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Meus olhos em voce
Fandom: BTS
Criado: 18/06/2026
Tags
DramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoTragédiaTentativa de SuicídioMorte de PersonagemEstudo de PersonagemRealismoRomanceSobrevivênciaHistória DomésticaGravidez Não Planejada/IndesejadaUso de DrogasFatias de VidaMorte do ProtagonistaSongficAbuso de Álcool
Cacos de Vidro e Pôr do Sol
O cheiro de gasolina e asfalto quente sempre pareceu a Namjoon o cheiro da estagnação. Ele limpava o balcão do posto com um pano encardido, observando o horizonte onde o sol começava a se despedir de Seul. A pobreza era uma sombra silenciosa que o acompanhava, um peso nos ombros que o impedia de olhar para cima. Mas, ultimamente, o que mais doía não era a conta bancária vazia, era o vazio deixado pelo silêncio do grupo. Eles eram sete, e agora eram apenas fragmentos dispersos de um espelho quebrado.
Do outro lado da cidade, Taehyung tentava abafar o som dos gritos. Ele se encolheu no corredor estreito, os braços protegendo a irmãzinha que chorava baixinho. Cada golpe que ouvia contra a porta do quarto vizinho era um lembrete de sua própria impotência. Ele queria fugir, queria correr até encontrar os outros, mas para onde iriam? Yoongi não atendia o telefone, perdido em seu próprio luto cinzento desde que o fogo levara sua mãe e sua vontade de tocar piano. Hoseok estava em algum leito de hospital ou calçada, esperando que o mundo parasse de girar e que suas pernas parassem de ceder. E Jimin... Jimin estava atrás de paredes brancas e frias, onde as memórias da infância não podiam mais machucá-lo, ou assim os médicos diziam.
Mia Lencov observava a cidade do alto de sua cobertura, mas não sentia o luxo que a cercava. Seus cabelos loiros, uma mistura moderna de mel e raízes escuras, balançavam levemente com a brisa. Ela tinha tudo o que o dinheiro podia comprar, mas trocaria cada centavo por um dia em que não sentisse o gosto metálico de sangue na garganta.
Ela tossiu, pressionando um lenço contra a boca. Quando o afastou, a mancha vermelha brilhou sob a luz do crepúsculo. O câncer de pâncreas era um inquilino cruel que não pedia licença.
— De novo, Mia? — A voz de Jin veio da porta da varanda.
Ele segurava Meilin no colo. A bebê de dois meses dormia profundamente, alheia ao fato de que sua mãe a abandonara assim que ela respirou pela primeira vez. Jin parecia exausto; as olheiras sob seus olhos contavam a história de noites em claro e de um medo constante de não ser bom o suficiente para a filha.
Mia limpou a boca rapidamente, escondendo o lenço no bolso da calça jeans. Ela sorriu, embora o esforço fizesse seus ossos doerem.
— É só o ar seco, Jin. Não comece.
— Eu vi você na minha casa, Mia — disse Jin, aproximando-se com cuidado para não acordar a pequena. — Você me implorou para não contar a ninguém, e eu estou respeitando isso. Mas você precisa de ajuda. O grupo está desmoronando e você está... você está morrendo.
— Eu não estou morrendo hoje — rebateu ela, com a teimosia que sempre a definira. — E eu não vou passar meus últimos meses em uma cama de hospital como o Jimin. Eu quero ver o Jungkook.
Jin suspirou, o peso do mundo parecendo dobrar sobre ele.
— Ele não é mais o menino que conhecemos, Mia. Depois que nos separamos, algo nele quebrou de vez. Ele está nas ruas. Se metendo em brigas, andando em lugares perigosos. Ele se sente invisível.
— Ninguém é invisível para mim — sussurrou Mia, olhando para as próprias mãos bronzeadas que agora pareciam tão pálidas. — Especialmente ele.
Jungkook sentia o vento chicotear seu rosto. Ele estava sentado no parapeito de um prédio de doze andares, as pernas balançando sobre o abismo. O asfalto lá embaixo parecia um convite silencioso. Em casa, ele era o "menino quebrado", o estorvo que o padrasto batia e que o pai biológico esquecera que existia. Com os amigos, ele tinha sido o caçula protegido. Mas agora, sem eles, ele era apenas um fantasma vagando por Seul.
