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Capítulo 1

Fandom: The walking dead

Criado: 16/06/2026

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Ecos do Passado e Cinzas do Agora

O ar na pedreira era diferente do ar de Atlanta. Lá embaixo, na cidade, o cheiro era de metal, asfalto quente e morte em decomposição. Aqui, o aroma era de pinheiros, terra úmida e o suor humano de quem lutava para manter a sanidade. Mas para Cahide, o ar parecia mais pesado do que nunca.

Ela estava sentada na borda de uma rocha, observando o horizonte onde o sol começava a se pôr. Ao seu lado, Turna limpava meticulosamente a lâmina da sua pequena faca com um pedaço de flanela velha. A menina estava silenciosa, um silêncio que Cahide reconhecia bem: era o silêncio de quem observa as peças de um tabuleiro se movendo sem poder intervir.

— Ela olha para ele como se estivesse vendo um fantasma e como se estivesse arrependida, mamãe — disse Turna, sem levantar os olhos da faca.

Cahide não precisou perguntar de quem a filha estava falando. Lori Grimes. A esposa que Rick acreditava estar morta. A mulher que agora ocupava o centro do acampamento, cercada por uma aura de choque e alívio, enquanto Carl se agarrava às pernas do pai como se o mundo pudesse engoli-lo se ele soltasse.

— Ela está vendo um fantasma, Turna — respondeu Cahide, a voz firme, apesar do nó em seu estômago. — Para ela, o Rick morreu naquele hospital. O reencontro é um milagre que ninguém esperava.

— E para você, mamãe? — Turna finalmente olhou para ela, os olhos escuros e analíticos. — O que o Rick é agora?

Cahide hesitou. Como explicar a uma criança — que o mundo forçara a amadurecer rápido demais — que o homem que a protegeu, que a beijou com a urgência de quem não tem amanhã, agora era um homem dividido?

— Ele é o homem que nos trouxe até aqui. E é um homem que encontrou sua família. O resto... o resto o tempo vai dizer.

O som de passos sobre o cascalho interrompeu a conversa. Cahide se levantou instintivamente, a mão descendo para o cabo da faca presa ao cinto. Era Shane. O parceiro de Rick tinha um olhar sombrio, uma mistura de ressentimento e vigilância que Cahide ainda não conseguia decifrar completamente.

— O xerife quer falar com o grupo — disse Shane, parando a alguns metros de distância. Ele olhou para Cahide de cima a baixo, um brilho de desconfiança nos olhos. — Ele está organizando as vigílias. E quer agradecer formalmente por você ter ajudado a trazer o traseiro dele de volta para casa.

— Eu não fiz isso por gratidão, Shane — Cahide respondeu, sua postura de advogada assumindo o controle, fria e inabalável. — Fiz porque era o certo. E faria de novo.

Shane soltou um riso seco, quase um latido.

— É, eu percebi. Vocês dois parecem ter ficado bem próximos na estrada.

— O que você percebeu ou deixou de perceber não é problema meu — cortou ela, passando por ele e fazendo um sinal para Turna segui-la.

No centro do acampamento, em volta de uma fogueira ainda apagada, o grupo se reunia. Rick estava de pé, o chapéu de xerife nas mãos, parecendo exausto. Lori estava ao seu lado, a mão possessivamente pousada em seu braço. Quando os olhos de Rick encontraram os de Cahide, houve uma fração de segundo em que o mundo ao redor deles desapareceu. Foi uma troca de olhares carregada de eletricidade, culpa e uma promessa não dita.

— Precisamos de ordem — começou Rick, a voz projetando a autoridade que ele carregava naturalmente. — Atlanta foi um erro. Quase não saímos de lá. Se quisermos sobreviver aqui, precisamos de patrulhas constantes e de um inventário rigoroso de munição e comida.

— E quanto ao Merle? — gritou Daryl Dixon, surgindo das sombras com sua besta no ombro, o rosto vermelho de raiva. — Você deixou meu irmão algemado naquele telhado como se fosse lixo!

— Ele era um perigo para o grupo, Daryl — Rick respondeu, mantendo a calma. — Mas eu não vou deixar um homem para trás se houver uma chance. Vou voltar para buscá-lo.

Um murmúrio de protesto percorreu o acampamento. Lori apertou o braço dele com mais força.

— Rick, não! Você acabou de voltar — ela sussurrou, mas alto o suficiente para que Cahide ouvisse. — Você não pode nos deixar de novo. Não por causa daquele homem.

— Eu algemei aquele homem, Lori. É minha responsabilidade — disse Rick, embora seus olhos estivessem fixos em Cahide, como se buscasse nela qualquer tipo de validação.

Cahide deu um passo à frente, cruzando os braços. A advogada em seu íntimo sabia que aquela era uma missão suicida, mas a sobrevivente sabia que Rick não conseguiria viver consigo mesmo se não tentasse.

