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Amor e gelo

Fandom: Hoquei e patinacao

Criado: 18/06/2026

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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoRealismoCiúmesConsertoFatias de VidaTragédiaCenário CanônicoEstudo de Personagem
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Entre Lâminas e Discos de Borracha

O som das lâminas de Karen cortando o gelo era a única melodia que importava às cinco da manhã. O ginásio municipal estava mergulhado em uma penumbra azulada, e o hálito da garota formava pequenas nuvens de vapor no ar gelado. Ela deslizou em um arco perfeito, os cabelos longos, escuros e volumosos flutuando atrás de si como uma capa de seda negra.

Karen fechou os olhos por um segundo, sentindo a liberdade que só o gelo proporcionava. Mas a paz durou pouco. O barulho seco de um disco de borracha batendo contra a mureta de proteção ecoou pelo recinto, quebrando seu transe.

Ela freou bruscamente, levantando uma cortina de neve gelada. Do outro lado da divisória improvisada, Nick estava parado, apoiado em seu taco de hóquei. O uniforme dos *Wolves* parecia pesado demais para qualquer outro, mas nele, apenas realçava os ombros largos. Os cabelos pretos estavam bagunçados sob o capacete que ele acabara de tirar, e as tatuagens que subiam pelo seu pescoço pareciam mais escuras contra a pele clara sob as luzes de LED.

— Você está forçando demais o tornozelo esquerdo na aterrissagem — disse Nick, a voz rouca pelo sono e pelo frio.

Karen sorriu, aproximando-se da mureta.

— E você está treinando o *slapshot* cedo demais. O Lucas ainda está roncando?

Nick soltou um suspiro pesado e olhou ao redor para garantir que nenhum zelador ou colega de time precoce estivesse por perto. Ele se inclinou sobre a mureta, diminuindo a distância entre eles.

— Seu irmão dorme como uma pedra. Ele não faz ideia de que eu saí de casa, muito menos de que estou aqui com você.

— Nick... — Karen murmurou, estendendo a mão enluvada para tocar o rosto dele, mas recuou no último segundo. — É perigoso. Se ele descobre que estamos usando o tempo de treino compartilhado para... isso.

— Isso o quê? — Nick deu um sorriso de lado, aquele que sempre desarmava Karen. — Amar você desde que eu tinha dez anos? Não é um crime, Karen. É só... complicado.

— Complicado é pouco. Ele é seu melhor amigo. Você sabe como o Lucas é protetor. Ele acha que você é o "galinha" do time, Nick. Se ele souber que o "galinha" está namorando a irmãzinha dele há dois anos em segredo, ele quebra o seu taco na minha cabeça.

Nick soltou uma risada curta e sem humor.

— Eu mudaria por você. Eu mudei por você. Ele só não quer ver.

O som de portas duplas batendo no final do corredor fez os dois saltarem para direções opostas. Karen imediatamente começou uma sequência de giros simples, enquanto Nick voltou a disparar discos contra o gol vazio com uma ferocidade renovada.

Segundos depois, Lucas entrou no ginásio, bocejando e carregando sua bolsa de equipamentos.

— Ei, Nick! Já começou sem mim, seu desgraçado? — Lucas gritou, rindo. Ele olhou para o outro lado do gelo e acenou. — Oi, Ka! Não sabia que seu treino era tão cedo hoje. Mamãe disse que você saiu de fininho.

Karen parou o giro, tentando controlar a respiração acelerada, que não era apenas pelo esforço físico.

— O regional está chegando, Lucas. Não posso me dar ao luxo de dormir até tarde como vocês — ela respondeu, tentando manter a voz firme.

— É isso aí, foco total! — Lucas deu um soco amigável no ombro de Nick. — Aprende com ela, Nick. Se você tivesse metade da disciplina da minha irmã, já estaríamos na liga profissional.

Nick forçou um sorriso, seus olhos encontrando os de Karen por um breve e torturante segundo.

— É, ela é incrível — Nick disse, a voz carregada de um significado que Lucas jamais entenderia. — Uma em um milhão.

A tensão na casa dos Silva era quase palpável durante o jantar. O pai de Karen e Lucas, um ex-jogador de hóquei que vivia através das glórias do filho, não parava de falar sobre o olheiro que estaria presente no jogo de sexta-feira. Nick, como sempre, estava sentado à mesa, já que passava mais tempo ali do que em sua própria casa.

— Você precisa focar na defesa, Nick — disse o Sr. Silva, apontando com o garfo. — Lucas limpa o caminho, e você garante que ninguém passe. Vocês são uma unidade. Como irmãos.