Ele fechou os olhos, lembrando-se do riso de Hoseok e do olhar protetor de Namjoon. Tudo se fora. A tragédia os separara como uma explosão, lançando cada um para um canto escuro.
— É alto demais para quem não tem asas, Jeon Jungkook.
Ele não precisou se virar para saber quem era. O perfume de Mia, uma mistura de flores e algo que lembrava liberdade, chegou antes de sua voz.
— O que você está fazendo aqui, Mia? — perguntou ele, a voz rouca de quem não falava com ninguém há dias. — Sua família não tem seguranças para te impedir de subir em prédios abandonados?
Mia caminhou até a beira e, para o horror de Jungkook, sentou-se ao lado dele. Ela não demonstrou medo. A coragem de Mia sempre fora sua característica mais marcante, a garota rica que preferia dormir em um sofá velho com eles do que em lençóis de seda.
— Eu fugi de casa aos dezoito para não ter que lidar com seguranças, lembra? — Ela deu um sorriso de lado, observando o perfil do garoto. Ele tinha um corte no supercílio e os nós dos dedos estavam esfolados. — Você tem andado brigando de novo.
— É a única forma de sentir que ainda estou aqui — respondeu Jungkook, olhando para o vazio. — Quando alguém me acerta um soco, eu sinto a dor. E a dor é real. Todo o resto... as pessoas passam por mim na rua e não me veem. Eu sou um erro, Mia.
— Você não é um erro — disse ela, sentindo uma pontada aguda no abdômen que a fez perder o fôlego por um segundo. — Você é a razão pela qual eu ainda estou tentando unir todo mundo.
Jungkook finalmente olhou para ela. Ele notou que ela estava mais magra, que seus traços marcantes estavam mais acentuados, mas seus olhos ainda brilhavam com uma intensidade que ele não conseguia entender.
— Por que você se importa? — perguntou ele, a voz falhando. — O grupo acabou. O Yoongi não sai de casa, o Jimin está trancado, o Jin só tem olhos para a bebê... estamos todos quebrados demais para sermos consertados.
— Talvez a gente não precise ser consertado — disse Mia, aproximando-se um pouco mais, até que seus ombros se tocassem. — Talvez a gente só precise estar junto enquanto os pedaços caem.
Ela estendeu a mão e tocou o rosto dele, o polegar acariciando a cicatriz recente perto do olho. Jungkook fechou os olhos com o toque, uma lágrima solitária escapando. Ele sempre fora apaixonado por ela, pela forma como ela desafiava o mundo, mas sempre se sentira indigno. Como um garoto que era invisível em sua própria casa poderia merecer alguém que brilhava tanto?
— Eu tenho pouco tempo, Jungkook — sussurrou ela, as palavras pesando como chumbo.
Jungkook abriu os olhos, confuso.
— Do que você está falando? Você vai viajar? Fugir de novo?
Mia sentiu o gosto de sangue novamente. Ela engoliu em seco, lutando contra a náusea.
— Eu só quero que você pare de tentar cair — disse ela, ignorando a pergunta. — Eu quero que você viva por mim. Porque eu quero aproveitar cada segundo que me resta vendo você ser o garoto incrível que eu sei que você é.
— Mia, você está me assustando — Jungkook se inclinou para frente, segurando os ombros dela. — O que está acontecendo?
Nesse momento, o celular de Mia vibrou. Era uma mensagem de Sarah no grupo que ninguém mais respondia. "Por favor, vamos nos encontrar no posto do Namjoon. Só uma vez. Por favor."
Mia olhou para a tela e depois para Jungkook.
— Vamos — disse ela, levantando-se com uma dificuldade que tentou esconder. — Vamos ver os outros.
— Eles não vão aparecer, Mia.
— Eles vão se eu pedir — afirmou ela com uma convicção que o fez acreditar.
Quando chegaram ao posto de gasolina, a cena era desoladora. Namjoon estava sentado no meio-fio, a cabeça entre as mãos. Jin estava lá, com Meilin no bebê conforto sobre uma mesa de plástico. Sarah tentava falar com Namjoon, mas ele parecia em transe.
