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Fandom: Nenhum
Criado: 19/06/2026
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RomanceDramaDor/ConfortoAçãoSombrioSuspenseCrimeSobrevivênciaEstudo de PersonagemFatias de VidaHistória DomésticaCiúmesPsicológicoRealismo MágicoGótico SulistaRealismo
Entre o Som da Chuva e o Peso do Olhar
A estrada de terra que levava de volta da casa de campo da mãe de Emanuel parecia se estender infinitamente sob o céu carregado. O Range Rover preto, geralmente impecável, agora emitia um som metálico preocupante vindo do motor antes de finalmente silenciar por completo em meio a uma nuvem de fumaça branca. Emanuel apertou o volante com força, os nós dos dedos brancos. O estresse acumulado de uma semana de reuniões remotas e a pressão de gerir seus estúdios de tatuagem globais pareciam ter encontrado o ponto de ruptura ali, no meio do nada.
— Você está brincando comigo, não está? — Sara suspirou pesadamente, ajeitando os óculos escuros sobre o rosto impecavelmente maquiado. Ela usava um conjunto de linho justo que acentuava cada curva de seu corpo esculpido, o brilho do silicone evidente sob o decote generoso. — Emanuel, eu avisei que esse carro precisava de revisão antes de virmos para o interior.
— Eu fiz a revisão, Sara — ele respondeu, a voz rouca e contida, tentando manter o controle. — Deve ter sido uma pedra ou algo no radiador.
No banco de trás, o choro começou em coro. Ágata, a gêmea que herdara não apenas os traços marcantes da mãe, mas também sua impaciência, gritava com pulmões fortes, exigindo atenção. Ao lado dela, Maya, de cabelos castanhos e olhos grandes e úmidos, soluçava baixinho, um som manhoso e sensível que parecia irritar Sara mais do que o berro da outra.
— Ágata, mamãe já vai pegar você — disse Sara, ignorando o choro contido de Maya. Ela olhou para fora, onde a chuva começava a cair fininha. — E agora? Não tem sinal de celular.
Emanuel desceu do carro, a postura firme e protetora ignorando a umidade. Ele caminhou alguns metros até avistar, por entre as árvores, o telhado de uma propriedade ampla. Era uma casa de fazenda antiga, mas bem cuidada, com luzes quentes saindo das janelas.
— Tem uma casa logo ali. Vamos. Não podemos ficar aqui com as meninas no escuro.
Após uma caminhada rápida e desconfortável, o grupo chegou à varanda da casa. Emanuel bateu na porta de madeira maciça. O som de risadas e conversas familiares vinha de dentro, um contraste gritante com a tensão que ele carregava nos ombros.
A porta se abriu e o mundo de Emanuel pareceu desacelerar.
Uma jovem de cerca de vinte anos apareceu. Ela usava um vestido de algodão leve, cor de creme, e um cardigã de tricô por cima. O cabelo castanho escuro caía em ondas naturais sobre os ombros, e sua expressão era de uma doçura que ele não via há muito tempo. Eduarda recuou um passo, surpresa com os estranhos, seus olhos expressivos revelando uma timidez quase infantil.
— Pois não? — a voz dela era baixa, melódica.
— Desculpe incomodar — Emanuel começou, sua voz soando mais profunda do que o normal. Ele sentiu um impacto imediato, uma necessidade instintiva de suavizar sua presença para não assustá-la. — Nosso carro quebrou na estrada. Estamos com duas bebês.
Eduarda olhou para as crianças e seu rosto se iluminou com uma empatia imediata.
— Oh, entrem, por favor! Está começando a esfriar. Vovô! Papai! Temos visitas que precisam de ajuda!
Sara entrou na casa com a autoridade de quem era dona do lugar, saltos estalando contra o assoalho de madeira. Ela olhou ao redor, notando a família numerosa reunida na sala — tios, primos e avós que passavam as férias juntos.
— Que sorte a nossa — comentou Sara, o tom levemente irônico, mas não hostil. Ela olhou para Eduarda de cima a baixo. — Sou Sara. E esse é o Emanuel.
— Eu sou a Eduarda — ela respondeu, meio escondida atrás da porta, antes de ser cercada por sua mãe e tias, que prontamente começaram a oferecer café e toalhas.
Emanuel não conseguia desviar os olhos de Eduarda. Havia algo na fragilidade dela, no jeito como ela se movia de forma leve e discreta, que o atingia em um lugar que Sara nunca alcançara. Sara era fogo, era controle, era a parceira de negócios brilhante que o ajudava a manter o império de tatuagens nos eixos. Mas Eduarda... Eduarda parecia a personificação da paz que ele nem sabia que buscava.
