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Vida dupla
Fandom: Camren
Criado: 18/06/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoCrimeConsertoDivergênciaHistória DomésticaSuspenseEstudo de PersonagemOOC (Fora do Personagem)Ciúmes
Espelhos de Alma Distinta
O sol da manhã entrava pelas janelas do casarão dos Cabello, mas para Camila, a luz parecia não ter brilho. Ela estava sentada à mesa do café da manhã, o corpo doendo em lugares que ela preferia não pensar. Seus dedos pequenos e delicados tremiam levemente ao segurar a xícara de porcelana. Aos 20 anos, Camila era a personificação da doçura, com seus 1,56m de pura gentileza, mas sob a pele, carregava as marcas invisíveis de um casamento que era, na verdade, uma prisão.
— Você está distraída, Mila. — A voz de Dinah quebrou o silêncio. A amiga, sempre leal e protetora, a observava com os olhos estreitos de preocupação. — Ela fez de novo, não foi?
Camila forçou um sorriso, aquele que ela usava para convencer o mundo de que estava tudo bem.
— Não é nada, DJ. A Rafaela só... ela teve um dia difícil ontem. Ela vai mudar, eu sinto isso. Ela me prometeu.
Dinah soltou um suspiro pesado, batendo o garfo no prato com irritação.
— Ela promete isso toda semana, Camila! E toda semana ela sai daqui com um cheque seu e volta cheirando a perfume barato e uísque. O seu pai só não a expulsou ainda porque você implorou, mas ele mal olha na cara dela na empresa.
— Ela vai melhorar — repetiu Camila, mais para si mesma do que para a amiga. — Eu dei o cheque que ela pediu ontem. Ela disse que ia investir em um projeto novo, que isso ia dar a ela a confiança que falta para ser uma esposa melhor.
Enquanto isso, longe dali, em um subúrbio industrial e cinzento, a atmosfera era outra. Ester limpava o suor da testa com as costas da mão. Aos 22 anos, ela era o retrato da resiliência. Com 1,63m e um corpo moldado pelo trabalho duro, ela entendia de números, de sobrevivência e de como fazer um resto de pão durar dois dias. Ela nunca conheceu os pais, cresceu em orfanatos e aprendeu que o mundo não dava nada de graça.
Ela estava prestes a fechar a porta de seu pequeno quarto de pensão quando uma figura surgiu nas sombras do corredor. Ester paralisou. Era como olhar para um espelho, mas um espelho distorcido, carregado de arrogância e roupas caras.
— Quem é você? — Ester perguntou, a voz firme apesar do choque.
A mulher à sua frente sorriu de lado, um gesto carregado de desprezo.
— Eu sou o seu bilhete de loteria, maninha. Meu nome é Rafaela. E nós temos muito o que conversar.
Rafaela entrou no quarto sem ser convidada, olhando para as paredes descascadas com nojo. Ela explicou a situação: eram gêmeas separadas pelo destino. Mas Rafaela não estava ali por saudade. Ela estava ali porque estava entediada. Queria sumir com o dinheiro que arrancara de Camila, viajar pelo mundo com suas amantes e viver sem as "obrigações" de fingir que suportava a família Cabello.
— Você vai para o meu lugar — disse Rafaela, jogando uma pasta sobre a mesa bamba. — Você tem o meu rosto, o meu corpo... até o que temos entre as pernas é igual. Ninguém vai notar. Você vive no luxo por um tempo, e eu tiro férias daquela garota mimada e chorona.
— Você enlouqueceu? — Ester rebateu, indignada. — Eu não vou enganar uma família inteira. Eu não vou fingir ser você para maltratar uma mulher que, pelo que você diz, só te dá amor. Isso é doentio.
Rafaela estreitou os olhos. A fachada de "boazinha" que ela usava às vezes caiu por completo, revelando a mulher grossa e ignorante que era.
— Você não tem escolha, Ester. Ou você aceita, ou eu faço a sua vida ser um inferno maior do que já é.
Ester expulsou a irmã, mas Rafaela já tinha um plano. Horas depois, a polícia bateu à porta de Ester. Uma denúncia anônima de roubo de carga, provas plantadas com precisão cirúrgica. Na cela fria da delegacia, Ester viu a irmã aparecer novamente, impecável.
