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Fandom: Nenhum
Criado: 18/06/2026
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Entre o Caos e o Carinho
O ar no apartamento luxuoso de Emanuel estava pesado, impregnado com o cheiro de café forte e o som intermitente de choro infantil. Era uma manhã de terça-feira que deveria ser produtiva, mas o universo parecia ter outros planos. Emanuel, com as olheiras denunciando as noites mal dormidas gerenciando estúdios de tatuagem em três fusos horários diferentes, tentava manter a calma enquanto observava a cena em sua sala de estar.
Eduarda estava encolhida no sofá de linho claro, com o rosto pálido e as mãos pressionando o abdômen. A cólica, que costumava ser apenas um incômodo mensal, desta vez havia vindo com uma agressividade assustadora. Ela soltou um gemido baixo, fechando os olhos com força, enquanto tentava respirar pausadamente.
— Duda, meu amor, você está ficando roxa — Emanuel disse, aproximando-se e ajoelhando-se ao lado dela. Ele afastou uma mecha de cabelo castanho do rosto dela, sentindo a pele fria. — Chega de teimosia. Vamos para o hospital agora.
— Não quero... incomodar — sussurrou Eduarda, com a voz embargada. — Vai passar, Manu. Só preciso de um pouco de repouso.
— Você mal consegue ficar em pé — ele rebateu, o tom de voz subindo um oitavo pela frustração. — Eu odeio quando você faz isso, Eduarda. Odeio esse seu jeito de querer carregar o mundo sem pedir ajuda.
Nesse momento, um choro agudo e manhoso ecoou do tapete de atividades. Maya, a pequena de oito meses, esticava os bracinhos em direção ao sofá. Com seus cabelos castanhos já começando a formar ondinhas e os olhos grandes e expressivos, ela era a imagem cuspida de Eduarda. A bebê ignorava os brinquedos coloridos e o mordedor de silicone; ela queria o colo da "tia" Duda.
— Olha só, até a Maya sabe que você não está bem — comentou Sara, entrando na sala com uma postura impecável, apesar de ser cedo.
Sara era o oposto do cenário de fragilidade de Eduarda. Usando um robe de seda curto que deixava suas pernas bronzeadas à mostra e realçava o decote generoso de seus implantes de silicone, ela segurava Ágata no quadril. Ágata, a outra gêmea, era uma miniatura de Sara: loira, com um olhar que já parecia julgar o ambiente e uma expressão de tédio que era quase cômica para um bebê.
— Emanuel, para de drama e leva logo essa menina para a emergência — Sara continuou, ajeitando Ágata, que brincava com o colar de ouro da mãe. — Ela está branca como um papel. Se ela desmaiar aqui, eu não vou carregar ninguém, minhas unhas acabaram de ser feitas.
— Sara, agora não é hora para o seu sarcasmo — Emanuel rosnou, embora soubesse que, no fundo, ela estava certa e até tentando ajudar do jeito torto dela.
— Não é sarcasmo, querido, é pragmatismo — Sara retrucou, caminhando até o aparador para pegar seu celular. — Se a Duda for para o hospital, a Maya vai parar de berrar nos meus ouvidos porque vai entender que a "favorita" dela não está disponível. Sinceramente, Emanuel, como você conseguiu fazer uma filha tão carente? Ela é o reflexo da Eduarda. Uma fofura, claro, mas ô criança sensível!
Maya, ao ouvir o tom de voz da mãe e perceber que ninguém a pegava, aumentou o volume do choro. Ela começou a rastejar em direção aos pés de Eduarda, soluçando.
— Vem cá, meu grudinho... — Eduarda tentou se esticar para alcançar a bebê, mas uma pontada aguda no ventre a fez recuar com um grito sufocado.
Emanuel perdeu a paciência de vez. Ele se levantou, pegou Maya do chão com firmeza e a entregou para Sara, que fez uma careta de desaprovação ao sentir a umidade das lágrimas da bebê em seu ombro.
— Sara, segura as duas. Eu vou levar a Eduarda agora. Se a administração de Londres ligar, diga que eu entro em contato em duas horas.
— Pode deixar, "chefe" — Sara disse, revirando os olhos, mas ajeitando Maya com certa habilidade. — Mas anda logo. A Ágata odeia barulho de choro e já está começando a ficar irritada com a irmã. Não é, meu amor?