— Se ele for, eu vou junto — anunciou Cahide.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Lori olhou para Cahide pela primeira vez com total atenção, os olhos estreitados em uma mistura de ciúme e confusão.

— E quem é você exatamente? — perguntou Lori, a voz tingida de uma hostilidade mal disfarçada. — Rick mencionou que você o ajudou, mas não sabia que você fazia parte das decisões estratégicas deste grupo.

Cahide manteve o queixo erguido.

— Eu não faço parte da sua família, Lori. Mas faço parte do grupo que sobreviveu a Atlanta enquanto você estava aqui em cima, protegida. Eu conheço o caminho, conheço os telhados e sei como o Rick luta. Se ele vai entrar naquele inferno de novo, ele precisa de alguém que cubra as costas dele, não de alguém que o segure pelo braço.

— Chega — interrompeu Rick, a voz soando como um chicote. — Cahide tem razão sobre o terreno. Mas ninguém vai a lugar nenhum esta noite. Vamos descansar. Amanhã decidimos quem vai.

O grupo se dispersou lentamente. Cahide sentiu o olhar de Lori queimando em suas costas enquanto caminhava em direção à sua pequena barraca improvisada. Ela sentia a tensão vibrando no ar, uma tempestade que não tinha nada a ver com os mortos-vivos.

Mais tarde, quando a lua já estava alta e o acampamento mergulhado em um sono inquieto, Cahide sentiu uma presença do lado de fora de sua barraca. Ela pegou a faca, mas relaxou ao ouvir o sussurro familiar.

— Sou eu.

Ela abriu o zíper da barraca. Rick estava parado ali, as sombras das árvores dançando em seu rosto cansado. Sem dizer uma palavra, ele entrou. O espaço era pequeno, o que os forçava a uma proximidade quase dolorosa.

— Você não deveria estar aqui — sussurrou Cahide, embora suas mãos estivessem subindo para tocar os ombros dele. — Sua esposa está a poucos metros de distância.

— Eu sei — disse Rick, a voz rouca. Ele fechou os olhos por um momento, encostando a testa na dela. — Mas eu sinto que estou vivendo duas vidas ao mesmo tempo, Cahide. Em uma, eu sou o marido que voltou dos mortos. Na outra... na outra eu sou o homem que você salvou, que fez amor com você sob a água gelada, que descobriu o que é estar vivo outra vez.

— Você não pode ter as duas, Rick. Este mundo não permite esse tipo de luxo.

— Eu sei disso também — ele murmurou, as mãos encontrando a cintura dela, puxando-a para mais perto. — Mas por enquanto, apenas por alguns minutos, eu preciso saber que o que aconteceu entre nós foi real. Que não foi apenas o medo da morte nos empurrando um para o outro.

Cahide buscou os lábios dele, um beijo que começou desesperado e terminou com uma doçura triste. Era um beijo de despedida e de reafirmação.

— Foi real — ela disse contra os lábios dele. — Mas amanhã, quando o sol nascer, você é o líder deles. E eu sou a mulher que vai garantir que você volte vivo. Nada mais.

— Cahide...

— Vá embora, Rick. Antes que o Carl acorde. Antes que a mentira se torne insuportável.

Ele a olhou por um longo tempo, uma luta interna visível em seus olhos azuis. Por fim, ele assentiu, deixou um último beijo em sua testa e saiu da barraca tão silenciosamente quanto havia entrado.

Cahide deitou-se, mas o sono não veio. Ela pensou em Morgan e no rádio que Rick carregava. Pensou no helicóptero que viram em Atlanta — um sinal de que ainda havia um mundo ordenado em algum lugar, ou talvez apenas um remanescente de um poder que se recusava a morrer.

Mas, acima de tudo, ela pensou na expressão de Lori. A guerra pelo coração de Rick Grimes estava apenas começando, e Cahide sabia que, em um tribunal ou em um apocalipse, as batalhas mais sangrentas eram sempre as que envolviam o que restava de humanidade.

Pela manhã, o rádio de Rick chiou.

— Rick, você está na escuta? — a voz de Morgan era fraca, mas reconhecível através da estática.

Cahide se levantou, saindo da barraca a tempo de ver Rick correr para pegar o dispositivo.

— Morgan! Estou aqui. Você está bem? Onde você está?

— Estamos perto, Rick. Mas a estrada... a estrada está mudando. Há coisas aqui que não vimos antes. Homens, Rick. Homens com uniformes que não são da polícia nem do exército.

A transmissão foi cortada por uma interferência violenta. Rick olhou para o rádio, depois para Cahide, que já estava ao seu lado.

— Ele disse homens uniformizados? — perguntou ela, a mente jurídica já traçando possibilidades e perigos.

