
← Voltar à lista de fanfics
0 curtida
D
Fandom: Nenhum
Criado: 17/06/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoEstudo de PersonagemCiúmesAçãoSuspenseCrimeViolência GráficaSombrioHistória DomésticaHorrorEstupro
Entre o Traço e a Tinta
O estúdio central de Emanuel, no coração pulsante da cidade, era um reflexo exato de sua alma: organizado, minimalista e exalando uma autoridade silenciosa. O cheiro de álcool isopropílico e tinta fresca era o perfume que ele carregava na pele, misturado ao aroma caro do café que consumia em quantidades industriais. Sentado em sua cadeira de couro, ele observava alguns esboços, mas sua mente estava dividida entre as planilhas de faturamento que precisavam de revisão e a imagem persistente de uma jovem de olhar doce que ele vira mais cedo naquela semana.
A porta da sala privativa abriu-se sem cerimônia. Sara entrou com o impacto de um furacão dourado. O som de seus saltos agulha no piso de concreto polido era um aviso prévio de sua presença. O vestido vermelho, justo demais para um ambiente de trabalho comum, mas perfeito para o corpo escultural que ela ostentava com orgulho, brilhava sob as luzes LED.
— Emanuel, querido, os relatórios da unidade de Londres chegaram — disse ela, jogando uma pasta de couro sobre a mesa. Ela se inclinou, apoiando as mãos na mesa, deixando que o decote generoso de seus seios siliconados ficasse bem à vista. — A equipe de lá é eficiente, mas tentaram esconder uma pequena discrepância no estoque de agulhas. Já resolvi.
Emanuel levantou os olhos, a expressão séria e cansada suavizando-se apenas um pouco ao encontrar o rosto de Sara. Ele a amava. Amava sua competência agressiva, a forma como ela não tinha medo de ninguém e como ela era o pilar que mantinha a estrutura administrativa de seus negócios funcionando enquanto ele se perdia na arte.
— Bom trabalho, Sara. Eu sabia que você pegaria qualquer erro — ele respondeu, esticando o braço para puxá-la pela cintura.
Sara riu, um som rouco e confiante, e sentou-se no colo dele, passando os braços pelo pescoço do tatuador.
— Eu sempre pego. E por falar em pegar coisas... sua irmã ligou. Ela está na casa dos seus pais. E adivinha quem está lá com ela? Aquela coisinha fofa, a Eduarda.
O corpo de Emanuel ficou tenso por um milésimo de segundo, uma reação que não passou despercebida por Sara. Ela não se importava. Para ela, Eduarda era como um animal de estimação delicado: bonita de se ver, inofensiva e incapaz de competir com a mulher que ela era. Sara sabia que Emanuel sentia algo pela garota, mas em sua mente, ela era a rainha e Eduarda era apenas uma distração poética.
— Entendi — Emanuel disse, sua voz tornando-se mais rígida, voltando à sua fachada de controle. — Ela deve estar ajudando a minha irmã com algum trabalho da faculdade.
— Aquela menina é tão meiga, Emanuel. Às vezes dá vontade de colocar em um potinho — Sara zombou, levantando-se e ajeitando o vestido. — Ela é tão... transparente. Você deveria parar de ser tão frio com ela. A coitada parece que vai chorar toda vez que você entra na sala.
— Eu não sou frio. Sou profissional — ele mentiu, voltando a atenção para os papéis.
— Você é um mentiroso péssimo quando quer — Sara deu um tapinha no rosto dele e caminhou até a porta. — Vou terminar de organizar a logística da convenção de Tóquio. Não chegue tarde para o jantar. Eu comprei aquele vinho que você gosta.
Quando a porta se fechou, Emanuel soltou um suspiro pesado. Ele abriu a gaveta lateral de sua mesa e tirou um pequeno pacote de papel pardo, amarrado com um barbante rústico. Dentro, estavam os macarons de lavanda e mel que Eduarda tanto amava. Ele os comprara no caminho para o trabalho, sabendo que ela estaria na casa de seus pais hoje.
