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De frente com a dor

Fandom: Highschool

Criado: 21/06/2026

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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoConsertoEstudo de PersonagemCenário CanônicoTragédiaMorte de PersonagemHistória DomésticaRealismoSobrevivência
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Cicatrizes Sob o Vidro

O orfanato-escola Saint Jude sempre pareceu uma gaiola dourada, mas para Amaia Fontes, após aquela noite, os muros tornaram-se as paredes de um mausoléu. Seu quarto, que antes era um refúgio de sonhos e cores, agora era um santuário de dor. As grandes janelas, que deveriam oferecer uma visão privilegiada dos jardins, estavam cobertas por camadas de desenhos feitos a carvão e tinta guache, colados diretamente no vidro como se pudessem impedir a realidade de entrar. As cortinas rosas, outrora vibrantes, permaneciam fechadas, mergulhando o ambiente em uma penumbra constante.

Amaia estava sentada no chão, as costas apoiadas na cama, sentindo o peito apertar. Cada vez que fechava os olhos, o som era o mesmo: o estampido seco do tiro, o grito abafado e o corpo de Noah Teodor caindo como uma boneca de pano. Noah, a garota amável que a ensinara a sorrir, estava morta. E a culpa, segundo Helen Fontes, era toda de Amaia.

A porta do quarto se abriu bruscamente, sem que ninguém batesse. O som da maçaneta batendo na parede fez Amaia sobressaltar-se, o coração disparando em um ataque de pânico iminente.

— Ainda nesse buraco, Amaia? — A voz de Helen era como vinagre em uma ferida aberta. Ela parou no meio do quarto, olhando com desprezo para os desenhos na janela. — Olhe para você. Uma sombra. Sua média em matemática caiu para níveis deploráveis. O diretor já me ligou duas vezes esta semana.

— Eu não consigo... — sussurrou Amaia, abraçando os próprios joelhos. — Eu não consigo me concentrar, mãe.

— É claro que não consegue. Está ocupada demais sentindo pena de si mesma — Helen deu um passo à frente, os olhos frios e rancorosos. — Se você tivesse ficado no seu quarto naquela noite, se não tivesse arrastado aquela pobre menina para aquela festa com sua carência, Noah ainda estaria aqui. Você a matou com a sua imprudência.

— Ela que me levou... — Amaia tentou dizer, mas a voz falhou.

— Não ouse mentir! — Helen gritou, aproximando-se. — Você é um fardo, Amaia. E agora é um fardo que carrega sangue nas mãos. Saia dessa cama e vá para a biblioteca. Se eu souber que você perdeu mais uma aula, farei questão de queimar cada uma dessas porcarias que você pendurou no vidro.

Quando a mãe saiu, batendo a porta, Amaia sentiu o ar sumir. O quarto parecia estar encolhendo. O rosto carinhoso de Noah aparecia em sua mente, mas logo era substituído pela imagem do ex-namorado dela empunhando a arma. O pânico subiu pela garganta. Ela precisava sair dali, não para a biblioteca, mas para qualquer lugar onde o veneno de sua mãe não chegasse.

Caminhando pelos corredores silenciosos do internato, Amaia mantinha a cabeça baixa. Ela não percebeu quando dobrou o corredor da ala leste, a área dos quartos masculinos, um lugar onde raramente se aventurava. Seus pés a levaram mecanicamente, movidos pelo desespero, até que ela colidiu contra algo sólido.

— Ei! Olha por onde anda, garota — uma voz rouca e impaciente ressoou acima dela.

Amaia levantou os olhos, trêmula. Diante dela estava Atlas Torrance. Ele era a personificação da rebeldia: o uniforme do colégio estava desleixado, o cabelo escuro bagunçado e o olhar carregava um rancor que parecia queimar quem quer que o encarasse por muito tempo. Ao lado dele, Damon Leon observava a cena com uma expressão mais suave, mas igualmente melancólica.

O reconhecimento foi instantâneo. Atlas e Damon eram os melhores amigos de Noah. Eles estavam naquela festa. Eles viram tudo.

— Você... — a voz de Amaia saiu como um sopro.

Atlas estreitou os olhos, a expressão mudando da irritação para algo mais complexo.

— Amaia Fontes — disse ele, o nome soando pesado em sua boca. — A garota que sumiu do mapa.

