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Baldes in My latte
Fandom: Não tem, é dark romance
Criado: 18/06/2026
Tags
SombrioPsicológicoSuspenseCrimeNoirDramaAngústiaMistérioEstudo de PersonagemDor/ConfortoViolência GráficaRomanceLinguagem ExplícitaNoir Gótico
Vinte e Sete Minutos de Silêncio
A chuva em Florença não era uma tempestade dramática; era uma cortina persistente e gélida que transformava as pedras antigas perto da Ponte Vecchio em espelhos escuros. Dentro da pequena *caffetteria*, o cheiro de café torrado misturava-se com o aroma úmido do ozônio que entrava cada vez que a porta se abria.
Hazel Reed limpava o balcão de mármore com movimentos mecânicos. O moletom cinza, três tamanhos maior que o seu corpo de um metro e sessenta, estava escondido debaixo do avental preto regulamentar. Com a mão esquerda, ela puxou uma mecha solta de seu cabelo castanho-claro de volta para o coque frouxo. Seus dedos longos, marcados por antigas queimaduras de vapor, tremeram de leve.
No canto do balcão, um exemplar abandonado do *La Nazione* exibia uma manchete que Hazel tentava ignorar há horas. Mais um corpo havia sido retirado do Rio Arno. Outro homem. O mesmo padrão de corte preciso na garganta. A mídia italiana falava em um assassino em série local, mas Hazel sabia que não era local. Ela reconhecia aquela assinatura geométrica e cruel. Já a tinha visto dez meses atrás, antes de fugir de Portland com uma mala barata e um pavor que se instalara sob sua pele como um parasita.
Ela olhou para o relógio de parede antigo. 19h59.
Hazel largou o pano de prato e pegou uma caneta esferográfica barata. Automaticamente, começou a desenhar círculos minúsculos e concêntricos na borda de um guardanapo de papel. Era o seu ritual contra a ansiedade, uma mania que vinha desde os dezesseis anos, quando as noites de insônia começaram a ditar o ritmo de sua vida.
Às 20h00 em ponto, o sino acima da porta pesada de madeira badalou.
Hazel não precisou erguer os olhos para saber quem era. O som dos sapatos de couro feitos sob medida contra o piso de cerâmica era perfeitamente ritmado. Matteo De Luca entrou, fechando o guarda-chuva preto com um movimento seco e preciso. Mesmo sob a chuva torrencial, seu terno cinza-escuro parecia impecável, sem uma única dobra desalinhada. O cabelo preto estava penteado para trás, ainda úmido, destacando as linhas duras e aristocráticas de seu rosto.
Ele tinha vinte e oito anos, mas carregava a postura formal de um século passado. Dizia ser um *consulente finanziario*, mas Hazel nunca vira um consultor financeiro com olhos tão frios. Eram cinzentos, da cor exata do Arno em um dia de tempestade.
Sem dizer uma palavra, Matteo caminhou até a mesa de canto, a mesma que ocupava todas as noites. Ele se sentou, ajustando os punhos da camisa que apareciam sob o paletó.
Hazel largou a caneta, engoliu em seco e preparou o pedido. Um café preto, curto, sem açúcar. Ela colocou a xícara de porcelana sobre um pires e caminhou até a mesa dele. Seus passos eram silenciosos. Quando pousou o café à sua frente, Matteo não olhou para ela. Ele nunca olhava diretamente, não de uma forma comum. Mas Hazel sentia o peso da atenção dele, uma pressão invisível que fazia os pelos de seus braços se arrepiarem.
— *Grazie* — disse ele, a voz um barítono baixo, o sotaque italiano polido e cortante.
— De nada — Hazel respondeu em inglês, a voz quase um sussurro.
Ela se afastou imediatamente. Matteo não gostava de toque, não gostava de proximidade excessiva. Suas mãos, longas e pálidas como as de um pianista, envolveram a xícara. Hazel notou, como sempre fazia, o corte fino e avermelhado na palma da mão direita dele. Uma ferida que parecia nunca cicatrizar completamente.
O silêncio começou. Seriam exatamente vinte e sete minutos. Ele chegaria às 20h00 e sairia às 20h27. Sempre. Era uma matemática obsessiva que Hazel passara a usar para ancorar seu próprio tempo naquela cidade onde vivia ilegalmente, com o visto de estudante vencido e o medo constante da deportação.
O relógio marcava 20h12 quando a paz da *caffetteria* foi despedaçada.