Ele queria as duas. Era uma ganância silenciosa que queimava em seu peito. Ele amava a força de Sara, o sexo explosivo, a parceria nos negócios. Mas ele também desejava a paz que Eduarda emanava, a vulnerabilidade que o fazia querer construir um muro ao redor dela para protegê-la do mundo.
***
Na sala de estar da mansão dos pais de Emanuel, o ambiente era muito mais suave. Eduarda estava sentada no tapete felpudo, rodeada por livros de História da Arte. Seus cabelos castanhos caíam sobre os ombros de forma desordenada, e ela usava um cardigã bege que parecia grande demais para seu corpo esguio.
— Duda, você está me ouvindo? — a irmã de Emanuel, Bianca, perguntou, rindo. — Eu disse que devíamos ir àquela festa no sábado.
Eduarda levantou os olhos grandes e expressivos, um pouco assustada com a interrupção de seus pensamentos.
— Ah, Bianca... eu não sei. Sabe que eu não gosto de lugares barulhentos. E se... e se o seu irmão estiver lá?
Bianca revirou os olhos, conhecendo bem a paixão secreta da amiga.
— O Emanuel? Ele raramente vai a essas festas, e quando vai, é para marcar presença com a Sara. Por que você ainda se importa? Ele mal fala com você.
Eduarda sentiu um aperto no coração. Era verdade. Emanuel era como uma estátua de gelo quando ela estava por perto. Ele mal a olhava nos olhos, e quando o fazia, sua expressão era tão severa que ela sentia vontade de se encolher.
— Eu sei — sussurrou ela, voltando a olhar para uma gravura de um quadro renascentista. — Ele me acha uma criança, eu sei disso.
— Ele é um idiota às vezes — Bianca disse, levantando-se para ir até a cozinha. — Mas ele deixou um pacote para você na mesa da entrada. Ele passou aqui mais cedo, antes de você chegar.
O coração de Eduarda deu um salto. Ela se levantou rapidamente, os pés descalços fazendo pouco barulho no chão de madeira, e correu até o hall. Lá, o pequeno pacote de papel pardo a esperava. Ela não precisava abrir para saber o que era. O cheiro sutil de lavanda e o cuidado com que o pacote fora fechado tinham a assinatura silenciosa de Emanuel.
— Ele se lembrou... — murmurou ela para si mesma, um sorriso tímido e doce iluminando seu rosto.
Era sempre assim. Ele a mantinha à distância, a tratava com uma frieza que doía, mas, nos bastidores, ele cuidava dela. Ele sabia que ela tinha tido uma semana difícil com as provas, sabia que ela se sentia ansiosa. Aqueles doces eram o seu jeito de dizer "eu estou observando você".
De repente, a porta da frente se abriu. O impacto do vento trouxe consigo o perfume amadeirado e forte de Emanuel. Ele entrou, a jaqueta de couro preta ainda sobre os ombros, a expressão fechada. Ele parou ao vê-la ali, segurando o pacote contra o peito como se fosse um tesouro.
— Emanuel! — ela exclamou, a voz saindo pequena e manhosa, a timidez a dominando instantaneamente.
— Eduarda — ele respondeu, a voz profunda e monótona. Ele não sorriu. — O que faz parada no corredor?
— Eu... eu estava só... — ela gaguejou, baixando o olhar para os próprios pés. — Obrigada pelos doces. Eles são os meus favoritos.
Emanuel deu um passo à frente, estreitando a distância entre eles. Ele era muito mais alto, sua presença física era esmagadora, emanando uma estabilidade que a fazia querer se apoiar nele e nunca mais soltar. Ele estendeu a mão, mas em vez de tocá-la, apenas ajeitou uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto dela, um gesto rápido e quase mecânico.
