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Fandom: record of ragnarok

Criado: 21/06/2026

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O Rei e o Abismo sob as Águas

Hades observava o cenário com a serenidade que lhe era peculiar. O salão de descanso dos lutadores do Ragnarok, geralmente um lugar de tensão e estratégias silenciosas, estava estranhamente calmo naquela tarde. O Imperador da China, Qin Shi Huang, estava sentado de forma desleixada em uma poltrona que ele claramente decidiu que era seu trono por direito, bebericando o que parecia ser um chá caríssimo.

— É uma pena — comentou Qin, ajustando a venda sobre os olhos com um sorriso enigmático. — O mundo é vasto, conquistei terras que os olhos mal podiam alcançar, mas o oceano sempre foi um território que preferi observar de longe. Eu nunca aprendi a nadar.

Hades, que estava encostado em uma coluna de mármore próxima, ergueu uma sobrancelha. A confissão era mundana, quase trivial para um homem que desafiava deuses, mas havia algo na cadência da voz de Qin que despertou a curiosidade do Rei do Submundo.

— Um Imperador que não domina as águas? — Hades deu um passo à frente, sua presença emanando uma nobreza que fazia até os servos mais distantes se curvarem instintivamente. — Isso soa como uma falha de soberania que precisa ser corrigida.

Qin soltou uma risada curta e vibrante.

— Onde quer chegar, Rei do Submundo?

— Vou levá-lo à praia particular de Poseidon — declarou Hades, com a autoridade de quem não aceitava recusas. — É um lugar de águas cristalinas e calmas. Se há alguém que pode garantir sua segurança no mar, sou eu. Ou meu irmão.

Para a surpresa de todos, quando Hades consultou Poseidon, o Deus dos Mares apenas deu de ombros. Se era um pedido de seu irmão mais velho, o "Tirano dos Mares" não via motivos para negar, desde que os "vermes" não sujassem sua areia sagrada.

O que começou como um convite entre dois governantes acabou se tornando um evento sem precedentes. Talvez pelo tédio entre as rodadas do torneio, ou pelo desejo inusitado de trégua, os demais lutadores decidiram seguir a comitiva.

A praia era um paraíso isolado no reino divino. A areia era tão branca que parecia pó de estrela, e o mar exibia tons de azul que nenhum mortal jamais vira.

De um lado, a confusão era generalizada. Zeus, em sua forma musculosa, já apostava corrida com Shiva para ver quem chegava primeiro em uma ilhota próxima. Thor estava sentado sob um guarda-sol imenso, observando Lu Bu tentar cortar as ondas com sua lança, apenas para ver a água se fechar novamente. Adamas e Beelzebub mantinham-se afastados, enquanto Tesla tentava explicar a Jack, o Estripador, a física da refração da luz na água, ignorando que o assassino estava mais interessado em como o chá inglês reagia à brisa marinha.

Sasaki Kojiro e Poseidon protagonizavam um momento de tensão silenciosa, sentados a metros de distância, ambos encarando o horizonte como se esperassem um sinal para desembainhar suas armas — ou apenas aproveitando o silêncio.

No meio de toda essa agitação, Qin Shi Huang permanecia na beira da água. Ele havia retirado a parte superior de suas vestes imperiais e a venda, revelando seus olhos que viam o fluxo do chi. Ele mantinha os pés onde a espuma das ondas morria na areia.

Hades o observava de longe, conversando calmamente com Héracles. O Rei do Submundo notou que Qin parecia... hesitante. Mas logo, o Imperador pareceu recuperar sua postura exuberante.

— Olhem para isso! — Qin gritou, rindo como uma criança enquanto uma onda pequena avançava. — A água tenta atacar o seu Imperador e falha miseravelmente!

Ele começou a brincar. Sempre que uma onda se formava e corria em direção à areia, Qin corria dela, rindo alto, fazendo piruetas e zombando da "fraqueza" do mar. Quando a água recuava, ele a perseguia, pisando no raso com confiança renovada. Era uma cena quase surreal: o homem que unificou a China brincando com a maré como se fosse um filhote de animal.

Poseidon, observando a cena de seu posto elevado em uma rocha, estreitou os olhos. Aquele humano era barulhento demais. Era indigno. E, acima de tudo, era irritante ver um "verme" zombar de seu domínio, mesmo que fosse em uma brincadeira infantil.

