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Fandom: Nenhum
Criado: 16/06/2026
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RomanceDramaDor/ConfortoHistória DomésticaCrimePsicológicoSombrioEstudo de PersonagemFatias de VidaFofuraRealismoCiúmesLinguagem ExplícitaViolência Gráfica
O Santuário de Vidro e Tinta
A chuva fina que caía sobre a cidade de São Paulo não era suficiente para lavar a mancha de sangue que ainda marcava o asfalto da rua arborizada onde Eduarda cresceu. O bairro, um reduto de classe média alta conhecido pelo silêncio e pela segurança, havia sido violado. O corpo de um vizinho, um senhor que Eduarda cumprimentava todas as manhãs, fora encontrado ali, a poucos metros do portão de sua casa.
Dentro do quarto, Eduarda estava encolhida na poltrona, os joelhos colados ao peito e os dedos finos apertando as páginas de um livro de História da Arte que ela não conseguia ler. Seus olhos castanhos, geralmente tão doces, estavam nublados pelo medo. Ela era sensível demais para aquele tipo de realidade; a violência parecia uma frequência de rádio que ela não sabia como desligar.
O som de um motor potente rugindo na rua fez seu coração disparar. Ela conhecia aquele som. Era a caminhonete preta de Emanuel.
Segundos depois, o som de passos pesados e decididos ecoou pelo corredor da casa. A porta do quarto se abriu sem que ninguém batesse. Emanuel entrou como uma força da natureza, ainda vestindo a jaqueta de couro preta, o rosto rígido, uma máscara de tensão controlada. Atrás dele, Sara apareceu, impecável em um conjunto de alfaiataria justo, os cabelos loiros perfeitamente alinhados, mas com um brilho de impaciência no olhar.
— Acabou, Eduarda — sentenciou Emanuel. Sua voz não era alta, mas possuía uma gravidade que não admitia contestação. — Você vai arrumar suas coisas agora.
Eduarda levantou-se devagar, as mãos trêmulas.
— Emanuel, meus pais... eles disseram que a polícia já está cuidando de tudo... foi um caso isolado...
— Um caso isolado que aconteceu na porta da sua casa — ele a interrompeu, cruzando o espaço entre eles em dois passos largos. Ele segurou o rosto dela com as mãos grandes, os dedos calejados pelo uso das máquinas de tatuagem, mas o toque era surpreendentemente gentil, apesar da firmeza. — Eu não vou passar mais uma noite sem saber se você está respirando. Você não pertence mais a este lugar. Você é minha, e o meu lugar é onde eu posso te proteger.
Sara, encostada no batente da porta, soltou uma risada curta e irônica, embora seus olhos observassem a cena com uma mistura de possessividade e uma estranha empatia.
— Vamos logo, bonequinha — disse Sara, cruzando os braços, o que acentuava o brilho de seus acessórios caros. — O Emanuel quase causou três acidentes vindo para cá porque você não atendia o celular. Se você ficar aqui, ele vai acabar tendo um infarto ou matando alguém de estresse. E eu não estou a fim de administrar o império dele sozinha enquanto ele surta por sua causa.
— Eu só... eu preciso de tempo para explicar para a minha mãe — sussurrou Eduarda, buscando o peito de Emanuel, o perfume de sândalo e tabaco dele agindo como um sedativo imediato para sua ansiedade.
— Eu já falei com seu pai na sala — Emanuel disse, a mandíbula cerrada. — Ele entende que eu posso te dar uma segurança que esse bairro não oferece mais. Sara, pegue as malas no closet.
Sara revirou os olhos, mas obedeceu, movendo-se com a confiança de quem já se sentia dona da situação.
— Não precisa me olhar assim, Duda — comentou Sara enquanto abria o armário e começava a jogar as peças de roupas leves e tons pastéis de Eduarda dentro de uma mala de grife. — Vai ser melhor assim. A casa é enorme, eu estou cansada de ouvir o Emanuel reclamar que a cama está vazia de um lado, e sinceramente, você precisa de alguém que te tire dessa bolha de cristal antes que o mundo te quebre.
