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Tensao palco e musica
Fandom: Airbag
Criado: 20/06/2026
Tags
RomanceFatias de VidaFofuraHumorHistória DomésticaCenário Canônico
Sombras, Gritos e o Teimoso Sardelli
A sala da casa dos Sardelli estava mergulhada em uma penumbra estratégica, iluminada apenas pelo brilho azulado da enorme tela de TV e pelas luzes da cidade de Buenos Aires que filtravam através das janelas. O clima era de descontração para quase todos. Guido e Gastón estavam esparramados no sofá maior com suas respectivas parceiras, dividindo baldes de pipoca e garrafas de cerveja. No entanto, no canto do sofá em formato de L, a tensão era palpável entre Patrício e Karen.
Karen, vinte anos mais jovem que o namorado, cruzava os braços sobre o peito, os cachos negros levemente bagunçados e o olhar fixo na tela com uma mistura de tédio e pavor iminente. Ela amava a energia daquela família, amava o caos criativo dos irmãos Sardelli e, acima de tudo, amava Patrício. Mas havia uma coisa que ela detestava com todas as suas forças: filmes de terror sobrenatural.
— Pato, eu estou falando sério. Se eu não conseguir fechar o olho hoje à noite, a culpa vai ser inteiramente sua — sussurrou ela, inclinando-se para perto dele para que os outros não ouvissem a discussão iniciada pela décima vez.
Patrício, com aquele sorriso de canto de boca que costumava desarmar qualquer um, apenas deu de ombros, mantendo os olhos na introdução sombria do filme que começava a rodar. Ele era turrão, e todo mundo sabia disso. Quando colocava uma ideia na cabeça, nem um terremoto o fazia mudar de direção.
— Deixa de ser exagerada, flaca — respondeu ele, passando o braço pelos ombros dela e tentando puxá-la para mais perto. — É só ficção. São efeitos especiais e maquiagem. Nada disso é real.
— Eu sei que não é real, Patrício! — rebateu ela em um sussurro ríspido, desvencilhando-se do abraço. — Mas o meu cérebro não sabe disso quando as luzes se apagam. Você sabe que eu odeio esse gênero. Por que você insiste tanto?
— Porque esse é um clássico — justificou ele, aumentando um pouco o tom de voz, o que atraiu um olhar feio de Gastón. — E porque você precisa parar de ter medo de fantasma de mentira. Você é uma mulher forte, Karen. Não vai ser uma possessão demoníaca no cinema que vai te derrubar.
— Ah, claro. O grande filósofo Patrício Sardelli decidiu que hoje é o dia da minha terapia de choque — ironizou ela, pegando um punhado de pipoca e mastigando com força. — Só estou avisando: se eu tiver pesadelo, eu vou te acordar de hora em hora. E se eu vir vultos no corredor, você vai ter que ir buscar água para mim até o amanhecer.
— Combinado — disse ele, confiante, voltando sua atenção para a tela enquanto a trilha sonora sinistra começava a subir de volume.
O filme avançava e a atmosfera na sala mudava. Guido e Gastón faziam piadas ocasionais, mas logo o silêncio se instalou conforme os sustos começavam a se tornar mais frequentes. Karen estava praticamente encolhida em uma bola, com o rosto escondido atrás de uma almofada, espiando apenas com um olho.
Sempre que a música ficava mais aguda, ela sentia um arrepio percorrer sua espinha. Patrício, embora fingisse estar imperturbável, apertava a mão dela toda vez que algo saltava na tela, uma reação instintiva que ele jamais admitiria ser um susto dele também.
— Viu só? — sussurrou Patrício após uma cena particularmente sangrenta. — Aquele efeito de luz foi incrível. A fotografia desse filme é impecável.
— Eu não estou olhando para a fotografia, Pato! — Karen respondeu por trás da almofada. — Eu estou tentando sobreviver a esse infarto que você está me causando.
— Shh! — reclamou Guido do outro lado. — Agora que a parte boa vai começar.