— Você precisa comer mais do que apenas doces, Eduarda. Está ficando muito magra — ele disse, o tom de voz carregado de uma autoridade protetora que beirava a irritação. — Bianca me disse que você esqueceu de almoçar ontem porque estava estudando. Não deixe que isso aconteça de novo.
— Eu esqueci, só isso... — ela murmurou, sentindo o rosto esquentar sob o toque breve dele. — Você não precisa se preocupar.
— Alguém precisa se preocupar com você — ele cortou, a rigidez voltando ao seu rosto. — Já que você parece ser incapaz de fazer isso sozinha.
Eduarda sentiu uma pontada de tristeza. Por que ele sempre falava com ela como se ela fosse um problema a ser resolvido? Ela queria que ele a visse como via Sara: uma mulher, uma parceira. Mas ela sabia que não era nada como Sara. Ela não tinha o brilho, a confiança ou o corpo escultural da namorada dele.
— Desculpe — disse ela, a voz embargada.
Emanuel sentiu um nó no estômago ao ver os olhos dela ficarem marejados. Sua primeira reação foi querer abraçá-la, esconder o rosto dela em seu pescoço e dizer que ela era a coisa mais preciosa de sua vida. Mas o controle que ele tanto prezava o impedia. Ele não podia quebrar aquela barreira, não ainda.
— Não peça desculpas. Apenas se cuide — ele disse, passando por ela sem olhar para trás. — Bianca! Onde estão os documentos que o papai pediu?
Eduarda ficou ali, sozinha no hall, apertando o pacote de macarons. Ela o amava tanto que chegava a doer, mas se sentia como uma sombra em sua vida.
Minutos depois, o som de um carro estacionando do lado de fora anunciou a chegada de Sara. Ela entrou na casa como se fosse a dona do lugar, carregando sacolas de compras e um sorriso radiante.
— Oh, olá, Duda! — Sara disse, aproximando-se e dando um beijo no ar perto do rosto da garota. — Ainda aqui com os livros? Você estuda demais, querida. Devia sair mais, passar um pouco de maquiagem, mostrar essas pernas.
Eduarda sorriu amarelo, sentindo-se ainda menor diante da loira.
— Oi, Sara. Eu gosto de estudar.
— Eu sei, eu sei. Você é uma fofa — Sara deu um tapinho carinhoso no ombro de Eduarda. — Emanuel já chegou? Ele me prometeu que íamos escolher os móveis novos para a cobertura hoje.
— Ele está lá dentro com a Bianca — respondeu Eduarda, tentando manter a voz firme.
Sara assentiu e seguiu para dentro, chamando por Emanuel com uma voz possessiva e alta. Eduarda observou-os da porta da sala. Ela viu quando Sara se jogou nos braços de Emanuel e como ele, apesar da expressão séria, a segurou pela cintura com firmeza.
Havia uma harmonia estranha entre os três, embora Eduarda não soubesse disso. Sara não via Eduarda como uma rival porque acreditava que o que Emanuel sentia pela garota era um tipo de carinho platônico e protetor, algo que não ameaçava o trono dela. E Emanuel... Emanuel vivia em um equilíbrio precário, alimentando seu amor por Sara com a realidade do dia a dia e seu amor por Eduarda com sonhos e gestos silenciosos.
Naquela noite, após o jantar, Emanuel estava na varanda da casa de seus pais, fumando um cigarro raramente aceso, observando o jardim. Eduarda apareceu na porta de vidro, hesitante.
— Emanuel? — chamou ela baixinho.
Ele virou-se, a fumaça do cigarro criando uma névoa ao seu redor.
— O que foi, Eduarda? Já está tarde.
— Eu só queria dizer... — ela caminhou até ele, parando a poucos centímetros. A luz da lua tornava sua pele ainda mais pálida e seus olhos mais profundos. — Eu sei que você não gosta quando eu me meto em confusão com a Bianca. E eu sei que eu sou... um pouco demais às vezes. Mas eu valorizo muito o que você faz por mim. Mesmo que você seja frio comigo.