Aos poucos, como se atraídos por uma força invisível, os outros começaram a chegar. Yoongi apareceu com o capuz do moletom cobrindo o rosto, as mãos nos bolsos, exalando uma tristeza profunda. Hoseok chegou logo depois, caminhando devagar, com o olhar vago de quem teme que o chão desapareça a qualquer momento. Taehyung foi o último, trazendo marcas roxas nos braços que tentava esconder com as mangas compridas, apesar do calor.
O silêncio entre eles era ensurdecedor. Eram irmãos que haviam esquecido como falar a mesma língua.
— Olha só para vocês — disse Mia, sua voz ecoando no pátio vazio do posto. — Todos se escondendo em suas próprias dores como se fossem as únicas no mundo.
— Mia, não é tão simples — murmurou Yoongi, sem olhar para cima. — Minha mãe morreu. Eu não tenho nada.
— E eu estou perdendo a minha mente! — gritou Jimin, que havia acabado de chegar, tendo conseguido permissão para uma saída temporária sob supervisão, embora estivesse sozinho ali por um milagre de persuasão. — Eu vejo coisas, eu lembro de coisas que eu queria esquecer!
— E eu sou um pai que não sabe nem como trocar uma fralda sem chorar porque a mulher que eu amava me deixou com um fardo que eu não pedi! — Jin explodiu, apontando para a pequena Meilin.
Jungkook ficou atrás de Mia, observando o caos. Ele sentia a raiva deles, a frustração, o abandono. Ele se sentia em casa naquele desespero.
— Parem com isso! — Mia gritou, e a força de sua voz os silenciou. Ela começou a tossir violentamente.
Desta vez, ela não conseguiu esconder. O sangue manchou suas mãos e caiu sobre o asfalto cinzento do posto de Namjoon.
— Mia! — Jungkook a segurou antes que ela caísse.
Jin correu em direção a eles, o rosto pálido.
— Eu disse para você contar a eles — sibilou Jin, pegando o lenço de Mia.
— Contar o quê? — perguntou Taehyung, aproximando-se com os olhos arregalados. — Mia, o que é isso?
Mia respirou fundo, apoiando-se em Jungkook. Ela olhou para cada um deles — para o rosto sofrido de Namjoon, para os olhos perdidos de Jimin, para a angústia de Yoongi e Hoseok.
— Eu tenho câncer de pâncreas — disse ela, a voz fraca, mas firme. — E eu não tenho muito tempo.
O mundo pareceu parar. Jungkook sentiu o coração despencar. O "menino quebrado" sentiu que, se Mia se fosse, não sobraria nenhuma peça dele para contar a história.
— Por que você não disse nada? — perguntou Hoseok, as lágrimas começando a cair.
— Porque eu não queria que vocês me olhassem com pena — disse ela, olhando diretamente para Jungkook. — Eu queria que vocês olhassem uns para os outros. Eu sou a única que está morrendo de verdade, mas todos vocês estão agindo como se já estivessem mortos.
Ela se soltou de Jungkook e deu um passo trêmulo para o centro do círculo.
— Namjoon, você é o nosso líder, mesmo sem dinheiro. Yoongi, a música não morreu no incêndio, ela está trancada em você. Taehyung, você não é o seu pai. Jimin, as memórias não podem te machucar se a gente estiver aqui para te segurar. Hoseok, se você cair, nós te levantamos. Jin, Meilin não é um fardo, ela é a única coisa pura que nos resta. E Jungkook...
Ela se virou para o caçula, cujos olhos estavam transbordando de dor.
— Jungkook, você nunca foi invisível para mim. Você é a luz que eu queria ter seguido se tivesse mais tempo.
Jungkook caminhou até ela e a abraçou com força, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Não nos deixe — sussurrou ele. — Eu não sei ser nada sem vocês.
— Então aprenda — disse Mia, retribuindo o abraço. — Aprendam a ser uma família de novo. Porque eu não vou embora até saber que vocês não vão deixar o Jungkook cair daquele prédio.
Naquela noite, sob as luzes fluorescentes de um posto de gasolina barato, os sete rapazes e a garota que se recusava a ser uma vítima se uniram. A dor ainda estava lá, a pobreza, a doença e os traumas não haviam desaparecido magicamente. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eles não estavam sozinhos em seus infernos particulares.
