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Pra Sempre, nós
Fandom: BTS
Criado: 17/06/2026
Tags
DramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoMistérioSuspenseSobrevivênciaCrimeTranstornos AlimentaresAbuso de ÁlcoolSombrioMorte de PersonagemRomanceTragédiaAçãoViolência GráficaHistória DomésticaDistopiaUA (Universo Alternativo)ConsertoEstudo de Personagem
O Eco do Silêncio e as Sombras de Ontem
A luz neon da lanchonete piscava intermitentemente, lançando um brilho azulado e doentio sobre o balcão de fórmica desgastado. Sarah Cameron limpou a mesma mancha de gordura pela décima vez, seus movimentos eram mecânicos, quase sem vida. Seus longos cabelos loiros, que caíam em ondas mel até a altura do quadril, estavam presos em um rabo de cavalo frouxo, revelando as raízes escuras que denunciavam o tempo passado desde sua última ida ao salão — um luxo que ela não podia mais sequer sonhar.
Sua pele, outrora bronzeada pelo sol das tardes de liberdade, agora parecia pálida sob a iluminação artificial, realçando as maçãs do rosto proeminentes e o vazio em seus olhos. O estômago de Sarah deu um nó familiar, uma mistura de fome autoinfligida e a náusea constante de viver sob o mesmo teto que um homem que encontrava consolo apenas no fundo de uma garrafa de uísque barato.
Mas a dor física não era nada comparada ao abismo que se abrira em seu peito. Jin se fora.
Jin, que sempre tinha um sorriso gentil para ela. Jin, que escondia comida extra na mochila de Sarah quando sabia que ela estava tentando "se punir". Jin, que era a cola que mantinha aquele grupo de almas quebradas minimamente unido. Ele fora assassinado, e o silêncio da polícia era tão ensurdecedor quanto o grito que Sarah dera ao receber a notícia. O assassino era um fantasma, uma sombra que Sarah sentia observar cada um deles pelas esquinas escuras da cidade.
O sino acima da porta tocou, anunciando a entrada de um cliente. Sarah não levantou o olhar imediatamente.
— Estamos fechando — murmurou ela, sua voz rouca.
— Eu sei. Só vim garantir que você não vai voltar para casa sozinha no escuro.
Sarah finalmente ergueu os olhos e encontrou o rosto de Jungkook. Ele parecia exausto. Havia um novo corte em seu lábio inferior e as roupas escuras que ele usava pareciam carregar o cheiro de asfalto e perigo. Jungkook era o tipo de garoto que se perdia propositalmente para não ter que enfrentar a invisibilidade de sua própria casa, mas ali, parado diante dela, ele parecia ser o único que realmente a via.
— Jungkook... — Sarah soltou o pano de prato, as mãos tremendo levemente. — Você não precisava vir.
— Ele está bebendo de novo, não está? — Jungkook perguntou, aproximando-se do balcão. Ele não precisava dizer o nome do pai dela. Eles se conheciam bem demais para precisarem de nomes para seus monstros.
— Ele nunca para, Kookie. Agora que o Jin não está aqui para... para intervir... — As palavras morreram em sua garganta.
Jungkook contornou o balcão e parou a poucos centímetros dela. Ele era sua âncora em um mar de caos. Enquanto Namjoon se afogava em turnos duplos no posto de gasolina, Taehyung se escondia das agressões domésticas e Yoongi se perdia nas cinzas do passado, Jungkook havia decidido que não deixaria Sarah afundar.
— Eu estou aqui agora — disse ele, a voz baixa e firme. — Eu não sou o Jin, eu sei disso. Mas eu não vou deixar ninguém encostar em você. Nem seu pai, nem quem quer que tenha feito aquilo com ele.
Sarah sentiu as lágrimas arderem. Ela se sentia tão pequena, tão frágil. A desordem alimentar que a consumia por dentro a deixava fraca, mas o medo a tornava paranoica.
— Você acha que ele ainda está por perto? — perguntou ela, referindo-se ao assassino. — Às vezes eu sinto um calafrio, como se houvesse olhos nas frestas das janelas.
