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Que assim seja
Fandom: Camren
Criado: 17/06/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoEstudo de PersonagemCiúmesDiscriminação
Entre Espinhos e Pétalas de Jasmim
O sol mal havia começado a tingir o céu de Miami com tons de laranja e rosa quando Camila despertou. Ela era o tipo de pessoa que parecia carregar a primavera consigo; mesmo com o sono ainda pesando nas pálpebras, seu primeiro instinto foi sorrir. Vestiu um robe de seda sobre o pijama curto, sentindo o perfume suave de baunilha que sempre emanava de sua pele, e caminhou descalça pelo corredor do apartamento que dividia com sua melhor amiga.
Ao chegar à porta do quarto de Ester, Camila não hesitou. Ela abriu a porta silenciosamente, viu a silhueta da amiga sob os lençóis e, com um impulso de energia juvenil, saltou sobre a cama.
— Acorda, minha flor preferida! — exclamou Camila, distribuindo beijinhos estalados pelo rosto de Ester, que resmungou, tentando se esconder debaixo do travesseiro.
— Mila... pelo amor de Deus, ainda são sete da manhã — a voz de Ester saiu rouca, mas carregada de um carinho inevitável.
Ester era o porto seguro de Camila. Inteligente e bem-sucedida em sua carreira na multinacional, ela possuía uma paciência de santa para as manhas da amiga. Mesmo sendo uma mulher trans, Ester lidava com as complexidades de sua identidade com uma elegância que Camila admirava profundamente, embora, naquele momento, Ester se sentisse apenas um tanto "impotente" diante da energia caótica da menor.
— Eu vou encontrar o Austin em uma cafeteria antes de ir para a floricultura — explicou Camila, fazendo um biquinho manhoso enquanto acariciava o braço de Ester. — Queria saber se você quer que eu traga alguma coisa? Um croissant? Um café especial?
Ester abriu um dos olhos, encarando a beleza radiante de Camila. Doía nela ver aquela luz sendo desperdiçada com alguém como Austin.
— Não precisa de nada, Mila. Só... toma cuidado, tá? — Ester suspirou, sentando-se na cama. — Você sabe que não confio nele. Qualquer coisa, me liga.
— Deixa de ser boba, Estie! Ele é só um pouco estressado. — Camila deu um último beijo na testa da amiga e correu para se arrumar.
Pouco depois, Camila entrou na cafeteria "The Daily Bean". Ela estava impecável em um vestido floral que acentuava sua delicadeza, os cabelos castanhos ondulando perfeitamente sobre os ombros. Austin já estava lá, sentado em uma mesa nos fundos, longe da vitrine. Ele não se levantou para cumprimentá-la; mal desviou os olhos do celular.
— Oi, amor! — Camila disse, inclinando-se para beijar o rosto dele.
— Você está atrasada cinco minutos — resmungou Austin, a voz carregada de uma arrogância que ele raramente escondia quando estavam a sós.
— Desculpe, o trânsito estava...
— Tanto faz. Senta logo. Meus pais estão vindo para a cidade no próximo fim de semana. Eles querem jantar conosco e já avisaram que o assunto vai ser o de sempre: quando vamos oficializar isso e começar a planejar os herdeiros.
O estômago de Camila deu um nó. Ela tinha apenas vinte anos, amava seu trabalho na floricultura e a liberdade de sua vida atual. Os pais de Austin eram conservadores e prepotentes, e já haviam deixado claro que esperavam que ela se tornasse uma esposa troféu o mais rápido possível.
— Austin, nós já conversamos sobre isso... Eu sou muito nova, quero focar na minha carreira primeiro e...
— Carreira? — Austin soltou uma risada debochada, seus olhos vagando descaradamente para a garçonete que passava por perto com uma bandeja. — Você vende flores, Camila. Não é como se estivesse descobrindo a cura para o câncer. Meus pais têm razão, você precisa de uma direção de verdade.
Camila sentiu o rosto esquentar. Ela tentou segurar a mão dele sobre a mesa, buscando algum tipo de conexão, mas Austin a afastou para ajeitar o relógio caro no pulso. Ele continuava acompanhando cada movimento da garçonete, um sorriso de canto de boca que Camila fingia não notar, embora seu peito doesse.
