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Fandom: record of ragnarok

Criado: 21/06/2026

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O Rei e o Eco do Vazio

A arena do Valhalla, costumeiramente palco de gritos e do tilintar de armas divinas, estava envolta em um silêncio desconcertante. Deuses e humanos, dispostos em uma sala de projeção monumental criada pelas valquírias para a análise dos combatentes, mantinham os olhos fixos na tela flutuante.

Hades, o Rei do Submundo, estava sentado com a postura impecável de um monarca. Sua perna cruzada e as mãos repousando sobre o pomo de seu bidente revelavam uma calma que poucos possuíam. Ao seu lado, Zeus mascava algo ruidosamente, enquanto Poseidon mantinha o olhar gélido, ignorando a presença dos humanos do outro lado da sala.

— Que perda de tempo — murmurou Poseidon, a voz como o gelo quebrando. — Por que estamos assistindo à intimidade de um verme?

— Ora, irmão, acalme-se — Zeus riu, os olhos faiscando de curiosidade. — Brunhilde disse que isso nos daria uma "perspectiva diferente" sobre o Imperador da China.

Do lado da humanidade, a tensão era palpável. Brunhilde apertava o próprio braço, nervosa, enquanto Jack, o Estripador, bebericava seu chá com um sorriso enigmático. No centro de tudo, Qin Shi Huang estava sentado em um trono improvisado, com a venda sobre os olhos e um sorriso de superioridade que parecia desafiar a própria realidade.

A gravação começou.

A imagem mostrava o interior dos aposentos de Qin. Não era a sala do trono, mas um canto isolado, decorado com simplicidade. O Imperador estava sem sua armadura pesada, vestindo apenas trajes de seda leve. Surpreendentemente, ele segurava uma guitarra — um instrumento estranho para um homem de sua era, mas que ele manejava com uma naturalidade assustadora.

Os primeiros acordes ressoaram. Eram limpos, melódicos, mas carregados de uma melancolia que fez o coração de Hades falhar uma batida.

— Eu tudo arrisquei, não fui amado... — A voz de Qin na gravação era diferente. Não era o tom arrogante do imperador que exigia que o mundo fosse sua estrada, mas a voz de uma criança que cresceu no escuro.

— Já me queimei, fui derrotado... Eu tentei, mas eu não enxerguei. Pouco a pouco, cego eu fiquei.

Na sala, o silêncio se aprofundou. Hades estreitou os olhos. Ele, melhor do que ninguém, entendia o peso de governar o que está oculto. Ele observou as marcas no rosto de Qin na tela. O Rei do Submundo percebeu, através da sinestesia que Qin possuía, que cada nota era uma tradução da dor física que ele sentia ao ver o sofrimento alheio.

— Cai muitas vezes pra levantar... As dores da estrada deixei pra lá... Então eu me agarrei ao plano que tracei... Plano que tracei que seguirei!

A música ganhou força. O ritmo da guitarra tornou-se frenético, uma explosão de resiliência. O Qin da tela levantou o rosto, e mesmo com a venda, parecia encarar o destino nos olhos.

— Porque eu sou capaz! Porque sei que sou capaz! Eu vou partir, bye bye! Vou voar e não me espere mais!

Nikola Tesla deu um soco leve na palma da mão, os olhos brilhando.

— Magnífico! Ele transformou a energia estática do trauma em uma frequência de libertação pura! — exclamou o cientista.

— Calado, homem dos raios — rosnou Leônidas, embora seus olhos estivessem fixos na tela com um respeito relutante.

A música atingiu seu ápice, um grito de liberdade que ecoou pelas paredes da sala de projeção:

— Esse vai ser meu show! Tô aqui e desistir não vou! O meu sonho é assim, agora entendi... Liberdade é pra mim, pra mim, pra mim! Sou livre enfim!

Quando o último acorde vibrou e desapareceu, a tela escureceu por um segundo antes de mudar drasticamente.

A nova cena era aterrorizante. Qin Shi Huang estava no centro de um círculo de chamas intensas. O fogo rugia, subindo como serpentes famintas, mas o Imperador não recuava. Ele começou a dançar. Não era uma dança de celebração comum, mas um ritual de domínio. Ele girava entre as labaredas, o calor distorcendo o ar ao seu redor, mas sua pele permanecia intacta. Ele sorria para o fogo como se estivesse reencontrando um velho amigo.

— Ele não está se queimando? — perguntou Ares, boquiaberto, o suor escorrendo por sua testa apenas de olhar. — Isso é algum truque de ilusão?