Mia olhou para o céu escuro e sorriu. Ela sabia que o tempo era curto, mas enquanto olhava para Jungkook, que agora segurava sua mão como se sua vida dependesse disso, ela sentiu que sua última aventura seria a mais bonita de todas: ensinar aqueles meninos quebrados que o amor era a única coisa que o fogo não podia queimar e que a morte não podia apagar.
Do outro lado da cidade, Taehyung tentava abafar o som dos gritos. Ele se encolheu no corredor estreito, os braços protegendo a irmãzinha que chorava baixinho. Cada golpe que ouvia contra a porta do quarto vizinho era um lembrete de sua própria impotência. Ele queria fugir, queria correr até encontrar os outros, mas para onde iriam? Yoongi não atendia o telefone, perdido em seu próprio luto cinzento desde que o fogo levara sua mãe e sua vontade de tocar piano. Hoseok estava em algum leito de hospital ou calçada, esperando que o mundo parasse de girar e que suas pernas parassem de ceder. E Jimin... Jimin estava atrás de paredes brancas e frias, onde as memórias da infância não podiam mais machucá-lo, ou assim os médicos diziam.
Mia Lencov observava a cidade do alto de sua cobertura, mas não sentia o luxo que a cercava. Seus cabelos loiros, uma mistura moderna de mel e raízes escuras, balançavam levemente com a brisa. Ela tinha tudo o que o dinheiro podia comprar, mas trocaria cada centavo por um dia em que não sentisse o gosto metálico de sangue na garganta.
Ela tossiu, pressionando um lenço contra a boca. Quando o afastou, a mancha vermelha brilhou sob a luz do crepúsculo. O câncer de pâncreas era um inquilino cruel que não pedia licença.
— De novo, Mia? — A voz de Jin veio da porta da varanda.
Ele segurava Meilin no colo. A bebê de dois meses dormia profundamente, alheia ao fato de que sua mãe a abandonara assim que ela respirou pela primeira vez. Jin parecia exausto; as olheiras sob seus olhos contavam a história de noites em claro e de um medo constante de não ser bom o suficiente para a filha.
Mia limpou a boca rapidamente, escondendo o lenço no bolso da calça jeans. Ela sorriu, embora o esforço fizesse seus ossos doerem.
— É só o ar seco, Jin. Não comece.
— Eu vi você na minha casa, Mia — disse Jin, aproximando-se com cuidado para não acordar a pequena. — Você me implorou para não contar a ninguém, e eu estou respeitando isso. Mas você precisa de ajuda. O grupo está desmoronando e você está... você está morrendo.
— Eu não estou morrendo hoje — rebateu ela, com a teimosia que sempre a definira. — E eu não vou passar meus últimos meses em uma cama de hospital como o Jimin. Eu quero ver o Jungkook.
Jin suspirou, o peso do mundo parecendo dobrar sobre ele.
— Ele não é mais o menino que conhecemos, Mia. Depois que nos separamos, algo nele quebrou de vez. Ele está nas ruas. Se metendo em brigas, andando em lugares perigosos. Ele se sente invisível.
— Ninguém é invisível para mim — sussurrou Mia, olhando para as próprias mãos bronzeadas que agora pareciam tão pálidas. — Especialmente ele.
Jungkook sentia o vento chicotear seu rosto. Ele estava sentado no parapeito de um prédio de doze andares, as pernas balançando sobre o abismo. O asfalto lá embaixo parecia um convite silencioso. Em casa, ele era o "menino quebrado", o estorvo que o padrasto batia e que o pai biológico esquecera que existia. Com os amigos, ele tinha sido o caçula protegido. Mas agora, sem eles, ele era apenas um fantasma vagando por Seul.
Ele fechou os olhos, lembrando-se do riso de Hoseok e do olhar protetor de Namjoon. Tudo se fora. A tragédia os separara como uma explosão, lançando cada um para um canto escuro.
— É alto demais para quem não tem asas, Jeon Jungkook.
Ele não precisou se virar para saber quem era. O perfume de Mia, uma mistura de flores e algo que lembrava liberdade, chegou antes de sua voz.