— A fiança é cara, Ester — desdenhou Rafaela. — Mas eu pago. Em troca, você assume a minha vida por um tempo. Eu te ensino tudo. Sete dias. É o tempo que eu preciso para organizar minha "viagem de negócios".
Sem saída e temendo o sistema prisional que a esmagaria sem piedade, Ester cedeu.
Os sete dias seguintes foram um treinamento intensivo em um hotel de luxo afastado. Ester observava Rafaela com crescente repulsa. Rafaela ensinava como tratar os empregados (com ordens ríspidas), como falar com o pai de Camila (com o mínimo de palavras possível) e, principalmente, como lidar com Camila.
— Ela é carente — explicava Rafaela, lixando as unhas. — Vai tentar te abraçar, vai pedir carinho, vai querer ser "dengosa". Você só precisa dar um fora nela de vez em quando, pegar o dinheiro e dizer que está mudando. Ela acredita em qualquer coisa. Ah, e no sexo... não perca tempo. Só se satisfaça e pronto. Ela gosta de ser usada, embora chore depois.
Ester sentiu o estômago revirar. Como alguém podia ser tão cruel com quem lhe dava tudo?
— Você é um monstro — murmurou Ester.
— Eu sou esperta — corrigiu Rafaela. — Amanhã eu parto. O motorista vai te buscar às oito. Lembre-se: você é Rafaela agora. Se falhar, eu te coloco de volta na cadeia antes de você conseguir dizer "divórcio".
No dia seguinte, a troca foi feita. Rafaela partiu para o aeroporto com uma mala cheia de dólares e uma lista de contatos de festas luxuosas. Ester, vestindo um terno sob medida que parecia sufocá-la, entrou no carro que a levaria para a mansão Cabello.
Ao chegar, o coração de Ester martelava contra as costelas. Ela subiu as escadas, seguindo as instruções geográficas que decorara. Quando entrou no quarto principal, viu uma figura pequena sentada na beira da cama, segurando uma câmera fotográfica.
Camila olhou para cima. Seus olhos castanhos estavam inchados, como se tivesse chorado até tarde. Ao ver a esposa entrar, ela se encolheu instintivamente, um gesto que partiu o coração de Ester.
— Oi, Rafa... — Camila disse baixo, a voz doce e trêmula. — Você... você demorou. Eu fiz aquelas fotos que você disse que queria ver, do jardim...
Ester ficou parada por um momento. Ela deveria ser grossa. Deveria ignorá-la. Mas a aura de Camila era tão pura, tão carente de um gesto humano, que Ester não conseguiu seguir o roteiro de Rafaela.
— Oi, Camila — disse Ester. Sua voz era idêntica à de Rafaela, mas o tom... o tom era suave, algo que Camila não ouvia há anos.
Camila franziu a testa, estranhando a falta de um insulto imediato. Ela se levantou e caminhou timidamente até Ester.
— Você está bem? Parece... diferente.
Ester respirou fundo, lembrando-se de que precisava manter o disfarce, mas decidiu que ser "gentil" poderia ser interpretado como a tal "mudança" que Rafaela sempre prometia.
— Eu estou bem. Só... cansada. — Ester estendeu a mão e, num impulso, tocou o rosto de Camila. A pele era macia como seda.
Camila fechou os olhos, inclinando o rosto contra a palma da mão de Ester, como um gatinho que recebe carinho pela primeira vez em meses. Um suspiro trêmulo escapou de seus lábios.
— Você me tocou... sem me empurrar — sussurrou Camila, abrindo os olhos cheios de uma esperança dolorosa. — Você vai mesmo mudar dessa vez, não vai?
Ester sentiu um nó na garganta. Ela olhou para aquela mulher linda e inteligente, que tinha o mundo aos seus pés, mas que se contentava com migalhas de afeto de uma pessoa desprezível.
— Eu vou tentar, Camila. Eu prometo que, a partir de hoje, as coisas vão ser diferentes.
Camila sorriu, um sorriso que iluminou o quarto inteiro, e se jogou nos braços de Ester. O abraço era apertado, manhoso, cheio de uma carência que fez Ester jurar silenciosamente que, enquanto estivesse ali, ninguém mais machucaria aquela garota.
— Eu te amo, Rafa — disse Camila, escondendo o rosto no pescoço de Ester.
Ester fechou os olhos, sentindo o peso da mentira, mas também a força de uma proteção que ela nunca soube que era capaz de sentir.
— Vai ficar tudo bem, pequena. Vai ficar tudo bem.
