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Fandom: Nenhum

Criado: 17/06/2026

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Entre o Silêncio e a Provocação

O estúdio principal de Emanuel, localizado no coração pulsante da cidade, exalava um cheiro constante de tinta, antisséptico e café caro. Era um império de pele e arte que ele construíra do nada, e que agora se expandia por capitais ao redor do globo. No entanto, apesar de ser um homem acostumado a lidar com a dor alheia sob a agulha e com a gestão de milhões, Emanuel sentia que sua paciência estava por um fio naquela tarde de terça-feira.

Sentado em sua poltrona de couro, ele observava Sara. Ela estava debruçada sobre uma planilha de custos no computador da recepção, vestindo um vestido vermelho extremamente justo que deixava pouco para a imaginação. O cabelo loiro platinado estava impecavelmente escovado, e o som de suas unhas de gel batendo no teclado era o único ruído no ambiente.

— Os números de Berlim subiram 15% este mês, Emanuel — disse Sara, sem desviar os olhos da tela. Sua voz era carregada de uma autoconfiança que beirava a arrogância. — A equipe de marketing que eu contratei está fazendo milagres. Você deveria me agradecer com algo mais interessante do que esse olhar de cansaço.

Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto. Ele a amava; amava a competência dela, a força e até mesmo o jeito vulgar e direto que ela tinha de enfrentar o mundo. Sara era seu braço direito nos negócios, uma administradora nata, mesmo que preferisse gastar o tempo livre testando os limites da paciência dele.

— Você sabe que eu valorizo o que faz, Sara — respondeu ele, a voz rouca de cansaço. — Mas minha cabeça está em outro lugar.

Sara girou a cadeira, cruzando as pernas e exibindo um sorriso irônico.

— No outro lugar, ou na outra namorada? — Ela soltou uma risada curta, nada ressentida, apenas provocadora. — A pequena Eduarda ainda está fazendo bico porque você não deu o brinquedinho novo dela?

Emanuel fechou os olhos por um segundo. Eduarda. Sua doce, sensível e manhosa Duda. O oposto absoluto de Sara. Enquanto Sara era o fogo que queimava e exigia atenção, Eduarda era a brisa suave que ele buscava para descansar. Mas, ultimamente, a brisa estava soprando fria.

— Ela quer aquela bolsa de edição limitada, Sara. Eu disse que compraria, mas a correria com a abertura da unidade de Tóquio me fez esquecer o prazo da pré-venda. Agora ela não atende minhas ligações.

Sara revirou os olhos, soltando um suspiro dramático.

— Ela tem vinte anos, Emanuel, não dez. Mas tudo bem, eu simpatizo com a garota. Ela é fofa, de um jeito meio... apagado. Se ela morasse com a gente, como você tanto insiste, eu mesma teria lembrado você de comprar a maldita bolsa. Ou teria comprado para ela.

Emanuel levantou-se, caminhando até a janela. O desejo de ter as duas sob o mesmo teto era quase uma obsessão para ele. Ele queria o controle, queria saber que ambas estavam seguras e ao seu alcance. Sara já era a rainha do apartamento dele, mas Eduarda resistia. A desculpa era sempre a mesma: "Ainda não estou pronta, Manu. Meus pais, minha faculdade... me dá mais um tempo".

— Ela é tímida, Sara. Ela se sente intimidada por você, pela sua personalidade. E morar com a gente é um passo grande para alguém que ainda estuda História da Arte e vive sob a proteção dos pais.

— Os pais dela são mais modernos que você, querido — Sara retrucou, levantando-se e caminhando até ele, envolvendo os braços em volta do pescoço de Emanuel. O perfume doce e forte dela inundou os sentidos dele. — O problema não são os pais. O problema é que ela gosta de ser caçada. Ela é manhosa. E você, como o bom protetor que é, cai direitinho.

Emanuel segurou os pulsos de Sara, afastando-a gentilmente, embora seus olhos traíssem a tensão acumulada.

— Vou passar na casa dela agora. Preciso resolver isso.

— Vá lá — disse Sara, voltando para a mesa com um rebolado deliberado. — Mas se ela continuar com essa criancice, traga-a aqui. Eu dou um jeito de fazer ela falar.

***

A casa dos pais de Eduarda era um ambiente iluminado, cheio de quadros modernos e uma energia leve. Quando Emanuel chegou, foi recebido pela mãe de Eduarda com um sorriso cúmplice. Eles sabiam do arranjo de Emanuel, e sendo pessoas de mente aberta, não julgavam — desde que a filha estivesse feliz.

Emanuel subiu as escadas e bateu na porta do quarto de Eduarda. Sem resposta. Ele entrou assim mesmo.

Eduarda estava sentada em sua escrivaninha, cercada por livros de arte renascentista. Ela usava um cardigã bege largo e tinha os cabelos castanhos presos em um coque frouxo, alguns fios caindo sobre o rosto delicado. Ela sentiu a presença dele, mas não se virou.

— Duda — chamou ele, a voz suavizando instantaneamente.

Silêncio. Ela virou uma página do livro com uma lentidão exagerada.

Emanuel caminhou até ela e colocou as mãos em seus ombros. Sentiu-a tencionar levemente, mas ela não se afastou. Eduarda nunca era agressiva; seu castigo era o silêncio, a retirada do afeto que ele tanto cobiçava.

— Eu sei que errei sobre a bolsa — começou ele, inclinando-se para beijar o topo da cabeça dela. — Eu perdi o prazo. Eu sinto muito. Eu já liguei para três contatos na Europa para conseguir uma para você, custe o que custar.

Eduarda finalmente se virou. Seus olhos expressivos estavam levemente marejados, e os lábios pequenos formavam um bico adorável e irritante ao mesmo tempo.