Karen revirou os olhos. A sintonia entre ela e Patrício era quase telepática na maioria das vezes. Eles se entendiam no olhar, na música, no jeito como ela acalmava a ansiedade dele antes dos shows e como ele a incentivava em seus projetos. Mas, quando o assunto era teimosia, eles eram duas forças da natureza colidindo. Patrício adorava testar os limites dela, e ela, por mais que reclamasse, acabava cedendo só para poder estar perto dele.
Quando o filme finalmente terminou e as luzes da sala foram acesas, Karen soltou um suspiro longo, como se tivesse prendido a respiração por duas horas.
— E aí? — perguntou Gastón, espreguiçando-se. — Nada mal, né?
— Uma porcaria — declarou Karen, levantando-se e limpando as migalhas de pipoca da calça. — Eu vou ter traumas permanentes. Obrigada, Patrício.
— De nada, meu amor — disse ele, levantando-se logo em seguida com um sorriso vitorioso. — Viu? Você sobreviveu. Sem drama.
— A noite ainda não acabou — lembrou ela, apontando o dedo para o peito dele. — A conta chega de madrugada.
Após as despedidas habituais e algumas piadas de Guido sobre Karen precisar de uma luz noturna de criancinha, o casal subiu para o quarto. O silêncio da casa agora parecia diferente para ela. Cada estalo da madeira do piso, cada sombra projetada pelas árvores do jardim nas paredes do corredor parecia uma ameaça.
Patrício entrou no quarto e começou a se trocar, jogando a camiseta em um canto. Ele parecia perfeitamente relaxado, mas Karen estava em estado de alerta máximo.
— Você vai mesmo apagar a luz? — perguntou ela, já debaixo das cobertas, observando-o caminhar até o interruptor.
— Karen, são duas da manhã — disse ele, pausando com a mão na parede. — Nós precisamos dormir. Amanhã tenho ensaio cedo.
— Deixa a luz do banheiro acesa, pelo menos — pediu ela, a voz um pouco mais suave, perdendo a postura de briga e assumindo a vulnerabilidade.
Patrício suspirou. Ele adorava ser o "vencedor" das discussões, mas ver o desconforto real nos olhos dela sempre amolecia seu coração, por mais que sua casca de roqueiro turrão tentasse esconder.
— Tudo bem, flaca. Luz do banheiro acesa e porta entreaberta. Satisfeita? — perguntou ele, deitando-se ao lado dela e puxando-a para seus braços.
— Por enquanto — murmurou ela, encaixando a cabeça no peito dele, ouvindo as batidas ritmadas do seu coração. — Mas eu ainda estou brava com você.
— Eu sei que está. Mas você me ama mesmo assim.
O silêncio reinou por cerca de vinte minutos. Patrício já estava começando a cochilar, o corpo relaxado pelo cansaço do dia. Karen, por outro lado, estava com os olhos arregalados, encarando a fresta de luz que vinha do banheiro. Cada vez que o vento soprava mais forte lá fora, ela dava um pequeno sobressalto.
De repente, um barulho metálico ecoou lá embaixo, na cozinha. Foi algo pequeno, como uma colher caindo, mas no silêncio da noite soou como uma explosão.
Karen sentou-se na cama instantaneamente, o coração disparado.
— Patrício! — ela sussurrou, sacudindo o ombro dele. — Patrício, acorda!
— Hum? O que foi? — ele resmungou, sem abrir os olhos.
— Ouviu isso? Teve um barulho lá embaixo.
— Deve ter sido o vento, ou a geladeira estalando — disse ele, virando-se para o outro lado. — Dorme, Karen.
— Não foi o vento! Foi um barulho de metal. Alguém entrou na casa.
Patrício soltou um suspiro pesado e finalmente abriu os olhos, encarando o teto.
— Karen, ninguém entrou na casa. O alarme está ligado. Os meninos estão nos quartos deles. É a sua imaginação por causa do filme.