— Austin, olha para mim — pediu ela, a voz baixa. — Eu me esforcei para ficar bonita hoje. Você nem comentou.
Austin finalmente fixou os olhos nela, mas não havia ternura ali. O olhar dele se tornou escuro, carregado de uma luxúria que sempre deixava Camila desconfortável por ser direta demais, sem nenhum romantismo.
— Você está gostosa, como sempre. Mas se quer mesmo a minha atenção... — Ele se inclinou para frente, sussurrando algo extremamente vulgar e explícito no ouvido dela, uma proposta sexual que a fez recuar, chocada.
— Austin! Não... aqui não, e você sabe que eu não gosto dessas coisas... — Camila gaguejou, sentindo-se humilhada.
— Você é sempre tão sem graça, Camila — ele disse, levantando-se bruscamente e jogando algumas notas de dólar sobre a mesa. — Tenho uma reunião agora. A gente se vê mais tarde, se você decidir deixar de ser tão puritana.
Ele saiu sem olhar para trás. Camila ficou ali, sozinha, sentindo o cheiro do café se misturar com a amargura em sua garganta. Ela respirou fundo, limpou uma lágrima solitária e caminhou para a floricultura. O trabalho com as plantas era seu refúgio.
Assim que chegou, pegou o celular e abriu o grupo "As Três Mosqueteiras".
Camila: "O encontro com o Austin não foi dos melhores... Ele quer que eu jante com os pais dele de novo. Sinto que estou sendo sufocada."
Não demorou dois segundos para o celular vibrar.
Dinah: "AQUELE PROJETO DE ESTRUME! Mila, eu já te disse, eu conheço um cara que faz sumiços parecerem acidentes. É só um pix e a gente resolve isso."
Ester: "Dinah, menos. Mas Camila, ela tem razão no fundo. Você não merece esse tratamento. Ele é um ignorante."
Dinah: "Ignorante é elogio! Ele é um prepotente que se acha o rei de Miami só porque o pai tem dinheiro. Camila, hoje à noite vamos sair. Eu tive uma ideia incrível: vamos em um bar novo e você vai esquecer que esse embuste existe."
Camila sorriu levemente. Dinah era a alegria em pessoa, sempre com as ideias mais loucas e o coração mais leal do mundo.
— Vejo vocês no almoço — digitou Camila, guardando o aparelho para atender um cliente.
Ao meio-dia, Ester apareceu na floricultura, impecável em seu terninho cinza, para levar Camila para almoçar. Elas foram a um pequeno bistrô ali perto.
— Como você está, pequena? — perguntou Ester, servindo água para a amiga.
— Eu estou bem, Estie. De verdade. Eu sei que o Austin tem esse jeito difícil, mas... eu o amo muito. Ele só está sob pressão por causa da família. Quando estamos sozinhos e ele está de bom humor, ele pode ser... protetor.
Ester apertou os lábios, sentindo uma frustração imensa. Ela sabia que Austin a traía — já o vira em situações suspeitas na cidade — e odiava o modo como ele minava a autoestima de Camila. Mas como dizer isso sem quebrar o coração da amiga?
— Mila, amor não deveria ser sinônimo de pressão ou de se sentir mal consigo mesma — disse Ester suavemente. — Você é a pessoa mais gentil e inteligente que eu conheço. Não deixe ninguém apagar esse brilho.
— Eu sei, eu sei. É que eu quero que dê certo, sabe? — Camila suspirou, cutucando a salada. — Mas mudando de assunto, qual é a ideia maluca da Dinah para hoje à noite?
Ester riu, balançando a cabeça.
— Ela quer nos levar a um clube de jazz que abriu no centro. Disse que "sentiu uma vibração cósmica" de que algo grande vai acontecer lá.
Camila riu pela primeira vez de forma genuína naquele dia.
— Com a Dinah, "algo grande" geralmente envolve ela sendo expulsa por dançar em cima das mesas ou a gente terminando a noite comendo pizza às quatro da manhã em um posto de gasolina.
