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Amor e esperança

Fandom: Os drake

Criado: 18/06/2026

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RomanceDramaDor/ConfortoEstudo de PersonagemRealismoFatias de VidaAbuso de Álcool
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Reflexos de Neon e Escolhas de Vidro

A luz de São Paulo nunca dormia, e Karen finalmente fazia parte daquela insônia coletiva. Da janela do seu pequeno apartamento no centro, ela observava o fluxo incessante de carros na Avenida Paulista como se fossem veias pulsando em um organismo gigante. Para uma menina negra de pele clara, que passara a vida inteira mudando o visual — ora com tranças nagô impecáveis, ora com um black power volumoso, ou como hoje, com um lace liso e platinado que reluzia sob as luzes da cidade —, estar ali era a realização de um roteiro escrito em seus sonhos mais audaciosos.

A faculdade de Publicidade e Propaganda era o seu palco. Karen amava a estética, a estratégia, a forma como uma imagem podia manipular sentimentos. Talvez por isso ela passasse tanto tempo analisando o perfil de Enzo Gabriel no Instagram.

Enzo era o que todos chamavam de "drake". A estética era impecável: correntes de prata pesadas, o corte de cabelo sempre na régua, as roupas de marca que gritavam status. Mas Karen, com seu olhar treinado para ler além da superfície, via a vacuidade naquela vida. As festas infinitas, os combos de bebida, as mulheres que passavam como vultos em seus stories. No entanto, havia um detalhe que amolecia o julgamento dela: a perda da mãe dele. Karen sabia o que era o luto, e via nos olhos dele, em fotos raras onde ele não estava posando, uma sombra de desamparo que o luxo não conseguia preencher.

— Ele é só um menino perdido em um mar de ostentação — murmurou ela para si mesma, fechando o aplicativo e terminando de passar um batom escuro.

Naquela noite, o destino decidiu que o Instagram era pequeno demais para os dois.

A balada na Vila Olímpia estava lotada. O som do trap e do funk mandelão vibrava no peito, fazendo o ar parecer sólido. Karen estava com as amigas, sentindo-se poderosa em seu vestido justo de cetim. Ela caminhava em direção ao bar, tentando desviar da multidão, quando o impacto aconteceu.

Um esbarrão forte a fez desequilibrar. Um copo de whisky com energético voou, mas antes que ela pudesse cair ou se sujar completamente, mãos firmes a seguraram pelos braços.

— Opa, calma! Foi mal, de verdade — disse uma voz rouca, próxima ao seu ouvido.

Karen levantou o olhar, pronta para dar uma resposta atravessada, mas as palavras morreram na garganta. Era ele. Enzo estava ali, a poucos centímetros, com o cheiro de perfume importado misturado ao aroma de fumaça de narguilé. De perto, ele parecia menos um personagem da internet e mais um homem de carne, osso e uma tristeza latente nos olhos castanhos.

— Você tá bem? — perguntou ele, não soltando os braços dela imediatamente. — Não molhou sua roupa, né?

Karen se recompôs, ajeitando o cabelo platinado com uma elegância que o deixou hipnotizado.

— Só um pouco no braço. Nada que um lenço não resolva — respondeu ela, mantendo a voz firme. — Você devia olhar por onde anda, Enzo.

O rapaz arqueou as sobrancelhas, um sorriso de canto surgindo nos lábios.

— Você sabe meu nome?

— Todo mundo sabe quem você é — retrucou ela, dando um passo para trás. — O rei da noite paulistana, não é? O dono da vida rasa.

O sorriso dele vacilou por um segundo. Ninguém falava com ele daquela forma. A maioria das garotas ali faria de tudo por um minuto de atenção ou um story ao lado dele.

— Vida rasa? — Ele soltou uma risada curta, mas sem humor. — Você nem me conhece, garota.

— Conheço o que você posta. E o que você posta é um vazio enorme preenchido com gelo de coco e marca de grife — Karen disse, sentindo uma coragem repentina. — Mas sinto muito pela sua mãe. De verdade.

O impacto daquelas palavras foi maior que o esbarrão físico. Enzo ficou estático. A menção à mãe era um território proibido, uma ferida que ele tentava cauterizar com álcool e barulho.

— Quem é você? — perguntou ele, agora com uma intensidade diferente, ignorando os amigos que o chamavam do camarote.

— Karen. E eu tenho mais o que fazer do que ser figurante no seu feed.

Ela se virou e caminhou em direção à pista, deixando-o parado no meio do fluxo, como se o tempo tivesse congelado apenas para ele.