Jungkook apertou os punhos, os nós dos dedos brancos.
— Se ele estiver, ele vai ter que passar por mim primeiro.
A conversa foi interrompida pelo som de um celular vibrando sobre o balcão. Era o de Jungkook. Ele olhou para a tela e suspirou, o rosto escurecendo ainda mais.
— É o Hoseok? — Sarah perguntou, preocupada.
— Não, é o Namjoon. Ele disse que o Jimin teve outra crise no hospital. Estão dificultando as visitas de novo. E o Yoongi... ninguém consegue falar com o Yoongi desde o enterro.
O mundo parecia estar desmoronando para todos eles. Jimin estava trancado, lutando contra demônios que ninguém mais podia ver; Hoseok desmaiava em calçadas sujas, vítima de uma saúde negligenciada e do abandono; e Taehyung... Sarah rezava todas as noites para que Taehyung e sua irmãzinha conseguissem sobreviver a mais um jantar naquela casa de horrores.
— Precisamos ir — disse Jungkook, estendendo a mão para ela. — Vou te levar para algum lugar seguro.
— Não existe lugar seguro, Jungkook — respondeu ela, mas aceitou a mão dele.
Eles saíram da lanchonete e o ar frio da noite os atingiu. A cidade parecia uma fera adormecida, pronta para acordar e devorá-los. Enquanto caminhavam pelas ruas mal iluminadas, Jungkook mantinha Sarah próxima ao seu corpo, um escudo humano contra a escuridão.
No caminho, passaram pelo posto de gasolina onde Namjoon trabalhava. De longe, viram a figura alta e curvada dele sob as luzes fluorescentes, limpando o para-brisa de um carro de luxo. Namjoon parecia carregar o peso do mundo nos ombros, a pobreza sendo uma corrente que o impedia de voar.
— Ele parece tão cansado — sussurrou Sarah.
— Todos nós estamos — respondeu Jungkook. — Mas o Jin queria que a gente continuasse. Ele sempre dizia que a gente era a única família que tínhamos.
Eles dobraram a esquina da rua onde Sarah morava. O coração dela começou a acelerar. As luzes da sala estavam acesas e ela podia ouvir o som abafado da televisão em um volume excessivamente alto. Garrafas quebradas adornavam o pequeno jardim malcuidado.
— Eu não quero entrar — disse ela, parando abruptamente.
Jungkook parou também e olhou para a casa, o ódio brilhando em seus olhos escuros.
— Então não entre. Vamos para o galpão. O Taehyung está lá com a irmã, fugiram de casa hoje mais cedo. O Yoongi apareceu por lá também, embora não tenha dito uma palavra.
Sarah sentiu um alívio momentâneo. O galpão abandonado perto dos trilhos do trem tornara-se o refúgio deles. Era sujo, frio e perigoso, mas ali eles eram reis de seu próprio sofrimento, longe dos adultos que deveriam protegê-los e só os feriam.
— Tudo bem — concordou ela. — Só... me segure, Jungkook. Sinto que se você soltar, eu vou desaparecer.
Jungkook envolveu os ombros dela com o braço, puxando-a para mais perto.
— Eu nunca vou soltar, Sarah.
Enquanto se afastavam da casa, uma sombra se moveu atrás de uma árvore do outro lado da rua. Um par de olhos observava os dois jovens se afastarem. O assassino de Jin não estava longe. Ele estava observando cada movimento, cada fraqueza, cada laço que tentavam reconstruir.
Ao chegarem ao galpão, o cheiro de mofo e ferro velho os recebeu. No centro do espaço amplo, uma pequena fogueira improvisada em um latão de óleo iluminava os rostos cansados de seus amigos. Taehyung estava sentado no chão, abraçando a irmãzinha que dormia profundamente em seu colo. O rosto de Taehyung tinha uma mancha roxa escura na bochecha, mas ele sorriu fracamente ao ver Sarah e Jungkook.
Yoongi estava em um canto escuro, sentado sobre um caixote de madeira, encarando as chamas com um olhar vazio. Ele parecia um fantasma entre os vivos, ainda cheirando à fumaça do incêndio que levara sua mãe e sua sanidade.