— Exatamente — concordou Ester. — E é exatamente disso que você precisa. De vida real, de risadas e de pessoas que te amam de verdade.
O resto da tarde passou voando. Camila se perdeu entre jasmins e rosas, montando arranjos que pareciam expressar a confusão de seus próprios sentimentos. Às seis da tarde, ela voltou para casa, decidida a se arrumar e ter uma noite incrível com suas amigas.
Enquanto se maquiava, Austin ligou.
— Onde você está? — a voz dele estava pesada, provavelmente já tinha bebido algo.
— Estou em casa, Austin. Vou sair com a Ester e a Dinah.
— De novo com aquelas duas? Aquela aberração da Ester e a maluca da Jane? Você devia estar em casa esperando por mim. Eu tive um dia longo.
Camila sentiu uma pontada de raiva, algo raro nela.
— Não fale assim da Ester. Ela é minha melhor amiga. E eu já tinha avisado que sairia.
— Faça o que quiser — ele rosnou e desligou na cara dela.
Camila olhou para o reflexo no espelho. Seus olhos estavam marejados, mas ela respirou fundo. Ela não deixaria que ele estragasse sua noite.
Quando Dinah chegou ao apartamento, parecia um furacão de energia. Usava um vestido curto brilhante e tinha um sorriso travesso no rosto.
— Prontas para a melhor noite das suas vidas? — gritou Dinah, abraçando Camila e Ester ao mesmo tempo. — Eu tenho um pressentimento, meninas. Hoje o destino vai dar uma mãozinha para a nossa Mila.
— Lá vem você com seus pressentimentos, DJ — brincou Ester, pegando as chaves do carro.
— É sério! — insistiu Dinah enquanto entravam no elevador. — Eu li no meu horóscopo. "Grandes mudanças vêm envoltas em música e olhares intensos". E se tem uma coisa que eu sei fazer, é identificar um olhar intenso.
Elas chegaram ao clube de jazz "The Moonlight". O ambiente era sofisticado, com luzes baixas, fumaça de gelo seco e uma banda impecável no palco. Camila sentiu-se relaxar instantaneamente. O aroma de uísque e perfume caro era muito melhor do que a tensão do encontro matinal.
Elas se sentaram em uma mesa próxima ao palco. Dinah pediu uma rodada de drinks coloridos e começou a contar histórias hilárias sobre seu trabalho, fazendo Camila gargalhar até perder o fôlego. Por um momento, Austin era apenas uma sombra distante.
— Vou buscar mais uma rodada — disse Ester, levantando-se.
Enquanto Ester estava no bar, a banda fez uma pausa e uma nova musicista subiu ao palco para um solo de piano e voz. Ela tinha cabelos escuros, uma postura misteriosa e olhos verdes que pareciam brilhar mesmo na penumbra.
Dinah cutucou Camila com o cotovelo, os olhos arregalados.
— Mila... olha aquilo — sussurrou Dinah. — Aquilo ali é o que eu chamo de "olhar intenso".
Camila olhou para o palco. A mulher ao piano começou a tocar uma melodia suave, profunda, e quando começou a cantar, sua voz era como veludo negro. Camila sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Por um segundo, os olhos da cantora encontraram os de Camila na multidão. Foi um segundo apenas, mas o mundo pareceu parar.
— Quem é ela? — perguntou Camila, quase sem fôlego.
— O nome dela é Lauren — respondeu um garçom que passava, ouvindo a pergunta. — Ela é nova na cidade, mas já está atraindo multidões.
Camila não conseguia desviar o olhar. Havia algo naquela mulher — uma força, uma tristeza e uma beleza crua — que era o oposto absoluto de tudo o que Austin representava.
— Viu só? — Dinah sorriu vitoriosa, observando a reação da amiga. — O horóscopo nunca erra, Mila. O jasmim da sua floricultura acabou de encontrar uma tempestade verde.