Naquela noite, o jantar foi tenso. O pai de Camila, um homem de semblante severo, mal olhava para Ester. Dinah, por outro lado, não tirava os olhos dela, desconfiada de cada movimento.
— Recebi o relatório da empresa — disse o pai de Camila, Alejandro, limpando a boca com o guardanapo. — Você não apareceu hoje, Rafaela. De novo.
Ester, usando sua habilidade natural com números e a inteligência que a vida nas ruas lhe deu, respondeu calmamente:
— Eu estava revisando alguns contratos em casa, senhor Cabello. Percebi algumas inconsistências na margem de lucro do setor de distribuição de jornalismo. Achei melhor analisar antes de ir para o escritório.
O silêncio na mesa foi absoluto. Dinah quase engasgou com o vinho. Rafaela nunca falava de "margens de lucro" ou "inconsistências"; ela mal sabia onde ficava o escritório.
— Inconsistências? — Alejandro arqueou uma sobrancelha, finalmente olhando para a nora. — E o que você sugere?
Ester começou a falar. Ela explicou, de forma brilhante e humilde, como pequenos ajustes na logística poderiam economizar milhares de dólares para a empresa do pai de Camila. Ela era inteligente, entendia de números de uma forma que Rafaela jamais entenderia.
Camila olhava para a "esposa" com os olhos brilhando de orgulho e admiração.
— Viu, papai? Eu disse que ela era capaz! — Camila exclamou, pegando a mão de Ester por cima da mesa.
Desta vez, Ester não retirou a mão. Ela apertou os dedos de Camila com carinho, sentindo a conexão elétrica que começava a surgir entre as duas.
Mais tarde, no quarto, o momento que Ester mais temia chegou. Camila saiu do banheiro vestindo uma camisola de seda curta, o corpo perfeito e pequeno exalando um perfume de baunilha. Ela se aproximou de Ester com um olhar dengoso.
— Rafa... você foi tão incrível hoje no jantar. — Camila passou os braços pelo pescoço de Ester. — Você me deixou com tanta vontade...
Ester sentiu o suor frio. Ela sabia que Rafaela era bruta, que machucava Camila. Ela sabia que tinha o mesmo corpo que a irmã, mas sua alma era outra.
— Camila, eu... — Ester começou, mas foi silenciada por um beijo.
O beijo de Camila era desesperado, doce e carregado de uma fome de amor. Ester tentou resistir, mas a doçura da mulher a envolveu. Quando as mãos de Camila começaram a descer pelo seu corpo, Ester soube que precisava agir, mas de uma forma que Camila nunca experimentara.
Ela a pegou no colo com facilidade, a força de quem trabalhou pesado a vida toda se tornando um porto seguro. Ela deitou Camila na cama com uma delicadeza extrema, quase como se ela fosse feita de cristal.
— Devagar, Mila — sussurrou Ester, os olhos fixos nos dela. — Hoje não vai ser como as outras vezes.
— Não? — Camila perguntou, os olhos arregalados, o medo da dor ainda presente em seu subconsciente.
— Não. Hoje eu quero que você sinta apenas... amor.
Ester começou a beijar Camila, não com a agressividade de Rafaela, mas com uma ternura que fez Camila chorar de alívio. Cada toque de Ester era uma descoberta. Ela usava as mãos e a boca para adorar o corpo de Camila, encontrando seus pontos de prazer com uma paciência infinita.
Quando Ester finalmente se entregou ao desejo e usou o que tinham em comum para possuir Camila, ela o fez com uma conexão que transcendia o físico. Ela olhava nos olhos de Camila o tempo todo, sussurrando palavras de carinho, chamando-a de linda, de inteligente.
Camila atingiu o ápice gritando o nome de Rafaela, mas a mulher que a segurava, que a limpava com cuidado e que a aninhava em seu peito depois, era Ester.
— Foi... foi o melhor momento da minha vida — soluçou Camila, aninhada no peito de Ester. — Por que você não foi assim antes?
Ester beijou o topo da cabeça de Camila, sentindo uma culpa imensa, mas também uma determinação feroz. Rafaela nunca voltaria para aquela casa se dependesse dela. Ela protegeria aquela mulher, mesmo que tivesse que viver uma mentira pelo resto da vida.
— Porque eu precisei quase te perder para entender o que eu tinha, Camila.