— O que você está fazendo aqui, Mia? — perguntou ele, a voz rouca de quem não falava com ninguém há dias. — Sua família não tem seguranças para te impedir de subir em prédios abandonados?
Mia caminhou até a beira e, para o horror de Jungkook, sentou-se ao lado dele. Ela não demonstrou medo. A coragem de Mia sempre fora sua característica mais marcante, a garota rica que preferia dormir em um sofá velho com eles do que em lençóis de seda.
— Eu fugi de casa aos dezoito para não ter que lidar com seguranças, lembra? — Ela deu um sorriso de lado, observando o perfil do garoto. Ele tinha um corte no supercílio e os nós dos dedos estavam esfolados. — Você tem andado brigando de novo.
— É a única forma de sentir que ainda estou aqui — respondeu Jungkook, olhando para o vazio. — Quando alguém me acerta um soco, eu sinto a dor. E a dor é real. Todo o resto... as pessoas passam por mim na rua e não me veem. Eu sou um erro, Mia.
— Você não é um erro — disse ela, sentindo uma pontada aguda no abdômen que a fez perder o fôlego por um segundo. — Você é a razão pela qual eu ainda estou tentando unir todo mundo.
Jungkook finalmente olhou para ela. Ele notou que ela estava mais magra, que seus traços marcantes estavam mais acentuados, mas seus olhos ainda brilhavam com uma intensidade que ele não conseguia entender.
— Por que você se importa? — perguntou ele, a voz falhando. — O grupo acabou. O Yoongi não sai de casa, o Jimin está trancado, o Jin só tem olhos para a bebê... estamos todos quebrados demais para sermos consertados.
— Talvez a gente não precise ser consertado — disse Mia, aproximando-se um pouco mais, até que seus ombros se tocassem. — Talvez a gente só precise estar junto enquanto os pedaços caem.
Ela estendeu a mão e tocou o rosto dele, o polegar acariciando a cicatriz recente perto do olho. Jungkook fechou os olhos com o toque, uma lágrima solitária escapando. Ele sempre fora apaixonado por ela, pela forma como ela desafiava o mundo, mas sempre se sentira indigno. Como um garoto que era invisível em sua própria casa poderia merecer alguém que brilhava tanto?
— Eu tenho pouco tempo, Jungkook — sussurrou ela, as palavras pesando como chumbo.
Jungkook abriu os olhos, confuso.
— Do que você está falando? Você vai viajar? Fugir de novo?
Mia sentiu o gosto de sangue novamente. Ela engoliu em seco, lutando contra a náusea.
— Eu só quero que você pare de tentar cair — disse ela, ignorando a pergunta. — Eu quero que você viva por mim. Porque eu quero aproveitar cada segundo que me resta vendo você ser o garoto incrível que eu sei que você é.
— Mia, você está me assustando — Jungkook se inclinou para frente, segurando os ombros dela. — O que está acontecendo?
Nesse momento, o celular de Mia vibrou. Era uma mensagem de Sarah no grupo que ninguém mais respondia. "Por favor, vamos nos encontrar no posto do Namjoon. Só uma vez. Por favor."
Mia olhou para a tela e depois para Jungkook.
— Vamos — disse ela, levantando-se com uma dificuldade que tentou esconder. — Vamos ver os outros.
— Eles não vão aparecer, Mia.
— Eles vão se eu pedir — afirmou ela com uma convicção que o fez acreditar.
Quando chegaram ao posto de gasolina, a cena era desoladora. Namjoon estava sentado no meio-fio, a cabeça entre as mãos. Jin estava lá, com Meilin no bebê conforto sobre uma mesa de plástico. Sarah tentava falar com Namjoon, mas ele parecia em transe.
Aos poucos, como se atraídos por uma força invisível, os outros começaram a chegar. Yoongi apareceu com o capuz do moletom cobrindo o rosto, as mãos nos bolsos, exalando uma tristeza profunda. Hoseok chegou logo depois, caminhando devagar, com o olhar vago de quem teme que o chão desapareça a qualquer momento. Taehyung foi o último, trazendo marcas roxas nos braços que tentava esconder com as mangas compridas, apesar do calor.