A família de Eduarda, calorosa e barulhenta, logo acomodou todos. Enquanto os homens saíam com Emanuel para ver o carro, as mulheres ficaram na sala.
Maya, que ainda soluçava baixinho no colo de Sara, esticou os bracinhos na direção de Eduarda. A bebê, que sempre fora "difícil" na visão de Sara por ser sensível demais, parecia hipnotizada pela aura suave da jovem estudante de História da Arte.
— Ela quer você — Sara disse, estendendo a bebê para Eduarda com uma indiferença que mascarava seu cansaço. — A Maya é assim, manhosinha. Um grude só. Puxou o lado fraco da família do pai, eu acho.
Eduarda pegou a bebê com uma delicadeza extrema. Maya imediatamente deitou a cabeça no ombro de Eduarda, suspirando e fechando os olhos, sentindo-se protegida.
— Ela não é fraca — sussurrou Eduarda, ninando a pequena com movimentos rítmicos. — Ela só sente o mundo de um jeito mais intenso.
Sara arqueou uma sobrancelha, um sorriso de canto nos lábios. Ela percebeu o olhar de Emanuel quando ele voltou para a sala, encharcado da chuva, e parou subitamente ao ver Eduarda com sua filha nos braços. Sara não era boba; ela conhecia o homem com quem vivia há anos. Sabia que Emanuel tinha uma queda por proteger o que era delicado.
— Bonito, não é? — Sara disse para Emanuel, aproximando-se dele e passando a mão pelo seu braço musculoso, marcando território de forma sutil, mas clara. — Ela tem jeito com a Maya. A menina finalmente parou de choramingar.
— Sim — Emanuel respondeu, a voz presa na garganta. — Ela tem.
O jantar foi servido em uma mesa longa, cheia de comida caseira. Emanuel sentou-se à frente de Eduarda. Ele observava como ela comia pouco, como falava baixo e como corava toda vez que ele fazia uma pergunta sobre sua faculdade.
— História da Arte? — Emanuel perguntou, ignorando a conversa alta dos primos de Eduarda ao redor. — É um campo fascinante. Requer muita sensibilidade para entender o que os artistas queriam passar.
— Sim — Eduarda respondeu, levantando os olhos para encontrá-los com os dele por um breve segundo antes de desviar. — Às vezes as pessoas focam só na técnica, mas o que importa é a emoção que está guardada ali.
— Como nas tatuagens dele — Sara interveio, bebendo um pouco de vinho. — Emanuel é um gênio com a agulha, mas ele é todo razão e lógica. Eu sou a que cuida da parte prática, da administração. Sem mim, esses estúdios seriam apenas arte e nenhum lucro.
Sara não dizia isso por maldade; era a verdade. Ela era competente, feroz e leal. Emanuel a amava por isso. Ele amava a força dela, o corpo curvilíneo que ela exibia com orgulho, a segurança que ela trazia para sua vida agitada. Mas, enquanto olhava para Eduarda, ele sentia uma fome diferente. Uma fome de cuidar, de possuir aquela delicadeza, de ser o porto seguro para aquela insegurança que ele via nos olhos dela.
Após o jantar, a chuva aumentou, tornando impossível qualquer conserto no carro ou partida naquela noite. Os avós de Eduarda insistiram para que eles ficassem nos quartos de hóspedes.
Mais tarde, no corredor silencioso da casa antiga, Emanuel saiu do quarto para buscar água para as bebês. Ele encontrou Eduarda na cozinha, preparando uma mamadeira para Maya, que se recusava a dormir com qualquer outra pessoa.
— Deixe que eu faço isso — disse Emanuel, aproximando-se.
— Não precisa, eu já terminei — ela sorriu, aquele sorriso tímido que fazia o coração dele bater de forma irregular. — Ela é tão doce, Emanuel. É sensível, como uma flor que precisa de cuidado extra.
Emanuel deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Eduarda. Ele era muito mais alto, sua presença física emanando uma mistura de controle e tensão. Eduarda não recuou, mas seus olhos se arregalaram levemente.
— E você? — ele perguntou, a voz baixa. — Você também parece precisar de cuidado extra.
Eduarda sentiu o rosto queimar. Ela nunca tinha conhecido alguém como Emanuel. Ele era intenso, másculo, com o corpo marcado por tatuagens que contavam histórias que ela morria de vontade de ler.
