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O amor entre versos
Fandom: Rimas
Criado: 19/06/2026
Tags
RomanceFatias de VidaFofuraRealismoEstudo de PersonagemCenário Canônico
Entre Versos e o Coração Alvinegro
O ar de Guarulhos parecia mais denso naquela noite, carregado com a umidade típica da cidade e a eletricidade que só uma roda de rima de alto nível conseguia gerar. Laryssa ajustou o boné do Corinthians, sentindo o tecido familiar contra a testa, e ajeitou a camisa retrô do Timão que usava como amuleto. Ela não estava ali apenas por esporte; estava ali por devoção.
Para Lary, as batalhas de rima eram o seu estádio particular. E naquela noite, o "Gramado" era o asfalto rústico da praça, cercado por jovens ansiosos e o som abafado de um beatbox que já começava a aquecer os ânimos. Ela atravessou a multidão, pedindo licença com um sorriso educado, mas determinado, até conseguir um lugar na linha de frente.
— Ele já chegou? — perguntou Lary para uma amiga ao lado, a voz quase sumindo diante do barulho.
— O Xamuel? Acabou de encostar no backstage improvisado — respondeu a garota, apontando para um canto onde o MC gaúcho conversava com os organizadores.
Laryssa sentiu o coração dar um solavanco. Ela acompanhava cada vídeo, cada rima métrica e cada deboche inteligente de Xamuel. Para ela, ele era o favorito, o fenômeno que trazia uma estética nova para o freestyle. No entanto, o burburinho ao redor não falava apenas dele. O nome de seu oponente ecoava com uma força local que ela ainda não compreendia totalmente.
— Quem é esse tal de Jotapê que todo mundo tá falando? — Lary perguntou, franzindo o cenho.
— Você tá por fora, Lary? — A amiga riu. — O Jotapê é cria da casa. Guarulhos puro. E dizem que o moleque é um monstro no improviso. Além de ser corintiano roxo que nem você.
Laryssa deu de ombros, ainda fiel ao seu ídolo.
— Pode ser bom, mas o Xamuel tem o "flow". Vai ser difícil ganhar dele hoje.
O mestre de cerimônias subiu no pequeno tablado, testando o microfone. O som do "testando, um, dois" fez a multidão se fechar em um círculo apertado.
— Senhoras e senhores, Guarulhos na casa! — gritou o MC, sendo respondido por um rugido da plateia. — De um lado, vindo do Sul para dominar o mic, Xamuel! E do outro, representando a nossa quebrada, o orgulho da ZG, Jotapê!
Quando Jotapê deu um passo à frente, Laryssa sentiu uma estranha sensação de reconhecimento. Ele não usava roupas de marca caras ou acessórios chamativos. Vestia uma bermuda preta e uma camiseta do Corinthians, desgastada pelo tempo, mas ostentada com um orgulho que ela conhecia bem. O olhar dele era focado, quase calmo, contrastando com a agitação ao redor.
A batalha começou com um sorteio. Xamuel atacaria primeiro. O beat soltou uma batida pesada, um boom-bap que fazia o chão vibrar.
Xamuel começou com sua velocidade característica, jogando rimas sobre sua fama, sobre como ele era o futuro do jogo e como Jotapê era apenas mais um degrau em sua escada para o topo. A plateia gritava a cada "punchline" bem encaixada. Laryssa aplaudia, vibrando com a técnica do gaúcho.
— É, ele é bom... — sussurrou ela para si mesma.
Mas então, foi a vez de Jotapê.
Ele esperou o beat cair no momento certo. Quando abriu a boca, a voz não era apenas som; era sentimento. Ele não rimou sobre fama. Ele rimou sobre as ruas de Guarulhos, sobre a dificuldade de pegar o ônibus lotado para ir treinar rima, sobre a fé que o povo dali tinha. E, de repente, ele olhou diretamente para a multidão, seus olhos encontrando os de Laryssa por um breve segundo antes de disparar:
— Você fala de trono, mas eu falo de chão / Você quer a coroa, eu quero a união / Sou Corinthians na alma, sofredor com vitória / Enquanto você faz rima, eu tô fazendo história!