Nick engoliu em seco, sentindo o peso da palavra "irmãos". Debaixo da mesa, o pé de Karen roçou levemente no seu tornozelo, um gesto silencioso de apoio que quase o fez derrubar o copo de água.

— Sim, senhor. Somos uma unidade — Nick respondeu, a voz baixa.

— E você, Karen? — perguntou a mãe, tentando aliviar o clima. — Como está a coreografia nova?

— Está indo bem, mãe. Só preciso de mais tempo de gelo. O pessoal do hóquei anda ocupando muito espaço ultimamente.

— Ah, não começa, Ka! — Lucas riu. — O gelo é para quem aguenta o tranco. Patinação é... bem, é arte, mas hóquei é guerra.

Karen arqueou uma sobrancelha, seus olhos brilhando com um desafio perigoso.

— Guerra? Eu adoraria ver você tentar um *triple axel* com esses patins de trator, Lucas. Você não duraria dois minutos no meu treino sem chorar de dor nos pés.

— Ela tem razão, cara — Nick interveio, defendendo-a instintivamente. — O que elas fazem exige uma força absurda. Eu vi a Karen treinando hoje cedo e...

O silêncio caiu sobre a mesa. Lucas franziu a testa, deixando o talher de lado.

— Você viu? Achei que você tinha chegado depois dela. Você disse que ela já estava lá quando você entrou.

Nick sentiu o suor frio brotar em sua nuca. As tatuagens em seus braços pareciam queimar.

— Eu... eu quis dizer que a vi por um momento antes de começarmos o treino pesado. Sabe como é, ela estava saindo do centro do gelo.

Lucas estreitou os olhos, observando o melhor amigo. Havia algo no ar, uma eletricidade que ele não conseguia identificar, mas que o incomodava há meses.

— Sei. Engraçado, Nick. Você anda prestando muita atenção na minha irmã ultimamente.

— Lucas, deixe o menino comer — a mãe interveio, percebendo o desconforto. — Karen é uma atleta talentosa, é natural que o Nick a admire.

— Admiração, certo — resmungou Lucas, mas voltou a comer, embora o clima de desconfiança permanecesse flutuando sobre a mesa como uma névoa espessa.

Mais tarde naquela noite, Karen estava em seu quarto, tentando estudar, quando ouviu uma batida suave na janela. Ela morava no primeiro andar, e o carvalho antigo no jardim servia como a escada perfeita para alguém audacioso.

Ela abriu a janela e Nick entrou, trazendo consigo o cheiro de ar fresco e o perfume amadeirado que Karen tanto amava.

— Você é louco — ela sussurrou, fechando a janela rapidamente. — Se o meu pai te pega aqui...

— Eu precisava te ver. Sem o Lucas por perto, sem o gelo entre nós — Nick a puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto em seus cabelos volumosos. — Eu odeio mentir para ele, Karen. Ele é meu irmão de alma, mas eu me sinto um traidor toda vez que ele me abraça.

Karen se afastou um pouco para olhar nos olhos escuros de Nick.

— Nós combinamos, Nick. Até o final da temporada. Se contarmos agora, ele vai surtar e isso vai afetar o desempenho de vocês no gelo. Você sabe como o Lucas é emocional.

— E como ficamos nós? — Nick perguntou, a mão tatuada acariciando o rosto dela. — Eu quero poder segurar sua mão na escola. Quero poder te beijar depois de uma apresentação sem ter que me esconder atrás das arquibancadas.

— Eu também quero isso — Karen admitiu, sentindo uma lágrima solitária escorrer. — Mas o mundo não é perfeito como uma rotina de patinação. Às vezes, a gente cai. E se a gente cair agora, vamos levar o Lucas junto.

Nick suspirou, encostando a testa na dela.

— Eu te amo tanto que dói, morena.

— Eu também te amo, seu jogador de hóquei rebelde.

Eles se beijaram, um beijo urgente e carregado de saudade, o tipo de beijo que só o segredo e o perigo conseguem proporcionar. Mas, do lado de fora da porta, um assoalho rangeu.

Eles se separaram instantaneamente. Karen correu para a escrivaninha e abriu um livro de biologia, enquanto Nick se agachou atrás da cama, o coração batendo tão forte que ele tinha certeza de que poderia ser ouvido através das paredes.

A maçaneta girou. Lucas colocou a cabeça para dentro.

— Ka? Vi uma luz acesa. Está tudo bem?

— Só estudando para o teste de amanhã, Lucas. Por quê?

Lucas entrou no quarto, olhando ao redor com desconfiança. Ele caminhou até a janela e percebeu que o trinco não estava totalmente fechado.