Ágata, como se entendesse, soltou um som de desdém e empurrou a mão de Maya, que tentava se segurar nela. A pequena loira era uma mini diva, preferindo o conforto do colo da mãe e o silêncio do que qualquer interação emocional profunda.
Emanuel ajudou Eduarda a se levantar. Ela estava trêmula, apoiando todo o seu peso nele.
— Manu, a Maya... ela está chorando por mim — Eduarda disse, olhando para trás com os olhos cheios de lágrimas.
— A Maya vai ficar bem com a Sara. Você precisa se cuidar, Duda. Se você não estiver bem, não pode cuidar de ninguém — Emanuel disse, com aquele tom protetor que beirava o autoritarismo, algo que ele usava para esconder a preocupação.
Enquanto Emanuel conduzia Eduarda para fora, Sara ficou sozinha na sala com as duas filhas. Ela suspirou, sentando-se na poltrona de couro. Maya continuava a soluçar, o coraçãozinho batendo rápido, os olhos fixos na porta por onde Eduarda havia saído.
— Ah, para com isso, Maya — Sara disse, embora sua voz não fosse cruel. — Ela volta. Você é muito dramática, sabia? Credo. Parece que o mundo vai acabar porque a mocinha dos livros de arte saiu por cinco minutos.
Ela olhou para Ágata, que agora estava ocupada tentando morder a alça do sutiã de Sara.
— Viu, Ágata? Você sim é das minhas. Independente, elegante, não fica chorando por atenção de qualquer um.
Sara sentia uma pontada de irritação ao olhar para Maya. Não era falta de amor; ela daria a vida pelas filhas. Mas a personalidade de Maya a incomodava profundamente. Era como se a genética tivesse pregado uma peça nela, entregando uma filha que era a personificação de tudo o que Sara considerava "fraco" ou "submisso". A doçura de Maya, a timidez ao conhecer estranhos, a necessidade constante de toque... tudo nela gritava Eduarda. E o fato de a bebê ser tão apegada à namorada de Emanuel era um golpe no ego de Sara, por mais que ela fingisse não se importar.
— Vamos para a cozinha — Sara anunciou, levantando-se com as duas. — Vou dar um jeito nesse seu choro com um pouco de fruta, porque esse sentimentalismo todo está me dando dor de cabeça.
No carro, a caminho do hospital, o silêncio era cortado apenas pelos suspiros de dor de Eduarda. Emanuel dirigia com uma mão no volante e a outra apertando a mão dela.
— Eu já te disse mil vezes, Eduarda. Se você morasse comigo, eu teria visto que você não estava bem desde ontem à noite. Eu teria te levado ao médico antes dessa crise.
— Eu não estou pronta, Manu — ela repetiu, a voz fraca. — Meus pais... eles são ótimos, mas eu sinto que ainda preciso do meu espaço. E tem a Sara. Eu não sei se cabemos todos na mesma casa o tempo todo.
— A Sara não manda na casa, eu mando — Emanuel disse, a mandíbula tensa. — Ela aceita a situação porque sabe como as coisas funcionam. Eu quero minhas duas mulheres e minhas filhas sob o mesmo teto. É pedir muito ter o controle da minha própria família?
— Não é sobre controle, é sobre convivência — Eduarda murmurou, fechando os olhos quando o carro passou por um buraco. — A Sara é... intensa. Eu sou quieta. Às vezes sinto que desapareço perto dela.
— Você nunca desaparece para mim — ele disse, suavizando o tom. — Mas essa teimosia em morar longe está me matando. Eu fico dividido, Duda. Passo metade do tempo preocupado com você lá e a outra metade lidando com o furacão que é a Sara aqui.
Chegando ao hospital, Emanuel não esperou. Pegou Eduarda no colo, ignorando os protestos tímidos dela sobre "conseguir andar", e entrou na emergência. Ele era um homem que exalava poder e dinheiro, e sua urgência foi atendida imediatamente.
Enquanto Eduarda era levada para uma sala de observação para receber medicação intravenosa, Emanuel ficou no corredor, o celular vibrando sem parar. Eram mensagens de Sara.
"A mini-Duda finalmente dormiu. Exausta de tanto drama. Ágata está aqui comigo assistindo canal de moda. Não demore, ou vou cobrar hora extra de babá."