— Sim. E se eles não são exército, quem são? — Rick guardou o rádio, sua expressão endurecendo. — Esqueça o Merle por um momento. Temos um problema maior se houver outros grupos armados operando na região.

— Precisamos de patrulhas mais longas — sugeriu Cahide. — Vou levar o Daryl. Ele conhece estas matas melhor do que ninguém. Se houver alguém nos vigiando, ele vai encontrar os rastros.

— Tome cuidado, Cahide — disse Rick, a preocupação superando o protocolo de líder.

— Eu sempre tomo, xerife.

Enquanto se preparava para partir com o caçador ranzinza, Cahide sentiu o olhar de Turna sobre ela. A menina estava sentada perto de Carl, mas seus olhos estavam fixos na mãe. Turna entregou-lhe uma pequena pedra polida que encontrara na pedreira.

— Para dar sorte, mamãe — disse a menina. — O mundo está ficando menor, não está?

— Está, querida. E as pessoas estão ficando mais perigosas.

Cahide montou em um dos cavalos que o grupo havia conseguido. Ela olhou para Rick uma última vez antes de partir. O conflito com Lori, o mistério do helicóptero e a segurança do acampamento teriam que esperar. Naquele novo mundo, a sobrevivência era uma sentença de morte adiada dia após dia, e ela não pretendia deixar que o juiz batesse o martelo tão cedo.

A trilha na floresta era densa e o silêncio de Daryl Dixon era quase tão barulhento quanto um grito. Ele seguia à frente, rastreando sinais que apenas seus olhos treinados podiam ver. Cahide mantinha a mão no cabo de seu machado, os sentidos em alerta máximo. Cada estalo de galho parecia uma ameaça.

— Você é boa com isso? — perguntou Daryl subitamente, apontando para o machado sem desviar o olhar do chão.

— Melhor do que você imagina — respondeu ela. — Na Turquia, antes de ser advogada, meu pai me ensinou que uma ferramenta só é útil se você souber exatamente para que vai usá-la.

Daryl soltou um grunhido que poderia ser interpretado como respeito.

— O xerife confia em você. Isso é raro. Ele geralmente é um pé no saco com regras e distintivos.

— Ele mudou, Daryl. Todos mudamos. O homem que saiu daquele hospital não é o mesmo que está tentando ser o marido da Lori agora.

— É — disse Daryl, parando bruscamente e agachando-se. — E parece que não somos os únicos que mudaram as táticas. Olhe isso.

Cahide aproximou-se. No chão, escondido sob a folhagem seca, havia um fio de nylon quase invisível. Uma armadilha. Não era para zumbis — zumbis não olham para onde pisam. Era para pessoas.

— Morgan falou sobre homens uniformizados — sussurrou Cahide, sentindo um calafrio percorrer sua espinha. — Se eles estão cercando a pedreira, estamos em uma armadilha maior do que imaginamos.

— Vamos voltar — decidiu Daryl, levantando-se com a besta pronta. — Precisamos avisar o Grimes. Se houver uma guerra vindo, não quero ser pego de calças curtas no meio do mato.

Eles voltaram em ritmo acelerado. Ao chegarem ao acampamento, o clima estava ainda mais tenso. Shane e Rick estavam discutindo perto do caminhão, as vozes elevadas. Lori observava de longe, com uma expressão de pânico.

— Rick! — gritou Cahide, descendo do cavalo antes mesmo dele parar totalmente. — Daryl encontrou armadilhas. Estamos sendo vigiados.

Rick parou a discussão com Shane imediatamente. Ele caminhou até ela, a preocupação gravada em cada linha de seu rosto.

— Onde?

— A menos de dois quilômetros daqui, na trilha leste — respondeu Daryl. — Alguém está monitorando as entradas.

Rick olhou para o horizonte, para as montanhas que antes pareciam um refúgio e agora pareciam paredes de uma prisão. Ele então olhou para Cahide e, por um breve momento, a máscara de líder caiu.

— Cahide, pegue a Turna. Preparem as mochilas — ordenou ele, a voz baixa e urgente. — Se tivermos que sair daqui no meio da noite, não quero ninguém procurando por meias.

— Rick, o que você vai fazer? — perguntou Lori, aproximando-se com Carl.

— O que eu deveria ter feito desde o início — disse ele, olhando para Cahide com uma intensidade que a fez perder o fôlego. — Eu vou proteger o que é meu.

Naquela noite, Cahide não dormiu. Ela ficou sentada na entrada de sua barraca, o machado ao seu lado, observando a fogueira morrer. Ela sabia que a calmaria havia acabado. Entre os mortos que caminhavam, os vivos que caçavam e os corações que se partiam, a verdadeira luta pela vida estava apenas começando. E ela, Cahide, estava pronta para ser a última defesa de tudo o que amava.
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