperar o controle. — Precisamos decidir o livro.
— Que tal "O Retrato de Dorian Gray"? — sugeriu ela. — Fala sobre aparências e a podridão por baixo delas. Acho que combina conosco.
— Escolha aceitável — ele concordou, fechando seu caderno. — Podemos começar na biblioteca depois das aulas.
— Na verdade... — Lizzie hesitou. — Meus pais estarão fora hoje. Poderíamos usar a sala de música da minha casa. O piano me ajuda a pensar.
Norman hesitou. Entrar no território de outra pessoa era arriscado. Mas o tédio dele era tão vasto que qualquer mudança de cenário parecia uma aventura.
— Tudo bem. Mas se alguém encostar em mim ou nas minhas coisas, eu vou embora.
Lizzie sorriu, e desta vez o brilho em seus olhos não era de melancolia.
— Prometo que ninguém vai te incomodar.
Ao final do dia, o carro de Norman seguiu o de Lizzie até a propriedade dos Stelle. A mansão era um monumento à frieza moderna. Eles entraram e Lizzie o conduziu por corredores silenciosos até uma sala vasta, onde um piano de cauda Steinway brilhava sob o lustre de cristal.
Lizzie deixou sua mochila de couro sobre uma poltrona e começou a tirar o blazer, revelando a camisa branca que acentuava sua figura. Norman sentou-se em um sofá de veludo, observando cada movimento dela. Ele se sentia como um predador que, pela primeira vez, encontrou uma criatura que não fugia, mas o convidava para mais perto.
— Você quer um doce? — ela perguntou, abrindo uma pequena caixa de cristais sobre a mesa. — São trufas artesanais. Meu único consolo nesta casa.
Norman pegou uma, seus dedos roçando levemente os dela por acidente. Ele não recuou imediatamente como de costume. O toque da pele de Lizzie era quente, em contraste com a atmosfera gélida da sala.
— É bom — ele admitiu, saboreando o chocolate.
Lizzie sentou-se ao piano e começou a tocar uma melodia suave, quase hipnótica. Norman abriu o livro, mas seus olhos não conseguiam focar nas letras. Ele estava focado nela. No movimento de seus ombros, na curva de seu pescoço, na forma como ela parecia se entregar à música.
Ele se levantou e caminhou até o piano, parando logo atrás dela. A diferença de altura era notável; ele a envolvia com sua sombra.
— Você toca como se estivesse tentando escapar de algum lugar — ele comentou, sua voz vibrando perto do ouvido dela.
Lizzie parou de tocar, as mãos ainda sobre as teclas. Ela sentiu o calor emanando do corpo de Norman. Era uma sensação intensa, algo que ela nunca permitira que ninguém fizesse.
— E você escreve como se já estivesse morto por dentro — ela rebateu, virando o rosto para encará-lo.
Eles estavam perigosamente próximos. Norman podia ver as nuances de azul nos olhos dela, o tremor leve de seus lábios carnudos. Pela primeira vez em dezoito anos, o conceito de luxúria começou a fazer sentido para ele. Não era apenas sobre o corpo, era sobre a vontade de dominar e ser compreendido ao mesmo tempo.
Norman estendeu a mão, mas não para afastá-la. Seus dedos longos e pálidos tocaram uma mecha do cabelo prateado dela, deslizando até a nuca. Lizzie soltou um suspiro trêmulo, mas não se moveu.
— Eu disse para não me tocar — ele sussurrou, a voz carregada de uma tensão nova — mas não disse nada sobre eu tocar você.
Lizzie sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O olhar intimidante de Norman agora tinha um fogo contido, algo que prometia quebrar o tédio de ambos de uma forma irreversível.
— Eu não me importo — ela respondeu em um sussurro — se for você.
Naquele momento, o primeiro dia de aula deixou de ser apenas o início de um novo ano letivo. Era o começo de algo sombrio, doce e profundamente perigoso. Entre o silêncio da mansão e o eco das notas do piano, dois herdeiros quebrados encontraram um no outro o que o mundo nunca lhes deu: uma razão para sentir.
Norman inclinou-se, o rosto a centímetros do dela. O cheiro de doces e flores de laranjeira era inebriante. O mundo lá fora, com suas regras, pais negligentes e troféus de ouro, desapareceu. Só restava o agora.
— Isso vai ser um problema — murmurou Norman, antes de finalmente quebrar a distância.
O beijo foi o encontro de dois desertos famintos por chuva. Era desajeitado no início, mas rapidamente tornou-se urgente, carregado de anos de repressão e solidão. Lizzie envolveu o pescoço de Norman com os braços, puxando-o para mais perto, enquanto ele a segurava pela cintura com uma possessividade que o surpreendeu.
Aquele era apenas o primeiro capítulo de uma história que nenhum deles estava preparado para escrever, mas que ambos estavam ansiosos para viver, página por página, até o fim.
