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Fandom: Nenhum

Criado: 17/06/2026

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Entre o Traço e a Tinta

O estúdio principal de Emanuel, localizado no coração pulsante da cidade, exalava um aroma característico de tinta fresca, álcool isopropílico e café forte. As paredes eram adornadas com esboços autorais que valiam fortunas e fotografias de celebridades que haviam passado por suas agulhas. Emanuel, aos vinte e cinco anos, era mais do que um tatuador; ele era uma marca global, um homem que transformara dor em arte e caos em um império. No entanto, naquele final de tarde, o caos que ele enfrentava não era profissional, mas sim a complexa teia emocional que ele mesmo ajudara a tecer.

Ele estava sentado em sua cadeira de couro, observando Sara caminhar pelo lounge do estúdio com a confiança de quem era dona do lugar. Sara era uma força da natureza. O cabelo loiro platinado, impecavelmente escovado, caía sobre os ombros, contrastando com o vestido vermelho justo que acentuava cada curva de seu corpo esculpido. Ela segurava um iPad, revisando os relatórios de faturamento das unidades de Londres e Tóquio.

— Os números de Tóquio subiram quinze por cento este mês, Manu — disse ela, a voz carregada de uma ironia vibrante, sem desviar os olhos da tela. — Parece que minha reorganização logística está dando mais frutos do que sua equipe de administração anterior jamais sonhou.

Emanuel soltou um suspiro pesado, recostando-se na cadeira. Ele a amava — a inteligência afiada dela, a vulgaridade assumida que desafiava qualquer convenção social e a lealdade inabalável que ela demonstrava ao seu império.

— Você é excelente no que faz, Sara. Eu nunca duvidei disso — respondeu ele, a voz rouca pelo cansaço.

Sara caminhou até ele, sentando-se no braço da poltrona e passando a mão pelos cabelos dele. O perfume dela, doce e marcante, invadiu os sentidos de Emanuel.

— Eu sei que sou. E sei que você está tenso — ela inclinou o rosto, um sorriso provocador brincando nos lábios tingidos de um batom escuro. — É por causa da pequena Eduarda? Ela deve estar chegando, não é? O semestre da faculdade de História da Arte está sugando a energia da coitadinha.

Emanuel ficou rígido. A menção ao nome de Eduarda sempre trazia uma mistura de proteção instintiva e uma culpa latente que ele tentava racionalizar.

— Ela teve uma semana difícil — limitou-se a dizer.

— Ela é uma gracinha, Manu. Sério — Sara deu de ombros, levantando-se e caminhando em direção ao frigobar. — Tão sensível, tão... etérea. Às vezes eu acho que se eu soprar muito forte, ela quebra. Mas não se preocupe, eu gosto dela. Ela não me incomoda.

Para Sara, a existência de Eduarda não era uma ameaça. Em sua mente prática e competitiva, ela era a "namorada principal", a mulher que dividia o teto, os negócios e a cama oficial com o rei das tatuagens. Eduarda era como um segredo precioso, uma extensão do afeto de Emanuel que ela aprendera a tolerar, e até a simpatizar, desde que as hierarquias estivessem claras.

A porta do estúdio se abriu timidamente, e o tilintar do sino anunciou a chegada de quem eles esperavam. Eduarda entrou devagar. Ela vestia uma saia midi florida e um suéter de tricô bege, os cabelos castanhos presos em um coque frouxo que deixava algumas mechas caírem sobre o rosto delicado. Ela parecia pequena naquele ambiente de couro e metal, uma pintura renascentista perdida em uma galeria de arte moderna.

— Oi... — murmurou ela, os olhos grandes e expressivos buscando imediatamente os de Emanuel.

— Oi, pequena — Emanuel levantou-se num salto, atravessando a sala em poucos passos.

Ele a envolveu em um abraço firme. Eduarda se aninhou contra o peito dele, fechando os olhos e deixando escapar um suspiro de alívio. Era ali que ela se sentia segura, protegida do mundo que a achava frágil demais e da própria insegurança que a corroía.

— Você está bem? — perguntou ele, afastando-se apenas o suficiente para analisar o rosto dela.

— Só estou cansada, Manu — disse ela, a voz doce e baixa. — A aula de hoje foi densa... e eu fiquei pensando no jantar de domingo na casa da minha mãe.

O corpo de Emanuel tensionou-se novamente. O segredo deles. Eles eram primos de primeiro grau, e embora a família fosse moderna e os pais de Eduarda fossem pessoas de mente aberta, o relacionamento deles ainda era o tabu que nenhum deles tinha coragem de quebrar — especialmente Eduarda, que temia o escândalo e a decepção nos olhos dos pais.