A porta foi empurrada com força, batendo contra a parede. Dois homens entraram rindo alto, cambaleando. O cheiro de cerveja barata e vodca inundou o ambiente instantaneamente. Eram turistas americanos, jovens, corpulentos, com jaquetas de times universitários e rostos vermelhos pelo álcool.
— Cara, eu te disse que esse lugar estava aberto! — o mais alto deles exclamou, batendo no peito do amigo. — Preciso de um expresso ou vou apagar antes de chegar ao hotel.
Hazel contraiu os ombros, recolhendo-se atrás do balcão. Vozes masculinas alteradas eram o gatilho mais rápido para o seu pânico. Seu coração começou a martelar contra as costelas.
O turista mais alto caminhou até o balcão, apoiando os cotovelos pesados no mármore limpo. Ele olhou para Hazel, os olhos semi-cerrados focando nas olheiras suaves sob os olhos avelã dela e no formato delicado de seu rosto.
— Olha só o que temos aqui... — o homem arrastou as palavras em um inglês anasalado. — Uma bonequinha local. Ei, *bella*, faz um café duplo para mim? E quem sabe você não me dá o seu número depois?
— Eu não falo muito inglês — Hazel mentiu, forçando o sotaque italiano mais grosso que conseguiu fingir, mantendo a voz baixa e o tom sarcástico que usava como armadura. — Só café. Cinco euros.
O homem riu, uma risada alta que fez Matteo, no canto da sala, tencionar os ombros imperceptivelmente. O italiano não desviou os olhos de sua xícara, mas seus dedos congelaram ao redor da porcelana.
— Ah, qual é, docinho? Eu sei que você me entende — o turista esticou o braço largo através do balcão.
Antes que Hazel pudesse recuar, os dedos grossos do homem fecharam-se ao redor de seu pulso fino. O aperto era firme, invasivo.
— Você é muito bonitinha para ser tão antipática — ele disse, puxando-a levemente para mais perto.
O pânico de Hazel foi substituído por uma faísca de puro pavio curto. Ela tentou puxar o braço de volta, os nós dos dedos ficando brancos.
— Larga a minha mão — ela sibilou, esquecendo o sotaque, os olhos faiscando. — Agora.
No canto da *caffetteria*, o leve tilintar de uma colher contra a porcelana ecoou como um tiro. Matteo De Luca havia colocado sua xícara no pires. Ele não se levantou. Não fez escândalo. Mas seus olhos cinzentos ergueram-se lentamente, fixando-se na mão do turista que ainda prendia o pulso de Hazel. A intensidade daquele olhar era quase palpável, uma promessa de violência silenciosa e metódica.
O amigo do turista, percebendo a atmosfera subitamente gélida do lugar e o olhar mortal do homem de terno, puxou o companheiro pelo ombro.
— Cara, deixa para lá. Vamos embora, a vibe desse lugar tá estranha.
O agressor soltou o pulso de Hazel com um empurrão desdenhoso.
— Grossa — resmungou ele, deixando uma nota de dez euros amassada no balcão antes de dar as costas e sair com o amigo, rindo para disfarçar o desconforto.
Hazel segurou o próprio pulso, a pele clara já exibindo uma marca avermelhada. Ela respirava de forma arquejante, tentando controlar o tremor que ameaçava tomar conta de suas pernas. Ela olhou de relance para a mesa de canto.
Matteo havia voltado a olhar para a sua xícara. Ele não disse nada. Não perguntou se ela estava bem. Ele odiava barulho, odiava *turisti*, e odiava que o controle de seu ambiente fosse quebrado.
O relógio avançou. 20h26.
Matteo bebeu o último gole do café amargo. Ele se levantou, abotoando o paletó cinza com movimentos calculados. Caminhou até o balcão. Hazel recuou um passo por puro instinto, mas ele apenas colocou uma nota de vinte euros — o valor exato com uma gorjeta generosa — sobre a superfície de mármore.
Ao lado do dinheiro, ele pousou um pedaço de papel. Era um guardanapo da própria loja.
Matteo olhou para Hazel nos olhos pela primeira vez naquela noite. Havia uma escuridão profunda naquelas íris cinzentas, algo que parecia compreender cada um dos medos secretos dela.
— Tenha uma boa noite, *Signorina* Reed — ele disse. O uso de seu sobrenome americano fez o estômago de Hazel despencar. Ela nunca tinha dito seu sobrenome a ele.