O "sangue" da plateia ferveu. O grito foi tão alto que Laryssa sentiu os ouvidos zunirem. Havia algo na entrega de Jotapê que era visceral. Não era apenas técnica; era identidade.
Ao final do terceiro round, a decisão era óbvia. O braço do juiz apontou para Jotapê, e a praça explodiu.
Laryssa estava em choque. Seu favorito havia perdido, mas ela não conseguia se sentir triste. Ela estava hipnotizada pela energia daquele garoto que parecia traduzir em palavras exatamente o que significava morar ali, torcer para aquele time e viver aquela realidade.
Enquanto a multidão começava a se dispersar ou se aglomerar para tirar fotos, Lary se viu caminhando em direção a Jotapê. Ele estava encostado em um poste, tomando água e limpando o suor da testa com a gola da camisa.
— Bela batalha — disse ela, aproximando-se com as mãos nos bolsos da calça.
Jotapê levantou o olhar. Um sorriso tímido, mas genuíno, surgiu em seu rosto quando ele notou a camisa dela.
— Valeu, de verdade. O Xamuel é brabo, tive que suar o dobro hoje.
— Você foi melhor porque falou com o coração — admitiu Laryssa, sentindo as bochechas esquentarem. — Eu vim para torcer por ele, sabia?
Jotapê soltou uma risada curta, guardando a garrafa de água.
— Sério? Traição na própria quebrada, fiel? — Ele apontou para o escudo do Corinthians no peito dela. — Uma corintiana torcendo contra um sofredor de Guarulhos? Isso é pecado grave.
— Eu não sabia que você era tão bom! — defendeu-se ela, rindo também. — E como você sabia que eu sou corintiana? Quer dizer, além da camisa...
— O jeito que você vibrou quando eu mandei a rima sobre o Timão entregou tudo — disse ele, dando um passo para mais perto. — A gente se reconhece de longe. Sou Jotapê.
— Laryssa. Mas pode chamar de Lary.
— Então, Lary... — Ele inclinou a cabeça, observando o movimento da praça que diminuía. — Já que eu ganhei a batalha, será que eu ganho pelo menos um consolo por você ter torcido contra mim?
Laryssa arqueou uma sobrancelha, achando graça da audácia dele.
— E o que seria esse consolo?
— Tem um carrinho de lanche ali na esquina que faz o melhor "podrão" da região. Se você aceitar ir lá comigo, eu prometo que perdoo sua traição clubística.
Laryssa olhou para Jotapê. Ele tinha um brilho nos olhos que era magnético, uma mistura de humildade e confiança que ela nunca tinha visto em nenhum outro MC.
— Tudo bem, Jotapê. Você me convenceu. Mas só porque a gente precisa comemorar a vitória do freestyle nacional.
— E do Corinthians — acrescentou ele, começando a andar ao lado dela.
— É... e do Corinthians — concordou ela, sentindo que aquela noite em Guarulhos estava apenas começando.
Enquanto caminhavam, o som do beatbox lá atrás foi substituído pelo barulho dos grilos e dos carros passando, mas o ritmo no peito de Laryssa ainda seguia a batida das rimas de Jotapê. Ela tinha ido para ver um ídolo de internet, mas acabou encontrando algo muito mais real, bem ali, nas ruas de sua própria cidade.
— Sabe — começou Jotapê, enquanto atravessavam a rua —, eu vi você na primeira fila desde o começo.
— Viu? — ela perguntou, surpresa. — Achei que estivesse focado no Xamuel.
— No palco a gente foca em tudo. Mas o seu boné se destacava. Eu pensei: "Se eu não ganhar essa, vou passar vergonha na frente da corintiana".
— Então eu servi de inspiração? — Lary brincou, dando um leve empurrão no ombro dele.
— Pode-se dizer que sim — respondeu ele, parando em frente ao carrinho de lanche. — A rima sai fácil quando a gente tem por quem rimar.