Emanuel apagou o cigarro no cinzeiro de pedra. Ele deu um passo à frente, encurralando-a levemente contra a mureta da varanda. O cheiro de perfume doce dela o atingiu em cheio, desarmando sua lógica.
— Eu não sou frio porque quero, Eduarda — ele confessou, a voz saindo mais baixa e rouca do que pretendia. — Eu sou frio porque é a única forma de manter as coisas no lugar.
— Que coisas? — perguntou ela, a ingenuidade brilhando em seu olhar.
Emanuel levou a mão ao rosto dela, desta vez deixando os dedos traçarem a linha de sua mandíbula com uma lentidão torturante.
— Coisas que você é jovem demais para entender agora. Mas entenda uma coisa: se alguém encostar um dedo em você, ou se você precisar de qualquer coisa, não importa a hora ou onde eu esteja com a Sara... você me chama. Entendeu?
Eduarda assentiu, o coração batendo tão forte que ela achou que ele pudesse ouvir.
— Sim, Emanuel.
— Ótimo — ele se afastou abruptamente, a máscara de controle voltando ao lugar. — Vá dormir. Amanhã você tem aula cedo.
Ela obedeceu, entrando na casa com as pernas trêmulas. Emanuel ficou para trás, olhando para as próprias mãos. Ele amava Sara. Ele amava a vida que construíram. Mas ele sabia, com a clareza de quem traça uma tatuagem definitiva na pele, que Eduarda era uma marca que ele nunca conseguiria apagar. E, mais cedo ou mais tarde, ele teria que parar de se esconder atrás da frieza e reivindicar o que sentia, mesmo que isso significasse quebrar todas as regras que ele mesmo impôs.
Lá dentro, Sara observava a cena pela fresta da cortina da sala de jantar. Ela deu um gole em seu vinho, um sorriso enigmático nos lábios perfeitamente pintados de batom nude.
— Pode tentar, Emanuel — murmurou ela para si mesma, sem qualquer traço de ciúme, apenas uma confiança absoluta. — Mas no final do dia, você sempre volta para a minha cama. E se quiser a pequena Duda também... bem, eu sempre disse que nossa cobertura era grande demais para apenas duas pessoas.
O jogo estava apenas começando, e as peças, embora sentissem o peso das emoções, ainda não tinham ideia de quão longe Emanuel estava disposto a ir para ter tudo o que desejava.
A porta da sala privativa abriu-se sem cerimônia. Sara entrou com o impacto de um furacão dourado. O som de seus saltos agulha no piso de concreto polido era um aviso prévio de sua presença. O vestido vermelho, justo demais para um ambiente de trabalho comum, mas perfeito para o corpo escultural que ela ostentava com orgulho, brilhava sob as luzes LED.
— Emanuel, querido, os relatórios da unidade de Londres chegaram — disse ela, jogando uma pasta de couro sobre a mesa. Ela se inclinou, apoiando as mãos na mesa, deixando que o decote generoso de seus seios siliconados ficasse bem à vista. — A equipe de lá é eficiente, mas tentaram esconder uma pequena discrepância no estoque de agulhas. Já resolvi.
Emanuel levantou os olhos, a expressão séria e cansada suavizando-se apenas um pouco ao encontrar o rosto de Sara. Ele a amava. Amava sua competência agressiva, a forma como ela não tinha medo de ninguém e como ela era o pilar que mantinha a estrutura administrativa de seus negócios funcionando enquanto ele se perdia na arte.
— Bom trabalho, Sara. Eu sabia que você pegaria qualquer erro — ele respondeu, esticando o braço para puxá-la pela cintura.
Sara riu, um som rouco e confiante, e sentou-se no colo dele, passando os braços pelo pescoço do tatuador.
— Eu sempre pego. E por falar em pegar coisas... sua irmã ligou. Ela está na casa dos seus pais. E adivinha quem está lá com ela? Aquela coisinha fofa, a Eduarda.