Antes que ela pudesse responder, Matteo virou-se e saiu. O relógio marcava exatamente 20h27.
Hazel desabou contra o balcão, as pernas trêmulas. Ela olhou para o dinheiro e depois para o guardanapo que ele deixara para trás. Quando o pegou, seu coração pareceu parar de bater.
No centro do papel, desenhados com uma precisão cirúrgica, estavam dezenas de círculos minúsculos e concêntricos. Era o mesmo padrão exato que ela desenhava quando estava ansiosa. Mas Hazel soube, com absoluta certeza, que não fora ela quem desenhara aquele. Matteo a estivera observando. Ele sabia. Ele replicara sua maior fraqueza em um pedaço de papel.
O restante do turno foi um borrão de paranoia. Hazel limpou a loja olhando para as janelas a cada segundo, trancando a porta principal duas vezes assim que o horário permitiu.
A caminhada até o seu pequeno apartamento no terceiro andar de um prédio antigo e caindo aos pedaços foi um teste de resistência. A chuva continuava a cair, e cada sombra nos becos de Florença parecia tomar a forma de um homem de terno impecável ou do monstro que ela deixara para trás em Portland.
Quando finalmente entrou em casa, ela empurrou a velha cômoda de madeira contra a porta. A tranca estava quebrada há meses, e o proprietário se recusava a consertar. Hazel foi até a cama, enfiou a mão debaixo do travesseiro e sentiu o metal frio da faca de cozinha que mantinha ali todas as noites.
Ela deitou-se vestida, encarando o teto. A insônia, sua velha amiga, veio cobrar seu preço. Cada estalo da madeira do prédio a fazia sobressaltar. Ela pensou nos círculos no guardanapo. Pensou nos olhos de Matteo. Pensou em como ele sabia seu nome.
Ela não dormiu. Nem por um minuto.
No dia seguinte, o céu de Florença amanheceu cinzento e pesado. Hazel saiu cedo para comprar comida antes que as lojas ficassem cheias. Ao passar por uma banca de jornais perto da Piazza della Signoria, seus olhos foram atraídos pela primeira página do *La Nazione*.
A foto era escura, mostrando o isolamento policial à beira do Rio Arno, sob a névoa da manhã.
A manchete em italiano era clara o suficiente para o seu entendimento limitado: *"Turista americano encontrado morto no Arno. Corpo apresenta as mesmas marcas do Assassino do Rio"*.
Hazel aproximou-se, o estômago revirando. O texto detalhava que a vítima fora encontrada nas primeiras horas da manhã, com a garganta cortada por uma lâmina extremamente afiada. O nome do homem estava lá. Era o mesmo turista que, na noite anterior, às 20h15, havia segurado seu pulso com força.
O mundo pareceu girar mais devagar. Hazel deu um passo para trás, as mãos cobrindo a boca.
O padrão de Portland. O corte específico. O homem que a tocara estava morto.
*Ele faz isso por mim?* — o pensamento absurdo e aterrorizante cruzou sua mente. *Ou ele é apenas o monstro de quem eu passei a vida fugindo?*
A resposta parecia sussurrar nas sombras das ruelas de Florença. Matteo De Luca não era um cliente comum. Ele era o predador que mantinha os outros predadores longe dela. E ela estava presa na teia dele, quer quisesse, quer não.
A três quarteirões dali, no beco escuro e úmido atrás da Galleria degli Uffizi, a chuva batia contra as paredes de pedra centenárias.
Matteo De Luca estava parado sob o arco de um prédio antigo, protegido da água. Ele usava um terno preto novo, o anterior provavelmente descartado ou limpo de forma meticulosa. Seus olhos cinzentos estavam fixos na janela do terceiro andar do prédio do outro lado da rua — a janela do quarto de Hazel.
Ele enfiou a mão esquerda no bolso interno do paletó e puxou uma pequena caderneta de couro preto. Com a mão direita, cuja cicatriz na palma parecia ligeiramente mais viva sob a luz pálida da manhã, ele pegou uma caneta de metal.
A caderneta continha uma lista de nomes. Alguns já estavam riscados com uma linha preta e precisa.
Matteo deslizou a ponta da caneta sobre o nome do turista americano e fez um traço firme, eliminando-o da existência.
Ele fechou a caderneta com um estalo suave. Olhou mais uma vez para a janela de Hazel, vendo a silhueta distante da garota fechar as cortinas com pressa. Um vislumbre quase imperceptível de satisfação cruzou suas feições habitualmente gélidas.
