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Minha garota

Fandom: It:a coisa

Criado: 16/06/2026

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Pedaços de Papel e Promessas de Verão

O sol de Derry parecia mais brilhante naquela manhã, embora o ar pesado da cidade sempre carregasse aquele cheiro de chuva antiga e segredos mal guardados. Eu caminhei pelo pátio da escola sentindo o movimento da minha saia preta rodada contra as pernas. A blusa branca, com as alças caídas charmosamente sobre os braços, deixava meus ombros à mostra, e eu sabia que não passava despercebida. Algumas garotas olhavam feio, mas os garotos... bem, eles sempre tinham algo a dizer sobre o meu corpo. Eu apenas ignorava, focando no que importava.

Avistei Beverly logo na entrada. Eu tinha dormido na casa dela na noite anterior, uma daquelas noites cheias de fofocas e risadas que só a gente entendia. Trocamos um aceno cúmplice antes de eu ser puxada pelo redemoinho que era o meu grupo de costume.

Henry Bowers, Patrick Hockstetter e Victor Criss já estavam por ali, encostados nos armários com aquela aura de "donos da escola" que Henry tanto gostava de cultivar. Mas comigo, Henry era diferente. Ele estendeu o braço e me puxou para perto, um gesto protetor que eu já estava acostumada.

— Pronta para a aula de matemática mais inútil da história? — perguntou Henry, revirando os olhos.

— Só se a professora contar de novo sobre a viagem dela para New York — respondi, rindo. — Já decorei até o nome do café onde ela tomou o café da manhã no terceiro dia.

Entramos na sala e, como de costume, o clima era uma mistura de tédio e tensão. Alguns dos "Perdedores" já estavam lá. Richie Tozier, com seus óculos fundo de garrafa e a boca que nunca parava de se mexer; Eddie Kaspbrak, parecendo que ia ter um ataque de asma a qualquer momento; e minha querida Bev.

As mesas eram em dupla, e eu me acomodei com Henry. Assim que a professora começou a divagar sobre as luzes da Times Square pela milésima vez, eu não perdi tempo. Deitei a cabeça no colo de Henry, sentindo a textura da calça dele contra o meu rosto. Ele começou a passar os dedos pelos meus longos cabelos pretos, um carinho quase inconsciente.

— Ei, Henry — sussurrei, olhando para ele de baixo para cima. — Lembra que seu pai foi lá em casa se declarar para a minha mãe?

Henry soltou um riso abafado, os olhos brilhando de diversão.

— Lembro. Ele saiu de casa todo perfumado, parecia até que ia encontrar o presidente.

— Pois é. E até agora ele não voltou, não é? — Dei um sorriso travesso. — Do jeito que eles são, é capaz de já estarem fazendo sexo em algum motel de beira de estrada e a gente aqui, sofrendo com a história de Nova York.

Henry soltou uma gargalhada baixa, tentando não atrair a atenção da professora, que continuava falando sobre o Empire State.

— Não duvido nada, Hanna. Meu velho sempre teve uma queda pela sua mãe. Se eles sumirem de vez, a gente assume a casa.

Rimos baixinho, compartilhando aquele momento de leveza que raramente Henry mostrava a outras pessoas. O cansaço da noite anterior na casa da Bev bateu forte, e o balanço dos dedos dele no meu cabelo foi o nocaute final. Eu dormi.

Acordei apenas na segunda aula, sentindo-me renovada. A professora de matemática tinha saído para "beber água", o que em Derry significava que ela ia ficar vinte minutos fofocando no corredor. A sala virou um caos instantâneo.

Peguei meu caderno de desenhos. Eu amava desenhar; era onde minha inteligência e sensibilidade se encontravam. Comecei a esboçar um casal em um momento fofo, algo que parecia saído de um sonho. Mas eu precisava de um detalhe mais fino para o rosto.

Olhei para o lado e vi Beverly em pé, conversando com Richie. Levantei-me silenciosamente, a saia rodopiando, e caminhei na ponta dos pés. Cheguei por trás de Bev e, com um movimento rápido, dei um tapa estalado na bunda dela.

— Ai! — gritou ela, dando um pulo e levando a mão ao coração, o rosto ficando vermelho como seus cabelos. — Que susto, Hanna! Quer me matar?

Eu caí na risada, achando graça da expressão dela.

— Desculpa, Bev! Não resisti — respondi, piscando para ela. Depois, me virei para o garoto de óculos. — Ei, Richie, você me empresta sua lapiseira 0.4? A minha quebrou e eu preciso terminar um traço fininho aqui.

Richie me encarou por um segundo, provavelmente processando o que tinha acabado de acontecer, e depois deu aquele sorriso torto dele.

