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Entre Raios e Doces
Fandom: Original
Criado: 19/06/2026
Tags
RomanceFantasiaDramaDor/ConfortoAventuraCiúmesAçãoDivergência
Açúcar, Raios e Segredos Guardados
O sino de latão sobre a porta da confeitaria "Doce Alvorada" anunciou a chegada do cliente mais previsível de todo o reino. Meg nem precisou levantar os olhos da bandeja de cupcakes de lavanda que estava decorando. Ela sabia, pelo ritmo dos passos e pelo leve estalo de eletricidade estática que sempre parecia carregar o ar ao redor dele, que era Theo.
— O de sempre, Meg? Ou você vai me surpreender hoje com alguma invenção nova? — A voz do príncipe era como veludo, carregada de um entusiasmo que parecia inabalável, mesmo após um longo dia de audiências reais.
Meg terminou de aplicar a última espiral de glacê com precisão cirúrgica antes de olhar para ele. Theo estava encostado no balcão de madeira escura, a coroa de ouro levemente inclinada para o lado, o que lhe dava um ar mais de menino travesso do que de herdeiro do trono.
— Você já comprou metade do estoque de hoje, Theo — Meg respondeu, limpando as mãos no avental impecavelmente branco. — Se continuar comendo tanto açúcar, seus raios vão começar a sair cor-de-rosa.
Theo soltou uma risada sonora, o tipo de som que fazia o estômago de Meg dar um nó que ela se recusava a admitir como ciúme ou admiração. Era apenas... amizade. Tinha que ser.
— Seria um espetáculo e tanto para o festival de verão — ele brincou, pegando um dos bolinhos sem pedir. — Mas, falando sério, seu trabalho é a única coisa que me mantém sã naquelas reuniões sobre impostos de exportação.
— Você é o príncipe herdeiro, Theo. Deveria estar focado no reino, não em bolinhos de chuva — Meg o repreendeu, embora seus olhos brilhassem com uma diversão contida.
— Eu estou focado no que é importante — ele disse, e por um breve segundo, o olhar dele se fixou no dela com uma intensidade que a fez desviar o rosto. — Como está sua mão?
Meg instintivamente escondeu a mão direita sob o balcão. Naquela manhã, ela havia se queimado levemente no forno, mas a ferida já havia desaparecido. Ela a curara em segundos, sentindo aquele calor familiar fluir de seu peito para a ponta dos dedos.
— Está ótima. Foi só um susto — mentiu ela, voltando a organizar os doces na vitrine.
Eles eram amigos desde os seis anos, unidos por um segredo que poderia custar a liberdade de Meg. Naquele dia, no jardim do palácio, os poderes de Theo haviam despertado em uma explosão de faíscas azuis. Ele havia se queimado, chorando de dor, até que Meg tocou sua pele e, com um brilho suave e dourado, a dor sumiu. Desde então, Theo era o escudo dela, e ela era a cura silenciosa dele.
— Você sabe que eu me preocupo — Theo murmurou, aproximando-se um pouco mais. — O mundo lá fora está ficando estranho, Meg. Há boatos de uma doença nas vilas do sul. Algo que os médicos não conseguem explicar.
Meg sentiu um arrepio. Ela ouvia os sussurros dos clientes. Pessoas que entravam pálidas, com febres que não cediam.
— Eu ouvi. Mas aqui estamos seguros, não estamos? — Ela buscou conforto nos olhos dele.
— Enquanto eu tiver um raio no corpo, ninguém toca em você ou nesta confeitaria — prometeu ele, com uma seriedade que sempre a desarmava.
A conversa foi interrompida pelo som de trombetas ecoando da praça central. Theo suspirou, seus ombros caindo levemente.
— O dever chama? — perguntou Meg, tentando esconder o alívio. A proximidade dele estava começando a deixá-la sem fôlego.
— Pior. A recepção da Princesa Elena, do Reino de Ouro. Ela chega hoje. Meu pai insiste que um casamento diplomático é a "faísca" que falta para consolidar nossa aliança — ele fez aspas no ar, visivelmente desgostoso.
Meg sentiu uma pontada aguda no peito, algo muito mais doloroso do que qualquer queimadura de forno.