— Eu... eu estou bem. Minha família cuida de mim.
— Eu vi como você olha para as coisas — Emanuel continuou, sua mão subindo quase involuntariamente para tocar uma mecha do cabelo dela. — Você observa tudo. Você sente tudo. É raro encontrar alguém assim hoje em dia.
— Emanuel? — a voz de Sara ecoou do topo da escada.
Eles se afastaram rapidamente. Sara desceu os degraus, usando uma camisola de seda curta que deixava pouco para a imaginação. Ela caminhou até eles, envolvendo o pescoço de Emanuel com os braços, ignorando completamente o clima tenso.
— A Ágata dormiu. Mas a Maya está impossível. Ah, você já está com a mamadeira, querida? — Sara pegou o frasco da mão de Eduarda. — Obrigada. Você é uma fofa. Emanuel, vamos para a cama? Estou exausta.
Ela deu um beijo casto, mas possessivo, nos lábios de Emanuel diante de Eduarda.
— Boa noite, Eduarda — disse Emanuel, seu olhar fixo na jovem por um segundo a mais do que o necessário.
— Boa noite — ela sussurrou, sentindo um aperto estranho no peito.
No quarto, enquanto Sara se ajeitava na cama, ela olhou para o marido através do espelho.
— Você gostou dela, não foi?
Emanuel parou de desabotoar a camisa, olhando para o reflexo de Sara.
— Ela é apenas uma menina, Sara. Educada.
— Não minta para mim, Manu. Eu conheço o seu tipo. Você gosta dessas coisinhas fofas e indefesas. Elas fazem você se sentir o grande protetor — Sara riu, sem um pingo de ciúme real, apenas uma confiança absoluta em seu lugar na vida dele. — Eu não me importo. Ela é inofensiva. E a Maya adora ela. Se ela ajudar a calar a boca daquela menina durante o resto das férias, por mim, você pode olhar o quanto quiser.
Emanuel não respondeu. Ele se deitou ao lado de Sara, mas sua mente estava no quarto ao lado. Ele amava Sara, a mulher que construíra o império ao seu lado, a mãe de suas filhas. Mas a imagem de Eduarda, com sua pele clara e seu jeito manhoso, havia se tatuado em sua mente.
Ele a queria. E Emanuel, o homem que comandava estúdios em Londres, Nova York e Tóquio, raramente não conseguia o que queria.
Nos dias que se seguiram, a estadia forçada por causa das peças do carro que demorariam a chegar transformou-se em um jogo perigoso. Maya tornou-se o "grudinho" de Eduarda. Onde a jovem ia, a bebê ia atrás, seja no colo ou no carrinho. Eduarda parecia florescer com a atenção da criança, e Emanuel usava cada oportunidade com a filha para estar perto de Eduarda.
Em uma tarde, enquanto Sara estava ocupada no telefone resolvendo problemas de um estúdio em Paris, Emanuel encontrou Eduarda no jardim, sentada em um balanço de madeira com Maya.
— Ela gosta do cheiro do seu perfume — observou Emanuel, sentando-se no balanço ao lado.
— É apenas lavanda — Eduarda disse, inclinando a cabeça. — É calmante.
— Tudo em você é calmante, Eduarda.
Ele estendeu a mão e, desta vez, não recuou. Seus dedos tocaram o rosto dela, a pele macia como pétala. Eduarda tremeu, uma mistura de medo e desejo percorrendo seu corpo esguio.
— Você tem namorada, Emanuel... e filhas.
— Eu amo a Sara — ele disse, com uma honestidade brutal que era característica de sua personalidade racional. — Ela é minha vida. Mas isso não impede que eu sinta que falta algo que só você parece ter.
Eduarda olhou para ele, os olhos úmidos. Ela era sensível demais para não perceber a verdade nas palavras dele, e carente demais para rejeitar a proteção que aquele homem poderoso oferecia.
— O que vamos fazer? — ela perguntou, a voz falhando.
Emanuel sorriu, um sorriso sombrio e determinado. Ele puxou-a para perto, sentindo o calor do corpo dela contra o seu, enquanto Maya, entre eles, dava uma risadinha feliz, sentindo a conexão das duas pessoas que mais amava naquele momento.
— Eu vou cuidar de tudo — ele prometeu. — Eu sempre cuido.