— Eu... eu sinto muito — ela começou a tremer, as lágrimas ameaçando cair. — Eu sinto tanto pela Noah.

Damon deu um passo à frente, colocando a mão no ombro de Atlas, como se tentasse acalmá-lo.

— Nós também sentimos, Amaia. Estávamos procurando por você. Queríamos saber como você estava.

— Ela está péssima, Damon. Dá para ver — Atlas falou com uma rispidez que escondia sua própria dor. Ele olhou para as mãos de Amaia, que estavam sujas de carvão. — O que aconteceu com você? Parece que está vivendo em um porão.

— Minha mãe... ela diz que a culpa foi minha — Amaia soluçou, incapaz de conter o ataque de pânico que agora florescia em seu peito. — E ela tem razão. Eu deveria ter feito algo. Eu deveria ter protegido ela.

Atlas soltou uma risada amarga, mas seus olhos não estavam rindo.

— Sua mãe é uma idiota, então. Aquele desgraçado puxou o gatilho, não você.

— Atlas, menos — repreendeu Damon gentilmente. Ele se voltou para Amaia. — Não escute o que as pessoas dizem no calor do luto, nem mesmo sua mãe. Noah amava você. Ela falava de você o tempo todo antes daquela noite.

Amaia sentiu as pernas fraquejarem. Atlas, apesar de seu jeito bruto, agiu rápido e a segurou pelo braço antes que ela atingisse o chão.

— Vem — disse Atlas, sua voz perdendo um pouco da agressividade. — Você não pode ter um colapso aqui no meio do corredor. O inspetor vai te levar para a enfermaria e eles vão entupir você de remédios.

Ele a guiou, quase a carregando, até o quarto que dividia com Damon. Era um ambiente vasto, com grandes janelas de vidro que, ao contrário das de Amaia, estavam limpas, revelando a noite estrelada. A decoração era austera, dominada por tons de preto e cinza, refletindo a personalidade sombria de seus ocupantes.

Atlas a sentou em uma poltrona de couro preto. Damon buscou um copo de água.

— Beba — ordenou Atlas, encostando-se na parede oposta e cruzando os braços. — Você está pálida como um fantasma.

Amaia bebeu a água, sentindo o frescor descer pela garganta, acalmando um pouco as batidas do coração. Ela olhou ao redor, sentindo-se deslocada naquele quarto tão masculino e frio.

— Por que me ajudaram? — perguntou ela, com a voz baixa. — Vocês eram os melhores amigos dela. Eu achei que me odiassem.

— O ódio gasta muita energia, Amaia — Damon respondeu, sentando-se na beirada da cama de Atlas. — E Noah não gostaria disso. Nós vimos como você olhava para ela. Você era o porto seguro dela naquele mar de loucura que era a vida dela.

Atlas desviou o olhar para a janela, o perfil endurecido pela luz da lua.

— Eu também tenho problemas com a minha família, garota — ele disse, surpreendendo-a. — Dinheiro não compra paz. Meu pai acha que pode me controlar com transferências bancárias, enquanto minha mãe nem lembra em que país eu estou. Eu sei o que é ter alguém soprando veneno no seu ouvido o dia todo.

Amaia observou Atlas. Ele era complicado, marcado por uma rebeldia que parecia ser seu único escudo contra o mundo. No entanto, naquele momento, ela viu uma rachadura na armadura dele.

— Ela disse que eu a matei — Amaia repetiu, a voz embargada.

— Ela está errada — Atlas virou-se para ela, dando dois passos rápidos e parando bem à sua frente. Ele se inclinou, forçando-a a olhar em seus olhos. — Escute bem. A culpa é do cara que levou a arma. A culpa é do sistema que deixou ele chegar perto dela. Mas não é sua. Se você continuar acreditando nessa mentira, você vai morrer por dentro, e aí o estrago vai ser duplo.

As semanas que se seguiram foram estranhas. O internato continuava o mesmo, mas a rotina de Amaia mudou. Ela ainda sofria com os ataques de pânico e com o rancor de Helen, mas agora, sempre que o peso se tornava insuportável, ela encontrava Atlas nos jardins ou na biblioteca.

A relação deles era uma dança complicada. Amaia era uma alma ferida, terna e assustada; Atlas era uma tempestade de sentimentos não resolvidos.