— Ela dizem que ela é linda — Meg comentou, mantendo a voz o mais neutra possível. — E que controla o metal. Seria uma combinação poderosa com a sua eletricidade.
Theo olhou para ela, buscando qualquer sinal de que ela se importava, mas Meg era uma mestre em manter sua expressão ISTJ: reservada, organizada e impenetrável.
— Poder não é tudo, Meg — ele disse, com uma nota de tristeza na voz. — Às vezes, a gente só quer alguém que saiba exatamente como a gente gosta do chá.
Ele deixou algumas moedas de ouro no balcão — muito mais do que os doces valiam — e saiu, deixando para trás apenas o cheiro de ozônio e lavanda.
Nos dias que se seguiram, a atmosfera no reino mudou drasticamente. A doença misteriosa, apelidada de "Febre Cinzenta", chegou à capital. As ruas, antes vibrantes, tornaram-se silenciosas. A confeitaria continuava aberta, mas Meg passava a maior parte do tempo preparando caldos e remédios naturais para os vizinhos.
Até que a tragédia bateu à sua porta.
— Meg! Por favor! — Era a Sra. Pains, a florista da esquina, carregando seu filho pequeno nos braços. O menino estava cinzento, a respiração curta e ruidosa. — Os médicos do castelo dizem que não há cura. Eles o mandaram para casa para... para morrer.
Meg olhou para os lados. A rua estava deserta, mas as janelas tinham olhos. No entanto, ao ver a criança sofrendo, sua natureza responsável e protetora falou mais alto que o medo da perseguição.
— Traga-o para dentro. Agora — ordenou Meg.
Ela levou-os para os fundos da loja. Colocou a mão sobre o peito do menino e fechou os olhos. Ela sentiu a doença: era uma névoa fria e pegajosa que sufocava a vida. Meg concentrou todo o seu calor, toda a sua luz interior. Suas mãos começaram a brilhar com um dourado intenso, iluminando a cozinha escura.
A cor voltou ao rosto do menino instantaneamente. Ele tossiu, respirou fundo e abriu os olhos, sorrindo.
— O que... o que você fez? — sussurrou a Sra. Pains, em choque.
— Por favor, não conte a ninguém — implorou Meg, o suor escorrendo por sua testa. — Eles vão me levar se souberem.
Mas o segredo de Meg era como a luz que ela emanava: impossível de esconder por muito tempo. Em menos de quarenta e oito horas, uma fila de doentes se formava na porta da confeitaria. Meg não conseguia dizer não. Ela curava um por um, sentindo-se cada vez mais exausta, enquanto o reino inteiro começava a sussurrar sobre a "Santa dos Doces".
Foi no terceiro dia que a carruagem real parou diante da loja. Mas não era Theo quem desceu.
Uma mulher alta, com cabelos negros como azeviche e um vestido que parecia feito de mercúrio líquido, entrou na confeitaria. A Princesa Elena. Ela olhou ao redor com um desdém mal disfarçado.
— Então é aqui que a pequena plebeia faz seus milagres? — Elena disse, sua voz soando como metal raspando em pedra. — O Rei está muito interessado em seus serviços, garota. E o Príncipe Theo parece... excessivamente preocupado com sua segurança.
Meg se empertigou, limpando as mãos sujas de farinha.
— Eu apenas faço o que posso para ajudar, Alteza.
— O que você faz é perigoso — Elena se aproximou, e Meg sentiu o frio que emanava dela. — Poderes de cura não registrados são uma ameaça à ordem. E Theo... bem, Theo tem obrigações. Ele não pode perder tempo protegendo uma padeira com truques de luz.
— Ele não está perdendo tempo — Meg rebateu, a raiva superando a timidez pela primeira vez. — Ele é meu amigo.
Elena soltou uma risada fria.
— Amigo? Querida, ele é um príncipe herdeiro. Eu sou a noiva que o reino dele precisa. Você é apenas uma lembrança de infância que ele ainda não teve coragem de descartar.
Antes que Meg pudesse responder, a porta se abriu com um estrondo. Theo entrou, e a eletricidade ao redor dele era tão forte que as lâmpadas de óleo da loja oscilaram.