— Viu só? Eu te avisei! — ela exclamou, embora mantendo o tom baixo. — Você me obrigou a ver aquela coisa e agora eu estou ouvindo demônios na cozinha. A culpa é sua!
— Demônios não jogam colheres no chão, amor — ironizou ele, sentando-se também. — Se forem demônios, eles têm coisas mais interessantes para fazer.
— Não brinca com isso! — Ela o empurrou levemente. — Vai lá ver o que foi.
Patrício olhou para ela, incrédulo.
— Você quer que eu desça até a cozinha, no escuro, porque você ouviu um estalo?
— Sim! Você é o homem da casa, o corajoso que disse que o filme era "apenas fotografia". Vai lá exercer sua coragem.
Patrício passou a mão pelo rosto, sentindo o peso da própria teimosia voltar contra ele. Ele sabia que, se não fosse, ela não o deixaria dormir o resto da noite. E, para ser honesto, o barulho também o tinha deixado minimamente curioso, embora ele jamais admitisse estar com um pingo de receio.
— Está bem, eu vou — disse ele, levantando-se da cama com um ar de mártir. — Mas se eu for devorado por um espírito maligno, saiba que minhas últimas palavras foram que você é muito dramática.
— Engraçadinho. Leva o celular para iluminar o caminho.
Patrício saiu do quarto, caminhando descalço pelo corredor frio. Karen ficou sentada na cama, segurando o lençol até o queixo, as orelhas aguçadas para qualquer som. Ela ouviu os passos dele descendo a escada, o ranger de um dos degraus que sempre reclamava, e depois... silêncio.
Um minuto passou. Dois minutos.
— Pato? — ela chamou, a voz trêmula.
Nenhuma resposta.
— Patrício Sardelli, se você estiver tentando me assustar, eu juro que volto para o Brasil amanhã mesmo! — ameaçou ela, a voz subindo de tom.
De repente, um grito abafado veio lá de baixo, seguido pelo som de algo caindo. Karen sentiu o sangue congelar. Ela não pensou. O medo foi substituído por uma adrenalina pura de proteção. Ela saltou da cama, pegou um abajur pesado que ficava no criado-mudo e correu para o corredor.
— Patrício!
Ela desceu as escadas correndo, a luz do celular na mão tremendo enquanto iluminava os degraus. Ao chegar na cozinha, ela acendeu a luz principal de uma vez, pronta para golpear qualquer entidade ou ladrão que estivesse ali.
A cena que ela encontrou, no entanto, era longe de ser aterrorizante.
Patrício estava parado perto da ilha da cozinha, segurando o pé e pulando em uma perna só, enquanto Guido estava sentado no chão, cercado por potes de sorvete que haviam caído do freezer.
— Mas o que está acontecendo aqui? — perguntou Karen, baixando o abajur, ainda com o coração saindo pela boca.
— Esse idiota me deu um susto! — exclamou Patrício, apontando para o irmão. — Eu entrei aqui no escuro e ele estava agachado na frente da geladeira parecendo um gnomo. Eu tropecei no banco e quase quebrei o dedo do pé!
Guido começou a rir, uma risada alta que ecoou pela cozinha silenciosa.
— Eu só estava com fome! — defendeu-se Guido. — Eu não queria acender a luz para não despertar todo mundo. Aí o Patrício entra aqui parecendo um fantasma de cueca e começa a tatear as paredes.
Karen olhou de um para o outro, a tensão saindo do seu corpo em uma onda de alívio e raiva. Ela começou a rir também, mas era uma risada nervosa.
— Eu quase matei vocês dois com um abajur! — ela disse, colocando o objeto sobre a mesa. — Patrício, eu te odeio. Eu realmente achei que algo tinha acontecido.
Patrício, ainda massageando o pé, olhou para ela e depois para o abajur.
— Você ia me defender com um abajur de cerâmica? — Ele sorriu, o brilho de admiração voltando aos olhos. — Isso foi... inesperadamente heróico, Karen.