— Não é sobre a bolsa, Emanuel — disse ela, a voz baixa e doce, mas carregada de mágoa. — É sobre você prometer e esquecer. Você sempre diz que eu sou sua prioridade, mas aí o trabalho aparece, ou a Sara precisa de algo... e eu fico por último.

— Isso não é verdade — ele rebateu, a rigidez começando a aparecer em sua postura. — Eu estou aqui, não estou? Eu saí do estúdio no meio de uma tarde caótica para vir te ver.

Eduarda levantou-se, sua figura esguia parecendo ainda mais frágil diante da estatura imponente dele. Ela se aproximou e apoiou a cabeça no peito dele, buscando o contato físico que era sua linguagem de amor, mesmo quando estava brava.

— Se eu morasse com você, você não esqueceria — murmurou ela contra a camisa dele.

Emanuel sentiu uma pontada de esperança.

— Então venha. Mude-se hoje. Eu mando buscar suas coisas.

Eduarda suspirou, apertando a camisa dele entre os dedos.

— Não posso. Eu ainda não me sinto... segura o suficiente. A Sara é tão forte, tão decidida. Eu sinto que vou sumir naquela casa. Ela é sua sócia, ela entende sua vida. Eu sou só a garota que gosta de museus.

Emanuel segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhá-lo.

— Você é o meu equilíbrio, Eduarda. A Sara é a minha força, mas você é a minha paz. Eu preciso das duas. Por que você insiste em me punir ficando longe?

— Eu não estou te punindo — disse ela, uma lágrima solitária escorrendo. — Eu só quero que você sinta minha falta o suficiente para não esquecer das coisas que são importantes para mim.

Emanuel sentiu a frustração borbulhar. Ele odiava conflitos emocionais que não podiam ser resolvidos com lógica ou dinheiro. Ele queria que Eduarda fosse prática como Sara, e que Sara fosse dócil como Eduarda. Mas ele as amava justamente por serem quem eram.

— Eu sinto sua falta a cada segundo — disse ele, a voz firme, embora o cansaço pesasse em seus ombros. — Mas esse silêncio, esse jogo de me ignorar... isso me cansa, Duda. Eu tenho o mundo inteiro para carregar nas costas. Não quero ter que lutar para ter a atenção da minha própria namorada.

Eduarda baixou o olhar, sentindo-se culpada. Ela sabia que Emanuel trabalhava demais, que o estresse de seus estúdios era imenso. Sua natureza sensível detectou a exaustão nele, e seu coração amoleceu.

— Tudo bem — sussurrou ela, abraçando-o pela cintura e escondendo o rosto em seu pescoço. — Eu te desculpo pela bolsa. Mas você tem que jantar aqui hoje. Meus pais saíram e eu não quero ficar sozinha.

— Eu tenho uma reunião por videoconferência com a equipe de Tóquio às oito, Duda — disse ele, sentindo a armadilha se fechar.

— Você pode fazer daqui — ela pediu, fazendo aquela voz manhosa que ele nunca conseguia resistir. — Por favor, Manu... eu fiz chá e comprei aqueles biscoitos que você gosta.

Emanuel fechou os olhos e respirou fundo. Ele sabia que Sara estaria esperando por ele em casa, provavelmente com um jantar pronto e uma lista de problemas administrativos para discutir, vestindo algo que o faria perder a cabeça. Mas ali, nos braços de Eduarda, o tempo parecia correr mais devagar.

Ele pegou o celular e enviou uma mensagem rápida para Sara: "Vou me atrasar. Jantando com a Duda. Não me espere para a reunião de Tóquio, assuma o controle por aí."

Segundos depois, o celular vibrou com a resposta de Sara: "Previsível. Aproveite o chá e os biscoitos, papai. Vou fechar o contrato de Tóquio e depois vou sair para dançar. Não me espere acordado."

Emanuel guardou o celular, sentindo uma pontada de irritação pela provocação de Sara e, ao mesmo tempo, um alívio por ela ser tão independente. Ele olhou para Eduarda, que agora sorria, vitoriosa em sua forma silenciosa e suave.

— Você é uma manipuladora, Eduarda — disse ele, embora estivesse sorrindo enquanto a puxava para um beijo calmo.

— Eu só quero você por perto — respondeu ela, puxando-o pela mão em direção à cama, onde se aninhou ao lado dele, apoiando a cabeça em seu braço.

Emanuel ficou ali, dividido entre dois mundos. Um que exigia sua força e sua presença executiva, e outro que exigia seu carinho e sua proteção constante. Ele tinha tudo o que um homem poderia querer: riqueza, sucesso e o amor de duas mulheres extraordinárias.

No entanto, enquanto Eduarda começava a falar sobre uma exposição de arte que queria visitar, e o pensamento de Sara dançando em algum clube noturno passava por sua mente, Emanuel percebeu que o controle que ele tanto prezava era apenas uma ilusão. Ele não era o mestre daquela situação; ele era o prisioneiro de dois corações opostos, e não tinha a menor intenção de ser libertado.

— Manu? — Eduarda chamou, percebendo o olhar distante dele.

— Oi, pequena.

— Você vai me levar na exposição no sábado? — Ela perguntou, os olhos brilhando.

Emanuel pensou no evento de inauguração que Sara tinha planejado para o novo estúdio no sábado. Ele respirou fundo, sentindo o início de uma nova dor de cabeça.

— Claro, Duda. Eu vou dar um jeito.

Ele sempre dava um jeito. Mas até quando ele conseguiria manter o equilíbrio entre o fogo e a brisa sem se queimar ou se perder na calmaria? Ele não sabia. Por enquanto, o cheiro de lavanda no cabelo de Eduarda era o suficiente para fazê-lo esquecer o resto do mundo, pelo menos por algumas horas.
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