— Elena, o que você está fazendo aqui? — A voz dele era um trovão contido.
— Apenas conhecendo a concorrência, Theo — Elena sorriu falsamente, passando por ele. — Não se atrase para o jantar. Temos muito o que discutir sobre o nosso futuro.
Quando Elena saiu, o silêncio que ficou na confeitaria era pesado. Theo caminhou até Meg, seus olhos cheios de uma angústia que ela nunca tinha visto antes.
— Meg, eu sinto muito. Eu tentei impedi-la de vir, mas meu pai deu a ela autoridade sobre a guarda sanitária e...
— É verdade? — Meg interrompeu, a voz trêmula. — Você vai se casar com ela?
Theo hesitou, e aquele segundo de silêncio foi como uma facada para Meg.
— É um acordo político, Meg. O reino está morrendo por causa dessa febre. O pai dela tem os recursos, os metais para construir os novos hospitais, a frota para trazer suprimentos...
— E eu tenho a cura — disse Meg, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de sua compostura. — Eu estou salvando as pessoas, Theo! E você está aí, falando de acordos e casamentos com uma mulher que olha para os seus súditos como se fossem lixo!
— Eu estou tentando proteger você! — Theo gritou, e uma faísca saltou de seus dedos, queimando levemente o balcão. — O Conselho Real quer prender você para "estudar" seu poder. Eles acham que você é a fonte da doença ou uma anomalia que precisa ser contida. Eu estou aceitando esse casamento para que meu pai deixe você em paz!
Meg recuou, chocada.
— Você... você faria isso por mim?
Theo deu um passo à frente, segurando as mãos dela. Pela primeira vez, ele não se importou com a etiqueta ou com as consequências.
— Eu faria qualquer coisa por você, Meg. Eu sempre fiz. Você acha que eu venho aqui todos os dias pelos doces? Eu odeio lavanda! — Ele confessou, rindo desesperadamente em meio à tensão. — Eu venho porque você é a única coisa real na minha vida. Porque quando eu estou com você, eu não sou o Príncipe dos Raios, eu sou apenas o Theo. E eu estou apaixonado por você desde o dia em que você curou minha mão no jardim.
Meg sentiu o mundo girar. O príncipe, o seu melhor amigo, o homem que habitava todos os seus sonhos mais secretos, estava ali, declarando-se enquanto o reino desmoronava.
— Theo... — ela sussurrou, tocando o rosto dele. — Eu também... eu sempre...
Mas o momento foi quebrado por um grito vindo da rua.
— Guardas! Por ordem da Princesa Elena, prendam a curandeira para interrogatório imediato!
Theo se virou, colocando-se à frente de Meg. Seus olhos brilharam com uma luz azul intensa, e o som de um trovão ecoou no céu limpo de tarde.
— Ela não vai a lugar nenhum — rugiu Theo.
Meg olhou para as próprias mãos. Ela passara a vida se escondendo, sendo a garota organizada, reservada e invisível. Mas o reino precisava dela, e Theo estava prestes a abdicar de sua felicidade para salvá-la de um destino que ela poderia enfrentar.
— Theo, espere — Meg disse, sua voz agora firme, carregada da autoridade de quem sabe exatamente o que precisa ser feito. — Não lute contra eles. Não agora.
— Meg, o que você está dizendo? Eles vão trancá-la!
— Não se eu for até o seu pai com uma proposta que ele não possa recusar — Meg olhou para a multidão de doentes que se aglomerava atrás dos guardas, pessoas que ela já havia curado e que agora olhavam para ela com devoção. — A Princesa Elena traz metal e navios. Eu trago a vida de cada habitante deste reino. Vamos ver quem o povo prefere seguir.
Theo olhou para ela, e o orgulho em seus olhos superou o medo. Ele estendeu o braço para ela, não como um príncipe protegendo uma súdita, mas como um parceiro.
— Então vamos mostrar a eles, Meg. Vamos mostrar a eles o que acontece quando o raio encontra a cura.