Eduarda sentiu-se pequena entre os dois, mas, pela primeira vez, a ideia de ceder não parecia uma derrota. A insegurança que a prendia à casa dos pais estava sendo substituída por uma necessidade visceral de proteção que só Emanuel emanava. Ela olhou para ele, vendo o cansaço nos olhos do homem que gerenciava estúdios pelo mundo, mas que parecia pronto para desmoronar se ela dissesse "não".
— Você promete que eu vou poder continuar meus estudos? — perguntou ela, a voz manhosa, buscando o conforto do abraço dele.
Emanuel relaxou os ombros pela primeira vez desde que recebera a notícia do crime. Ele a puxou para perto, enterrando o rosto no pescoço dela.
— Eu compro a faculdade se for preciso, pequena. Mas você vai morar comigo. Sob o meu teto. Sob o meu olhar.
A mudança foi um borrão de movimentos rápidos. Emanuel não permitiu que ela levasse muito; ele queria substituir tudo o que ela tinha por coisas novas, coisas que ele mesmo escolheria. Quando saíram da casa, os pais de Eduarda observavam da varanda com expressões que misturavam preocupação e alívio. Eles sabiam que, no mundo de Emanuel, a filha estaria cercada por muros altos e segurança armada.
No carro, o silêncio era preenchido apenas pelo som da chuva. Emanuel dirigia com uma mão no volante e a outra firmemente entrelaçada na mão de Eduarda. No banco de trás, Sara retocava o batom vermelho, observando o casal pelo retrovisor.
— Sabe, Duda — começou Sara, guardando o espelho na bolsa de couro legítimo —, agora que você vai estar lá o tempo todo, vamos ter que estabelecer algumas regras. Eu cuido dos negócios e da agenda do Emanuel. Você cuida de manter ele calmo e... bom, de ser essa coisa fofa que você é. Não tente interferir na minha administração e nós nos daremos muito bem.
— Eu não quero mandar em nada, Sara — respondeu Eduarda timidamente, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. — Eu só quero me sentir segura.
— E você vai — Emanuel interveio, sua voz soando como um juramento. — Ninguém toca no que é meu.
Ao chegarem à mansão de Emanuel, um refúgio de vidro, aço e concreto encravado em um dos condomínios mais exclusivos da cidade, Eduarda sentiu o peso da nova realidade. A casa exalava o poder dele. Havia obras de arte abstratas nas paredes e, no andar de cima, o estúdio particular onde ele desenhava suas tatuagens mais exclusivas.
Sara foi a primeira a descer, caminhando com seus saltos altos que estalavam no chão de mármore.
— Finalmente em casa! — exclamou a loira. — Vou pedir um jantar decente. Eduarda, suas coisas vão para a suíte principal. Emanuel, não se esqueça da reunião com Londres amanhã cedo pelo Zoom. Eles estão pressionando sobre a nova unidade em Camden Town.
Emanuel assentiu, mas seus olhos não deixaram Eduarda. Ele a guiou pelo hall de entrada, subindo as escadas largas. Quando entraram no quarto, o espaço era vasto, com uma vista panorâmica para as luzes da cidade.
— Este é o seu lugar agora — disse ele, fechando a porta e isolando os dois do resto do mundo, inclusive de Sara. — Eu sei que você tem medo, e eu sei que a Sara pode ser... excessiva. Mas aqui dentro, nada te alcança.
Eduarda caminhou até a janela, observando a distância que agora a separava da vida comum que levava. Ela se sentia como uma personagem de um dos livros de história que tanto amava: a protegida de um senhor de terras moderno, uma joia guardada em um cofre de luxo.
— É tudo tão grande — sussurrou ela, sentindo a timidez retornar ao perceber que não teria mais para onde fugir.
Emanuel aproximou-se por trás, envolvendo a cintura dela com os braços fortes. Ele sentiu a maciez do corpo esguio de Eduarda contra o seu, o contraste perfeito para sua própria rigidez.
— Você vai se acostumar. Eu vou te dar tudo o que você quiser. Livros, tintas, silêncio. Mas em troca, eu quero você aqui, todas as noites. Sem desculpas, sem visitas demoradas aos seus pais. Você agora faz parte do meu império, Eduarda.