Ester voltou à mesa, entregando os drinks, mas percebeu o silêncio de Camila. Ela seguiu o olhar da amiga e sorriu de canto. Ester sabia reconhecer uma conexão quando via uma, e pela primeira vez em muito tempo, ela viu uma faísca de vida genuína nos olhos de Camila que não tinha nada a ver com a obrigação de amar Austin.
A noite estava apenas começando, e as pétalas da vida de Camila estavam prestes a ser sopradas por um vento que ela nunca imaginou sentir.
Ao chegar à porta do quarto de Ester, Camila não hesitou. Ela abriu a porta silenciosamente, viu a silhueta da amiga sob os lençóis e, com um impulso de energia juvenil, saltou sobre a cama.
— Acorda, minha flor preferida! — exclamou Camila, distribuindo beijinhos estalados pelo rosto de Ester, que resmungou, tentando se esconder debaixo do travesseiro.
— Mila... pelo amor de Deus, ainda são sete da manhã — a voz de Ester saiu rouca, mas carregada de um carinho inevitável.
Ester era o porto seguro de Camila. Inteligente e bem-sucedida em sua carreira na multinacional, ela possuía uma paciência de santa para as manhas da amiga. Mesmo sendo uma mulher trans, Ester lidava com as complexidades de sua identidade com uma elegância que Camila admirava profundamente, embora, naquele momento, Ester se sentisse apenas um tanto "impotente" diante da energia caótica da menor.
— Eu vou encontrar o Austin em uma cafeteria antes de ir para a floricultura — explicou Camila, fazendo um biquinho manhoso enquanto acariciava o braço de Ester. — Queria saber se você quer que eu traga alguma coisa? Um croissant? Um café especial?
Ester abriu um dos olhos, encarando a beleza radiante de Camila. Doía nela ver aquela luz sendo desperdiçada com alguém como Austin.
— Não precisa de nada, Mila. Só... toma cuidado, tá? — Ester suspirou, sentando-se na cama. — Você sabe que não confio nele. Qualquer coisa, me liga.
— Deixa de ser boba, Estie! Ele é só um pouco estressado. — Camila deu um último beijo na testa da amiga e correu para se arrumar.
Pouco depois, Camila entrou na cafeteria "The Daily Bean". Ela estava impecável em um vestido floral que acentuava sua delicadeza, os cabelos castanhos ondulando perfeitamente sobre os ombros. Austin já estava lá, sentado em uma mesa nos fundos, longe da vitrine. Ele não se levantou para cumprimentá-la; mal desviou os olhos do celular.
— Oi, amor! — Camila disse, inclinando-se para beijar o rosto dele.
— Você está atrasada cinco minutos — resmungou Austin, a voz carregada de uma arrogância que ele raramente escondia quando estavam a sós.
— Desculpe, o trânsito estava...
— Tanto faz. Senta logo. Meus pais estão vindo para a cidade no próximo fim de semana. Eles querem jantar conosco e já avisaram que o assunto vai ser o de sempre: quando vamos oficializar isso e começar a planejar os herdeiros.
O estômago de Camila deu um nó. Ela tinha apenas vinte anos, amava seu trabalho na floricultura e a liberdade de sua vida atual. Os pais de Austin eram conservadores e prepotentes, e já haviam deixado claro que esperavam que ela se tornasse uma esposa troféu o mais rápido possível.
— Austin, nós já conversamos sobre isso... Eu sou muito nova, quero focar na minha carreira primeiro e...
— Carreira? — Austin soltou uma risada debochada, seus olhos vagando descaradamente para a garçonete que passava por perto com uma bandeja. — Você vende flores, Camila. Não é como se estivesse descobrindo a cura para o câncer. Meus pais têm razão, você precisa de uma direção de verdade.
Camila sentiu o rosto esquentar. Ela tentou segurar a mão dele sobre a mesa, buscando algum tipo de conexão, mas Austin a afastou para ajeitar o relógio caro no pulso. Ele continuava acompanhando cada movimento da garçonete, um sorriso de canto de boca que Camila fingia não notar, embora seu peito doesse.
— Austin, olha para mim — pediu ela, a voz baixa. — Eu me esforcei para ficar bonita hoje. Você nem comentou.