Meg tirou o avental, revelando o vestido simples, mas mantendo a postura de uma rainha. Ela segurou a mão de Theo, sentindo a eletricidade dele e oferecendo seu calor em troca. Eles saíram da confeitaria juntos, prontos para enfrentar a tempestade que estava apenas começando.
Afinal, para Meg, a organização era fundamental, e estava na hora de colocar aquele reino em ordem.
— O de sempre, Meg? Ou você vai me surpreender hoje com alguma invenção nova? — A voz do príncipe era como veludo, carregada de um entusiasmo que parecia inabalável, mesmo após um longo dia de audiências reais.
Meg terminou de aplicar a última espiral de glacê com precisão cirúrgica antes de olhar para ele. Theo estava encostado no balcão de madeira escura, a coroa de ouro levemente inclinada para o lado, o que lhe dava um ar mais de menino travesso do que de herdeiro do trono.
— Você já comprou metade do estoque de hoje, Theo — Meg respondeu, limpando as mãos no avental impecavelmente branco. — Se continuar comendo tanto açúcar, seus raios vão começar a sair cor-de-rosa.
Theo soltou uma risada sonora, o tipo de som que fazia o estômago de Meg dar um nó que ela se recusava a admitir como ciúme ou admiração. Era apenas... amizade. Tinha que ser.
— Seria um espetáculo e tanto para o festival de verão — ele brincou, pegando um dos bolinhos sem pedir. — Mas, falando sério, seu trabalho é a única coisa que me mantém sã naquelas reuniões sobre impostos de exportação.
— Você é o príncipe herdeiro, Theo. Deveria estar focado no reino, não em bolinhos de chuva — Meg o repreendeu, embora seus olhos brilhassem com uma diversão contida.
— Eu estou focado no que é importante — ele disse, e por um breve segundo, o olhar dele se fixou no dela com uma intensidade que a fez desviar o rosto. — Como está sua mão?
Meg instintivamente escondeu a mão direita sob o balcão. Naquela manhã, ela havia se queimado levemente no forno, mas a ferida já havia desaparecido. Ela a curara em segundos, sentindo aquele calor familiar fluir de seu peito para a ponta dos dedos.
— Está ótima. Foi só um susto — mentiu ela, voltando a organizar os doces na vitrine.
Eles eram amigos desde os seis anos, unidos por um segredo que poderia custar a liberdade de Meg. Naquele dia, no jardim do palácio, os poderes de Theo haviam despertado em uma explosão de faíscas azuis. Ele havia se queimado, chorando de dor, até que Meg tocou sua pele e, com um brilho suave e dourado, a dor sumiu. Desde então, Theo era o escudo dela, e ela era a cura silenciosa dele.
— Você sabe que eu me preocupo — Theo murmurou, aproximando-se um pouco mais. — O mundo lá fora está ficando estranho, Meg. Há boatos de uma doença nas vilas do sul. Algo que os médicos não conseguem explicar.
Meg sentiu um arrepio. Ela ouvia os sussurros dos clientes. Pessoas que entravam pálidas, com febres que não cediam.
— Eu ouvi. Mas aqui estamos seguros, não estamos? — Ela buscou conforto nos olhos dele.
— Enquanto eu tiver um raio no corpo, ninguém toca em você ou nesta confeitaria — prometeu ele, com uma seriedade que sempre a desarmava.
A conversa foi interrompida pelo som de trombetas ecoando da praça central. Theo suspirou, seus ombros caindo levemente.
— O dever chama? — perguntou Meg, tentando esconder o alívio. A proximidade dele estava começando a deixá-la sem fôlego.
— Pior. A recepção da Princesa Elena, do Reino de Ouro. Ela chega hoje. Meu pai insiste que um casamento diplomático é a "faísca" que falta para consolidar nossa aliança — ele fez aspas no ar, visivelmente desgostoso.
Meg sentiu uma pontada aguda no peito, algo muito mais doloroso do que qualquer queimadura de forno.
— Ela dizem que ela é linda — Meg comentou, mantendo a voz o mais neutra possível. — E que controla o metal. Seria uma combinação poderosa com a sua eletricidade.