Ela estava segura por mais um dia. E enquanto ele estivesse ali, ninguém a tocaria. Cada nome daquela lista que ousasse cruzar o caminho de Hazel Reed terminaria no fundo do Arno. Era a sua rotina. Era o seu controle. Era a sua obsessão.
Hazel Reed limpava o balcão de mármore com movimentos mecânicos. O moletom cinza, três tamanhos maior que o seu corpo de um metro e sessenta, estava escondido debaixo do avental preto regulamentar. Com a mão esquerda, ela puxou uma mecha solta de seu cabelo castanho-claro de volta para o coque frouxo. Seus dedos longos, marcados por antigas queimaduras de vapor, tremeram de leve.
No canto do balcão, um exemplar abandonado do *La Nazione* exibia uma manchete que Hazel tentava ignorar há horas. Mais um corpo havia sido retirado do Rio Arno. Outro homem. O mesmo padrão de corte preciso na garganta. A mídia italiana falava em um assassino em série local, mas Hazel sabia que não era local. Ela reconhecia aquela assinatura geométrica e cruel. Já a tinha visto dez meses atrás, antes de fugir de Portland com uma mala barata e um pavor que se instalara sob sua pele como um parasita.
Ela olhou para o relógio de parede antigo. 19h59.
Hazel largou o pano de prato e pegou uma caneta esferográfica barata. Automaticamente, começou a desenhar círculos minúsculos e concêntricos na borda de um guardanapo de papel. Era o seu ritual contra a ansiedade, uma mania que vinha desde os dezesseis anos, quando as noites de insônia começaram a ditar o ritmo de sua vida.
Às 20h00 em ponto, o sino acima da porta pesada de madeira badalou.
Hazel não precisou erguer os olhos para saber quem era. O som dos sapatos de couro feitos sob medida contra o piso de cerâmica era perfeitamente ritmado. Matteo De Luca entrou, fechando o guarda-chuva preto com um movimento seco e preciso. Mesmo sob a chuva torrencial, seu terno cinza-escuro parecia impecável, sem uma única dobra desalinhada. O cabelo preto estava penteado para trás, ainda úmido, destacando as linhas duras e aristocráticas de seu rosto.
Ele tinha vinte e oito anos, mas carregava a postura formal de um século passado. Dizia ser um *consulente finanziario*, mas Hazel nunca vira um consultor financeiro com olhos tão frios. Eram cinzentos, da cor exata do Arno em um dia de tempestade.
Sem dizer uma palavra, Matteo caminhou até a mesa de canto, a mesma que ocupava todas as noites. Ele se sentou, ajustando os punhos da camisa que apareciam sob o paletó.
Hazel largou a caneta, engoliu em seco e preparou o pedido. Um café preto, curto, sem açúcar. Ela colocou a xícara de porcelana sobre um pires e caminhou até a mesa dele. Seus passos eram silenciosos. Quando pousou o café à sua frente, Matteo não olhou para ela. Ele nunca olhava diretamente, não de uma forma comum. Mas Hazel sentia o peso da atenção dele, uma pressão invisível que fazia os pelos de seus braços se arrepiarem.
— *Grazie* — disse ele, a voz um barítono baixo, o sotaque italiano polido e cortante.
— De nada — Hazel respondeu em inglês, a voz quase um sussurro.
Ela se afastou imediatamente. Matteo não gostava de toque, não gostava de proximidade excessiva. Suas mãos, longas e pálidas como as de um pianista, envolveram a xícara. Hazel notou, como sempre fazia, o corte fino e avermelhado na palma da mão direita dele. Uma ferida que parecia nunca cicatrizar completamente.
O silêncio começou. Seriam exatamente vinte e sete minutos. Ele chegaria às 20h00 e sairia às 20h27. Sempre. Era uma matemática obsessiva que Hazel passara a usar para ancorar seu próprio tempo naquela cidade onde vivia ilegalmente, com o visto de estudante vencido e o medo constante da deportação.
O relógio marcava 20h12 quando a paz da *caffetteria* foi despedaçada.
A porta foi empurrada com força, batendo contra a parede. Dois homens entraram rindo alto, cambaleando. O cheiro de cerveja barata e vodca inundou o ambiente instantaneamente. Eram turistas americanos, jovens, corpulentos, com jaquetas de times universitários e rostos vermelhos pelo álcool.