Enquanto Camila dormia o sono dos anjos, Ester olhava para o teto, sabendo que a verdadeira batalha estava apenas começando. Ela não era Rafaela, e logo Dinah ou o pai de Camila perceberiam que a alma naquela casa havia mudado. Mas, por enquanto, ela apenas apertou Camila em seus braços, sentindo pela primeira vez que tinha algo pelo qual valia a pena lutar.
— Você está distraída, Mila. — A voz de Dinah quebrou o silêncio. A amiga, sempre leal e protetora, a observava com os olhos estreitos de preocupação. — Ela fez de novo, não foi?
Camila forçou um sorriso, aquele que ela usava para convencer o mundo de que estava tudo bem.
— Não é nada, DJ. A Rafaela só... ela teve um dia difícil ontem. Ela vai mudar, eu sinto isso. Ela me prometeu.
Dinah soltou um suspiro pesado, batendo o garfo no prato com irritação.
— Ela promete isso toda semana, Camila! E toda semana ela sai daqui com um cheque seu e volta cheirando a perfume barato e uísque. O seu pai só não a expulsou ainda porque você implorou, mas ele mal olha na cara dela na empresa.
— Ela vai melhorar — repetiu Camila, mais para si mesma do que para a amiga. — Eu dei o cheque que ela pediu ontem. Ela disse que ia investir em um projeto novo, que isso ia dar a ela a confiança que falta para ser uma esposa melhor.
Enquanto isso, longe dali, em um subúrbio industrial e cinzento, a atmosfera era outra. Ester limpava o suor da testa com as costas da mão. Aos 22 anos, ela era o retrato da resiliência. Com 1,63m e um corpo moldado pelo trabalho duro, ela entendia de números, de sobrevivência e de como fazer um resto de pão durar dois dias. Ela nunca conheceu os pais, cresceu em orfanatos e aprendeu que o mundo não dava nada de graça.
Ela estava prestes a fechar a porta de seu pequeno quarto de pensão quando uma figura surgiu nas sombras do corredor. Ester paralisou. Era como olhar para um espelho, mas um espelho distorcido, carregado de arrogância e roupas caras.
— Quem é você? — Ester perguntou, a voz firme apesar do choque.
A mulher à sua frente sorriu de lado, um gesto carregado de desprezo.
— Eu sou o seu bilhete de loteria, maninha. Meu nome é Rafaela. E nós temos muito o que conversar.
Rafaela entrou no quarto sem ser convidada, olhando para as paredes descascadas com nojo. Ela explicou a situação: eram gêmeas separadas pelo destino. Mas Rafaela não estava ali por saudade. Ela estava ali porque estava entediada. Queria sumir com o dinheiro que arrancara de Camila, viajar pelo mundo com suas amantes e viver sem as "obrigações" de fingir que suportava a família Cabello.
— Você vai para o meu lugar — disse Rafaela, jogando uma pasta sobre a mesa bamba. — Você tem o meu rosto, o meu corpo... até o que temos entre as pernas é igual. Ninguém vai notar. Você vive no luxo por um tempo, e eu tiro férias daquela garota mimada e chorona.
— Você enlouqueceu? — Ester rebateu, indignada. — Eu não vou enganar uma família inteira. Eu não vou fingir ser você para maltratar uma mulher que, pelo que você diz, só te dá amor. Isso é doentio.
Rafaela estreitou os olhos. A fachada de "boazinha" que ela usava às vezes caiu por completo, revelando a mulher grossa e ignorante que era.
— Você não tem escolha, Ester. Ou você aceita, ou eu faço a sua vida ser um inferno maior do que já é.
Ester expulsou a irmã, mas Rafaela já tinha um plano. Horas depois, a polícia bateu à porta de Ester. Uma denúncia anônima de roubo de carga, provas plantadas com precisão cirúrgica. Na cela fria da delegacia, Ester viu a irmã aparecer novamente, impecável.
— A fiança é cara, Ester — desdenhou Rafaela. — Mas eu pago. Em troca, você assume a minha vida por um tempo. Eu te ensino tudo. Sete dias. É o tempo que eu preciso para organizar minha "viagem de negócios".
Sem saída e temendo o sistema prisional que a esmagaria sem piedade, Ester cedeu.