Nas semanas que se seguiram, o inesperado aconteceu. Enzo não a esqueceu. Ele conseguiu o número dela, mandou mensagens, insistiu. Karen, apesar de relutante, acabou cedendo a um café. Depois a um jantar. E, para sua surpresa, por trás da fachada de "drake" inalcançável, havia alguém que gostava de ouvir sobre as aulas de semiótica dela e que confessava sentir um silêncio ensurdecedor quando voltava para casa à noite.

Eles começaram a sair, mas o mundo de Enzo era um campo minado.

Certa noite, eles estavam no carro dele, estacionados em um mirante de onde podiam ver as luzes da cidade. O clima era de entrega, mas Karen sentia o peso da realidade.

— Eu tô me apaixonando por você, Karen — confessou Enzo, a mão tocando o rosto dela, admirando a nova cor do cabelo dela, um tom de mel que realçava sua pele. — Eu nunca senti isso. Com você, eu não preciso fingir que sou o cara mais foda do mundo.

Karen sentiu o coração apertar. Ela também o amava, mas via o perigo. A vida dele era cercada por pessoas oportunistas, por situações perigosas e por uma busca incessante por uma validação que ela não compartilhava.

— Enzo, eu não pertenço a esse mundo — disse ela, com a voz embargada. — Eu tenho meus estudos, meus planos. Eu quero construir algo real. Essa vida de balada, de exposição, de gente que só quer o seu dinheiro... isso consome a alma.

— Eu mudo por você — ele disse, com urgência.

— Não se muda pelos outros, Enzo. Se muda por si mesmo — Karen suspirou, afastando-se levemente. — Eu não quero que você viva isso estando comigo, e eu não quero ser sugada para dentro desse furacão. Você tem escolhas a fazer.

Enzo olhou para o painel do carro importado, para as notificações de festas que não paravam de chegar no seu celular.

— O que você quer que eu faça? — perguntou ele, quase em um sussurro.

— Eu quero que você decida quem é o Enzo Gabriel quando as luzes da balada se apagam — respondeu Karen, abrindo a porta do carro. — Porque eu não posso ser apenas mais um acessório na sua vida. Eu sou a protagonista da minha.

— Espera! — Ele tentou segurá-la. — Não vai embora assim.

— Me procura quando você tiver uma resposta — disse ela, saindo do carro e chamando um transporte por aplicativo.

Enzo ficou ali, sozinho com o motor roncando baixo. Ele olhou para o reflexo no retrovisor. Viu as correntes, o estilo, a fama. Mas, pela primeira vez, ele viu o que Karen via: um menino que usava o brilho do ouro para esconder a opacidade do coração.

Nos dias seguintes, as redes sociais de Enzo silenciaram. Não houve stories em camarotes, não houve fotos de garrafas caras. Seus amigos estranharam, o público comentou. Karen, no fundo, torcia, mas mantinha o foco em seus projetos da faculdade, mudando o cabelo para um corte curto e moderno, simbolizando um novo ciclo.

Até que, em uma tarde chuvosa, ele apareceu na porta da faculdade dela. Não estava em um carro de luxo, mas em um modelo comum. Não usava as correntes pesadas, apenas uma camiseta preta simples e jeans.

— Enzo? — Karen parou, surpresa, protegendo-se com o guarda-chuva.

— Eu vendi metade das minhas coisas — disse ele, aproximando-se, a chuva molhando seus ombros. — Eu me inscrevi num curso de gestão. Quero cuidar do que meu pai deixou de forma séria. Quero ser o homem que você viu que eu poderia ser.

Karen o observou. Ele parecia mais leve, embora mais vulnerável.

— E a vida rasa? — perguntou ela, com um pequeno sorriso.

— Eu cansei de me afogar nela — Enzo deu um passo à frente, entrando sob o guarda-chuva dela. — Eu prefiro mergulhar em algo real. Com você. Se você ainda me quiser.

Karen olhou para o horizonte de São Paulo, a cidade que ela tanto amava e que agora parecia dar a benção para aquele novo começo.

— Vai ser difícil, Enzo — avisou ela. — Sair dessa vida não é só mudar a roupa.

— Eu sei — ele respondeu, segurando a mão dela. — Mas pela primeira vez, eu tenho um motivo para não olhar para trás.

E ali, entre o barulho do trânsito e o cheiro de terra molhada da metrópole, Karen percebeu que a melhor publicidade é aquela que não tenta vender uma mentira, mas que revela a verdade mais profunda de quem somos. Ela o beijou, sabendo que as escolhas dele eram o primeiro passo de uma longa jornada, mas que, finalmente, eles estavam caminhando na mesma direção.
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