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O reencontro
Fandom: Não tem
Criado: 20/06/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaFatias de VidaEstudo de PersonagemCiúmesRealismoFofuraPWP (Enredo? Que enredo?)
O Reflexo do Que Não Foi Dito
A memória é um território traiçoeiro, especialmente quando se trata do ano de 2025. Se eu fechar os olhos agora, ainda consigo sentir o cheiro do corredor daquela escola integral, uma mistura de desinfetante barato com o vapor que saía do refeitório na hora do almoço. Foi ali que tudo começou, em um dia comum que deveria ter sido apenas mais um ciclo de aulas e cansaço, mas que acabou se tornando o marco zero da minha obsessão silenciosa por Iuri.
Eu estava sozinho na sala de aula durante o intervalo do almoço. A sala estava aberta, o silêncio era interrompido apenas pelo zumbido distante dos outros alunos no pátio. Eu esperava o sinal tocar, mergulhado em pensamentos vagos, até que algo mudou na atmosfera. Senti que estava sendo observado. Quando levantei os olhos, lá estava ele, parado junto à grade de ferro.
Iuri. Ele tinha aquele cabelo liso que parecia cair perfeitamente sobre a testa, olhos castanhos tão escuros que pareciam profundos demais para alguém daquela idade, e uma postura... bom, ele era desengonçado. Alto, meio desajeitado, mas com um jeito admirável que prendia a atenção de qualquer um. Ficamos ali, estáticos. Eu o encarei, ele me encarou de volta. O tempo pareceu dilatar. Foram segundos que pareceram horas, um duelo de olhares que eu, por fim, perdi. Desviei o rosto, sentindo um desconforto pinicar na nuca. Pelo canto do olho, vi que ele também ficou sem jeito, meio sem chão, e desviou o olhar logo em seguida.
A partir dali, o universo parecia conspirar para que nossos caminhos se cruzassem em cada esquina daquela escola.
Dias depois, eu estava na fila do almoço com uma amiga. A fome apertava e a conversa girava em torno do que seria servido. Minha amiga, impaciente, perguntou em voz alta o que era o cardápio. Antes que eu pudesse responder, uma voz vinda de trás — aquela voz que eu já reconheceria em qualquer lugar — se manifestou.
— É macarrão com carne moída — disse Iuri, aproximando-se um pouco mais.
Eu me virei, tentando manter a calma, embora meu coração desse saltos descompassados contra as costelas.
— É misturado? — perguntei, buscando qualquer desculpa para prolongar a interação.
— É sim, os dois juntos — ele respondeu, com um tom de voz que parecia carregar uma nota de timidez.
Quando finalmente chegamos ao balcão, num impulso de simpatia que eu esperava que ele notasse, peguei um prato e entreguei para ele, e outro para minha amiga.
— Valeu — ele agradeceu, com um aceno rápido antes de seguir para outra mesa, longe da nossa.
Eu usava cada pequena oportunidade para mapear quem ele era. Ele era do 7°C, eu circulava por outras alas, mas meus olhos sempre o buscavam. Ele usava a clássica camisa branca do governo, a calça azul clara e aquele tênis Adidas marrom clarinho que parecia completar perfeitamente o seu estilo meio "largado", mas charmoso.
Houve um dia, no entanto, que as coisas ficaram confusas. Ele apareceu na porta da minha sala com um amigo. Fez um sinal de "legal" com o polegar para mim, um gesto simples que me fez ganhar o dia. Eu, querendo ser sociável, comentei que o corte de cabelo do amigo dele estava bacana. Conversamos brevemente sobre um gesto que um amigo meu tinha feito com a mão, algo bobo de escola, mas que serviu de ponte entre nós.
Mas então, o clima esfriou. Sem aviso.
Talvez eu o encarasse demais. Talvez meus sentimentos, que cresciam como uma trepadeira subindo por um muro, estivessem ficando óbvios demais. Mesmo sabendo que ele era heterossexual, eu sentia uma atração que não conseguia explicar. Era algo admirável, uma conexão que eu sentia vibrar no ar toda vez que ele estava por perto.
A fila da merenda tornou-se o palco de nossas tensões silenciosas. Em um desses dias, ele estava na minha frente. Duas meninas chegaram logo atrás de mim e, num gesto de cavalheirismo (ou talvez por querer testar a reação dele), eu as deixei passar na minha frente, indo para o final da fila. Quando olhei para Iuri, ele me encarava com uma expressão fechada, emburrada.