Ela virou-se nos braços dele, os olhos expressivos buscando os dele. A natureza possessiva de Emanuel, que antes a assustava, agora servia como uma âncora.
— Você é muito mandão, Emanuel — murmurou ela, fazendo um biquinho manhoso que ela sabia que o desarmava.
Ele soltou um riso rouco, o primeiro do dia.
— Alguém tem que ser. Agora, vamos descer. Sara já deve estar reclamando da demora e eu não quero que ela comece a implicar com você logo na primeira noite.
O jantar foi uma dança estranha de dinâmicas. Sara dominava a conversa, falando sobre margens de lucro, novos pigmentos importados e a necessidade de Emanuel viajar para Londres no próximo mês. Eduarda comia em silêncio, observando como Sara se movia com uma confiança que ela invejava, mas também percebendo como Emanuel, apesar de ouvir Sara, buscava constantemente o contato visual com Eduarda, como se verificasse se ela ainda estava lá.
— Londres vai ser um problema — comentou Sara, servindo-se de vinho. — Se levarmos a Eduarda, ela vai ficar perdida enquanto estivermos nas reuniões. Se deixarmos ela aqui, você vai ter um ataque de nervos a cada cinco minutos longe do celular.
Emanuel franziu o cenho, o estresse acumulado transparecendo em sua postura.
— Ela vai conosco — decidiu ele. — Eu alugo um apartamento perto do estúdio. Ela pode visitar os museus durante o dia com segurança particular e à noite estará comigo.
— Museus em Londres? — Sara olhou para Eduarda com um sorriso sarcástico, mas não cruel. — É, acho que isso combina com você, bonequinha. Só tente não se perder em algum quadro do século dezoito. Temos eventos sociais para ir, e você vai precisar de roupas que não pareçam ter sido compradas em uma loja de bonecas de porcelana. Eu vou levar você às compras amanhã.
Eduarda olhou para Emanuel, buscando socorro, mas ele apenas assentiu.
— Deixe a Sara te ajudar com isso, pequena. Ela tem bom gosto para essas coisas de imagem. Eu quero que o mundo veja o que eu tenho, mas que saibam que ninguém pode tocar.
A aceitação de Eduarda era quase completa. O assassinato na sua rua fora o catalisador que faltava para quebrar sua resistência. Ela percebeu que, naquele triângulo, ela era o centro emocional, o ponto de suavidade que mantinha Emanuel humano e, de certa forma, dava a Sara um propósito de proteção que a loira jamais admitiria ter.
Mais tarde, quando a casa finalmente silenciou, Emanuel estava em seu escritório terminando alguns desenhos. Sara já havia se recolhido para seu próprio quarto após uma breve discussão sobre logística de negócios. Eduarda, vestindo uma camisola de seda clara que Emanuel havia comprado para ela meses atrás, entrou no escritório silenciosamente.
— Não consegue dormir? — perguntou ele, sem tirar os olhos do papel.
— Está muito silencioso aqui — disse ela, aproximando-se e sentando-se no braço da cadeira dele.
Emanuel largou o lápis e puxou-a para o seu colo. Ele a abraçou apertado, sentindo a fragilidade dela, a doçura que o impedia de se tornar um homem completamente frio e implacável.
— O silêncio é bom, Eduarda. Significa que está tudo sob controle.
— Você realmente vai me levar para Londres? — perguntou ela, escondendo o rosto no ombro dele.
— Eu nunca mais vou deixar você para trás — ele afirmou, a voz carregada de uma promessa sombria e apaixonada. — Onde quer que o meu trabalho me leve, você e a Sara estarão comigo. Eu construí tudo isso para nós.
Eduarda fechou os olhos, sentindo-se finalmente segura. O mundo lá fora podia ser perigoso, as ruas podiam estar manchadas de sangue e os julgamentos da família de Emanuel na Amazônia podiam ser ácidos, mas dentro daquele santuário de vidro e tinta, ela era a protegida do rei. E, pela primeira vez, a ideia de pertencer totalmente a alguém não parecia uma prisão, mas o único lugar onde ela realmente podia respirar.
— Eu te amo, Emanuel — sussurrou ela, cedendo totalmente à sua nova vida.