— Vocês demoraram — disse Taehyung, a voz baixa para não acordar a menina.
— Tivemos que dar uma volta maior — explicou Jungkook, guiando Sarah para um colchão velho no chão. — Alguma notícia do Hoseok?
— Ele ligou do hospital — disse Yoongi, sua voz soando como papel de lixa. — Desmaiou na estação de metrô de novo. Estão fazendo exames, mas ele disse que foge amanhã de manhã. Ele odeia hospitais por causa do Jimin.
Sarah sentou-se, sentindo a fraqueza em suas pernas. Ela não comia nada sólido há dois dias, apenas água e café preto. Sua mente estava nublada, mas a presença de seus amigos trazia uma clareza dolorosa. Eles eram todos peças de um quebra-cabeça quebrado.
— O que vamos fazer? — perguntou Sarah, olhando para o grupo. — O Jin se foi. A polícia não faz nada. E nós estamos... morrendo aos poucos aqui.
Taehyung olhou para a irmã e depois para Sarah.
— Nós vamos sobreviver. É o que sempre fazemos.
— Sobreviver não é o bastante — interveio Jungkook, sentando-se ao lado de Sarah. — Alguém matou o Jin. Alguém que sabia onde ele estaria. Alguém que talvez esteja nos seguindo agora.
O silêncio caiu sobre o galpão, interrompido apenas pelo estalar da madeira na fogueira.
— Eu vi um carro preto perto da lanchonete hoje — murmurou Sarah, a memória voltando como um flash frio. — Ele ficou parado por uma hora. Eu achei que era só um cliente esperando alguém, mas quando eu saí com o Jungkook, o carro não estava mais lá.
Yoongi levantou a cabeça, os olhos subitamente focados.
— Que tipo de carro?
— Um sedan antigo. Vidros escuros. Eu não consegui ver a placa.
Jungkook trocou um olhar preocupado com Yoongi. Eles sabiam que a morte de Jin não fora um assalto malsucedido. Jin descobrira algo, ou talvez estivesse tentando proteger um deles de algo muito maior.
— Sarah — disse Jungkook, pegando as mãos dela. — Você precisa me prometer uma coisa.
— O quê?
— Não importa o que aconteça, não importa o quanto seu pai grite ou o quanto você sinta que precisa se esconder... não ande sozinha. Nem por um segundo.
— Eu prometo — disse ela, embora soubesse que promessas eram coisas frágeis naquele mundo.
Ela encostou a cabeça no ombro de Jungkook, fechando os olhos. Por um momento, o som do vento lá fora e o peso da tragédia pareceram diminuir. Ali, cercada por aqueles garotos que carregavam cicatrizes tão profundas quanto as dela, Sarah Cameron sentiu que, talvez, houvesse uma chance de encontrar a luz.
Mas, lá fora, na escuridão entre os trilhos do trem, o sedan preto estacionava silenciosamente. O motor foi desligado, e o motorista ajustou o retrovisor para observar a entrada do galpão. Ele não tinha pressa. Ele tinha todo o tempo do mundo para terminar o que começara com Jin.
— Eles estão todos juntos — sussurrou o homem para ninguém, um sorriso cruel brincando em seus lábios. — Isso vai facilitar as coisas.
Dentro do galpão, Sarah sentiu um arrepio súbito e apertou a mão de Jungkook com mais força. A âncora dela estava ali, mas a tempestade estava apenas começando. Eles eram os sete sobreviventes de uma história que exigia sangue, e Sarah, com sua beleza melancólica e alma faminta, estava bem no centro do alvo.
— Você está bem? — perguntou Jungkook, sentindo a tensão dela.
— Só tive um pressentimento — respondeu ela, abrindo os olhos e encarando as chamas. — Como se o Jin estivesse tentando me dizer para correr.
— Para onde correríamos, Sarah? — perguntou Taehyung, com uma tristeza infinita na voz. — O mundo inteiro é feito de sombras para gente como nós.