— O que foi? — pensei, mas não tive coragem de dizer.
Será que ele estava irritado por eu ainda estar ali? Ou será que era ciúmes pela interação com as meninas? O mistério só aumentava.
A situação atingiu o ápice quando eu e uma amiga fomos até a sala do 7°D procurar outra pessoa. Iuri estava na porta da sala dele, o 7°C, e o olhar que ele me lançou foi de pura raiva. Não era apenas um incômodo, era algo visceral. Eu tentava entender o motivo. Seria porque eu tinha beijado uma menina da sala dele semanas antes? Ela andava espalhando para todo mundo que estava apaixonada por mim, e talvez isso tivesse chegado aos ouvidos dele de uma forma distorcida.
O tempo passou. 2025 ficou para trás, e agora, em 2026, estou em uma escola diferente. Mas a sombra de Iuri ainda me persegue.
Nós nos trombamos na rua às vezes. O cenário mudou, ele mudou o visual, mas o olhar continua o mesmo. Ele ainda me encara com aquela intensidade que me faz perder o rumo. Eu caminho tentando parecer indiferente, mas por dentro, sou um turbilhão de perguntas sem resposta.
Hoje, sentado no meu quarto, escrevendo estas linhas, percebo que não aguento mais. A incerteza é um fardo pesado demais para carregar por outro ano inteiro. Eu preciso saber se aquele olhar de raiva era, na verdade, um reflexo de algo que ele também não sabia como lidar. Preciso saber se o toque na minha orelha na fila do almoço e o sorriso de canto que ele tentava disfarçar significavam o que eu queria que significassem.
Decidi que na próxima vez que nossos caminhos se cruzarem naquela calçada entre a escola antiga e a nova, eu não vou desviar o olhar.
— Iuri! — vou chamar, antes que ele possa passar por mim.
— Oi? — ele dirá, provavelmente com aquela postura desengonçada que eu tanto admiro.
— A gente precisa conversar sobre 2025.
Eu não sei qual será a reação dele. Ele pode rir, pode fechar a cara novamente, ou pode simplesmente confirmar o que meu coração já suspeita: que entre o 7°C e o 7°D, existia muito mais do que apenas um corredor de distância. Mas uma coisa é certa: sentimentos não resolvidos são como fantasmas, e eu estou pronto para deixar os meus descansarem.
Eu estava sozinho na sala de aula durante o intervalo do almoço. A sala estava aberta, o silêncio era interrompido apenas pelo zumbido distante dos outros alunos no pátio. Eu esperava o sinal tocar, mergulhado em pensamentos vagos, até que algo mudou na atmosfera. Senti que estava sendo observado. Quando levantei os olhos, lá estava ele, parado junto à grade de ferro.
Iuri. Ele tinha aquele cabelo liso que parecia cair perfeitamente sobre a testa, olhos castanhos tão escuros que pareciam profundos demais para alguém daquela idade, e uma postura... bom, ele era desengonçado. Alto, meio desajeitado, mas com um jeito admirável que prendia a atenção de qualquer um. Ficamos ali, estáticos. Eu o encarei, ele me encarou de volta. O tempo pareceu dilatar. Foram segundos que pareceram horas, um duelo de olhares que eu, por fim, perdi. Desviei o rosto, sentindo um desconforto pinicar na nuca. Pelo canto do olho, vi que ele também ficou sem jeito, meio sem chão, e desviou o olhar logo em seguida.
A partir dali, o universo parecia conspirar para que nossos caminhos se cruzassem em cada esquina daquela escola.
Dias depois, eu estava na fila do almoço com uma amiga. A fome apertava e a conversa girava em torno do que seria servido. Minha amiga, impaciente, perguntou em voz alta o que era o cardápio. Antes que eu pudesse responder, uma voz vinda de trás — aquela voz que eu já reconheceria em qualquer lugar — se manifestou.
— É macarrão com carne moída — disse Iuri, aproximando-se um pouco mais.
Eu me virei, tentando manter a calma, embora meu coração desse saltos descompassados contra as costelas.
— É misturado? — perguntei, buscando qualquer desculpa para prolongar a interação.