Austin finalmente fixou os olhos nela, mas não havia ternura ali. O olhar dele se tornou escuro, carregado de uma luxúria que sempre deixava Camila desconfortável por ser direta demais, sem nenhum romantismo.
— Você está gostosa, como sempre. Mas se quer mesmo a minha atenção... — Ele se inclinou para frente, sussurrando algo extremamente vulgar e explícito no ouvido dela, uma proposta sexual que a fez recuar, chocada.
— Austin! Não... aqui não, e você sabe que eu não gosto dessas coisas... — Camila gaguejou, sentindo-se humilhada.
— Você é sempre tão sem graça, Camila — ele disse, levantando-se bruscamente e jogando algumas notas de dólar sobre a mesa. — Tenho uma reunião agora. A gente se vê mais tarde, se você decidir deixar de ser tão puritana.
Ele saiu sem olhar para trás. Camila ficou ali, sozinha, sentindo o cheiro do café se misturar com a amargura em sua garganta. Ela respirou fundo, limpou uma lágrima solitária e caminhou para a floricultura. O trabalho com as plantas era seu refúgio.
Assim que chegou, pegou o celular e abriu o grupo "As Três Mosqueteiras".
Camila: "O encontro com o Austin não foi dos melhores... Ele quer que eu jante com os pais dele de novo. Sinto que estou sendo sufocada."
Não demorou dois segundos para o celular vibrar.
Dinah: "AQUELE PROJETO DE ESTRUME! Mila, eu já te disse, eu conheço um cara que faz sumiços parecerem acidentes. É só um pix e a gente resolve isso."
Ester: "Dinah, menos. Mas Camila, ela tem razão no fundo. Você não merece esse tratamento. Ele é um ignorante."
Dinah: "Ignorante é elogio! Ele é um prepotente que se acha o rei de Miami só porque o pai tem dinheiro. Camila, hoje à noite vamos sair. Eu tive uma ideia incrível: vamos em um bar novo e você vai esquecer que esse embuste existe."
Camila sorriu levemente. Dinah era a alegria em pessoa, sempre com as ideias mais loucas e o coração mais leal do mundo.
— Vejo vocês no almoço — digitou Camila, guardando o aparelho para atender um cliente.
Ao meio-dia, Ester apareceu na floricultura, impecável em seu terninho cinza, para levar Camila para almoçar. Elas foram a um pequeno bistrô ali perto.
— Como você está, pequena? — perguntou Ester, servindo água para a amiga.
— Eu estou bem, Estie. De verdade. Eu sei que o Austin tem esse jeito difícil, mas... eu o amo muito. Ele só está sob pressão por causa da família. Quando estamos sozinhos e ele está de bom humor, ele pode ser... protetor.
Ester apertou os lábios, sentindo uma frustração imensa. Ela sabia que Austin a traía — já o vira em situações suspeitas na cidade — e odiava o modo como ele minava a autoestima de Camila. Mas como dizer isso sem quebrar o coração da amiga?
— Mila, amor não deveria ser sinônimo de pressão ou de se sentir mal consigo mesma — disse Ester suavemente. — Você é a pessoa mais gentil e inteligente que eu conheço. Não deixe ninguém apagar esse brilho.
— Eu sei, eu sei. É que eu quero que dê certo, sabe? — Camila suspirou, cutucando a salada. — Mas mudando de assunto, qual é a ideia maluca da Dinah para hoje à noite?
Ester riu, balançando a cabeça.
— Ela quer nos levar a um clube de jazz que abriu no centro. Disse que "sentiu uma vibração cósmica" de que algo grande vai acontecer lá.
Camila riu pela primeira vez de forma genuína naquele dia.
— Com a Dinah, "algo grande" geralmente envolve ela sendo expulsa por dançar em cima das mesas ou a gente terminando a noite comendo pizza às quatro da manhã em um posto de gasolina.
— Exatamente — concordou Ester. — E é exatamente disso que você precisa. De vida real, de risadas e de pessoas que te amam de verdade.
O resto da tarde passou voando. Camila se perdeu entre jasmins e rosas, montando arranjos que pareciam expressar a confusão de seus próprios sentimentos. Às seis da tarde, ela voltou para casa, decidida a se arrumar e ter uma noite incrível com suas amigas.