— Não — interrompeu Hades, sua voz profunda silenciando o sobrinho. — Ele não está ignorando a dor. Ele a aceitou tanto que o fogo não tem mais o que consumir nele.

Hades olhou de relance para o Qin real, que continuava sentado em seu trono, impassível. O Rei do Submundo sentiu uma pontada de reconhecimento. Ele também carregava o peso de seus irmãos, o dever de ser o pilar que nunca cai. Ver aquele humano transformar a agonia de uma vida de rejeição em uma dança de chamas era, no mínimo, admirável.

A gravação terminou. A luz da sala voltou ao normal.

Qin Shi Huang soltou uma risada leve, quebrando o transe coletivo.

— Hah! Que performance esplêndida, não acham? — Ele gesticulou para o vazio. — Um Rei deve ser mestre de todos os palcos, seja no campo de batalha ou no meio do incêndio.

— Você é um tolo arrogante — disse Poseidon, levantando-se para sair. — Um humano brincando com barulho e luz. Nada disso muda sua natureza inferior.

— Inferior? — Qin inclinou a cabeça, o sorriso nunca vacilando. — Onde eu sento é o trono. Onde eu danço é o meu reino. Até o fogo sabe quem é o seu senhor.

Hades permaneceu sentado por mais alguns instantes enquanto os outros deuses e humanos começavam a se dispersar, discutindo o que tinham visto. Ele se levantou devagar e caminhou em direção a Qin.

As valquírias e os outros humanos ficaram tensos. O ar entre os dois reis pareceu ficar mais pesado.

— Essa canção — começou Hades, mantendo a voz baixa, audível apenas para os dois. — Você fala de ser cego. Mas você vê mais do que qualquer um nesta sala, não é?

Qin Shi Huang virou o rosto na direção de Hades. Mesmo através da venda, o deus sentiu que estava sendo analisado até a alma.

— O excesso de luz pode cegar tanto quanto a escuridão, Rei do Submundo — respondeu Qin, o tom perdendo um pouco da sua exuberância e ganhando uma seriedade régia. — Eu vi a dor do meu povo, senti cada cicatriz deles em mim. Para ser um Rei que protege, eu tive que aprender a voar acima do sofrimento.

Hades assentiu levemente.

— Você diz que tudo arriscou e não foi amado. É um fardo pesado para um mortal carregar sozinho.

— Um Rei nunca está sozinho — rebateu Qin, levantando-se e ficando frente a frente com Hades. — Ele carrega as esperanças de todos os que vieram antes e de todos os que virão. Essa música... é o som de quem quebrou as correntes do passado.

Hades olhou para as mãos de Qin, as mesmas mãos que tocavam guitarra com delicadeza e que agora estavam prontas para esmagar deuses.

— Você é um homem intrigante, Qin Shi Huang — disse Hades, um meio sorriso surgindo em seus lábios nobres. — É uma pena que o destino nos coloque em lados opostos. Eu adoraria ouvir mais dessa sua "liberdade".

— Quem sabe? — Qin deu de ombros, recuperando sua postura audaciosa. — Se você for um bom espectador, talvez eu toque um bis depois que eu vencer este torneio.

Hades soltou uma risada curta, mas genuína.

— Sua confiança beira a loucura.

— Um Rei não conhece outra coisa senão a vitória — afirmou Qin, começando a caminhar em direção à saída, sua capa flutuando atrás dele como se fosse empurrada por um vento invisível.

Hades observou o Imperador se afastar. Ele pensou na imagem de Qin dançando entre as chamas, uma figura de pura vontade que se recusava a ser consumida pelo mundo. Por um momento, o Rei do Submundo sentiu que não estava olhando para um simples oponente, mas para um igual em espírito.

— Nobreza, dor e dever — sussurrou Hades para si mesmo. — Você realmente é um Rei digno desse título.

No corredor, Qin Shi Huang parou por um segundo, sentindo o olhar de Hades em suas costas. Ele tocou levemente o peito, onde a sinestesia ainda vibrava com a presença poderosa e melancólica do deus.

— Nada vai me parar — murmurou o Imperador, repetindo as palavras de sua própria canção. — Pois eu sou o único e verdadeiro Rei.

A batalha que viria a seguir seria gravada na história, mas naquele momento, nos ecos de uma melodia de guitarra e no rastro de uma dança incandescente, dois governantes de mundos diferentes encontraram um entendimento silencioso. A liberdade, como Qin havia cantado, era para ele. E ele a defenderia, mesmo que tivesse que queimar o próprio firmamento para isso.
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