— Oi, Duda! — Sara se aproximou, balançando um copo de água com gás. — Você parece pálida. Precisa de um pouco de sol, ou de um bife sangrento. Essa sua dieta de luz e suspiros vai te fazer desmaiar um dia desses.

Eduarda deu um sorriso tímido, quase imperceptível, e se encolheu levemente para mais perto de Emanuel.

— Oi, Sara. Eu estou bem, obrigada. É só o fim do semestre.

— Sei, sei — Sara revirou os olhos, mas não de forma maldosa. — Manu, eu vou terminar de enviar esses e-mails lá em cima. Deixo os pombinhos a sós por um momento para vocês discutirem como vão esconder o "pecado" da família no próximo churrasco.

A provocação de Sara atingiu Eduarda como um golpe físico. Ela baixou o olhar, as bochechas corando instantaneamente. Emanuel lançou um olhar de advertência para a loira.

— Sara, agora não — disse ele, o tom de voz ficando mais rígido, assumindo seu modo controlador.

— Relaxa, Emanuel! Que mau humor — Sara riu, uma risada alta e confiante, enquanto subia as escadas para o mezanino, o som de seus saltos ecoando no chão de concreto polido.

Quando o silêncio voltou a reinar no andar de baixo, Emanuel conduziu Eduarda até o sofá. Ele sentou-se e a puxou para o seu colo, uma posição que já era natural para ambos. Ela se apoiou nele, escondendo o rosto em seu pescoço.

— Ela não faz por mal, Duda. É o jeito dela — sussurrou ele, acariciando as costas da prima.

— Eu sei — respondeu Eduarda, a voz abafada. — Mas ela é tão... certa de si. Eu me sinto tão pequena perto dela. E me sinto pior ainda por estarmos mentindo para todo mundo. Manu, se a minha mãe desconfiar...

— Duda, olha para mim — ele segurou o queixo dela, forçando-a a encarar seus olhos cansados, mas firmes. — Eu não quero mais mentir. Eu amo a Sara, e eu amo você. São amores diferentes, mas são reais. Eu já disse que quero assumir isso. Eu tenho recursos, eu tenho como proteger vocês duas de qualquer comentário.

— Não é sobre dinheiro, Emanuel — disse ela, uma lágrima solitária escapando. — É sobre a minha família. Eles te veem como o sobrinho prodígio, o exemplo de sucesso. Eles me veem como a filha que precisa de cuidado. Se eles souberem... eles vão achar que você está se aproveitando da minha confusão, ou que eu sou uma traidora.

Emanuel sentiu a frustração crescer. Ele era um homem de lógica e ação. No mundo dos negócios, ele resolvia problemas com uma assinatura ou uma decisão firme. Mas ali, entre a fragilidade emocional de Eduarda e a presença dominante de Sara, ele se sentia impotente.

— Ninguém está se aproveitando de ninguém — afirmou ele, a voz subindo um tom. — Nós somos adultos. Eu cuido de você porque eu quero, e eu estou com a Sara porque ela é minha parceira de vida e de negócios. Por que é tão difícil para as pessoas entenderem que o coração não segue uma linha reta?

— Porque o mundo não é um estúdio de tatuagem onde você dita as regras, Manu — rebateu Eduarda, com uma coragem rara. — O mundo tem regras que machucam.

Emanuel respirou fundo, tentando conter a irritação que o estresse acumulado trazia à tona. Ele não queria brigar com ela. Nunca queria.

— Me desculpe — disse ele, suavizando a expressão. — Eu só... eu odeio ver você sofrendo por algo que deveria ser bonito.

Eduarda relaxou os ombros, buscando a mão dele e entrelaçando seus dedos.

— Eu só preciso de tempo. Mais um pouco de tempo.

Nesse momento, Sara apareceu no parapeito do mezanino, observando a cena lá embaixo. Ela não sentia ciúmes no sentido tradicional da palavra. Ela via a cena com uma mistura de entretenimento e uma ponta de impaciência. Para ela, a hesitação de Eduarda era uma fraqueza que ela não conseguia compreender totalmente.

— O drama já acabou? — gritou ela, fazendo Eduarda dar um pulinho de susto. — Manu, o pessoal do estúdio de Berlim está na linha. Eles precisam da sua aprovação final naqueles designs de biomecânico.

Emanuel fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso de suas múltiplas vidas.

— Já vou, Sara! — ele olhou para Eduarda. — Você fica para o jantar? Eu pedi comida tailandesa.

Eduarda hesitou. Estar ali, na casa-estúdio onde Sara e Emanuel viviam, era sempre um exercício de equilíbrio emocional. Ela amava a proximidade com Emanuel, mas a presença vibrante e às vezes vulgar de Sara a deixava exausta. No entanto, o desejo de estar perto dele sempre vencia a insegurança.