— É sim, os dois juntos — ele respondeu, com um tom de voz que parecia carregar uma nota de timidez.
Quando finalmente chegamos ao balcão, num impulso de simpatia que eu esperava que ele notasse, peguei um prato e entreguei para ele, e outro para minha amiga.
— Valeu — ele agradeceu, com um aceno rápido antes de seguir para outra mesa, longe da nossa.
Eu usava cada pequena oportunidade para mapear quem ele era. Ele era do 7°C, eu circulava por outras alas, mas meus olhos sempre o buscavam. Ele usava a clássica camisa branca do governo, a calça azul clara e aquele tênis Adidas marrom clarinho que parecia completar perfeitamente o seu estilo meio "largado", mas charmoso.
Houve um dia, no entanto, que as coisas ficaram confusas. Ele apareceu na porta da minha sala com um amigo. Fez um sinal de "legal" com o polegar para mim, um gesto simples que me fez ganhar o dia. Eu, querendo ser sociável, comentei que o corte de cabelo do amigo dele estava bacana. Conversamos brevemente sobre um gesto que um amigo meu tinha feito com a mão, algo bobo de escola, mas que serviu de ponte entre nós.
Mas então, o clima esfriou. Sem aviso.
Talvez eu o encarasse demais. Talvez meus sentimentos, que cresciam como uma trepadeira subindo por um muro, estivessem ficando óbvios demais. Mesmo sabendo que ele era heterossexual, eu sentia uma atração que não conseguia explicar. Era algo admirável, uma conexão que eu sentia vibrar no ar toda vez que ele estava por perto.
A fila da merenda tornou-se o palco de nossas tensões silenciosas. Em um desses dias, ele estava na minha frente. Duas meninas chegaram logo atrás de mim e, num gesto de cavalheirismo (ou talvez por querer testar a reação dele), eu as deixei passar na minha frente, indo para o final da fila. Quando olhei para Iuri, ele me encarava com uma expressão fechada, emburrada.
— O que foi? — pensei, mas não tive coragem de dizer.
Será que ele estava irritado por eu ainda estar ali? Ou será que era ciúmes pela interação com as meninas? O mistério só aumentava.
A situação atingiu o ápice quando eu e uma amiga fomos até a sala do 7°D procurar outra pessoa. Iuri estava na porta da sala dele, o 7°C, e o olhar que ele me lançou foi de pura raiva. Não era apenas um incômodo, era algo visceral. Eu tentava entender o motivo. Seria porque eu tinha beijado uma menina da sala dele semanas antes? Ela andava espalhando para todo mundo que estava apaixonada por mim, e talvez isso tivesse chegado aos ouvidos dele de uma forma distorcida.
O tempo passou. 2025 ficou para trás, e agora, em 2026, estou em uma escola diferente. Mas a sombra de Iuri ainda me persegue.
Nós nos trombamos na rua às vezes. O cenário mudou, ele mudou o visual, mas o olhar continua o mesmo. Ele ainda me encara com aquela intensidade que me faz perder o rumo. Eu caminho tentando parecer indiferente, mas por dentro, sou um turbilhão de perguntas sem resposta.
Hoje, sentado no meu quarto, escrevendo estas linhas, percebo que não aguento mais. A incerteza é um fardo pesado demais para carregar por outro ano inteiro. Eu preciso saber se aquele olhar de raiva era, na verdade, um reflexo de algo que ele também não sabia como lidar. Preciso saber se o toque na minha orelha na fila do almoço e o sorriso de canto que ele tentava disfarçar significavam o que eu queria que significassem.
Decidi que na próxima vez que nossos caminhos se cruzarem naquela calçada entre a escola antiga e a nova, eu não vou desviar o olhar.
— Iuri! — vou chamar, antes que ele possa passar por mim.
— Oi? — ele dirá, provavelmente com aquela postura desengonçada que eu tanto admiro.
— A gente precisa conversar sobre 2025.
Eu não sei qual será a reação dele. Ele pode rir, pode fechar a cara novamente, ou pode simplesmente confirmar o que meu coração já suspeita: que entre o 7°C e o 7°D, existia muito mais do que apenas um corredor de distância. Mas uma coisa é certa: sentimentos não resolvidos são como fantasmas, e eu estou pronto para deixar os meus descansarem.
