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Ciumes e outras coisas

Fandom: Airbarg

Criado: 20/06/2026

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Entre Acordes e Hormônios

O estúdio da revista *Rolling Stone* Argentina estava impregnado com o cheiro de café forte e o brilho excessivo dos refletores. Karen, sentada em um sofá de couro nos bastidores, observava a cena com uma mistura de orgulho e uma irritação crescente que começava a borbulhar sob sua pele retinta e impecável. Aos 22 anos, ela já não era mais apenas a fã brasileira que cruzara a fronteira por amor; ela era a mulher que dividia a vida, os silêncios e os sonhos com Patricio Sardelli há cinco anos.

Pato, como sempre, estava magnético. Ao lado de seus irmãos, Guido e Gastón, ele exalava aquela aura de rockstar que parecia não exigir esforço algum. Eles estavam lá para divulgar o novo álbum do Airbag, um projeto que consumira noites em claro e litros de vinho, mas o foco da repórter, uma loira de sorriso ensaiado chamada Martina, parecia estar em qualquer lugar, menos na técnica das guitarras.

— Então, Patricio — disse Martina, inclinando-se para frente de uma maneira que Karen considerou desnecessária, quase tocando o joelho dele com o microfone —, as letras desse álbum parecem muito mais... carnais. Você diria que está em uma fase de busca por novas experiências, ou ainda está preso ao passado?

Pato deu um sorriso de canto, aquele que costumava desarmar multidões, mas Karen percebeu o leve desconforto no modo como ele ajeitou a gola da jaqueta.

— As músicas falam sobre a vida, sobre o que vivemos agora — respondeu ele, curto e grosso.

— Mas uma mulher como você deve ter muitas musas, não? — insistiu a repórter, ignorando completamente a presença de Karen, que assistia a tudo a poucos metros de distância. — Digo, um homem com a sua energia... deve ser difícil se manter satisfeito em um só lugar.

Karen sentiu um chute em seu ventre. "Até você sentiu a audácia dessa mulher, né, pequena?", pensou ela, acariciando a barriga de cinco meses que já se destacava sob o vestido de malha justo. Ela respirou fundo. O calor subia pelo seu pescoço. Se estivessem no Rio de Janeiro, ela já teria interrompido a entrevista com alguma frase bem colocada, mas ali, ela era a noiva do "Pato do Airbag", e sabia o quanto aquela divulgação era importante.

A entrevista seguiu por mais vinte minutos de perguntas invasivas e olhares sugestivos de Martina. Gastón e Guido trocavam olhares cúmplices, claramente percebendo que a jornalista estava passando dos limites, mas Pato manteve o profissionalismo, embora seus olhos buscassem Karen constantemente no fundo da sala, como se pedissem desculpas silenciosas.

Quando finalmente entraram no carro em direção ao hotel, o silêncio de Karen era denso.

— Aquela mulher era uma completa idiota — comentou Guido, tentando quebrar o gelo enquanto dirigia. — "Busca por novas experiências"? Ela estava tentando te levar para a cama na nossa frente, Pato.

— Eu nem dei corda, cara — defendeu-se Pato, virando-se para o banco de trás, onde Karen olhava fixamente para a janela. — Ei, preta... você está bem?

— Estou ótima — respondeu ela, o tom de voz tão seco que poderia cortar vidro.

— Karen, você sabe como essas jornalistas são — disse Gastón, do banco do carona. — Elas querem cliques, querem polêmica.

— Eu sei exatamente o que elas querem — rebateu Karen, sem desviar o olhar da paisagem urbana de Buenos Aires. — Mas existe uma diferença entre ser provocativa e ser desrespeitosa.

O resto do trajeto foi silencioso. Ao chegarem na suíte do hotel, Karen largou a bolsa sobre a poltrona e foi direto para o banheiro. Seus hormônios estavam à flor da pele, e a sensação de que sua presença tinha sido ignorada — ou pior, desafiada — por aquela mulher a consumia.

Pato entrou no quarto logo depois, jogando as chaves na mesa de cabeceira. Ele a seguiu até a porta do banheiro, observando-a organizar seus cremes e séruns sobre a bancada de mármore.

— Vai fazer a rotina de dez passos agora? — perguntou ele, tentando um tom brincalhão, encostando-se no batente da porta.

— Vou. Minha pele está péssima e eu preciso tirar a energia daquela mulher de cima de mim — respondeu ela, abrindo um pote de creme de limpeza com mais força do que o necessário.

— O que aconteceu, Karen? Você não falou uma palavra desde que saímos do estúdio.

— Nada, Patricio. Não aconteceu nada.

— — "Nada" não é uma resposta — disse ele, aproximando-se e tentando colocar as mãos na cintura dela. — Eu te conheço. Você está processando alguma coisa aí dentro dessa cabeça.

Karen se esquivou suavemente, pegando um disco de algodão.