— Achei ter ouvido vozes. E a janela está aberta. Está frio lá fora.

— Eu estava lendo em voz alta. Ajuda a decorar — Karen mentiu, sentindo o estômago dar voltas. — E abri a janela porque o quarto estava abafado.

Lucas parou perto da beirada da cama. Nick, escondido nas sombras, prendeu a respiração. Um único movimento em falso e tudo estaria acabado.

— Nick já foi embora? — perguntou Lucas, os olhos fixos em um detalhe no chão.

— Sim, ele saiu logo depois do jantar, não viu?

Lucas se abaixou e pegou algo pequeno perto do pé da cama. Era uma pulseira de couro preta, com um pingente de um pequeno taco de hóquei. A pulseira que Nick nunca tirava.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Lucas olhou para a pulseira e depois para a irmã. A expressão em seu rosto passou da confusão para uma compreensão dolorosa e, finalmente, para a fúria.

— Karen... onde ele está? — a voz de Lucas era um sussurro perigoso.

— Lucas, eu...

— ONDE ELE ESTÁ? — Lucas gritou, chutando a lateral da cama.

Nick se levantou lentamente, saindo das sombras. Ele não tinha mais para onde fugir. O rosto de Nick estava pálido, mas seus olhos estavam decididos.

— Estou aqui, Lucas.

O impacto foi imediato. Lucas avançou, não com um soco, mas com um empurrão violento que jogou Nick contra a parede.

— Você! No quarto da minha irmã? Há quanto tempo, Nick? Há quanto tempo você está mentindo na minha cara?

— Lucas, para! — Karen gritou, tentando entrar entre os dois.

— Sai daqui, Karen! — Lucas estava fora de si. — Eu confiei em você, Nick. Eu te trouxe para dentro da minha casa. Você é o meu melhor amigo!

— Exatamente por isso eu não contei! — Nick rebateu, sem revidar o empurrão, embora fosse mais forte que Lucas. — Porque eu sabia que você reagiria assim. Eu a amo, Lucas. Isso não é uma diversão de escola. É real.

— Real? — Lucas riu, uma risada amarga. — Você é o cara que troca de namorada como troca de fita no taco. E você escolheu a minha irmã para ser o seu próximo troféu?

— Não fala assim dela! — Nick rosnou, a paciência se esgotando. — Eu nunca a tratei como um troféu. Eu a protegi. Eu a respeitei. Coisa que você não está fazendo agora, gritando desse jeito.

A porta do quarto se escancarou e os pais de Karen apareceram, assustados com o barulho.

— O que está acontecendo aqui? — o pai exigiu saber, olhando de Nick para Lucas e depois para a pulseira na mão do filho.

O segredo, guardado a sete chaves entre treinos matinais e olhares furtivos, havia explodido. E enquanto Karen olhava para o irmão furioso e para o namorado devastado, ela percebeu que o gelo sob seus pés finalmente havia quebrado.

— Acabou, pai — disse Lucas, apontando para Nick. — O Nick e a Karen. Eles estão juntos. Pelas minhas costas. Na nossa casa.

O Sr. Silva olhou para Nick, o garoto que ele considerava um segundo filho, com uma decepção que doeu mais do que qualquer grito.

— Nick, acho melhor você ir embora — disse o pai de Karen, a voz fria como o ginásio às cinco da manhã. — Agora.

Nick olhou para Karen. Ela estava chorando, os ombros tremendo. Ele queria abraçá-la, dizer que daria um jeito, mas a barreira entre eles agora era feita de muito mais do que apenas uma mureta de hóquei. Era feita de anos de amizade traída e expectativas quebradas.

— Eu vou — Nick disse, pegando sua jaqueta no chão. — Mas isso não muda o que eu sinto. E não muda o fato de que nós não fizemos nada de errado além de amar um ao outro.

Ele saiu pela porta, e o som de seus passos pesados ecoou pelo corredor. Karen caiu sentada na cama, cobrindo o rosto com as mãos. O drama escolar que ela tanto temia havia se transformado em uma tragédia familiar.

Naquela noite, ninguém dormiu. E no dia seguinte, no ginásio, o gelo estaria mais frio do que nunca. A temporada de hóquei e as competições de patinação estavam apenas começando, mas a guerra dentro de casa e no coração de cada um deles acabara de declarar seu primeiro ferido.

Karen sabia que, para realizar o salto perfeito, às vezes era preciso cair e se machucar. Mas ela não sabia se teria forças para se levantar desta vez, especialmente quando a pessoa que sempre a segurava era agora o motivo da sua maior queda.
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