Emanuel deu um meio sorriso. Sara era impossível, mas era o seu porto seguro de uma forma estranha. Ela administrava seus negócios com uma mão de ferro disfarçada de luva de seda, e ele sabia que os estúdios não seriam o império que eram sem a visão estratégica dela, mesmo que ele fosse o artista e o rosto da marca.
Duas horas depois, ele entrou no quarto onde Eduarda descansava. O soro e os analgésicos haviam devolvido um pouco de cor às suas bochechas.
— O médico disse que é uma crise aguda de endometriose — Emanuel disse, sentando-se na beira da cama. — Você vai precisar de um acompanhamento mais rigoroso. E não, você não vai para a casa dos seus pais hoje. Vai para a minha.
Eduarda abriu a boca para protestar, mas ele colocou um dedo sobre os lábios dela.
— Sem discussão. A Maya ficou inconsolável. Se você aparecer lá, ela se acalma, a Sara para de reclamar e eu consigo dormir sem sentir que meu coração está dividido em dois endereços diferentes.
Eduarda suspirou, derrotada pela lógica e pelo cansaço.
— Tudo bem. Mas só por uns dias.
— Veremos — ele disse, sabendo que usaria aqueles "uns dias" para convencê-la a ficar de vez.
Quando voltaram para o apartamento, o sol já estava se pondo. Ao entrarem, o cenário era mais calmo. Sara estava sentada no tapete, com Ágata no colo, folheando uma revista de alta costura. Maya estava em seu cercadinho, o olhar triste voltado para a porta.
Assim que viu Eduarda, os olhos de Maya brilharam. Ela se levantou, segurando nas grades do cercadinho, e soltou um gritinho de alegria puro e cristalino.
— Dada! Dada! — a bebê balbuciou, uma das suas primeiras tentativas de fala, claramente direcionada a Eduarda.
Eduarda sorriu, as lágrimas brotando instantaneamente. Mesmo com dor, ela se aproximou e pegou a pequena no colo. Maya enterrou o rosto no pescoço de Eduarda, soltando um suspiro de alívio que fez o coração de Emanuel apertar.
— Viu só? — Sara disse, levantando-se e limpando o joelho da calça de grife. — A ingrata nem olhou para mim a tarde toda. Eu dei a melhor papinha de pêra da cidade e ela me tratou como se eu fosse uma sequestradora.
Sara caminhou até Emanuel e selou seus lábios com um beijo possessivo e rápido.
— Bem-vinda ao hospício, Eduarda — Sara disse, com um sorriso de lado que não chegava a ser hostil, mas mantinha sua marca de superioridade. — Já que você vai ficar, espero que ajude a controlar sua miniatura. Eu e a Ágata temos um brunch amanhã e eu preciso de beleza, não de olheiras de choro de bebê.
Emanuel passou o braço pela cintura de Sara, enquanto observava Eduarda sentar-se na poltrona com Maya aninhada em seu peito. Ágata, no colo de Sara, olhava para a irmã com uma expressão de total indiferença, voltando a brincar com o cabelo loiro da mãe.
Ali, naquele momento, Emanuel sentia que tinha tudo o que queria. O caos, a paz, a vulgaridade inteligente de Sara e a doçura vulnerável de Eduarda. Era um equilíbrio precário, uma corda bamba emocional que ele caminhava todos os dias, mas, olhando para as quatro, ele sabia que não aceitaria nada menos do que aquele mundo complicado e vibrante que ele mesmo havia construído.
— Eu vou pedir o jantar — Emanuel anunciou, quebrando o silêncio. — Alguma preferência?
— Tailandês — Sara disse imediatamente. — E do caro. Eu mereço depois dessa tarde de babá de luxo.
— O que você quiser, Duda? — Emanuel perguntou com carinho.
— Qualquer coisa leve, Manu... — ela respondeu, beijando o topo da cabeça de Maya.
— Ótimo. Tailandês para a rainha e sopa para a princesa — Sara provocou, mas havia uma suavidade quase imperceptível em seus olhos ao ver a calma que Eduarda trazia para a casa.
A convivência era um campo de batalha, mas, naquela noite, as armas estavam baixas. Pelo menos até a próxima crise.