Laryssa sorriu, sentindo que, independentemente de quem ganhasse no palco, ela já tinha saído vitoriosa daquela noite. O "tal de Jotapê" não era apenas um MC; era a voz da sua rua, e agora, talvez, algo mais.
Para Lary, as batalhas de rima eram o seu estádio particular. E naquela noite, o "Gramado" era o asfalto rústico da praça, cercado por jovens ansiosos e o som abafado de um beatbox que já começava a aquecer os ânimos. Ela atravessou a multidão, pedindo licença com um sorriso educado, mas determinado, até conseguir um lugar na linha de frente.
— Ele já chegou? — perguntou Lary para uma amiga ao lado, a voz quase sumindo diante do barulho.
— O Xamuel? Acabou de encostar no backstage improvisado — respondeu a garota, apontando para um canto onde o MC gaúcho conversava com os organizadores.
Laryssa sentiu o coração dar um solavanco. Ela acompanhava cada vídeo, cada rima métrica e cada deboche inteligente de Xamuel. Para ela, ele era o favorito, o fenômeno que trazia uma estética nova para o freestyle. No entanto, o burburinho ao redor não falava apenas dele. O nome de seu oponente ecoava com uma força local que ela ainda não compreendia totalmente.
— Quem é esse tal de Jotapê que todo mundo tá falando? — Lary perguntou, franzindo o cenho.
— Você tá por fora, Lary? — A amiga riu. — O Jotapê é cria da casa. Guarulhos puro. E dizem que o moleque é um monstro no improviso. Além de ser corintiano roxo que nem você.
Laryssa deu de ombros, ainda fiel ao seu ídolo.
— Pode ser bom, mas o Xamuel tem o "flow". Vai ser difícil ganhar dele hoje.
O mestre de cerimônias subiu no pequeno tablado, testando o microfone. O som do "testando, um, dois" fez a multidão se fechar em um círculo apertado.
— Senhoras e senhores, Guarulhos na casa! — gritou o MC, sendo respondido por um rugido da plateia. — De um lado, vindo do Sul para dominar o mic, Xamuel! E do outro, representando a nossa quebrada, o orgulho da ZG, Jotapê!
Quando Jotapê deu um passo à frente, Laryssa sentiu uma estranha sensação de reconhecimento. Ele não usava roupas de marca caras ou acessórios chamativos. Vestia uma bermuda preta e uma camiseta do Corinthians, desgastada pelo tempo, mas ostentada com um orgulho que ela conhecia bem. O olhar dele era focado, quase calmo, contrastando com a agitação ao redor.
A batalha começou com um sorteio. Xamuel atacaria primeiro. O beat soltou uma batida pesada, um boom-bap que fazia o chão vibrar.
Xamuel começou com sua velocidade característica, jogando rimas sobre sua fama, sobre como ele era o futuro do jogo e como Jotapê era apenas mais um degrau em sua escada para o topo. A plateia gritava a cada "punchline" bem encaixada. Laryssa aplaudia, vibrando com a técnica do gaúcho.
— É, ele é bom... — sussurrou ela para si mesma.
Mas então, foi a vez de Jotapê.
Ele esperou o beat cair no momento certo. Quando abriu a boca, a voz não era apenas som; era sentimento. Ele não rimou sobre fama. Ele rimou sobre as ruas de Guarulhos, sobre a dificuldade de pegar o ônibus lotado para ir treinar rima, sobre a fé que o povo dali tinha. E, de repente, ele olhou diretamente para a multidão, seus olhos encontrando os de Laryssa por um breve segundo antes de disparar:
— Você fala de trono, mas eu falo de chão / Você quer a coroa, eu quero a união / Sou Corinthians na alma, sofredor com vitória / Enquanto você faz rima, eu tô fazendo história!
O "sangue" da plateia ferveu. O grito foi tão alto que Laryssa sentiu os ouvidos zunirem. Havia algo na entrega de Jotapê que era visceral. Não era apenas técnica; era identidade.