Lá de cima, da varanda, Sara observava a cena. Ela ajeitou o cabelo loiro, um brilho de inteligência e estratégia nos olhos. Ela sabia que a dinâmica da família estava prestes a mudar. Mas, contanto que ela continuasse sendo a rainha do império e a namorada principal, ela não se importava em dividir o fardo de acalmar o coração de Emanuel com alguém tão útil — e tão doce — quanto Eduarda.
Afinal, em um mundo de negócios e tensões, um pouco de doçura nunca era demais. E Emanuel, em sua busca por controle, acabara de encontrar a peça que faltava para completar seu mundo perfeitamente imperfeito.
— Você está brincando comigo, não está? — Sara suspirou pesadamente, ajeitando os óculos escuros sobre o rosto impecavelmente maquiado. Ela usava um conjunto de linho justo que acentuava cada curva de seu corpo esculpido, o brilho do silicone evidente sob o decote generoso. — Emanuel, eu avisei que esse carro precisava de revisão antes de virmos para o interior.
— Eu fiz a revisão, Sara — ele respondeu, a voz rouca e contida, tentando manter o controle. — Deve ter sido uma pedra ou algo no radiador.
No banco de trás, o choro começou em coro. Ágata, a gêmea que herdara não apenas os traços marcantes da mãe, mas também sua impaciência, gritava com pulmões fortes, exigindo atenção. Ao lado dela, Maya, de cabelos castanhos e olhos grandes e úmidos, soluçava baixinho, um som manhoso e sensível que parecia irritar Sara mais do que o berro da outra.
— Ágata, mamãe já vai pegar você — disse Sara, ignorando o choro contido de Maya. Ela olhou para fora, onde a chuva começava a cair fininha. — E agora? Não tem sinal de celular.
Emanuel desceu do carro, a postura firme e protetora ignorando a umidade. Ele caminhou alguns metros até avistar, por entre as árvores, o telhado de uma propriedade ampla. Era uma casa de fazenda antiga, mas bem cuidada, com luzes quentes saindo das janelas.
— Tem uma casa logo ali. Vamos. Não podemos ficar aqui com as meninas no escuro.
Após uma caminhada rápida e desconfortável, o grupo chegou à varanda da casa. Emanuel bateu na porta de madeira maciça. O som de risadas e conversas familiares vinha de dentro, um contraste gritante com a tensão que ele carregava nos ombros.
A porta se abriu e o mundo de Emanuel pareceu desacelerar.
Uma jovem de cerca de vinte anos apareceu. Ela usava um vestido de algodão leve, cor de creme, e um cardigã de tricô por cima. O cabelo castanho escuro caía em ondas naturais sobre os ombros, e sua expressão era de uma doçura que ele não via há muito tempo. Eduarda recuou um passo, surpresa com os estranhos, seus olhos expressivos revelando uma timidez quase infantil.
— Pois não? — a voz dela era baixa, melódica.
— Desculpe incomodar — Emanuel começou, sua voz soando mais profunda do que o normal. Ele sentiu um impacto imediato, uma necessidade instintiva de suavizar sua presença para não assustá-la. — Nosso carro quebrou na estrada. Estamos com duas bebês.
Eduarda olhou para as crianças e seu rosto se iluminou com uma empatia imediata.
— Oh, entrem, por favor! Está começando a esfriar. Vovô! Papai! Temos visitas que precisam de ajuda!
Sara entrou na casa com a autoridade de quem era dona do lugar, saltos estalando contra o assoalho de madeira. Ela olhou ao redor, notando a família numerosa reunida na sala — tios, primos e avós que passavam as férias juntos.
— Que sorte a nossa — comentou Sara, o tom levemente irônico, mas não hostil. Ela olhou para Eduarda de cima a baixo. — Sou Sara. E esse é o Emanuel.
— Eu sou a Eduarda — ela respondeu, meio escondida atrás da porta, antes de ser cercada por sua mãe e tias, que prontamente começaram a oferecer café e toalhas.
Emanuel não conseguia desviar os olhos de Eduarda. Havia algo na fragilidade dela, no jeito como ela se movia de forma leve e discreta, que o atingia em um lugar que Sara nunca alcançara. Sara era fogo, era controle, era a parceira de negócios brilhante que o ajudava a manter o império de tatuagens nos eixos. Mas Eduarda... Eduarda parecia a personificação da paz que ele nem sabia que buscava.
A família de Eduarda, calorosa e barulhenta, logo acomodou todos. Enquanto os homens saíam com Emanuel para ver o carro, as mulheres ficaram na sala.