— Então vamos lutar no escuro — declarou Jungkook, e pela primeira vez naquela noite, houve um brilho de determinação que não vinha do fogo, mas de uma vontade feroz de não ser a próxima vítima.
A noite avançou, longa e fria, enquanto os seis amigos se amontoavam em busca de calor, sem saber que o perigo não estava apenas nas ruas, mas talvez infiltrado em segredos que o próprio Jin levou para o túmulo. E Sarah, entre o desejo de desaparecer e a necessidade de lutar, escolheu, por aquela noite, apenas respirar.
Sua pele, outrora bronzeada pelo sol das tardes de liberdade, agora parecia pálida sob a iluminação artificial, realçando as maçãs do rosto proeminentes e o vazio em seus olhos. O estômago de Sarah deu um nó familiar, uma mistura de fome autoinfligida e a náusea constante de viver sob o mesmo teto que um homem que encontrava consolo apenas no fundo de uma garrafa de uísque barato.
Mas a dor física não era nada comparada ao abismo que se abrira em seu peito. Jin se fora.
Jin, que sempre tinha um sorriso gentil para ela. Jin, que escondia comida extra na mochila de Sarah quando sabia que ela estava tentando "se punir". Jin, que era a cola que mantinha aquele grupo de almas quebradas minimamente unido. Ele fora assassinado, e o silêncio da polícia era tão ensurdecedor quanto o grito que Sarah dera ao receber a notícia. O assassino era um fantasma, uma sombra que Sarah sentia observar cada um deles pelas esquinas escuras da cidade.
O sino acima da porta tocou, anunciando a entrada de um cliente. Sarah não levantou o olhar imediatamente.
— Estamos fechando — murmurou ela, sua voz rouca.
— Eu sei. Só vim garantir que você não vai voltar para casa sozinha no escuro.
Sarah finalmente ergueu os olhos e encontrou o rosto de Jungkook. Ele parecia exausto. Havia um novo corte em seu lábio inferior e as roupas escuras que ele usava pareciam carregar o cheiro de asfalto e perigo. Jungkook era o tipo de garoto que se perdia propositalmente para não ter que enfrentar a invisibilidade de sua própria casa, mas ali, parado diante dela, ele parecia ser o único que realmente a via.
— Jungkook... — Sarah soltou o pano de prato, as mãos tremendo levemente. — Você não precisava vir.
— Ele está bebendo de novo, não está? — Jungkook perguntou, aproximando-se do balcão. Ele não precisava dizer o nome do pai dela. Eles se conheciam bem demais para precisarem de nomes para seus monstros.
— Ele nunca para, Kookie. Agora que o Jin não está aqui para... para intervir... — As palavras morreram em sua garganta.
Jungkook contornou o balcão e parou a poucos centímetros dela. Ele era sua âncora em um mar de caos. Enquanto Namjoon se afogava em turnos duplos no posto de gasolina, Taehyung se escondia das agressões domésticas e Yoongi se perdia nas cinzas do passado, Jungkook havia decidido que não deixaria Sarah afundar.
— Eu estou aqui agora — disse ele, a voz baixa e firme. — Eu não sou o Jin, eu sei disso. Mas eu não vou deixar ninguém encostar em você. Nem seu pai, nem quem quer que tenha feito aquilo com ele.
Sarah sentiu as lágrimas arderem. Ela se sentia tão pequena, tão frágil. A desordem alimentar que a consumia por dentro a deixava fraca, mas o medo a tornava paranoica.
— Você acha que ele ainda está por perto? — perguntou ela, referindo-se ao assassino. — Às vezes eu sinto um calafrio, como se houvesse olhos nas frestas das janelas.
Jungkook apertou os punhos, os nós dos dedos brancos.
— Se ele estiver, ele vai ter que passar por mim primeiro.
A conversa foi interrompida pelo som de um celular vibrando sobre o balcão. Era o de Jungkook. Ele olhou para a tela e suspirou, o rosto escurecendo ainda mais.
— É o Hoseok? — Sarah perguntou, preocupada.
— Não, é o Namjoon. Ele disse que o Jimin teve outra crise no hospital. Estão dificultando as visitas de novo. E o Yoongi... ninguém consegue falar com o Yoongi desde o enterro.