Ao final do terceiro round, a decisão era óbvia. O braço do juiz apontou para Jotapê, e a praça explodiu.
Laryssa estava em choque. Seu favorito havia perdido, mas ela não conseguia se sentir triste. Ela estava hipnotizada pela energia daquele garoto que parecia traduzir em palavras exatamente o que significava morar ali, torcer para aquele time e viver aquela realidade.
Enquanto a multidão começava a se dispersar ou se aglomerar para tirar fotos, Lary se viu caminhando em direção a Jotapê. Ele estava encostado em um poste, tomando água e limpando o suor da testa com a gola da camisa.
— Bela batalha — disse ela, aproximando-se com as mãos nos bolsos da calça.
Jotapê levantou o olhar. Um sorriso tímido, mas genuíno, surgiu em seu rosto quando ele notou a camisa dela.
— Valeu, de verdade. O Xamuel é brabo, tive que suar o dobro hoje.
— Você foi melhor porque falou com o coração — admitiu Laryssa, sentindo as bochechas esquentarem. — Eu vim para torcer por ele, sabia?
Jotapê soltou uma risada curta, guardando a garrafa de água.
— Sério? Traição na própria quebrada, fiel? — Ele apontou para o escudo do Corinthians no peito dela. — Uma corintiana torcendo contra um sofredor de Guarulhos? Isso é pecado grave.
— Eu não sabia que você era tão bom! — defendeu-se ela, rindo também. — E como você sabia que eu sou corintiana? Quer dizer, além da camisa...
— O jeito que você vibrou quando eu mandei a rima sobre o Timão entregou tudo — disse ele, dando um passo para mais perto. — A gente se reconhece de longe. Sou Jotapê.
— Laryssa. Mas pode chamar de Lary.
— Então, Lary... — Ele inclinou a cabeça, observando o movimento da praça que diminuía. — Já que eu ganhei a batalha, será que eu ganho pelo menos um consolo por você ter torcido contra mim?
Laryssa arqueou uma sobrancelha, achando graça da audácia dele.
— E o que seria esse consolo?
— Tem um carrinho de lanche ali na esquina que faz o melhor "podrão" da região. Se você aceitar ir lá comigo, eu prometo que perdoo sua traição clubística.
Laryssa olhou para Jotapê. Ele tinha um brilho nos olhos que era magnético, uma mistura de humildade e confiança que ela nunca tinha visto em nenhum outro MC.
— Tudo bem, Jotapê. Você me convenceu. Mas só porque a gente precisa comemorar a vitória do freestyle nacional.
— E do Corinthians — acrescentou ele, começando a andar ao lado dela.
— É... e do Corinthians — concordou ela, sentindo que aquela noite em Guarulhos estava apenas começando.
Enquanto caminhavam, o som do beatbox lá atrás foi substituído pelo barulho dos grilos e dos carros passando, mas o ritmo no peito de Laryssa ainda seguia a batida das rimas de Jotapê. Ela tinha ido para ver um ídolo de internet, mas acabou encontrando algo muito mais real, bem ali, nas ruas de sua própria cidade.
— Sabe — começou Jotapê, enquanto atravessavam a rua —, eu vi você na primeira fila desde o começo.
— Viu? — ela perguntou, surpresa. — Achei que estivesse focado no Xamuel.
— No palco a gente foca em tudo. Mas o seu boné se destacava. Eu pensei: "Se eu não ganhar essa, vou passar vergonha na frente da corintiana".
— Então eu servi de inspiração? — Lary brincou, dando um leve empurrão no ombro dele.
— Pode-se dizer que sim — respondeu ele, parando em frente ao carrinho de lanche. — A rima sai fácil quando a gente tem por quem rimar.
Laryssa sorriu, sentindo que, independentemente de quem ganhasse no palco, ela já tinha saído vitoriosa daquela noite. O "tal de Jotapê" não era apenas um MC; era a voz da sua rua, e agora, talvez, algo mais.