Sem mover um músculo do rosto, Poseidon apenas estendeu a mão levemente para o lado. O mar respondeu instantaneamente.

Uma onda, muito maior do que as anteriores, ergueu-se silenciosa e veloz. Antes que Qin pudesse reagir com suas risadas, a parede de água desabou sobre ele. Não foi um golpe mortal, mas foi o suficiente para derrubá-lo, arrastá-lo por alguns metros e submergi-lo completamente por alguns segundos.

Qin emergiu tossindo, a água salgada queimando seus pulmões e seus olhos. O pânico em seu rosto foi breve, mas visceral. Ele se levantou rapidamente, tropeçando na areia fofa, e saiu da água como se tivesse escapado de uma fera faminta.

Ele caminhou até uma parte seca, sentou-se na areia e abraçou os próprios joelhos. O sorriso havia sumido. A exuberância fora substituída por um silêncio sepulcral.

— Ei, Qin! — gritou Buda, mastigando um doce. — Foi só um banho surpresa! Volta pra cá, a água tá ótima!

Qin não respondeu. Ele apenas fixou o olhar em um ponto qualquer da areia, imóvel como uma estátua de terracota.

Hades sentiu um aperto no peito. Como alguém que sentia a dor e as emoções de forma profunda, ele percebeu que aquilo não era apenas o susto de um mergulho inesperado. Havia algo quebrado na postura do Imperador.

— Deixem-no — ordenou Hades, sua voz ecoando com uma autoridade que fez até Zeus parar de rir. — A diversão acabou por hoje.

***

Semanas se passaram desde o incidente na praia. O clima entre os lutadores voltou ao normal, mas a curiosidade sobre a reação de Qin permanecia no ar. Loki, sempre em busca de entretenimento e segredos, acabou encontrando algo nos arquivos de memória da humanidade que Hermes, o mensageiro dos deuses, estava organizando.

— Oh, isso é interessante... — Loki comentou, girando uma esfera de cristal que projetava imagens do passado. — Hermes, olhe o que o pequeno Imperador escondia.

Hades, que passava pelo corredor, parou ao ouvir o comentário. Ele se aproximou dos dois deuses menores.

— O que vocês encontraram? — perguntou o Rei do Submundo, sua voz séria.

— Uma memória — respondeu Hermes, ajustando os óculos. — Do período em que Qin Shi Huang, ainda conhecido como Ying Zheng, retornou ao seu reino após anos de sofrimento como refém em Zhao.

A imagem no cristal se estabilizou. Mostrava um Qin ainda criança, mas já exibindo aquela centelha de dignidade que o levaria ao trono. Ele estava ao lado de um homem ricamente vestido: seu pai biológico, o Rei de Qin.

Na gravação, o pequeno Zheng olhava para o pai com uma mistura de esperança e carência. Ele tinha acabado de perder Chun Yan, a mulher que foi sua verdadeira mãe e que sacrificou a vida por ele. Ele estava sozinho em um palácio cheio de estranhos.

— Pai — disse o pequeno Qin na visão —, a senhora Chun Yan me falou uma vez sobre a imensidão do mar. Gostaria de vê-lo.

O Rei, com um sorriso que parecia amigável mas escondia uma frieza cortante, concordou.

— Claro, meu filho. Vamos até a costa. Um futuro rei deve conhecer todos os seus domínios.

A cena mudou. Eles estavam em uma praia isolada e cinzenta. O Rei levou o menino em um pequeno barco até uma distância considerável da costa, onde as ondas eram fortes e o fundo não podia ser visto.

— Zheng — disse o pai, levantando-se no barco —, um Rei não depende de ninguém. Nem da terra, nem dos homens. E certamente não de mim.

Sem aviso, o homem empurrou a criança para fora do barco.

— Aprenda a governar as águas, ou morra nelas — declarou o Rei, antes de começar a remar de volta para a praia, deixando o filho para trás.

O pequeno Qin não sabia nadar. O vídeo mostrava o desespero puro de uma criança lutando contra o abismo azul. Ele afundava, engolia água, emergia gritando por um pai que nem sequer olhava para trás. O trauma da sinestesia toque-espelho tornava tudo pior; ele sentia a pressão da água como se o mundo estivesse esmagando seus ossos, sentia o pânico do mar como se o próprio oceano estivesse sofrendo com ele.

