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Fandom: Nenhum

Criado: 17/06/2026

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Entre o Caos e o Carinho

O som da televisão estava no volume máximo, preenchendo a sala luxuosa da cobertura de Emanuel com a narração frenética de um jogo de futebol decisivo. Para qualquer outro homem, aquele seria o momento de relaxamento após uma semana exaustiva gerenciando dezenas de estúdios de tatuagem e investimentos ao redor do globo. Mas, para Emanuel, a paz era um conceito abstrato que parecia fugir por entre seus dedos toda vez que suas duas namoradas estavam no mesmo recinto.

Emanuel estava jogado no sofá de couro italiano, os olhos fixos na tela, mas sua mente trabalhava em dobro. Ele sentia o peso do estresse acumulado nos ombros. De um lado, Sara, com seu perfume importado forte e sua presença elétrica, ocupava o braço do sofá, mexendo incessantemente no tablet enquanto comentava sobre os relatórios financeiros da equipe de administração. Do outro, Eduarda, pequena e delicada, estava encolhida contra o seu flanco, a cabeça repousada em seu peito, buscando um contato físico que ele, naquele momento, sentia dificuldade em retribuir com a intensidade que ela desejava.

— Emanuel, juro por Deus, se esse fornecedor de tintas da unidade de Berlim continuar atrasando, eu mesma vou mandar um e-mail cancelando o contrato — disparou Sara, sem tirar os olhos da tela. Ela usava um vestido de seda vermelho extremamente curto, que realçava suas curvas acentuadas pelo silicone e sua postura de quem domina qualquer ambiente. — Você precisa ser mais rígido. Eles estão montando em cima da sua paciência.

Emanuel suspirou, sentindo a veia na sua têmpora pulsar.

— Sara, agora não. Eu só quero ver o jogo. A equipe de administração cuida disso na segunda-feira.

— Eu sou a sua equipe de administração, querido — ela retrucou com um sorriso irônico, jogando o cabelo loiro platinado para trás. — E você sabe que eu sou melhor que todos aqueles engravatados juntos.

Eduarda, sentindo a tensão subir, apertou a mão de Emanuel por baixo do tecido da camiseta dele. Ela parecia um pequeno pássaro tentando se esconder da tempestade. Seus olhos grandes e expressivos estavam voltados para Emanuel, implorando por uma atenção que não tinha nada a ver com negócios ou futebol.

— Manu... — sussurrou Eduarda, a voz doce e manhosa. — Você prometeu que a gente ia ver aquele documentário sobre o Renascimento hoje. Eu trouxe os meus livros da faculdade para te mostrar uma coisa...

Emanuel fechou os olhos por um segundo, tentando não explodir.

— Duda, meu amor, o jogo está no segundo tempo. Depois a gente vê isso, tá bem?

Eduarda fez um biquinho, os olhos levemente marejados. Ela era a personificação da sensibilidade, e qualquer tom de voz mais ríspido a atingia como um golpe físico.

— Mas você quase não parou em casa essa semana — ela murmurou, esfregando o rosto no ombro dele. — Eu sinto sua falta. Queria ficar quietinha com você, sem barulho de TV ou de trabalho.

Sara soltou uma risada anasalada, não por maldade, mas porque a fragilidade de Eduarda a divertia. Para Sara, Eduarda era como um bicho de estimação fofo: inofensiva, mas às vezes irritante em sua necessidade constante de carinho.

— Deixa o homem em paz, garota — disse Sara, cruzando as pernas e exibindo as unhas perfeitamente feitas. — Ele teve uma semana infernal. Se você quer silêncio, por que não aceita logo o convite dele e se muda para cá? Assim você teria o tempo que quisesse com ele de madrugada, em vez de ficar fazendo esse drama de visita.

O corpo de Eduarda retesou. Esse era o ponto sensível. Emanuel se endireitou no sofá, a irritação finalmente começando a transbordar.

— A Sara tem razão em uma coisa, Eduarda — disse ele, a voz firme e carregada de uma autoridade que ele usava nos estúdios. — Eu já te disse que tem um quarto enorme esperando por você. Eu não aguento mais ter que te levar na casa dos seus pais toda noite ou esperar o fim de semana para te ter aqui. Eu quero minhas duas mulheres sob o mesmo teto. Ponto final.

Eduarda baixou a cabeça, brincando com a barra de seu vestido floral leve.

— Meus pais... eles são tranquilos, Manu, você sabe. Eles gostam de você. Mas eu ainda sinto que... que é um passo muito grande. Eu gosto do meu cantinho. Aqui é tudo tão... intenso.

— Intenso é pouco — murmurou Emanuel, voltando a atenção para a TV enquanto o locutor gritava um lance de perigo. — Minha vida é um caos, Eduarda. Eu preciso de estabilidade. E estabilidade para mim é chegar em casa e encontrar vocês duas. Não ter que negociar sua presença como se fosse um favor.

— Ai, que dramática — Sara provocou, levantando-se e caminhando até o bar da sala com um andar que exalava confiança. — Duda, querida, você estuda História da Arte. Devia saber que grandes impérios só funcionam com união. O Emanuel é o imperador, eu sou a general e você... bem, você é a concubina favorita que ele quer proteger do mundo. Aceita logo.

— Eu não sou concubina! — Eduarda exclamou, sua voz falhando levemente pela falta de costume em confrontar Sara.

Emanuel deu um soco leve no braço do sofá, fazendo as duas se calarem instantaneamente.