O corpo de Emanuel ficou tenso por um milésimo de segundo, uma reação que não passou despercebida por Sara. Ela não se importava. Para ela, Eduarda era como um animal de estimação delicado: bonita de se ver, inofensiva e incapaz de competir com a mulher que ela era. Sara sabia que Emanuel sentia algo pela garota, mas em sua mente, ela era a rainha e Eduarda era apenas uma distração poética.
— Entendi — Emanuel disse, sua voz tornando-se mais rígida, voltando à sua fachada de controle. — Ela deve estar ajudando a minha irmã com algum trabalho da faculdade.
— Aquela menina é tão meiga, Emanuel. Às vezes dá vontade de colocar em um potinho — Sara zombou, levantando-se e ajeitando o vestido. — Ela é tão... transparente. Você deveria parar de ser tão frio com ela. A coitada parece que vai chorar toda vez que você entra na sala.
— Eu não sou frio. Sou profissional — ele mentiu, voltando a atenção para os papéis.
— Você é um mentiroso péssimo quando quer — Sara deu um tapinha no rosto dele e caminhou até a porta. — Vou terminar de organizar a logística da convenção de Tóquio. Não chegue tarde para o jantar. Eu comprei aquele vinho que você gosta.
Quando a porta se fechou, Emanuel soltou um suspiro pesado. Ele abriu a gaveta lateral de sua mesa e tirou um pequeno pacote de papel pardo, amarrado com um barbante rústico. Dentro, estavam os macarons de lavanda e mel que Eduarda tanto amava. Ele os comprara no caminho para o trabalho, sabendo que ela estaria na casa de seus pais hoje.
Ele queria as duas. Era uma ganância silenciosa que queimava em seu peito. Ele amava a força de Sara, o sexo explosivo, a parceria nos negócios. Mas ele também desejava a paz que Eduarda emanava, a vulnerabilidade que o fazia querer construir um muro ao redor dela para protegê-la do mundo.
***
Na sala de estar da mansão dos pais de Emanuel, o ambiente era muito mais suave. Eduarda estava sentada no tapete felpudo, rodeada por livros de História da Arte. Seus cabelos castanhos caíam sobre os ombros de forma desordenada, e ela usava um cardigã bege que parecia grande demais para seu corpo esguio.
— Duda, você está me ouvindo? — a irmã de Emanuel, Bianca, perguntou, rindo. — Eu disse que devíamos ir àquela festa no sábado.
Eduarda levantou os olhos grandes e expressivos, um pouco assustada com a interrupção de seus pensamentos.
— Ah, Bianca... eu não sei. Sabe que eu não gosto de lugares barulhentos. E se... e se o seu irmão estiver lá?
Bianca revirou os olhos, conhecendo bem a paixão secreta da amiga.
— O Emanuel? Ele raramente vai a essas festas, e quando vai, é para marcar presença com a Sara. Por que você ainda se importa? Ele mal fala com você.
Eduarda sentiu um aperto no coração. Era verdade. Emanuel era como uma estátua de gelo quando ela estava por perto. Ele mal a olhava nos olhos, e quando o fazia, sua expressão era tão severa que ela sentia vontade de se encolher.
— Eu sei — sussurrou ela, voltando a olhar para uma gravura de um quadro renascentista. — Ele me acha uma criança, eu sei disso.
— Ele é um idiota às vezes — Bianca disse, levantando-se para ir até a cozinha. — Mas ele deixou um pacote para você na mesa da entrada. Ele passou aqui mais cedo, antes de você chegar.
O coração de Eduarda deu um salto. Ela se levantou rapidamente, os pés descalços fazendo pouco barulho no chão de madeira, e correu até o hall. Lá, o pequeno pacote de papel pardo a esperava. Ela não precisava abrir para saber o que era. O cheiro sutil de lavanda e o cuidado com que o pacote fora fechado tinham a assinatura silenciosa de Emanuel.