— Não se acostuma — disse ela, cruzando os braços. — Isso foi puro instinto. Agora, limpa essa bagunça com o seu irmão e volta para o quarto. Eu ainda não te perdoei pelo filme.
Guido, ignorando a briga do casal, começou a abrir um dos potes de sorvete que não tinha aberto no chão.
— Já que estão todos acordados, alguém quer doce de leite?
Meia hora depois, Patrício e Karen estavam de volta à cama. O clima de briga tinha se dissipado, substituído por aquela exaustão confortável que vem depois de um grande susto. Patrício estava deitado de costas, e Karen estava aninhada em seu braço, usando o ombro dele como travesseiro.
— Sabe — começou Patrício, a voz rouca de sono —, talvez a gente possa escolher uma comédia romântica na próxima vez. Só para variar.
Karen deu uma risadinha baixa, traçando círculos imaginários no peito tatuado dele.
— O grande Patrício Sardelli dando o braço a torcer? Isso sim é um evento sobrenatural.
— Não é dar o braço a torcer — mentiu ele, a teimosia ainda presente, mas suavizada. — É apenas... otimização de tempo. Se a gente não gasta tempo procurando fantasmas na cozinha, a gente dorme mais.
— Sei. Admite logo, Pato. Você ficou com medo quando viu o Guido no escuro.
— Eu não fiquei com medo. Eu fui pego de surpresa por um elemento não identificado no ambiente doméstico. É diferente.
Karen levantou a cabeça e o beijou, um beijo calmo que selava a paz daquela noite caótica.
— Você é impossível. Mas é o meu impossível.
— E você é muito corajosa com esse abajur — ele brincou, puxando a coberta para cobrir os dois. — Agora dorme, flaca. Eu estou aqui. Nenhum demônio da fotografia vai passar por mim.
— Acho bom mesmo. Porque, se passar, eu te uso como escudo humano.
Patrício riu, fechando os olhos e sentindo o perfume dela. A diferença de idade, as brigas por filmes ou a teimosia dele não importavam no final das contas. Naquela casa cheia de música e personalidades fortes, eles tinham encontrado um ritmo que era só deles. E, mesmo com a luz do banheiro acesa e o pé de Patrício latejando um pouco, o silêncio finalmente era bem-vindo.
Karen, vinte anos mais jovem que o namorado, cruzava os braços sobre o peito, os cachos negros levemente bagunçados e o olhar fixo na tela com uma mistura de tédio e pavor iminente. Ela amava a energia daquela família, amava o caos criativo dos irmãos Sardelli e, acima de tudo, amava Patrício. Mas havia uma coisa que ela detestava com todas as suas forças: filmes de terror sobrenatural.
— Pato, eu estou falando sério. Se eu não conseguir fechar o olho hoje à noite, a culpa vai ser inteiramente sua — sussurrou ela, inclinando-se para perto dele para que os outros não ouvissem a discussão iniciada pela décima vez.
Patrício, com aquele sorriso de canto de boca que costumava desarmar qualquer um, apenas deu de ombros, mantendo os olhos na introdução sombria do filme que começava a rodar. Ele era turrão, e todo mundo sabia disso. Quando colocava uma ideia na cabeça, nem um terremoto o fazia mudar de direção.
— Deixa de ser exagerada, flaca — respondeu ele, passando o braço pelos ombros dela e tentando puxá-la para mais perto. — É só ficção. São efeitos especiais e maquiagem. Nada disso é real.
— Eu sei que não é real, Patrício! — rebateu ela em um sussurro ríspido, desvencilhando-se do abraço. — Mas o meu cérebro não sabe disso quando as luzes se apagam. Você sabe que eu odeio esse gênero. Por que você insiste tanto?
— Porque esse é um clássico — justificou ele, aumentando um pouco o tom de voz, o que atraiu um olhar feio de Gastón. — E porque você precisa parar de ter medo de fantasma de mentira. Você é uma mulher forte, Karen. Não vai ser uma possessão demoníaca no cinema que vai te derrubar.