— Chega! — Ele se levantou, a estatura imponente e o rosto fechado, a expressão de cansaço evidente sob a luz da sala. — Eu não consigo ver um jogo de noventa minutos sem que vocês comecem uma disputa de território ou de atenção. Sara, desliga esse tablet. Eduarda, para de choramingar.

O silêncio caiu sobre a sala, pesado e denso. Sara arqueou uma sobrancelha, surpresa com a explosão, mas manteve o sorriso de lado, achando a irritação dele atraente. Eduarda, por outro lado, encolheu-se ainda mais no sofá, parecendo que ia desaparecer entre as almofadas.

Emanuel caminhou até o bar, servindo-se de um uísque puro. Ele olhou para as duas. Eram opostos absolutos. Sara era o fogo, a competência administrativa, a mulher que não tinha medo de falar palavrão ou de enfrentar um tatuador folgado em uma convenção em Las Vegas. Eduarda era a água, a suavidade, a menina que trazia paz e uma sensibilidade artística que o fazia lembrar que existia beleza no mundo além do lucro e da pele marcada por agulhas.

Ele amava as duas. De formas terrivelmente diferentes, mas com a mesma intensidade.

— Eu trabalho doze, quatorze horas por dia — começou Emanuel, a voz agora mais baixa, mas ainda rígida. — Eu sustento um império para que a gente possa ter essa vida. Sara, eu valorizo tudo o que você faz nos estúdios, de verdade. Você é brilhante. Mas eu não quero ouvir sobre tintas de Berlim agora.

Sara assentiu lentamente, deixando o tablet de lado.

— E você, Duda — ele continuou, voltando o olhar para a morena que o observava com olhos úmidos —, eu quero cuidar de você. Quero que você pare de dar desculpas sobre seus pais. Eles são modernos, eles entendem nossa dinâmica. O que te impede é essa sua insegurança de achar que não pertence a este lugar. Você pertence a mim tanto quanto a Sara.

Eduarda levantou-se e caminhou timidamente até ele, abraçando sua cintura e escondendo o rosto em seu peito.

— Desculpa, Manu... eu só queria um pouco de carinho.

Emanuel suspirou, sentindo a maciez dela e o cheiro de sabonete floral. Sua raiva começou a dissipar, substituída por aquela proteção automática que Eduarda sempre despertava nele. Ele passou o braço pelos ombros dela, mas olhou para Sara, que ainda o observava do bar.

— Vem aqui, Sara — ele ordenou.

Ela não hesitou. Caminhou até ele com a elegância de uma predadora e parou do outro lado, envolvendo o braço livre de Emanuel.

— Você é um homem difícil, Emanuel — Sara sussurrou, encostando o corpo curvilíneo no dele. — Mas eu gosto de desafios.

— Eu só quero paz — ele murmurou, fechando os olhos enquanto sentia as duas namoradas contra si. — Só um jogo de futebol em paz. É pedir muito?

— É — responderam as duas em coro.

Emanuel soltou uma risada curta e seca, a primeira da noite.

— Pois bem. Já que o jogo acabou e meu time perdeu, vamos fazer o seguinte. Sara, você vai pedir o jantar. Nada de dieta hoje, eu quero algo substancial. E Eduarda, você vai pegar esse seu livro de arte e a gente vai deitar na cama. Eu ouço você falar sobre seus quadros até eu pegar no sono.

— E eu? — perguntou Sara, arqueando a sobrancelha loira.

— Você vai estar lá também, cuidando para que ninguém me ligue e garantindo que a gente não seja interrompido — Emanuel disse, olhando-a fixamente. — E se você abrir a boca para falar de administração antes de segunda-feira, eu confisco seu cartão de crédito.

Sara soltou uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás.

— Você não teria coragem, querido. Mas aceito os termos. Só porque você está muito bonito quando está irritado.

Eduarda sorriu, limpando uma lágrima solitária que havia escapado. Ela se sentia segura novamente. A dinâmica entre os três era um equilíbrio delicado, uma corda bamba que Emanuel cruzava todos os dias com a precisão de um artista.

Enquanto caminhavam em direção ao quarto principal, Emanuel sentiu o peso do estresse diminuir um pouco. Ele sabia que a questão da mudança de Eduarda voltaria à tona no dia seguinte, e que Sara provavelmente encontraria uma nova forma de provocá-la antes do café da manhã. Mas, por enquanto, ele tinha o que precisava.

— Manu? — Eduarda chamou baixinho, enquanto entravam no quarto vasto e decorado em tons de cinza e preto.

— Oi, pequena.

— Eu vou pensar... sobre a mudança. Se você prometer que não vai deixar a Sara rir dos meus livros de história.

Emanuel olhou para Sara, que já estava chutando os sapatos caros para um canto e desabotoando o vestido com uma impaciência luxuriosa.

— Se ela rir, eu coloco ela para dormir no sofá — Emanuel prometeu, embora todos ali soubessem que ele nunca cumpriria tal ameaça.

— Eu ouvi isso! — gritou Sara de dentro do closet. — E boa sorte tentando me tirar daquela cama, Emanuel!

Ele balançou a cabeça, sentando-se na borda do colchão king size enquanto Eduarda se acomodava ao seu lado, abrindo um livro pesado sobre o Quattrocento italiano. O caos não tinha ido embora, ele apenas tinha mudado de cômodo. E Emanuel, o tatuador que controlava impérios com mãos firmes e agulhas precisas, percebeu que, no fim das contas, ele não trocaria aquela confusão emocional por nenhuma paz solitária no mundo.
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