— Ele se lembrou... — murmurou ela para si mesma, um sorriso tímido e doce iluminando seu rosto.
Era sempre assim. Ele a mantinha à distância, a tratava com uma frieza que doía, mas, nos bastidores, ele cuidava dela. Ele sabia que ela tinha tido uma semana difícil com as provas, sabia que ela se sentia ansiosa. Aqueles doces eram o seu jeito de dizer "eu estou observando você".
De repente, a porta da frente se abriu. O impacto do vento trouxe consigo o perfume amadeirado e forte de Emanuel. Ele entrou, a jaqueta de couro preta ainda sobre os ombros, a expressão fechada. Ele parou ao vê-la ali, segurando o pacote contra o peito como se fosse um tesouro.
— Emanuel! — ela exclamou, a voz saindo pequena e manhosa, a timidez a dominando instantaneamente.
— Eduarda — ele respondeu, a voz profunda e monótona. Ele não sorriu. — O que faz parada no corredor?
— Eu... eu estava só... — ela gaguejou, baixando o olhar para os próprios pés. — Obrigada pelos doces. Eles são os meus favoritos.
Emanuel deu um passo à frente, estreitando a distância entre eles. Ele era muito mais alto, sua presença física era esmagadora, emanando uma estabilidade que a fazia querer se apoiar nele e nunca mais soltar. Ele estendeu a mão, mas em vez de tocá-la, apenas ajeitou uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto dela, um gesto rápido e quase mecânico.
— Você precisa comer mais do que apenas doces, Eduarda. Está ficando muito magra — ele disse, o tom de voz carregado de uma autoridade protetora que beirava a irritação. — Bianca me disse que você esqueceu de almoçar ontem porque estava estudando. Não deixe que isso aconteça de novo.
— Eu esqueci, só isso... — ela murmurou, sentindo o rosto esquentar sob o toque breve dele. — Você não precisa se preocupar.
— Alguém precisa se preocupar com você — ele cortou, a rigidez voltando ao seu rosto. — Já que você parece ser incapaz de fazer isso sozinha.
Eduarda sentiu uma pontada de tristeza. Por que ele sempre falava com ela como se ela fosse um problema a ser resolvido? Ela queria que ele a visse como via Sara: uma mulher, uma parceira. Mas ela sabia que não era nada como Sara. Ela não tinha o brilho, a confiança ou o corpo escultural da namorada dele.
— Desculpe — disse ela, a voz embargada.
Emanuel sentiu um nó no estômago ao ver os olhos dela ficarem marejados. Sua primeira reação foi querer abraçá-la, esconder o rosto dela em seu pescoço e dizer que ela era a coisa mais preciosa de sua vida. Mas o controle que ele tanto prezava o impedia. Ele não podia quebrar aquela barreira, não ainda.
— Não peça desculpas. Apenas se cuide — ele disse, passando por ela sem olhar para trás. — Bianca! Onde estão os documentos que o papai pediu?
Eduarda ficou ali, sozinha no hall, apertando o pacote de macarons. Ela o amava tanto que chegava a doer, mas se sentia como uma sombra em sua vida.
Minutos depois, o som de um carro estacionando do lado de fora anunciou a chegada de Sara. Ela entrou na casa como se fosse a dona do lugar, carregando sacolas de compras e um sorriso radiante.
— Oh, olá, Duda! — Sara disse, aproximando-se e dando um beijo no ar perto do rosto da garota. — Ainda aqui com os livros? Você estuda demais, querida. Devia sair mais, passar um pouco de maquiagem, mostrar essas pernas.
Eduarda sorriu amarelo, sentindo-se ainda menor diante da loira.
— Oi, Sara. Eu gosto de estudar.
— Eu sei, eu sei. Você é uma fofa — Sara deu um tapinho carinhoso no ombro de Eduarda. — Emanuel já chegou? Ele me prometeu que íamos escolher os móveis novos para a cobertura hoje.