Enquanto se maquiava, Austin ligou.
— Onde você está? — a voz dele estava pesada, provavelmente já tinha bebido algo.
— Estou em casa, Austin. Vou sair com a Ester e a Dinah.
— De novo com aquelas duas? Aquela aberração da Ester e a maluca da Jane? Você devia estar em casa esperando por mim. Eu tive um dia longo.
Camila sentiu uma pontada de raiva, algo raro nela.
— Não fale assim da Ester. Ela é minha melhor amiga. E eu já tinha avisado que sairia.
— Faça o que quiser — ele rosnou e desligou na cara dela.
Camila olhou para o reflexo no espelho. Seus olhos estavam marejados, mas ela respirou fundo. Ela não deixaria que ele estragasse sua noite.
Quando Dinah chegou ao apartamento, parecia um furacão de energia. Usava um vestido curto brilhante e tinha um sorriso travesso no rosto.
— Prontas para a melhor noite das suas vidas? — gritou Dinah, abraçando Camila e Ester ao mesmo tempo. — Eu tenho um pressentimento, meninas. Hoje o destino vai dar uma mãozinha para a nossa Mila.
— Lá vem você com seus pressentimentos, DJ — brincou Ester, pegando as chaves do carro.
— É sério! — insistiu Dinah enquanto entravam no elevador. — Eu li no meu horóscopo. "Grandes mudanças vêm envoltas em música e olhares intensos". E se tem uma coisa que eu sei fazer, é identificar um olhar intenso.
Elas chegaram ao clube de jazz "The Moonlight". O ambiente era sofisticado, com luzes baixas, fumaça de gelo seco e uma banda impecável no palco. Camila sentiu-se relaxar instantaneamente. O aroma de uísque e perfume caro era muito melhor do que a tensão do encontro matinal.
Elas se sentaram em uma mesa próxima ao palco. Dinah pediu uma rodada de drinks coloridos e começou a contar histórias hilárias sobre seu trabalho, fazendo Camila gargalhar até perder o fôlego. Por um momento, Austin era apenas uma sombra distante.
— Vou buscar mais uma rodada — disse Ester, levantando-se.
Enquanto Ester estava no bar, a banda fez uma pausa e uma nova musicista subiu ao palco para um solo de piano e voz. Ela tinha cabelos escuros, uma postura misteriosa e olhos verdes que pareciam brilhar mesmo na penumbra.
Dinah cutucou Camila com o cotovelo, os olhos arregalados.
— Mila... olha aquilo — sussurrou Dinah. — Aquilo ali é o que eu chamo de "olhar intenso".
Camila olhou para o palco. A mulher ao piano começou a tocar uma melodia suave, profunda, e quando começou a cantar, sua voz era como veludo negro. Camila sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Por um segundo, os olhos da cantora encontraram os de Camila na multidão. Foi um segundo apenas, mas o mundo pareceu parar.
— Quem é ela? — perguntou Camila, quase sem fôlego.
— O nome dela é Lauren — respondeu um garçom que passava, ouvindo a pergunta. — Ela é nova na cidade, mas já está atraindo multidões.
Camila não conseguia desviar o olhar. Havia algo naquela mulher — uma força, uma tristeza e uma beleza crua — que era o oposto absoluto de tudo o que Austin representava.
— Viu só? — Dinah sorriu vitoriosa, observando a reação da amiga. — O horóscopo nunca erra, Mila. O jasmim da sua floricultura acabou de encontrar uma tempestade verde.
Ester voltou à mesa, entregando os drinks, mas percebeu o silêncio de Camila. Ela seguiu o olhar da amiga e sorriu de canto. Ester sabia reconhecer uma conexão quando via uma, e pela primeira vez em muito tempo, ela viu uma faísca de vida genuína nos olhos de Camila que não tinha nada a ver com a obrigação de amar Austin.
A noite estava apenas começando, e as pétalas da vida de Camila estavam prestes a ser sopradas por um vento que ela nunca imaginou sentir.