Os sete dias seguintes foram um treinamento intensivo em um hotel de luxo afastado. Ester observava Rafaela com crescente repulsa. Rafaela ensinava como tratar os empregados (com ordens ríspidas), como falar com o pai de Camila (com o mínimo de palavras possível) e, principalmente, como lidar com Camila.
— Ela é carente — explicava Rafaela, lixando as unhas. — Vai tentar te abraçar, vai pedir carinho, vai querer ser "dengosa". Você só precisa dar um fora nela de vez em quando, pegar o dinheiro e dizer que está mudando. Ela acredita em qualquer coisa. Ah, e no sexo... não perca tempo. Só se satisfaça e pronto. Ela gosta de ser usada, embora chore depois.
Ester sentiu o estômago revirar. Como alguém podia ser tão cruel com quem lhe dava tudo?
— Você é um monstro — murmurou Ester.
— Eu sou esperta — corrigiu Rafaela. — Amanhã eu parto. O motorista vai te buscar às oito. Lembre-se: você é Rafaela agora. Se falhar, eu te coloco de volta na cadeia antes de você conseguir dizer "divórcio".
No dia seguinte, a troca foi feita. Rafaela partiu para o aeroporto com uma mala cheia de dólares e uma lista de contatos de festas luxuosas. Ester, vestindo um terno sob medida que parecia sufocá-la, entrou no carro que a levaria para a mansão Cabello.
Ao chegar, o coração de Ester martelava contra as costelas. Ela subiu as escadas, seguindo as instruções geográficas que decorara. Quando entrou no quarto principal, viu uma figura pequena sentada na beira da cama, segurando uma câmera fotográfica.
Camila olhou para cima. Seus olhos castanhos estavam inchados, como se tivesse chorado até tarde. Ao ver a esposa entrar, ela se encolheu instintivamente, um gesto que partiu o coração de Ester.
— Oi, Rafa... — Camila disse baixo, a voz doce e trêmula. — Você... você demorou. Eu fiz aquelas fotos que você disse que queria ver, do jardim...
Ester ficou parada por um momento. Ela deveria ser grossa. Deveria ignorá-la. Mas a aura de Camila era tão pura, tão carente de um gesto humano, que Ester não conseguiu seguir o roteiro de Rafaela.
— Oi, Camila — disse Ester. Sua voz era idêntica à de Rafaela, mas o tom... o tom era suave, algo que Camila não ouvia há anos.
Camila franziu a testa, estranhando a falta de um insulto imediato. Ela se levantou e caminhou timidamente até Ester.
— Você está bem? Parece... diferente.
Ester respirou fundo, lembrando-se de que precisava manter o disfarce, mas decidiu que ser "gentil" poderia ser interpretado como a tal "mudança" que Rafaela sempre prometia.
— Eu estou bem. Só... cansada. — Ester estendeu a mão e, num impulso, tocou o rosto de Camila. A pele era macia como seda.
Camila fechou os olhos, inclinando o rosto contra a palma da mão de Ester, como um gatinho que recebe carinho pela primeira vez em meses. Um suspiro trêmulo escapou de seus lábios.
— Você me tocou... sem me empurrar — sussurrou Camila, abrindo os olhos cheios de uma esperança dolorosa. — Você vai mesmo mudar dessa vez, não vai?
Ester sentiu um nó na garganta. Ela olhou para aquela mulher linda e inteligente, que tinha o mundo aos seus pés, mas que se contentava com migalhas de afeto de uma pessoa desprezível.
— Eu vou tentar, Camila. Eu prometo que, a partir de hoje, as coisas vão ser diferentes.
Camila sorriu, um sorriso que iluminou o quarto inteiro, e se jogou nos braços de Ester. O abraço era apertado, manhoso, cheio de uma carência que fez Ester jurar silenciosamente que, enquanto estivesse ali, ninguém mais machucaria aquela garota.
— Eu te amo, Rafa — disse Camila, escondendo o rosto no pescoço de Ester.
Ester fechou os olhos, sentindo o peso da mentira, mas também a força de uma proteção que ela nunca soube que era capaz de sentir.
— Vai ficar tudo bem, pequena. Vai ficar tudo bem.
Naquela noite, o jantar foi tenso. O pai de Camila, um homem de semblante severo, mal olhava para Ester. Dinah, por outro lado, não tirava os olhos dela, desconfiada de cada movimento.
— Recebi o relatório da empresa — disse o pai de Camila, Alejandro, limpando a boca com o guardanapo. — Você não apareceu hoje, Rafaela. De novo.