Maya, que ainda soluçava baixinho no colo de Sara, esticou os bracinhos na direção de Eduarda. A bebê, que sempre fora "difícil" na visão de Sara por ser sensível demais, parecia hipnotizada pela aura suave da jovem estudante de História da Arte.
— Ela quer você — Sara disse, estendendo a bebê para Eduarda com uma indiferença que mascarava seu cansaço. — A Maya é assim, manhosinha. Um grude só. Puxou o lado fraco da família do pai, eu acho.
Eduarda pegou a bebê com uma delicadeza extrema. Maya imediatamente deitou a cabeça no ombro de Eduarda, suspirando e fechando os olhos, sentindo-se protegida.
— Ela não é fraca — sussurrou Eduarda, ninando a pequena com movimentos rítmicos. — Ela só sente o mundo de um jeito mais intenso.
Sara arqueou uma sobrancelha, um sorriso de canto nos lábios. Ela percebeu o olhar de Emanuel quando ele voltou para a sala, encharcado da chuva, e parou subitamente ao ver Eduarda com sua filha nos braços. Sara não era boba; ela conhecia o homem com quem vivia há anos. Sabia que Emanuel tinha uma queda por proteger o que era delicado.
— Bonito, não é? — Sara disse para Emanuel, aproximando-se dele e passando a mão pelo seu braço musculoso, marcando território de forma sutil, mas clara. — Ela tem jeito com a Maya. A menina finalmente parou de choramingar.
— Sim — Emanuel respondeu, a voz presa na garganta. — Ela tem.
O jantar foi servido em uma mesa longa, cheia de comida caseira. Emanuel sentou-se à frente de Eduarda. Ele observava como ela comia pouco, como falava baixo e como corava toda vez que ele fazia uma pergunta sobre sua faculdade.
— História da Arte? — Emanuel perguntou, ignorando a conversa alta dos primos de Eduarda ao redor. — É um campo fascinante. Requer muita sensibilidade para entender o que os artistas queriam passar.
— Sim — Eduarda respondeu, levantando os olhos para encontrá-los com os dele por um breve segundo antes de desviar. — Às vezes as pessoas focam só na técnica, mas o que importa é a emoção que está guardada ali.
— Como nas tatuagens dele — Sara interveio, bebendo um pouco de vinho. — Emanuel é um gênio com a agulha, mas ele é todo razão e lógica. Eu sou a que cuida da parte prática, da administração. Sem mim, esses estúdios seriam apenas arte e nenhum lucro.
Sara não dizia isso por maldade; era a verdade. Ela era competente, feroz e leal. Emanuel a amava por isso. Ele amava a força dela, o corpo curvilíneo que ela exibia com orgulho, a segurança que ela trazia para sua vida agitada. Mas, enquanto olhava para Eduarda, ele sentia uma fome diferente. Uma fome de cuidar, de possuir aquela delicadeza, de ser o porto seguro para aquela insegurança que ele via nos olhos dela.
Após o jantar, a chuva aumentou, tornando impossível qualquer conserto no carro ou partida naquela noite. Os avós de Eduarda insistiram para que eles ficassem nos quartos de hóspedes.
Mais tarde, no corredor silencioso da casa antiga, Emanuel saiu do quarto para buscar água para as bebês. Ele encontrou Eduarda na cozinha, preparando uma mamadeira para Maya, que se recusava a dormir com qualquer outra pessoa.
— Deixe que eu faço isso — disse Emanuel, aproximando-se.
— Não precisa, eu já terminei — ela sorriu, aquele sorriso tímido que fazia o coração dele bater de forma irregular. — Ela é tão doce, Emanuel. É sensível, como uma flor que precisa de cuidado extra.
Emanuel deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Eduarda. Ele era muito mais alto, sua presença física emanando uma mistura de controle e tensão. Eduarda não recuou, mas seus olhos se arregalaram levemente.
— E você? — ele perguntou, a voz baixa. — Você também parece precisar de cuidado extra.
Eduarda sentiu o rosto queimar. Ela nunca tinha conhecido alguém como Emanuel. Ele era intenso, másculo, com o corpo marcado por tatuagens que contavam histórias que ela morria de vontade de ler.
— Eu... eu estou bem. Minha família cuida de mim.
— Eu vi como você olha para as coisas — Emanuel continuou, sua mão subindo quase involuntariamente para tocar uma mecha do cabelo dela. — Você observa tudo. Você sente tudo. É raro encontrar alguém assim hoje em dia.
— Emanuel? — a voz de Sara ecoou do topo da escada.