— Cara, eu te disse que esse lugar estava aberto! — o mais alto deles exclamou, batendo no peito do amigo. — Preciso de um expresso ou vou apagar antes de chegar ao hotel.
Hazel contraiu os ombros, recolhendo-se atrás do balcão. Vozes masculinas alteradas eram o gatilho mais rápido para o seu pânico. Seu coração começou a martelar contra as costelas.
O turista mais alto caminhou até o balcão, apoiando os cotovelos pesados no mármore limpo. Ele olhou para Hazel, os olhos semi-cerrados focando nas olheiras suaves sob os olhos avelã dela e no formato delicado de seu rosto.
— Olha só o que temos aqui... — o homem arrastou as palavras em um inglês anasalado. — Uma bonequinha local. Ei, *bella*, faz um café duplo para mim? E quem sabe você não me dá o seu número depois?
— Eu não falo muito inglês — Hazel mentiu, forçando o sotaque italiano mais grosso que conseguiu fingir, mantendo a voz baixa e o tom sarcástico que usava como armadura. — Só café. Cinco euros.
O homem riu, uma risada alta que fez Matteo, no canto da sala, tencionar os ombros imperceptivelmente. O italiano não desviou os olhos de sua xícara, mas seus dedos congelaram ao redor da porcelana.
— Ah, qual é, docinho? Eu sei que você me entende — o turista esticou o braço largo através do balcão.
Antes que Hazel pudesse recuar, os dedos grossos do homem fecharam-se ao redor de seu pulso fino. O aperto era firme, invasivo.
— Você é muito bonitinha para ser tão antipática — ele disse, puxando-a levemente para mais perto.
O pânico de Hazel foi substituído por uma faísca de puro pavio curto. Ela tentou puxar o braço de volta, os nós dos dedos ficando brancos.
— Larga a minha mão — ela sibilou, esquecendo o sotaque, os olhos faiscando. — Agora.
No canto da *caffetteria*, o leve tilintar de uma colher contra a porcelana ecoou como um tiro. Matteo De Luca havia colocado sua xícara no pires. Ele não se levantou. Não fez escândalo. Mas seus olhos cinzentos ergueram-se lentamente, fixando-se na mão do turista que ainda prendia o pulso de Hazel. A intensidade daquele olhar era quase palpável, uma promessa de violência silenciosa e metódica.
O amigo do turista, percebendo a atmosfera subitamente gélida do lugar e o olhar mortal do homem de terno, puxou o companheiro pelo ombro.
— Cara, deixa para lá. Vamos embora, a vibe desse lugar tá estranha.
O agressor soltou o pulso de Hazel com um empurrão desdenhoso.
— Grossa — resmungou ele, deixando uma nota de dez euros amassada no balcão antes de dar as costas e sair com o amigo, rindo para disfarçar o desconforto.
Hazel segurou o próprio pulso, a pele clara já exibindo uma marca avermelhada. Ela respirava de forma arquejante, tentando controlar o tremor que ameaçava tomar conta de suas pernas. Ela olhou de relance para a mesa de canto.
Matteo havia voltado a olhar para a sua xícara. Ele não disse nada. Não perguntou se ela estava bem. Ele odiava barulho, odiava *turisti*, e odiava que o controle de seu ambiente fosse quebrado.
O relógio avançou. 20h26.
Matteo bebeu o último gole do café amargo. Ele se levantou, abotoando o paletó cinza com movimentos calculados. Caminhou até o balcão. Hazel recuou um passo por puro instinto, mas ele apenas colocou uma nota de vinte euros — o valor exato com uma gorjeta generosa — sobre a superfície de mármore.
Ao lado do dinheiro, ele pousou um pedaço de papel. Era um guardanapo da própria loja.
Matteo olhou para Hazel nos olhos pela primeira vez naquela noite. Havia uma escuridão profunda naquelas íris cinzentas, algo que parecia compreender cada um dos medos secretos dela.
— Tenha uma boa noite, *Signorina* Reed — ele disse. O uso de seu sobrenome americano fez o estômago de Hazel despencar. Ela nunca tinha dito seu sobrenome a ele.
Antes que ela pudesse responder, Matteo virou-se e saiu. O relógio marcava exatamente 20h27.
Hazel desabou contra o balcão, as pernas trêmulas. Ela olhou para o dinheiro e depois para o guardanapo que ele deixara para trás. Quando o pegou, seu coração pareceu parar de bater.