— Ah, claro. O grande filósofo Patrício Sardelli decidiu que hoje é o dia da minha terapia de choque — ironizou ela, pegando um punhado de pipoca e mastigando com força. — Só estou avisando: se eu tiver pesadelo, eu vou te acordar de hora em hora. E se eu vir vultos no corredor, você vai ter que ir buscar água para mim até o amanhecer.
— Combinado — disse ele, confiante, voltando sua atenção para a tela enquanto a trilha sonora sinistra começava a subir de volume.
O filme avançava e a atmosfera na sala mudava. Guido e Gastón faziam piadas ocasionais, mas logo o silêncio se instalou conforme os sustos começavam a se tornar mais frequentes. Karen estava praticamente encolhida em uma bola, com o rosto escondido atrás de uma almofada, espiando apenas com um olho.
Sempre que a música ficava mais aguda, ela sentia um arrepio percorrer sua espinha. Patrício, embora fingisse estar imperturbável, apertava a mão dela toda vez que algo saltava na tela, uma reação instintiva que ele jamais admitiria ser um susto dele também.
— Viu só? — sussurrou Patrício após uma cena particularmente sangrenta. — Aquele efeito de luz foi incrível. A fotografia desse filme é impecável.
— Eu não estou olhando para a fotografia, Pato! — Karen respondeu por trás da almofada. — Eu estou tentando sobreviver a esse infarto que você está me causando.
— Shh! — reclamou Guido do outro lado. — Agora que a parte boa vai começar.
Karen revirou os olhos. A sintonia entre ela e Patrício era quase telepática na maioria das vezes. Eles se entendiam no olhar, na música, no jeito como ela acalmava a ansiedade dele antes dos shows e como ele a incentivava em seus projetos. Mas, quando o assunto era teimosia, eles eram duas forças da natureza colidindo. Patrício adorava testar os limites dela, e ela, por mais que reclamasse, acabava cedendo só para poder estar perto dele.
Quando o filme finalmente terminou e as luzes da sala foram acesas, Karen soltou um suspiro longo, como se tivesse prendido a respiração por duas horas.
— E aí? — perguntou Gastón, espreguiçando-se. — Nada mal, né?
— Uma porcaria — declarou Karen, levantando-se e limpando as migalhas de pipoca da calça. — Eu vou ter traumas permanentes. Obrigada, Patrício.
— De nada, meu amor — disse ele, levantando-se logo em seguida com um sorriso vitorioso. — Viu? Você sobreviveu. Sem drama.
— A noite ainda não acabou — lembrou ela, apontando o dedo para o peito dele. — A conta chega de madrugada.
Após as despedidas habituais e algumas piadas de Guido sobre Karen precisar de uma luz noturna de criancinha, o casal subiu para o quarto. O silêncio da casa agora parecia diferente para ela. Cada estalo da madeira do piso, cada sombra projetada pelas árvores do jardim nas paredes do corredor parecia uma ameaça.
Patrício entrou no quarto e começou a se trocar, jogando a camiseta em um canto. Ele parecia perfeitamente relaxado, mas Karen estava em estado de alerta máximo.
— Você vai mesmo apagar a luz? — perguntou ela, já debaixo das cobertas, observando-o caminhar até o interruptor.
— Karen, são duas da manhã — disse ele, pausando com a mão na parede. — Nós precisamos dormir. Amanhã tenho ensaio cedo.
— Deixa a luz do banheiro acesa, pelo menos — pediu ela, a voz um pouco mais suave, perdendo a postura de briga e assumindo a vulnerabilidade.
Patrício suspirou. Ele adorava ser o "vencedor" das discussões, mas ver o desconforto real nos olhos dela sempre amolecia seu coração, por mais que sua casca de roqueiro turrão tentasse esconder.