Eles se afastaram rapidamente. Sara desceu os degraus, usando uma camisola de seda curta que deixava pouco para a imaginação. Ela caminhou até eles, envolvendo o pescoço de Emanuel com os braços, ignorando completamente o clima tenso.
— A Ágata dormiu. Mas a Maya está impossível. Ah, você já está com a mamadeira, querida? — Sara pegou o frasco da mão de Eduarda. — Obrigada. Você é uma fofa. Emanuel, vamos para a cama? Estou exausta.
Ela deu um beijo casto, mas possessivo, nos lábios de Emanuel diante de Eduarda.
— Boa noite, Eduarda — disse Emanuel, seu olhar fixo na jovem por um segundo a mais do que o necessário.
— Boa noite — ela sussurrou, sentindo um aperto estranho no peito.
No quarto, enquanto Sara se ajeitava na cama, ela olhou para o marido através do espelho.
— Você gostou dela, não foi?
Emanuel parou de desabotoar a camisa, olhando para o reflexo de Sara.
— Ela é apenas uma menina, Sara. Educada.
— Não minta para mim, Manu. Eu conheço o seu tipo. Você gosta dessas coisinhas fofas e indefesas. Elas fazem você se sentir o grande protetor — Sara riu, sem um pingo de ciúme real, apenas uma confiança absoluta em seu lugar na vida dele. — Eu não me importo. Ela é inofensiva. E a Maya adora ela. Se ela ajudar a calar a boca daquela menina durante o resto das férias, por mim, você pode olhar o quanto quiser.
Emanuel não respondeu. Ele se deitou ao lado de Sara, mas sua mente estava no quarto ao lado. Ele amava Sara, a mulher que construíra o império ao seu lado, a mãe de suas filhas. Mas a imagem de Eduarda, com sua pele clara e seu jeito manhoso, havia se tatuado em sua mente.
Ele a queria. E Emanuel, o homem que comandava estúdios em Londres, Nova York e Tóquio, raramente não conseguia o que queria.
Nos dias que se seguiram, a estadia forçada por causa das peças do carro que demorariam a chegar transformou-se em um jogo perigoso. Maya tornou-se o "grudinho" de Eduarda. Onde a jovem ia, a bebê ia atrás, seja no colo ou no carrinho. Eduarda parecia florescer com a atenção da criança, e Emanuel usava cada oportunidade com a filha para estar perto de Eduarda.
Em uma tarde, enquanto Sara estava ocupada no telefone resolvendo problemas de um estúdio em Paris, Emanuel encontrou Eduarda no jardim, sentada em um balanço de madeira com Maya.
— Ela gosta do cheiro do seu perfume — observou Emanuel, sentando-se no balanço ao lado.
— É apenas lavanda — Eduarda disse, inclinando a cabeça. — É calmante.
— Tudo em você é calmante, Eduarda.
Ele estendeu a mão e, desta vez, não recuou. Seus dedos tocaram o rosto dela, a pele macia como pétala. Eduarda tremeu, uma mistura de medo e desejo percorrendo seu corpo esguio.
— Você tem namorada, Emanuel... e filhas.
— Eu amo a Sara — ele disse, com uma honestidade brutal que era característica de sua personalidade racional. — Ela é minha vida. Mas isso não impede que eu sinta que falta algo que só você parece ter.
Eduarda olhou para ele, os olhos úmidos. Ela era sensível demais para não perceber a verdade nas palavras dele, e carente demais para rejeitar a proteção que aquele homem poderoso oferecia.
— O que vamos fazer? — ela perguntou, a voz falhando.
Emanuel sorriu, um sorriso sombrio e determinado. Ele puxou-a para perto, sentindo o calor do corpo dela contra o seu, enquanto Maya, entre eles, dava uma risadinha feliz, sentindo a conexão das duas pessoas que mais amava naquele momento.
— Eu vou cuidar de tudo — ele prometeu. — Eu sempre cuido.
Lá de cima, da varanda, Sara observava a cena. Ela ajeitou o cabelo loiro, um brilho de inteligência e estratégia nos olhos. Ela sabia que a dinâmica da família estava prestes a mudar. Mas, contanto que ela continuasse sendo a rainha do império e a namorada principal, ela não se importava em dividir o fardo de acalmar o coração de Emanuel com alguém tão útil — e tão doce — quanto Eduarda.
Afinal, em um mundo de negócios e tensões, um pouco de doçura nunca era demais. E Emanuel, em sua busca por controle, acabara de encontrar a peça que faltava para completar seu mundo perfeitamente imperfeito.