Emanuel não respondeu com palavras. Ele apenas a apertou mais forte, o olhar fixo na janela, vigiando a noite, pronto para destruir qualquer coisa que ousasse perturbar a paz da mulher que ele finalmente havia conseguido trazer para casa. A transição estava completa. O império de Emanuel estava, enfim, unificado sob o mesmo teto.
Dentro do quarto, Eduarda estava encolhida na poltrona, os joelhos colados ao peito e os dedos finos apertando as páginas de um livro de História da Arte que ela não conseguia ler. Seus olhos castanhos, geralmente tão doces, estavam nublados pelo medo. Ela era sensível demais para aquele tipo de realidade; a violência parecia uma frequência de rádio que ela não sabia como desligar.
O som de um motor potente rugindo na rua fez seu coração disparar. Ela conhecia aquele som. Era a caminhonete preta de Emanuel.
Segundos depois, o som de passos pesados e decididos ecoou pelo corredor da casa. A porta do quarto se abriu sem que ninguém batesse. Emanuel entrou como uma força da natureza, ainda vestindo a jaqueta de couro preta, o rosto rígido, uma máscara de tensão controlada. Atrás dele, Sara apareceu, impecável em um conjunto de alfaiataria justo, os cabelos loiros perfeitamente alinhados, mas com um brilho de impaciência no olhar.
— Acabou, Eduarda — sentenciou Emanuel. Sua voz não era alta, mas possuía uma gravidade que não admitia contestação. — Você vai arrumar suas coisas agora.
Eduarda levantou-se devagar, as mãos trêmulas.
— Emanuel, meus pais... eles disseram que a polícia já está cuidando de tudo... foi um caso isolado...
— Um caso isolado que aconteceu na porta da sua casa — ele a interrompeu, cruzando o espaço entre eles em dois passos largos. Ele segurou o rosto dela com as mãos grandes, os dedos calejados pelo uso das máquinas de tatuagem, mas o toque era surpreendentemente gentil, apesar da firmeza. — Eu não vou passar mais uma noite sem saber se você está respirando. Você não pertence mais a este lugar. Você é minha, e o meu lugar é onde eu posso te proteger.
Sara, encostada no batente da porta, soltou uma risada curta e irônica, embora seus olhos observassem a cena com uma mistura de possessividade e uma estranha empatia.
— Vamos logo, bonequinha — disse Sara, cruzando os braços, o que acentuava o brilho de seus acessórios caros. — O Emanuel quase causou três acidentes vindo para cá porque você não atendia o celular. Se você ficar aqui, ele vai acabar tendo um infarto ou matando alguém de estresse. E eu não estou a fim de administrar o império dele sozinha enquanto ele surta por sua causa.
— Eu só... eu preciso de tempo para explicar para a minha mãe — sussurrou Eduarda, buscando o peito de Emanuel, o perfume de sândalo e tabaco dele agindo como um sedativo imediato para sua ansiedade.
— Eu já falei com seu pai na sala — Emanuel disse, a mandíbula cerrada. — Ele entende que eu posso te dar uma segurança que esse bairro não oferece mais. Sara, pegue as malas no closet.
Sara revirou os olhos, mas obedeceu, movendo-se com a confiança de quem já se sentia dona da situação.
— Não precisa me olhar assim, Duda — comentou Sara enquanto abria o armário e começava a jogar as peças de roupas leves e tons pastéis de Eduarda dentro de uma mala de grife. — Vai ser melhor assim. A casa é enorme, eu estou cansada de ouvir o Emanuel reclamar que a cama está vazia de um lado, e sinceramente, você precisa de alguém que te tire dessa bolha de cristal antes que o mundo te quebre.
Eduarda sentiu-se pequena entre os dois, mas, pela primeira vez, a ideia de ceder não parecia uma derrota. A insegurança que a prendia à casa dos pais estava sendo substituída por uma necessidade visceral de proteção que só Emanuel emanava. Ela olhou para ele, vendo o cansaço nos olhos do homem que gerenciava estúdios pelo mundo, mas que parecia pronto para desmoronar se ela dissesse "não".