Ester, usando sua habilidade natural com números e a inteligência que a vida nas ruas lhe deu, respondeu calmamente:
— Eu estava revisando alguns contratos em casa, senhor Cabello. Percebi algumas inconsistências na margem de lucro do setor de distribuição de jornalismo. Achei melhor analisar antes de ir para o escritório.
O silêncio na mesa foi absoluto. Dinah quase engasgou com o vinho. Rafaela nunca falava de "margens de lucro" ou "inconsistências"; ela mal sabia onde ficava o escritório.
— Inconsistências? — Alejandro arqueou uma sobrancelha, finalmente olhando para a nora. — E o que você sugere?
Ester começou a falar. Ela explicou, de forma brilhante e humilde, como pequenos ajustes na logística poderiam economizar milhares de dólares para a empresa do pai de Camila. Ela era inteligente, entendia de números de uma forma que Rafaela jamais entenderia.
Camila olhava para a "esposa" com os olhos brilhando de orgulho e admiração.
— Viu, papai? Eu disse que ela era capaz! — Camila exclamou, pegando a mão de Ester por cima da mesa.
Desta vez, Ester não retirou a mão. Ela apertou os dedos de Camila com carinho, sentindo a conexão elétrica que começava a surgir entre as duas.
Mais tarde, no quarto, o momento que Ester mais temia chegou. Camila saiu do banheiro vestindo uma camisola de seda curta, o corpo perfeito e pequeno exalando um perfume de baunilha. Ela se aproximou de Ester com um olhar dengoso.
— Rafa... você foi tão incrível hoje no jantar. — Camila passou os braços pelo pescoço de Ester. — Você me deixou com tanta vontade...
Ester sentiu o suor frio. Ela sabia que Rafaela era bruta, que machucava Camila. Ela sabia que tinha o mesmo corpo que a irmã, mas sua alma era outra.
— Camila, eu... — Ester começou, mas foi silenciada por um beijo.
O beijo de Camila era desesperado, doce e carregado de uma fome de amor. Ester tentou resistir, mas a doçura da mulher a envolveu. Quando as mãos de Camila começaram a descer pelo seu corpo, Ester soube que precisava agir, mas de uma forma que Camila nunca experimentara.
Ela a pegou no colo com facilidade, a força de quem trabalhou pesado a vida toda se tornando um porto seguro. Ela deitou Camila na cama com uma delicadeza extrema, quase como se ela fosse feita de cristal.
— Devagar, Mila — sussurrou Ester, os olhos fixos nos dela. — Hoje não vai ser como as outras vezes.
— Não? — Camila perguntou, os olhos arregalados, o medo da dor ainda presente em seu subconsciente.
— Não. Hoje eu quero que você sinta apenas... amor.
Ester começou a beijar Camila, não com a agressividade de Rafaela, mas com uma ternura que fez Camila chorar de alívio. Cada toque de Ester era uma descoberta. Ela usava as mãos e a boca para adorar o corpo de Camila, encontrando seus pontos de prazer com uma paciência infinita.
Quando Ester finalmente se entregou ao desejo e usou o que tinham em comum para possuir Camila, ela o fez com uma conexão que transcendia o físico. Ela olhava nos olhos de Camila o tempo todo, sussurrando palavras de carinho, chamando-a de linda, de inteligente.
Camila atingiu o ápice gritando o nome de Rafaela, mas a mulher que a segurava, que a limpava com cuidado e que a aninhava em seu peito depois, era Ester.
— Foi... foi o melhor momento da minha vida — soluçou Camila, aninhada no peito de Ester. — Por que você não foi assim antes?
Ester beijou o topo da cabeça de Camila, sentindo uma culpa imensa, mas também uma determinação feroz. Rafaela nunca voltaria para aquela casa se dependesse dela. Ela protegeria aquela mulher, mesmo que tivesse que viver uma mentira pelo resto da vida.
— Porque eu precisei quase te perder para entender o que eu tinha, Camila.
Enquanto Camila dormia o sono dos anjos, Ester olhava para o teto, sabendo que a verdadeira batalha estava apenas começando. Ela não era Rafaela, e logo Dinah ou o pai de Camila perceberiam que a alma naquela casa havia mudado. Mas, por enquanto, ela apenas apertou Camila em seus braços, sentindo pela primeira vez que tinha algo pelo qual valia a pena lutar.