No centro do papel, desenhados com uma precisão cirúrgica, estavam dezenas de círculos minúsculos e concêntricos. Era o mesmo padrão exato que ela desenhava quando estava ansiosa. Mas Hazel soube, com absoluta certeza, que não fora ela quem desenhara aquele. Matteo a estivera observando. Ele sabia. Ele replicara sua maior fraqueza em um pedaço de papel.
O restante do turno foi um borrão de paranoia. Hazel limpou a loja olhando para as janelas a cada segundo, trancando a porta principal duas vezes assim que o horário permitiu.
A caminhada até o seu pequeno apartamento no terceiro andar de um prédio antigo e caindo aos pedaços foi um teste de resistência. A chuva continuava a cair, e cada sombra nos becos de Florença parecia tomar a forma de um homem de terno impecável ou do monstro que ela deixara para trás em Portland.
Quando finalmente entrou em casa, ela empurrou a velha cômoda de madeira contra a porta. A tranca estava quebrada há meses, e o proprietário se recusava a consertar. Hazel foi até a cama, enfiou a mão debaixo do travesseiro e sentiu o metal frio da faca de cozinha que mantinha ali todas as noites.
Ela deitou-se vestida, encarando o teto. A insônia, sua velha amiga, veio cobrar seu preço. Cada estalo da madeira do prédio a fazia sobressaltar. Ela pensou nos círculos no guardanapo. Pensou nos olhos de Matteo. Pensou em como ele sabia seu nome.
Ela não dormiu. Nem por um minuto.
No dia seguinte, o céu de Florença amanheceu cinzento e pesado. Hazel saiu cedo para comprar comida antes que as lojas ficassem cheias. Ao passar por uma banca de jornais perto da Piazza della Signoria, seus olhos foram atraídos pela primeira página do *La Nazione*.
A foto era escura, mostrando o isolamento policial à beira do Rio Arno, sob a névoa da manhã.
A manchete em italiano era clara o suficiente para o seu entendimento limitado: *"Turista americano encontrado morto no Arno. Corpo apresenta as mesmas marcas do Assassino do Rio"*.
Hazel aproximou-se, o estômago revirando. O texto detalhava que a vítima fora encontrada nas primeiras horas da manhã, com a garganta cortada por uma lâmina extremamente afiada. O nome do homem estava lá. Era o mesmo turista que, na noite anterior, às 20h15, havia segurado seu pulso com força.
O mundo pareceu girar mais devagar. Hazel deu um passo para trás, as mãos cobrindo a boca.
O padrão de Portland. O corte específico. O homem que a tocara estava morto.
*Ele faz isso por mim?* — o pensamento absurdo e aterrorizante cruzou sua mente. *Ou ele é apenas o monstro de quem eu passei a vida fugindo?*
A resposta parecia sussurrar nas sombras das ruelas de Florença. Matteo De Luca não era um cliente comum. Ele era o predador que mantinha os outros predadores longe dela. E ela estava presa na teia dele, quer quisesse, quer não.
A três quarteirões dali, no beco escuro e úmido atrás da Galleria degli Uffizi, a chuva batia contra as paredes de pedra centenárias.
Matteo De Luca estava parado sob o arco de um prédio antigo, protegido da água. Ele usava um terno preto novo, o anterior provavelmente descartado ou limpo de forma meticulosa. Seus olhos cinzentos estavam fixos na janela do terceiro andar do prédio do outro lado da rua — a janela do quarto de Hazel.
Ele enfiou a mão esquerda no bolso interno do paletó e puxou uma pequena caderneta de couro preto. Com a mão direita, cuja cicatriz na palma parecia ligeiramente mais viva sob a luz pálida da manhã, ele pegou uma caneta de metal.
A caderneta continha uma lista de nomes. Alguns já estavam riscados com uma linha preta e precisa.
Matteo deslizou a ponta da caneta sobre o nome do turista americano e fez um traço firme, eliminando-o da existência.
Ele fechou a caderneta com um estalo suave. Olhou mais uma vez para a janela de Hazel, vendo a silhueta distante da garota fechar as cortinas com pressa. Um vislumbre quase imperceptível de satisfação cruzou suas feições habitualmente gélidas.
Ela estava segura por mais um dia. E enquanto ele estivesse ali, ninguém a tocaria. Cada nome daquela lista que ousasse cruzar o caminho de Hazel Reed terminaria no fundo do Arno. Era a sua rotina. Era o seu controle. Era a sua obsessão.