Theo olhou para ela, buscando qualquer sinal de que ela se importava, mas Meg era uma mestre em manter sua expressão ISTJ: reservada, organizada e impenetrável.
— Poder não é tudo, Meg — ele disse, com uma nota de tristeza na voz. — Às vezes, a gente só quer alguém que saiba exatamente como a gente gosta do chá.
Ele deixou algumas moedas de ouro no balcão — muito mais do que os doces valiam — e saiu, deixando para trás apenas o cheiro de ozônio e lavanda.
Nos dias que se seguiram, a atmosfera no reino mudou drasticamente. A doença misteriosa, apelidada de "Febre Cinzenta", chegou à capital. As ruas, antes vibrantes, tornaram-se silenciosas. A confeitaria continuava aberta, mas Meg passava a maior parte do tempo preparando caldos e remédios naturais para os vizinhos.
Até que a tragédia bateu à sua porta.
— Meg! Por favor! — Era a Sra. Pains, a florista da esquina, carregando seu filho pequeno nos braços. O menino estava cinzento, a respiração curta e ruidosa. — Os médicos do castelo dizem que não há cura. Eles o mandaram para casa para... para morrer.
Meg olhou para os lados. A rua estava deserta, mas as janelas tinham olhos. No entanto, ao ver a criança sofrendo, sua natureza responsável e protetora falou mais alto que o medo da perseguição.
— Traga-o para dentro. Agora — ordenou Meg.
Ela levou-os para os fundos da loja. Colocou a mão sobre o peito do menino e fechou os olhos. Ela sentiu a doença: era uma névoa fria e pegajosa que sufocava a vida. Meg concentrou todo o seu calor, toda a sua luz interior. Suas mãos começaram a brilhar com um dourado intenso, iluminando a cozinha escura.
A cor voltou ao rosto do menino instantaneamente. Ele tossiu, respirou fundo e abriu os olhos, sorrindo.
— O que... o que você fez? — sussurrou a Sra. Pains, em choque.
— Por favor, não conte a ninguém — implorou Meg, o suor escorrendo por sua testa. — Eles vão me levar se souberem.
Mas o segredo de Meg era como a luz que ela emanava: impossível de esconder por muito tempo. Em menos de quarenta e oito horas, uma fila de doentes se formava na porta da confeitaria. Meg não conseguia dizer não. Ela curava um por um, sentindo-se cada vez mais exausta, enquanto o reino inteiro começava a sussurrar sobre a "Santa dos Doces".
Foi no terceiro dia que a carruagem real parou diante da loja. Mas não era Theo quem desceu.
Uma mulher alta, com cabelos negros como azeviche e um vestido que parecia feito de mercúrio líquido, entrou na confeitaria. A Princesa Elena. Ela olhou ao redor com um desdém mal disfarçado.
— Então é aqui que a pequena plebeia faz seus milagres? — Elena disse, sua voz soando como metal raspando em pedra. — O Rei está muito interessado em seus serviços, garota. E o Príncipe Theo parece... excessivamente preocupado com sua segurança.
Meg se empertigou, limpando as mãos sujas de farinha.
— Eu apenas faço o que posso para ajudar, Alteza.
— O que você faz é perigoso — Elena se aproximou, e Meg sentiu o frio que emanava dela. — Poderes de cura não registrados são uma ameaça à ordem. E Theo... bem, Theo tem obrigações. Ele não pode perder tempo protegendo uma padeira com truques de luz.
— Ele não está perdendo tempo — Meg rebateu, a raiva superando a timidez pela primeira vez. — Ele é meu amigo.
Elena soltou uma risada fria.
— Amigo? Querida, ele é um príncipe herdeiro. Eu sou a noiva que o reino dele precisa. Você é apenas uma lembrança de infância que ele ainda não teve coragem de descartar.
Antes que Meg pudesse responder, a porta se abriu com um estrondo. Theo entrou, e a eletricidade ao redor dele era tão forte que as lâmpadas de óleo da loja oscilaram.
— Elena, o que você está fazendo aqui? — A voz dele era um trovão contido.
— Apenas conhecendo a concorrência, Theo — Elena sorriu falsamente, passando por ele. — Não se atrase para o jantar. Temos muito o que discutir sobre o nosso futuro.