— Você promete que eu vou poder continuar meus estudos? — perguntou ela, a voz manhosa, buscando o conforto do abraço dele.
Emanuel relaxou os ombros pela primeira vez desde que recebera a notícia do crime. Ele a puxou para perto, enterrando o rosto no pescoço dela.
— Eu compro a faculdade se for preciso, pequena. Mas você vai morar comigo. Sob o meu teto. Sob o meu olhar.
A mudança foi um borrão de movimentos rápidos. Emanuel não permitiu que ela levasse muito; ele queria substituir tudo o que ela tinha por coisas novas, coisas que ele mesmo escolheria. Quando saíram da casa, os pais de Eduarda observavam da varanda com expressões que misturavam preocupação e alívio. Eles sabiam que, no mundo de Emanuel, a filha estaria cercada por muros altos e segurança armada.
No carro, o silêncio era preenchido apenas pelo som da chuva. Emanuel dirigia com uma mão no volante e a outra firmemente entrelaçada na mão de Eduarda. No banco de trás, Sara retocava o batom vermelho, observando o casal pelo retrovisor.
— Sabe, Duda — começou Sara, guardando o espelho na bolsa de couro legítimo —, agora que você vai estar lá o tempo todo, vamos ter que estabelecer algumas regras. Eu cuido dos negócios e da agenda do Emanuel. Você cuida de manter ele calmo e... bom, de ser essa coisa fofa que você é. Não tente interferir na minha administração e nós nos daremos muito bem.
— Eu não quero mandar em nada, Sara — respondeu Eduarda timidamente, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. — Eu só quero me sentir segura.
— E você vai — Emanuel interveio, sua voz soando como um juramento. — Ninguém toca no que é meu.
Ao chegarem à mansão de Emanuel, um refúgio de vidro, aço e concreto encravado em um dos condomínios mais exclusivos da cidade, Eduarda sentiu o peso da nova realidade. A casa exalava o poder dele. Havia obras de arte abstratas nas paredes e, no andar de cima, o estúdio particular onde ele desenhava suas tatuagens mais exclusivas.
Sara foi a primeira a descer, caminhando com seus saltos altos que estalavam no chão de mármore.
— Finalmente em casa! — exclamou a loira. — Vou pedir um jantar decente. Eduarda, suas coisas vão para a suíte principal. Emanuel, não se esqueça da reunião com Londres amanhã cedo pelo Zoom. Eles estão pressionando sobre a nova unidade em Camden Town.
Emanuel assentiu, mas seus olhos não deixaram Eduarda. Ele a guiou pelo hall de entrada, subindo as escadas largas. Quando entraram no quarto, o espaço era vasto, com uma vista panorâmica para as luzes da cidade.
— Este é o seu lugar agora — disse ele, fechando a porta e isolando os dois do resto do mundo, inclusive de Sara. — Eu sei que você tem medo, e eu sei que a Sara pode ser... excessiva. Mas aqui dentro, nada te alcança.
Eduarda caminhou até a janela, observando a distância que agora a separava da vida comum que levava. Ela se sentia como uma personagem de um dos livros de história que tanto amava: a protegida de um senhor de terras moderno, uma joia guardada em um cofre de luxo.
— É tudo tão grande — sussurrou ela, sentindo a timidez retornar ao perceber que não teria mais para onde fugir.
Emanuel aproximou-se por trás, envolvendo a cintura dela com os braços fortes. Ele sentiu a maciez do corpo esguio de Eduarda contra o seu, o contraste perfeito para sua própria rigidez.
— Você vai se acostumar. Eu vou te dar tudo o que você quiser. Livros, tintas, silêncio. Mas em troca, eu quero você aqui, todas as noites. Sem desculpas, sem visitas demoradas aos seus pais. Você agora faz parte do meu império, Eduarda.
Ela virou-se nos braços dele, os olhos expressivos buscando os dele. A natureza possessiva de Emanuel, que antes a assustava, agora servia como uma âncora.
— Você é muito mandão, Emanuel — murmurou ela, fazendo um biquinho manhoso que ela sabia que o desarmava.
Ele soltou um riso rouco, o primeiro do dia.