O silêncio entre eles era ensurdecedor. Eram irmãos que haviam esquecido como falar a mesma língua.
— Olha só para vocês — disse Mia, sua voz ecoando no pátio vazio do posto. — Todos se escondendo em suas próprias dores como se fossem as únicas no mundo.
— Mia, não é tão simples — murmurou Yoongi, sem olhar para cima. — Minha mãe morreu. Eu não tenho nada.
— E eu estou perdendo a minha mente! — gritou Jimin, que havia acabado de chegar, tendo conseguido permissão para uma saída temporária sob supervisão, embora estivesse sozinho ali por um milagre de persuasão. — Eu vejo coisas, eu lembro de coisas que eu queria esquecer!
— E eu sou um pai que não sabe nem como trocar uma fralda sem chorar porque a mulher que eu amava me deixou com um fardo que eu não pedi! — Jin explodiu, apontando para a pequena Meilin.
Jungkook ficou atrás de Mia, observando o caos. Ele sentia a raiva deles, a frustração, o abandono. Ele se sentia em casa naquele desespero.
— Parem com isso! — Mia gritou, e a força de sua voz os silenciou. Ela começou a tossir violentamente.
Desta vez, ela não conseguiu esconder. O sangue manchou suas mãos e caiu sobre o asfalto cinzento do posto de Namjoon.
— Mia! — Jungkook a segurou antes que ela caísse.
Jin correu em direção a eles, o rosto pálido.
— Eu disse para você contar a eles — sibilou Jin, pegando o lenço de Mia.
— Contar o quê? — perguntou Taehyung, aproximando-se com os olhos arregalados. — Mia, o que é isso?
Mia respirou fundo, apoiando-se em Jungkook. Ela olhou para cada um deles — para o rosto sofrido de Namjoon, para os olhos perdidos de Jimin, para a angústia de Yoongi e Hoseok.
— Eu tenho câncer de pâncreas — disse ela, a voz fraca, mas firme. — E eu não tenho muito tempo.
O mundo pareceu parar. Jungkook sentiu o coração despencar. O "menino quebrado" sentiu que, se Mia se fosse, não sobraria nenhuma peça dele para contar a história.
— Por que você não disse nada? — perguntou Hoseok, as lágrimas começando a cair.
— Porque eu não queria que vocês me olhassem com pena — disse ela, olhando diretamente para Jungkook. — Eu queria que vocês olhassem uns para os outros. Eu sou a única que está morrendo de verdade, mas todos vocês estão agindo como se já estivessem mortos.
Ela se soltou de Jungkook e deu um passo trêmulo para o centro do círculo.
— Namjoon, você é o nosso líder, mesmo sem dinheiro. Yoongi, a música não morreu no incêndio, ela está trancada em você. Taehyung, você não é o seu pai. Jimin, as memórias não podem te machucar se a gente estiver aqui para te segurar. Hoseok, se você cair, nós te levantamos. Jin, Meilin não é um fardo, ela é a única coisa pura que nos resta. E Jungkook...
Ela se virou para o caçula, cujos olhos estavam transbordando de dor.
— Jungkook, você nunca foi invisível para mim. Você é a luz que eu queria ter seguido se tivesse mais tempo.
Jungkook caminhou até ela e a abraçou com força, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Não nos deixe — sussurrou ele. — Eu não sei ser nada sem vocês.
— Então aprenda — disse Mia, retribuindo o abraço. — Aprendam a ser uma família de novo. Porque eu não vou embora até saber que vocês não vão deixar o Jungkook cair daquele prédio.
Naquela noite, sob as luzes fluorescentes de um posto de gasolina barato, os sete rapazes e a garota que se recusava a ser uma vítima se uniram. A dor ainda estava lá, a pobreza, a doença e os traumas não haviam desaparecido magicamente. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eles não estavam sozinhos em seus infernos particulares.
Mia olhou para o céu escuro e sorriu. Ela sabia que o tempo era curto, mas enquanto olhava para Jungkook, que agora segurava sua mão como se sua vida dependesse disso, ela sentiu que sua última aventura seria a mais bonita de todas: ensinar aqueles meninos quebrados que o amor era a única coisa que o fogo não podia queimar e que a morte não podia apagar.