— Eu fico — sussurrou ela.

— Ótimo — Emanuel deu um beijo na testa dela e levantou-se. — Vá para a cozinha, beba algo. Eu resolvo isso em dez minutos.

Eduarda caminhou lentamente em direção à cozinha gourmet, que era integrada à sala. Sara já estava lá, servindo-se de um vinho branco caro.

— Quer um pouco, santinha? — perguntou Sara, estendendo uma taça. — Ajuda a relaxar os nervos. Você está tão tensa que parece que vai sair voando.

— Só um pouco, obrigada — Eduarda aceitou a taça, as mãos leves tocando o vidro fino.

Sara encostou-se na bancada de mármore, observando a prima de Emanuel com um olhar clínico.

— Você sabe que ele vai acabar contando, não sabe? O Emanuel é um trator quando quer alguma coisa. E ele quer que a família saiba. Ele quer ter as duas no braço dele no próximo Natal.

Eduarda quase engasgou com o vinho.

— Você fala como se fosse a coisa mais simples do mundo, Sara.

— E por que não seria? — Sara deu de ombros, ajeitando o decote generoso. — A vida é curta demais para se preocupar com o que a tia fofoqueira vai dizer no grupo do WhatsApp. Eu amo o Emanuel. Ele me ama. Ele ama você. Você ama ele. É matemática básica, querida. O resto é ruído.

— Eu não sou forte como você — murmurou Eduarda, olhando para o líquido dourado na taça.

— Ninguém nasce forte, Duda. A gente fica forte de tanto levar porrada — Sara se aproximou e, em um gesto inesperado de carinho, tocou o ombro de Eduarda. — Mas enquanto você não cria sua própria casca, o Emanuel serve de escudo. E, se precisar, eu também sirvo. Ninguém mexe com o que é nosso.

Eduarda olhou para Sara, surpresa com a declaração de posse que a incluía. Havia uma estranha segurança naquela dinâmica. Emanuel era a rocha, o porto seguro e o protetor. Sara era a força bruta, a inteligência e a barreira contra o mundo exterior. E ela... ela era o coração sensível que mantinha os dois conectados a algo mais profundo e emocional.

Minutos depois, Emanuel entrou na cozinha, desabotoando os primeiros botões da camisa preta, revelando o início das tatuagens que subiam pelo seu pescoço. Ele olhou para as duas mulheres de sua vida — a luz e a sombra, a suavidade e a força — e sentiu uma onda de determinação.

— A comida chegou — anunciou ele, colocando as sacolas sobre a mesa.

Sentaram-se os três. O ambiente era carregado de uma tensão silenciosa, mas também de uma aceitação peculiar. Emanuel observava Eduarda comer delicadamente, enquanto Sara falava sobre as projeções financeiras para o próximo ano entre uma garfada e outra.

— Amanhã eu tenho uma reunião com o pessoal da administração — disse Sara, apontando o hashi para Emanuel. — E você tem aquela sessão de doze horas com o jogador de futebol. Duda, por que você não vem para o estúdio depois da faculdade? Podemos ir ao shopping. Você precisa de roupas novas, essas suas parecem que saíram de um brechó de freiras.

Eduarda sorriu, desta vez de forma mais genuína.

— Eu gosto das minhas roupas, Sara.

— Eu sei que gosta, por isso mesmo precisamos ir — Sara piscou para ela.

Emanuel estendeu as mãos, pegando a mão de Sara com a direita e a de Eduarda com a esquerda. O contraste era absoluto: a mão de Sara era firme, com unhas longas e bem feitas; a de Eduarda era pequena, macia e levemente fria.

— Nós vamos dar um jeito — disse ele, a voz carregada de uma promessa. — Em tudo. Na família, no estúdio, em nós.

— Você é muito otimista para um homem tão mal-humorado, Manu — provocou Sara, mas apertou a mão dele de volta.

Eduarda apenas assentiu, deixando que o calor da mão de Emanuel a acalmasse. Ela sabia que o conflito com sua família era inevitável e que o escândalo seria grande. Sabia que as pessoas não entenderiam como ela podia dividir o homem que amava com uma mulher tão oposta a ela. Mas ali, naquele momento, protegida pelas paredes do império de Emanuel e pela presença avassaladora de Sara, ela se permitiu acreditar que, talvez, o amor não precisasse de explicações, apenas de coragem para ser vivido.

A noite caiu sobre a cidade, e dentro daquele apartamento luxuoso e moderno, a tríade encontrava seu equilíbrio precário. Entre o traço firme da agulha de Emanuel e a tinta vibrante da personalidade de Sara, Eduarda era a tela em branco que recebia todas as cores, tentando encontrar seu lugar em uma obra de arte que ainda estava longe de ser terminada.
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