O mundo parecia estar desmoronando para todos eles. Jimin estava trancado, lutando contra demônios que ninguém mais podia ver; Hoseok desmaiava em calçadas sujas, vítima de uma saúde negligenciada e do abandono; e Taehyung... Sarah rezava todas as noites para que Taehyung e sua irmãzinha conseguissem sobreviver a mais um jantar naquela casa de horrores.
— Precisamos ir — disse Jungkook, estendendo a mão para ela. — Vou te levar para algum lugar seguro.
— Não existe lugar seguro, Jungkook — respondeu ela, mas aceitou a mão dele.
Eles saíram da lanchonete e o ar frio da noite os atingiu. A cidade parecia uma fera adormecida, pronta para acordar e devorá-los. Enquanto caminhavam pelas ruas mal iluminadas, Jungkook mantinha Sarah próxima ao seu corpo, um escudo humano contra a escuridão.
No caminho, passaram pelo posto de gasolina onde Namjoon trabalhava. De longe, viram a figura alta e curvada dele sob as luzes fluorescentes, limpando o para-brisa de um carro de luxo. Namjoon parecia carregar o peso do mundo nos ombros, a pobreza sendo uma corrente que o impedia de voar.
— Ele parece tão cansado — sussurrou Sarah.
— Todos nós estamos — respondeu Jungkook. — Mas o Jin queria que a gente continuasse. Ele sempre dizia que a gente era a única família que tínhamos.
Eles dobraram a esquina da rua onde Sarah morava. O coração dela começou a acelerar. As luzes da sala estavam acesas e ela podia ouvir o som abafado da televisão em um volume excessivamente alto. Garrafas quebradas adornavam o pequeno jardim malcuidado.
— Eu não quero entrar — disse ela, parando abruptamente.
Jungkook parou também e olhou para a casa, o ódio brilhando em seus olhos escuros.
— Então não entre. Vamos para o galpão. O Taehyung está lá com a irmã, fugiram de casa hoje mais cedo. O Yoongi apareceu por lá também, embora não tenha dito uma palavra.
Sarah sentiu um alívio momentâneo. O galpão abandonado perto dos trilhos do trem tornara-se o refúgio deles. Era sujo, frio e perigoso, mas ali eles eram reis de seu próprio sofrimento, longe dos adultos que deveriam protegê-los e só os feriam.
— Tudo bem — concordou ela. — Só... me segure, Jungkook. Sinto que se você soltar, eu vou desaparecer.
Jungkook envolveu os ombros dela com o braço, puxando-a para mais perto.
— Eu nunca vou soltar, Sarah.
Enquanto se afastavam da casa, uma sombra se moveu atrás de uma árvore do outro lado da rua. Um par de olhos observava os dois jovens se afastarem. O assassino de Jin não estava longe. Ele estava observando cada movimento, cada fraqueza, cada laço que tentavam reconstruir.
Ao chegarem ao galpão, o cheiro de mofo e ferro velho os recebeu. No centro do espaço amplo, uma pequena fogueira improvisada em um latão de óleo iluminava os rostos cansados de seus amigos. Taehyung estava sentado no chão, abraçando a irmãzinha que dormia profundamente em seu colo. O rosto de Taehyung tinha uma mancha roxa escura na bochecha, mas ele sorriu fracamente ao ver Sarah e Jungkook.
Yoongi estava em um canto escuro, sentado sobre um caixote de madeira, encarando as chamas com um olhar vazio. Ele parecia um fantasma entre os vivos, ainda cheirando à fumaça do incêndio que levara sua mãe e sua sanidade.
— Vocês demoraram — disse Taehyung, a voz baixa para não acordar a menina.
— Tivemos que dar uma volta maior — explicou Jungkook, guiando Sarah para um colchão velho no chão. — Alguma notícia do Hoseok?
— Ele ligou do hospital — disse Yoongi, sua voz soando como papel de lixa. — Desmaiou na estação de metrô de novo. Estão fazendo exames, mas ele disse que foge amanhã de manhã. Ele odeia hospitais por causa do Jimin.