Quando Elena saiu, o silêncio que ficou na confeitaria era pesado. Theo caminhou até Meg, seus olhos cheios de uma angústia que ela nunca tinha visto antes.
— Meg, eu sinto muito. Eu tentei impedi-la de vir, mas meu pai deu a ela autoridade sobre a guarda sanitária e...
— É verdade? — Meg interrompeu, a voz trêmula. — Você vai se casar com ela?
Theo hesitou, e aquele segundo de silêncio foi como uma facada para Meg.
— É um acordo político, Meg. O reino está morrendo por causa dessa febre. O pai dela tem os recursos, os metais para construir os novos hospitais, a frota para trazer suprimentos...
— E eu tenho a cura — disse Meg, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de sua compostura. — Eu estou salvando as pessoas, Theo! E você está aí, falando de acordos e casamentos com uma mulher que olha para os seus súditos como se fossem lixo!
— Eu estou tentando proteger você! — Theo gritou, e uma faísca saltou de seus dedos, queimando levemente o balcão. — O Conselho Real quer prender você para "estudar" seu poder. Eles acham que você é a fonte da doença ou uma anomalia que precisa ser contida. Eu estou aceitando esse casamento para que meu pai deixe você em paz!
Meg recuou, chocada.
— Você... você faria isso por mim?
Theo deu um passo à frente, segurando as mãos dela. Pela primeira vez, ele não se importou com a etiqueta ou com as consequências.
— Eu faria qualquer coisa por você, Meg. Eu sempre fiz. Você acha que eu venho aqui todos os dias pelos doces? Eu odeio lavanda! — Ele confessou, rindo desesperadamente em meio à tensão. — Eu venho porque você é a única coisa real na minha vida. Porque quando eu estou com você, eu não sou o Príncipe dos Raios, eu sou apenas o Theo. E eu estou apaixonado por você desde o dia em que você curou minha mão no jardim.
Meg sentiu o mundo girar. O príncipe, o seu melhor amigo, o homem que habitava todos os seus sonhos mais secretos, estava ali, declarando-se enquanto o reino desmoronava.
— Theo... — ela sussurrou, tocando o rosto dele. — Eu também... eu sempre...
Mas o momento foi quebrado por um grito vindo da rua.
— Guardas! Por ordem da Princesa Elena, prendam a curandeira para interrogatório imediato!
Theo se virou, colocando-se à frente de Meg. Seus olhos brilharam com uma luz azul intensa, e o som de um trovão ecoou no céu limpo de tarde.
— Ela não vai a lugar nenhum — rugiu Theo.
Meg olhou para as próprias mãos. Ela passara a vida se escondendo, sendo a garota organizada, reservada e invisível. Mas o reino precisava dela, e Theo estava prestes a abdicar de sua felicidade para salvá-la de um destino que ela poderia enfrentar.
— Theo, espere — Meg disse, sua voz agora firme, carregada da autoridade de quem sabe exatamente o que precisa ser feito. — Não lute contra eles. Não agora.
— Meg, o que você está dizendo? Eles vão trancá-la!
— Não se eu for até o seu pai com uma proposta que ele não possa recusar — Meg olhou para a multidão de doentes que se aglomerava atrás dos guardas, pessoas que ela já havia curado e que agora olhavam para ela com devoção. — A Princesa Elena traz metal e navios. Eu trago a vida de cada habitante deste reino. Vamos ver quem o povo prefere seguir.
Theo olhou para ela, e o orgulho em seus olhos superou o medo. Ele estendeu o braço para ela, não como um príncipe protegendo uma súdita, mas como um parceiro.
— Então vamos mostrar a eles, Meg. Vamos mostrar a eles o que acontece quando o raio encontra a cura.
Meg tirou o avental, revelando o vestido simples, mas mantendo a postura de uma rainha. Ela segurou a mão de Theo, sentindo a eletricidade dele e oferecendo seu calor em troca. Eles saíram da confeitaria juntos, prontos para enfrentar a tempestade que estava apenas começando.
Afinal, para Meg, a organização era fundamental, e estava na hora de colocar aquele reino em ordem.