— Tudo bem, flaca. Luz do banheiro acesa e porta entreaberta. Satisfeita? — perguntou ele, deitando-se ao lado dela e puxando-a para seus braços.
— Por enquanto — murmurou ela, encaixando a cabeça no peito dele, ouvindo as batidas ritmadas do seu coração. — Mas eu ainda estou brava com você.
— Eu sei que está. Mas você me ama mesmo assim.
O silêncio reinou por cerca de vinte minutos. Patrício já estava começando a cochilar, o corpo relaxado pelo cansaço do dia. Karen, por outro lado, estava com os olhos arregalados, encarando a fresta de luz que vinha do banheiro. Cada vez que o vento soprava mais forte lá fora, ela dava um pequeno sobressalto.
De repente, um barulho metálico ecoou lá embaixo, na cozinha. Foi algo pequeno, como uma colher caindo, mas no silêncio da noite soou como uma explosão.
Karen sentou-se na cama instantaneamente, o coração disparado.
— Patrício! — ela sussurrou, sacudindo o ombro dele. — Patrício, acorda!
— Hum? O que foi? — ele resmungou, sem abrir os olhos.
— Ouviu isso? Teve um barulho lá embaixo.
— Deve ter sido o vento, ou a geladeira estalando — disse ele, virando-se para o outro lado. — Dorme, Karen.
— Não foi o vento! Foi um barulho de metal. Alguém entrou na casa.
Patrício soltou um suspiro pesado e finalmente abriu os olhos, encarando o teto.
— Karen, ninguém entrou na casa. O alarme está ligado. Os meninos estão nos quartos deles. É a sua imaginação por causa do filme.
— Viu só? Eu te avisei! — ela exclamou, embora mantendo o tom baixo. — Você me obrigou a ver aquela coisa e agora eu estou ouvindo demônios na cozinha. A culpa é sua!
— Demônios não jogam colheres no chão, amor — ironizou ele, sentando-se também. — Se forem demônios, eles têm coisas mais interessantes para fazer.
— Não brinca com isso! — Ela o empurrou levemente. — Vai lá ver o que foi.
Patrício olhou para ela, incrédulo.
— Você quer que eu desça até a cozinha, no escuro, porque você ouviu um estalo?
— Sim! Você é o homem da casa, o corajoso que disse que o filme era "apenas fotografia". Vai lá exercer sua coragem.
Patrício passou a mão pelo rosto, sentindo o peso da própria teimosia voltar contra ele. Ele sabia que, se não fosse, ela não o deixaria dormir o resto da noite. E, para ser honesto, o barulho também o tinha deixado minimamente curioso, embora ele jamais admitisse estar com um pingo de receio.
— Está bem, eu vou — disse ele, levantando-se da cama com um ar de mártir. — Mas se eu for devorado por um espírito maligno, saiba que minhas últimas palavras foram que você é muito dramática.
— Engraçadinho. Leva o celular para iluminar o caminho.
Patrício saiu do quarto, caminhando descalço pelo corredor frio. Karen ficou sentada na cama, segurando o lençol até o queixo, as orelhas aguçadas para qualquer som. Ela ouviu os passos dele descendo a escada, o ranger de um dos degraus que sempre reclamava, e depois... silêncio.
Um minuto passou. Dois minutos.
— Pato? — ela chamou, a voz trêmula.
Nenhuma resposta.
— Patrício Sardelli, se você estiver tentando me assustar, eu juro que volto para o Brasil amanhã mesmo! — ameaçou ela, a voz subindo de tom.
De repente, um grito abafado veio lá de baixo, seguido pelo som de algo caindo. Karen sentiu o sangue congelar. Ela não pensou. O medo foi substituído por uma adrenalina pura de proteção. Ela saltou da cama, pegou um abajur pesado que ficava no criado-mudo e correu para o corredor.
— Patrício!