Sarah sentou-se, sentindo a fraqueza em suas pernas. Ela não comia nada sólido há dois dias, apenas água e café preto. Sua mente estava nublada, mas a presença de seus amigos trazia uma clareza dolorosa. Eles eram todos peças de um quebra-cabeça quebrado.
— O que vamos fazer? — perguntou Sarah, olhando para o grupo. — O Jin se foi. A polícia não faz nada. E nós estamos... morrendo aos poucos aqui.
Taehyung olhou para a irmã e depois para Sarah.
— Nós vamos sobreviver. É o que sempre fazemos.
— Sobreviver não é o bastante — interveio Jungkook, sentando-se ao lado de Sarah. — Alguém matou o Jin. Alguém que sabia onde ele estaria. Alguém que talvez esteja nos seguindo agora.
O silêncio caiu sobre o galpão, interrompido apenas pelo estalar da madeira na fogueira.
— Eu vi um carro preto perto da lanchonete hoje — murmurou Sarah, a memória voltando como um flash frio. — Ele ficou parado por uma hora. Eu achei que era só um cliente esperando alguém, mas quando eu saí com o Jungkook, o carro não estava mais lá.
Yoongi levantou a cabeça, os olhos subitamente focados.
— Que tipo de carro?
— Um sedan antigo. Vidros escuros. Eu não consegui ver a placa.
Jungkook trocou um olhar preocupado com Yoongi. Eles sabiam que a morte de Jin não fora um assalto malsucedido. Jin descobrira algo, ou talvez estivesse tentando proteger um deles de algo muito maior.
— Sarah — disse Jungkook, pegando as mãos dela. — Você precisa me prometer uma coisa.
— O quê?
— Não importa o que aconteça, não importa o quanto seu pai grite ou o quanto você sinta que precisa se esconder... não ande sozinha. Nem por um segundo.
— Eu prometo — disse ela, embora soubesse que promessas eram coisas frágeis naquele mundo.
Ela encostou a cabeça no ombro de Jungkook, fechando os olhos. Por um momento, o som do vento lá fora e o peso da tragédia pareceram diminuir. Ali, cercada por aqueles garotos que carregavam cicatrizes tão profundas quanto as dela, Sarah Cameron sentiu que, talvez, houvesse uma chance de encontrar a luz.
Mas, lá fora, na escuridão entre os trilhos do trem, o sedan preto estacionava silenciosamente. O motor foi desligado, e o motorista ajustou o retrovisor para observar a entrada do galpão. Ele não tinha pressa. Ele tinha todo o tempo do mundo para terminar o que começara com Jin.
— Eles estão todos juntos — sussurrou o homem para ninguém, um sorriso cruel brincando em seus lábios. — Isso vai facilitar as coisas.
Dentro do galpão, Sarah sentiu um arrepio súbito e apertou a mão de Jungkook com mais força. A âncora dela estava ali, mas a tempestade estava apenas começando. Eles eram os sete sobreviventes de uma história que exigia sangue, e Sarah, com sua beleza melancólica e alma faminta, estava bem no centro do alvo.
— Você está bem? — perguntou Jungkook, sentindo a tensão dela.
— Só tive um pressentimento — respondeu ela, abrindo os olhos e encarando as chamas. — Como se o Jin estivesse tentando me dizer para correr.
— Para onde correríamos, Sarah? — perguntou Taehyung, com uma tristeza infinita na voz. — O mundo inteiro é feito de sombras para gente como nós.
— Então vamos lutar no escuro — declarou Jungkook, e pela primeira vez naquela noite, houve um brilho de determinação que não vinha do fogo, mas de uma vontade feroz de não ser a próxima vítima.
A noite avançou, longa e fria, enquanto os seis amigos se amontoavam em busca de calor, sem saber que o perigo não estava apenas nas ruas, mas talvez infiltrado em segredos que o próprio Jin levou para o túmulo. E Sarah, entre o desejo de desaparecer e a necessidade de lutar, escolheu, por aquela noite, apenas respirar.