— — Eu só achei o cúmulo — disse ela, finalmente explodindo, enquanto limpava o rosto com movimentos rápidos. — A falta de respeito daquela mulher. Não só com o seu trabalho, mas comigo ali presente. Ela agiu como se eu fosse um móvel da sala, Pato. Ela deu em cima de você descaradamente, perguntando se você estava "satisfeito em um só lugar".

— — Eu não dei trela para ela, Karen — ele disse, a voz calma, mas firme. — Você viu. Eu respondi o que tinha que responder.

— — Não é sobre você ter dado trela ou não! — Ela se virou para ele, os olhos brilhando com uma mistura de raiva e lágrimas contidas. — É sobre o fato de que as pessoas acham que, porque você é famoso, elas têm o direito de desrespeitar a mulher que está do seu lado. E você ficou lá, sendo "educado". Eu estou grávida, Patricio. Meus hormônios estão me deixando louca, meu corpo está mudando, e eu tive que sentar lá e ver uma loira oxigenada insinuar que você precisa de "novas experiências" porque eu, claramente, não sou o suficiente.

Pato suspirou, a expressão suavizando instantaneamente. Ele deu um passo à frente, e desta vez ela não se afastou. Ele envolveu a cintura dela com os braços, puxando-a para perto, e pousou as mãos sobre a barriga dela.

— — Olha para mim — pediu ele em voz baixa.

Karen hesitou, mas acabou erguendo os olhos para encontrar o castanho intenso dos dele.

— — Para mim, não existia mais ninguém naquela sala além de você — disse ele com sinceridade. — Aquela mulher não é nada. Ela é um barulho de fundo. Você é a minha música, Karen. Você saiu do seu país, deixou sua família e construiu uma vida comigo quando eu não era metade do que sou hoje. Você acha mesmo que uma repórter de quinta categoria tem algum poder sobre o que eu sinto?

Karen fungou, a raiva começando a se dissipar para dar lugar à vulnerabilidade que a gravidez trazia.

— — Ela foi muito invasiva, Pato. Foi humilhante.

— — Eu sei. E eu sinto muito por não ter sido mais incisivo na hora — admitiu ele, encostando a testa na dela. — Eu estava tentando não criar um escândalo que prejudicasse o lançamento, mas se eu soubesse que isso te machucaria tanto, eu teria mandado ela encerrar a entrevista ali mesmo. Nada é mais importante do que a sua paz. Especialmente agora.

Ele deslizou uma das mãos para o rosto dela, acariciando a pele macia com o polegar.

— — Você é a mulher mais linda que eu já vi. Grávida, brava, fazendo skincare... não importa. Aquela mulher não chega aos seus pés.

Karen soltou um suspiro longo, deixando o corpo relaxar contra o dele. O cheiro do perfume dele, misturado ao cheiro familiar de couro e estrada, sempre a acalmava.

— — Desculpa — murmurou ela. — Eu sei que estou exagerando um pouco. São os hormônios. Eu me sinto uma baleia e aquela mulher parecia uma Barbie.

Pato soltou uma risada curta e a beijou no topo da cabeça.

— — Uma baleia? Você está radiante. E se aquela mulher é uma Barbie, ela é feita de plástico barato. Você é real. Você é o meu lar.

Ele se afastou um pouco, olhando para a bancada cheia de produtos.

— — Agora, termina de passar essas coisas na cara para a gente poder deitar. A pequena aqui precisa descansar, e a mãe dela também.

— — Você vai ter que passar o óleo nas minhas costas depois — disse ela, recuperando um pouco do seu tom atrevido. — Já que você é o culpado por eu estar carregando esse peso todo.

— — Com todo o prazer do mundo — respondeu ele, sorrindo e dando um selinho demorado nela. — Mas só se você prometer que não vai mais dar importância para gente pequena.

— — Vou tentar — disse Karen, voltando-se para o espelho. — Mas se a próxima for igual, eu não garanto que vou segurar a onda até o hotel.

Pato riu alto, saindo do banheiro enquanto tirava a camisa.

— — É por isso que eu te amo. Você mantém as coisas interessantes.

Karen sorriu para o seu reflexo. A irritação havia passado, substituída por aquela certeza morna que só cinco anos de cumplicidade poderiam trazer. Ela terminou sua rotina, sentindo-se mais leve. O mundo do rock poderia ser barulhento e cheio de pessoas superficiais, mas ali, entre aquelas quatro paredes, ela era a única rainha do castelo de Patricio Sardelli.

Ao deitar na cama, sentiu os braços dele a rodearem imediatamente. O silêncio da noite em Buenos Aires era o cenário perfeito para o que realmente importava: o som rítmico de dois corações, e o leve movimento de um terceiro que crescia dentro dela, alheio a qualquer entrevista ou flash de câmera.

— — Boa noite, preta — sussurrou ele contra o seu pescoço.

— — Boa noite, Pato.

E ali, no calor do abraço dele, Karen soube que nenhuma "nova experiência" jamais chegaria perto do que eles tinham construído.
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