Ela desceu as escadas correndo, a luz do celular na mão tremendo enquanto iluminava os degraus. Ao chegar na cozinha, ela acendeu a luz principal de uma vez, pronta para golpear qualquer entidade ou ladrão que estivesse ali.
A cena que ela encontrou, no entanto, era longe de ser aterrorizante.
Patrício estava parado perto da ilha da cozinha, segurando o pé e pulando em uma perna só, enquanto Guido estava sentado no chão, cercado por potes de sorvete que haviam caído do freezer.
— Mas o que está acontecendo aqui? — perguntou Karen, baixando o abajur, ainda com o coração saindo pela boca.
— Esse idiota me deu um susto! — exclamou Patrício, apontando para o irmão. — Eu entrei aqui no escuro e ele estava agachado na frente da geladeira parecendo um gnomo. Eu tropecei no banco e quase quebrei o dedo do pé!
Guido começou a rir, uma risada alta que ecoou pela cozinha silenciosa.
— Eu só estava com fome! — defendeu-se Guido. — Eu não queria acender a luz para não despertar todo mundo. Aí o Patrício entra aqui parecendo um fantasma de cueca e começa a tatear as paredes.
Karen olhou de um para o outro, a tensão saindo do seu corpo em uma onda de alívio e raiva. Ela começou a rir também, mas era uma risada nervosa.
— Eu quase matei vocês dois com um abajur! — ela disse, colocando o objeto sobre a mesa. — Patrício, eu te odeio. Eu realmente achei que algo tinha acontecido.
Patrício, ainda massageando o pé, olhou para ela e depois para o abajur.
— Você ia me defender com um abajur de cerâmica? — Ele sorriu, o brilho de admiração voltando aos olhos. — Isso foi... inesperadamente heróico, Karen.
— Não se acostuma — disse ela, cruzando os braços. — Isso foi puro instinto. Agora, limpa essa bagunça com o seu irmão e volta para o quarto. Eu ainda não te perdoei pelo filme.
Guido, ignorando a briga do casal, começou a abrir um dos potes de sorvete que não tinha aberto no chão.
— Já que estão todos acordados, alguém quer doce de leite?
Meia hora depois, Patrício e Karen estavam de volta à cama. O clima de briga tinha se dissipado, substituído por aquela exaustão confortável que vem depois de um grande susto. Patrício estava deitado de costas, e Karen estava aninhada em seu braço, usando o ombro dele como travesseiro.
— Sabe — começou Patrício, a voz rouca de sono —, talvez a gente possa escolher uma comédia romântica na próxima vez. Só para variar.
Karen deu uma risadinha baixa, traçando círculos imaginários no peito tatuado dele.
— O grande Patrício Sardelli dando o braço a torcer? Isso sim é um evento sobrenatural.
— Não é dar o braço a torcer — mentiu ele, a teimosia ainda presente, mas suavizada. — É apenas... otimização de tempo. Se a gente não gasta tempo procurando fantasmas na cozinha, a gente dorme mais.
— Sei. Admite logo, Pato. Você ficou com medo quando viu o Guido no escuro.
— Eu não fiquei com medo. Eu fui pego de surpresa por um elemento não identificado no ambiente doméstico. É diferente.
Karen levantou a cabeça e o beijou, um beijo calmo que selava a paz daquela noite caótica.
— Você é impossível. Mas é o meu impossível.
— E você é muito corajosa com esse abajur — ele brincou, puxando a coberta para cobrir os dois. — Agora dorme, flaca. Eu estou aqui. Nenhum demônio da fotografia vai passar por mim.
— Acho bom mesmo. Porque, se passar, eu te uso como escudo humano.
Patrício riu, fechando os olhos e sentindo o perfume dela. A diferença de idade, as brigas por filmes ou a teimosia dele não importavam no final das contas. Naquela casa cheia de música e personalidades fortes, eles tinham encontrado um ritmo que era só deles. E, mesmo com a luz do banheiro acesa e o pé de Patrício latejando um pouco, o silêncio finalmente era bem-vindo.