— Para você, Hanna, eu empresto até minha dignidade, embora o Eddie diga que eu não tenho nenhuma.

— Você não tem mesmo — resmungou Eddie da mesa ao lado.

— Pega aí, beldade — Richie me entregou a lapiseira.

— Valeu, Richie! Você é um fofo, às vezes.

Voltei para a minha mesa e me acomodei novamente no colo de Henry, que me observava com um olhar curioso. Continuei o desenho, focando nos detalhes dos olhos do casal, enquanto conversava com ele sobre coisas aleatórias. O tempo passou voando, e quando a professora finalmente voltou, eu já tinha terminado a obra de arte.

Antes da aula acabar, fiz questão de devolver a lapiseira para o Richie.

— Prontinho. Devolvida com carinho — eu disse, deixando a lapiseira na mesa dele.

— Volte sempre, Hanna! — gritou Richie enquanto eu me afastava.

O sinal tocou, anunciando a liberdade. O plano era simples: ir para a pedreira. Mas antes, precisávamos passar na minha casa. Henry e sua gangue iam sair para fazer as coisas deles, mas ele insistiu em me levar primeiro.

Quando abrimos a porta de casa, o silêncio não era o que esperávamos. Ou melhor, o tipo de som que vinha da sala era bem específico. Minha mãe e o pai de Henry estavam no sofá, em um momento de puro romance, namorando como se fossem adolescentes.

Eu não consegui segurar o sorriso. Corri até minha mãe e a envolvi em um abraço apertado.

— Oi, mãe! Que bom ver vocês assim — eu disse, genuinamente feliz.

Henry fez o mesmo com o pai, dando um tapinha no ombro dele, um gesto de aprovação que dizia mais do que mil palavras.

— Fico feliz por vocês, de verdade — completei, olhando para o pai de Henry, que agora eu já considerava parte da família. — Juízo, hein?

Fui para o meu quarto arrumar as coisas. Troquei de roupa rapidamente, mas coloquei uma muda extra na mochila. Peguei meus dois cadernos de desenho — não conseguia viver sem eles — e meus dois estojos: o da escola e o meu favorito, cheio de canetinhas coloridas.

Encontrei Beverly e os outros meninos no caminho para a pedreira. O calor estava sufocante, e a promessa da água gelada era a única coisa que nos mantinha caminhando.

— Quem chegar por último é mulher do padre! — gritei, começando a correr pela trilha de terra.

— Isso nem faz sentido, Hanna! — Richie gritou de volta, tentando me alcançar.

Chegamos ao topo do penhasco, aquele lugar que parecia o centro do universo durante o verão de Derry. Olhei para Beverly, e não precisamos de palavras. Em um movimento sincronizado, chutamos os sapatos, jogamos as mochilas de lado e corremos em direção à borda.

O salto foi libertador. O ar batendo no rosto, a sensação de queda e, finalmente, o impacto com a água fria que parecia lavar qualquer vestígio de poeira ou preocupação.

Emergi da água jogando o cabelo para trás, limpando o rosto com as mãos. Beverly apareceu logo ao lado, rindo e cuspindo água.

— Nós fomos as primeiras! — comemorei, batendo na água e molhando os meninos que ainda hesitavam lá no alto.

— O que foi, Richie? Está com medo da água ou de perder para duas garotas? — Bev provocou, desafiadora.

Lá de cima, vi Richie ajeitar os óculos e Eddie hesitar com sua bombinha de asma. Mas eu sabia que, em poucos segundos, todos estaríamos ali embaixo, transformando aquele rio no nosso refúgio particular, longe dos perigos que rondavam Derry, mergulhados apenas na nossa amizade e na magia efêmera de um dia de sol.

Nadei até a margem por um momento, observando o grupo. Henry e os outros estariam por aí, fazendo o que quer que fizessem, mas ali, com os Perdedores, eu me sentia em uma harmonia diferente. Eu era a ponte entre dois mundos, a garota que conseguia rir com os brutos e desenhar sonhos com os excluídos.

E enquanto o sol começava sua descida lenta no horizonte, eu sabia que aquele desenho de casal que eu fiz na aula era apenas o começo de muitas histórias que eu ainda queria viver e registrar naquelas páginas em branco.

— Ei, Hanna! — gritou Richie, finalmente pulando e caindo de um jeito totalmente desajeitado. — Me ajuda aqui, acho que engoli um peixe!

Eu ri, nadando de volta para o meio do rio.

— Deixa de ser dramático, Tozier! Se o peixe sobreviveu à sua boca, ele é um herói!

A tarde seguiu assim, entre mergulhos, risadas e a sensação de que, pelo menos por algumas horas, Derry era apenas uma cidade comum e nós éramos apenas jovens descobrindo o mundo, um salto de cada vez.
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