— Ele está lá dentro com a Bianca — respondeu Eduarda, tentando manter a voz firme.
Sara assentiu e seguiu para dentro, chamando por Emanuel com uma voz possessiva e alta. Eduarda observou-os da porta da sala. Ela viu quando Sara se jogou nos braços de Emanuel e como ele, apesar da expressão séria, a segurou pela cintura com firmeza.
Havia uma harmonia estranha entre os três, embora Eduarda não soubesse disso. Sara não via Eduarda como uma rival porque acreditava que o que Emanuel sentia pela garota era um tipo de carinho platônico e protetor, algo que não ameaçava o trono dela. E Emanuel... Emanuel vivia em um equilíbrio precário, alimentando seu amor por Sara com a realidade do dia a dia e seu amor por Eduarda com sonhos e gestos silenciosos.
Naquela noite, após o jantar, Emanuel estava na varanda da casa de seus pais, fumando um cigarro raramente aceso, observando o jardim. Eduarda apareceu na porta de vidro, hesitante.
— Emanuel? — chamou ela baixinho.
Ele virou-se, a fumaça do cigarro criando uma névoa ao seu redor.
— O que foi, Eduarda? Já está tarde.
— Eu só queria dizer... — ela caminhou até ele, parando a poucos centímetros. A luz da lua tornava sua pele ainda mais pálida e seus olhos mais profundos. — Eu sei que você não gosta quando eu me meto em confusão com a Bianca. E eu sei que eu sou... um pouco demais às vezes. Mas eu valorizo muito o que você faz por mim. Mesmo que você seja frio comigo.
Emanuel apagou o cigarro no cinzeiro de pedra. Ele deu um passo à frente, encurralando-a levemente contra a mureta da varanda. O cheiro de perfume doce dela o atingiu em cheio, desarmando sua lógica.
— Eu não sou frio porque quero, Eduarda — ele confessou, a voz saindo mais baixa e rouca do que pretendia. — Eu sou frio porque é a única forma de manter as coisas no lugar.
— Que coisas? — perguntou ela, a ingenuidade brilhando em seu olhar.
Emanuel levou a mão ao rosto dela, desta vez deixando os dedos traçarem a linha de sua mandíbula com uma lentidão torturante.
— Coisas que você é jovem demais para entender agora. Mas entenda uma coisa: se alguém encostar um dedo em você, ou se você precisar de qualquer coisa, não importa a hora ou onde eu esteja com a Sara... você me chama. Entendeu?
Eduarda assentiu, o coração batendo tão forte que ela achou que ele pudesse ouvir.
— Sim, Emanuel.
— Ótimo — ele se afastou abruptamente, a máscara de controle voltando ao lugar. — Vá dormir. Amanhã você tem aula cedo.
Ela obedeceu, entrando na casa com as pernas trêmulas. Emanuel ficou para trás, olhando para as próprias mãos. Ele amava Sara. Ele amava a vida que construíram. Mas ele sabia, com a clareza de quem traça uma tatuagem definitiva na pele, que Eduarda era uma marca que ele nunca conseguiria apagar. E, mais cedo ou mais tarde, ele teria que parar de se esconder atrás da frieza e reivindicar o que sentia, mesmo que isso significasse quebrar todas as regras que ele mesmo impôs.
Lá dentro, Sara observava a cena pela fresta da cortina da sala de jantar. Ela deu um gole em seu vinho, um sorriso enigmático nos lábios perfeitamente pintados de batom nude.
— Pode tentar, Emanuel — murmurou ela para si mesma, sem qualquer traço de ciúme, apenas uma confiança absoluta. — Mas no final do dia, você sempre volta para a minha cama. E se quiser a pequena Duda também... bem, eu sempre disse que nossa cobertura era grande demais para apenas duas pessoas.
O jogo estava apenas começando, e as peças, embora sentissem o peso das emoções, ainda não tinham ideia de quão longe Emanuel estava disposto a ir para ter tudo o que desejava.