Ele levou horas. Lutando contra a correnteza, movido por um ódio e uma vontade de viver que começavam a moldar o homem que ele se tornaria. Quando ele finalmente rastejou para a areia, seus dedos estavam sangrando de tanto agarrar as pedras, e seus pulmões ardiam. Ele olhou para o palácio ao longe, e naquele dia, o brilho da inocência em seus olhos morreu para dar lugar à coroa.

A projeção se apagou. O silêncio no corredor era opressor.

Loki não estava mais rindo. Hermes desviou o olhar, desconfortável.

Hades, porém, sentiu uma fúria silenciosa borbulhar em seu peito. Ele sempre valorizou a família acima de tudo. O conceito de um pai trair um filho daquela maneira era uma abominação para o Rei do Submundo. Ele pensou em Qin brincando com as ondas na praia de Poseidon e percebeu que, por alguns minutos, o Imperador estava tentando recuperar a infância que lhe fora roubada de forma tão cruel. E a onda de Poseidon, sem querer, trouxe todo o horror de volta.

Hades caminhou em direção aos aposentos de Qin. Ele não bateu; ele entrou com a calma de quem pertencia a qualquer lugar.

Qin estava sentado em seu trono improvisado, novamente com a venda nos olhos, jogando uma moeda para o alto e pegando-a repetidamente.

— O que o Rei dos Mortos deseja com este humilde Imperador? — perguntou Qin, embora seu tom não tivesse a arrogância habitual. Estava cansado.

Hades parou diante dele.

— Eu vi — disse Hades simplesmente.

A mão de Qin congelou no ar, capturando a moeda. Ele não precisava perguntar o quê. O silêncio de Hades carregava o peso da compreensão.

— É uma história antiga — disse Qin, dando de ombros, tentando recuperar sua máscara. — Um Imperador não se deixa abalar por um pouco de água salgada.

— Um Imperador é, antes de tudo, um homem — retrucou Hades, sua voz suavizando-se. — E um homem tem o direito de odiar aquilo que tentou matá-lo quando ele era apenas uma criança.

Qin soltou um suspiro longo, retirando a venda. Seus olhos encontraram os de Hades. Não havia ódio ali, apenas uma exaustão milenar.

— Eu queria mostrar para mim mesmo que eu era o dono do meu caminho — confessou Qin em voz baixa. — Que o mar não era mais meu mestre. Mas quando aquela onda me derrubou... por um segundo, eu não era o Imperador da China. Eu era apenas aquele menino abandonado de novo.

Hades deu um passo à frente e colocou a mão no ombro de Qin. Era um gesto de solidariedade que poucos deuses ousariam oferecer a um humano.

— Você voltou para a costa sozinho naquele dia — disse Hades, olhando-o nos olhos. — Isso não foi uma derrota, Qin Shi Huang. Foi a sua primeira conquista. O mar não te venceu na infância, e não te venceu na praia do meu irmão.

Qin olhou para a mão de Hades em seu ombro e depois para o rosto do deus. Pela primeira vez, ele viu em um deus algo que raramente encontrou nos homens: um respeito genuíno que não dependia de títulos ou poder, mas de caráter.

Um pequeno sorriso, desta vez verdadeiro e sem a necessidade de esconder traumas, surgiu nos lábios do Imperador.

— Você é um homem estranho, Hades. Para um deus, você entende muito bem sobre ser humano.

— Talvez — respondeu Hades, retirando a mão e se virando para sair. — Mas da próxima vez que quiser desafiar o mar, avise-me. Eu farei questão de que as águas se curvem diante de você, como qualquer outro súdito faria.

Qin riu, uma risada leve que ecoou pelo quarto.

— Hmpf. Onde quer que eu me sente, é o meu trono. E se eu decidir que o oceano é meu tapete, ele assim será.

Hades saiu do quarto com um leve aceno de cabeça. Ele sabia que a dor de Qin não desapareceria da noite para o dia, mas o reconhecimento de sua luta era o primeiro passo para que o Imperador pudesse, finalmente, governar até mesmo sobre seus próprios fantasmas.
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