— Alguém tem que ser. Agora, vamos descer. Sara já deve estar reclamando da demora e eu não quero que ela comece a implicar com você logo na primeira noite.
O jantar foi uma dança estranha de dinâmicas. Sara dominava a conversa, falando sobre margens de lucro, novos pigmentos importados e a necessidade de Emanuel viajar para Londres no próximo mês. Eduarda comia em silêncio, observando como Sara se movia com uma confiança que ela invejava, mas também percebendo como Emanuel, apesar de ouvir Sara, buscava constantemente o contato visual com Eduarda, como se verificasse se ela ainda estava lá.
— Londres vai ser um problema — comentou Sara, servindo-se de vinho. — Se levarmos a Eduarda, ela vai ficar perdida enquanto estivermos nas reuniões. Se deixarmos ela aqui, você vai ter um ataque de nervos a cada cinco minutos longe do celular.
Emanuel franziu o cenho, o estresse acumulado transparecendo em sua postura.
— Ela vai conosco — decidiu ele. — Eu alugo um apartamento perto do estúdio. Ela pode visitar os museus durante o dia com segurança particular e à noite estará comigo.
— Museus em Londres? — Sara olhou para Eduarda com um sorriso sarcástico, mas não cruel. — É, acho que isso combina com você, bonequinha. Só tente não se perder em algum quadro do século dezoito. Temos eventos sociais para ir, e você vai precisar de roupas que não pareçam ter sido compradas em uma loja de bonecas de porcelana. Eu vou levar você às compras amanhã.
Eduarda olhou para Emanuel, buscando socorro, mas ele apenas assentiu.
— Deixe a Sara te ajudar com isso, pequena. Ela tem bom gosto para essas coisas de imagem. Eu quero que o mundo veja o que eu tenho, mas que saibam que ninguém pode tocar.
A aceitação de Eduarda era quase completa. O assassinato na sua rua fora o catalisador que faltava para quebrar sua resistência. Ela percebeu que, naquele triângulo, ela era o centro emocional, o ponto de suavidade que mantinha Emanuel humano e, de certa forma, dava a Sara um propósito de proteção que a loira jamais admitiria ter.
Mais tarde, quando a casa finalmente silenciou, Emanuel estava em seu escritório terminando alguns desenhos. Sara já havia se recolhido para seu próprio quarto após uma breve discussão sobre logística de negócios. Eduarda, vestindo uma camisola de seda clara que Emanuel havia comprado para ela meses atrás, entrou no escritório silenciosamente.
— Não consegue dormir? — perguntou ele, sem tirar os olhos do papel.
— Está muito silencioso aqui — disse ela, aproximando-se e sentando-se no braço da cadeira dele.
Emanuel largou o lápis e puxou-a para o seu colo. Ele a abraçou apertado, sentindo a fragilidade dela, a doçura que o impedia de se tornar um homem completamente frio e implacável.
— O silêncio é bom, Eduarda. Significa que está tudo sob controle.
— Você realmente vai me levar para Londres? — perguntou ela, escondendo o rosto no ombro dele.
— Eu nunca mais vou deixar você para trás — ele afirmou, a voz carregada de uma promessa sombria e apaixonada. — Onde quer que o meu trabalho me leve, você e a Sara estarão comigo. Eu construí tudo isso para nós.
Eduarda fechou os olhos, sentindo-se finalmente segura. O mundo lá fora podia ser perigoso, as ruas podiam estar manchadas de sangue e os julgamentos da família de Emanuel na Amazônia podiam ser ácidos, mas dentro daquele santuário de vidro e tinta, ela era a protegida do rei. E, pela primeira vez, a ideia de pertencer totalmente a alguém não parecia uma prisão, mas o único lugar onde ela realmente podia respirar.
— Eu te amo, Emanuel — sussurrou ela, cedendo totalmente à sua nova vida.
Emanuel não respondeu com palavras. Ele apenas a apertou mais forte, o olhar fixo na janela, vigiando a noite, pronto para destruir qualquer coisa que ousasse perturbar a paz da mulher que ele finalmente havia conseguido trazer para casa. A transição estava completa. O império de Emanuel estava, enfim, unificado sob o mesmo teto.