Certa tarde, no quarto de Atlas, enquanto Damon estava no treino de futebol, Amaia observava os desenhos dele. Eram esboços sombrios, mas cheios de técnica.

— Você nunca me disse que desenhava — comentou ela, passando os dedos por um esboço de uma cidade em ruínas.

— Não é desenho. É distração — Atlas respondeu, sentado no chão, limpando uma jaqueta de couro. — Ajuda a calar as vozes na minha cabeça.

Amaia sentou-se ao lado dele.

— Minha mãe rasgou três dos meus desenhos hoje. Disse que eram "lembretes da minha incompetência".

Atlas parou o que estava fazendo. Ele olhou para Amaia e, pela primeira vez, ela viu uma faísca de algo que não era raiva. Era proteção.

— Traga suas coisas para cá amanhã — ele disse, num tom que não aceitava recusas.

— O quê?

— Suas tintas, seus papéis. Traga para este quarto. Damon não se importa e eu... eu prefiro ter você pintando aqui do que trancada naquele mausoléu rosa sendo torturada por aquela mulher.

— Atlas, eu não posso simplesmente...

— Pode. Eu sou o herdeiro dos Torrance, Amaia. Ninguém neste colégio, nem mesmo sua mãe, vai ousar entrar aqui se eu disser que não.

Amaia sentiu uma lágrima solitária escorrer. Pela primeira vez em meses, ela não se sentiu sozinha.

Com o tempo, o quarto preto e cinza começou a ganhar manchas de cor. Amaia começou a pintar nas grandes janelas de Atlas, mas desta vez, não eram desenhos para esconder o mundo, eram flores, céus e retratos de memórias felizes. Atlas, por sua vez, começou a frequentar as aulas novamente, apenas para garantir que Amaia chegasse em segurança à sala, agindo como uma sombra rebelde e protetora.

Damon observava os dois com um sorriso triste. Ele sabia que a dor de perder Noah nunca desapareceria totalmente, mas ver Amaia e Atlas se curando mutuamente era o melhor tributo que poderiam prestar à amiga.

No entanto, a cura não era um caminho reto. Em uma noite de tempestade, Amaia teve o pior ataque de pânico desde o acidente. O som do trovão mimetizou o disparo da arma. Ela se encolheu no canto do quarto de Atlas, soluçando desesperadamente, as mãos tapando os ouvidos.

— Amaia! — Atlas correu até ela, ajoelhando-se no chão frio. — Respira. Olha para mim.

— Eu não consigo... Noah... ela está caída... o sangue... — ela gaguejava, o rosto banhado em suor e lágrimas.

Atlas não hesitou. Ele a puxou para seus braços, envolvendo-a em um abraço apertado, ignorando sua própria aversão ao contato físico.

— Ela não está mais lá, Amaia. Ela está em paz. Você está aqui, comigo. Eu não vou deixar nada acontecer com você. Eu juro.

Amaia enterrou o rosto no peito dele, sentindo o perfume de colônia cara e tabaco, e o batimento acelerado do coração de Atlas. Aos poucos, a tempestade lá fora e a tempestade dentro dela começaram a ceder.

— Por que você faz isso? — ela perguntou, com a voz rouca, quando o pânico finalmente passou. — Por que se importa tanto com uma garota quebrada como eu?

Atlas afastou-se apenas o suficiente para segurar o rosto dela com as duas mãos. Seus polegares limparam os rastros de lágrimas.

— Porque eu também estou quebrado, Amaia. E, de alguma forma, quando estou com você, as peças parecem encaixar um pouco melhor.

Naquela noite, sob as grandes janelas de vidro que agora exibiam a arte de uma garota sonhadora e a proteção de um garoto rebelde, o primeiro beijo aconteceu. Foi um toque suave, carregado de promessas de dias melhores e de um adeus final à culpa que os consumia.

Helen Fontes continuaria sendo uma mulher rancorosa, e as cicatrizes de Noah sempre estariam ali. Mas Amaia não estava mais sozinha na escuridão. Ela tinha Atlas, e Atlas tinha nela o motivo para finalmente parar de lutar contra o mundo e começar a construir algo novo.

O internato Saint Jude não era mais uma prisão. Para Amaia e Atlas, era o lugar onde, entre chuvas e tintas, eles aprenderam que o amor era a única coisa capaz de silenciar o eco de um tiro.
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