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Fandom: Nenhum

Criado: 23/06/2026

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Entre o Caos e o Acalento

O sol da tarde filtrava pelas janelas amplas da cobertura de Emanuel, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. O ambiente, decorado com um luxo minimalista e funcional, exalava o cheiro de café caro e do talco de bebê. Emanuel estava sentado no sofá de couro italiano, com o notebook apoiado nas coxas, mas seus olhos cinzentos e cansados não focavam nas planilhas de faturamento de seus estúdios de tatuagem em Londres. Sua atenção estava dividida entre as duas mulheres que ocupavam seu mundo e as duas extensões de si mesmo que engatinhavam pelo tapete felpudo.

Sara, impecável em um conjunto de seda justo que realçava suas curvas acentuadas pelo silicone e pela genética privilegiada, retocava o batom vermelho diante do espelho do hall. Ela era um furacão de confiança, uma presença que exigia ser notada. Ao seu lado, Ágata, a gêmea de oito meses com cabelos loiros e um olhar já altivo, tentava alcançar a bolsa de grife da mãe, emitindo gritinhos de comando que faziam Sara sorrir com orgulho.

— Ela vai ser um terror, Emanuel — comentou Sara, a voz carregada de uma ironia vibrante. — Já sabe o que é bom. Diferente da outra ali, que parece que vai chorar se o vento bater forte demais.

Emanuel suspirou, fechando o notebook. Ele massageou as têmporas, sentindo a tensão acumulada de uma semana de reuniões e decisões de negócios.

— Não comece, Sara. Elas são bebês.

No outro canto da sala, sentada no chão, Eduarda parecia um contraste absoluto. Vestindo um vestido de linho claro e com os cabelos castanhos caindo em ondas naturais sobre os ombros, ela segurava Maya no colo. A pequena Maya, com seus fios escuros e olhos expressivos, estava aninhada no peito de Eduarda, segurando a ponta do dedo da moça com uma força surpreendente. Maya era o retrato da doçura e da sensibilidade, o que, para a irritação constante de Sara, a tornava o "grudinho" oficial de Eduarda.

— Ela só está calma porque está com a Duda — murmurou Eduarda, a voz suave e manhosa, quase um sussurro. Ela olhou para Emanuel, buscando aquele apoio silencioso que ele sempre lhe dava. — Ela sentiu sua falta hoje, Manu.

Emanuel sentiu o peito aquecer. O jeito que Eduarda o chamava, a forma como ela se apoiava emocionalmente nele, era o seu porto seguro. Mas a visão de Eduarda ali, agindo como parte da família, mas voltando para a casa dos pais ao final do dia, era uma farpa cravada em seu ego e em seu desejo de controle.

— Se você morasse aqui, Eduarda — disse Emanuel, a voz ficando mais rígida, o tom de comando que ele usava em seus estúdios aflorando —, Maya não precisaria sentir sua falta. Eu não precisaria sentir sua falta.

Eduarda baixou o olhar, as bochechas ganhando um tom rosado. Ela apertou Maya um pouco mais contra si.

— Manu, a gente já conversou... Eu ainda não estou pronta. Meus pais são tranquilos, mas... eu preciso do meu espaço para estudar História da Arte. Aqui é tudo tão intenso.

Sara soltou uma risada curta e seca, guardando o batom na bolsa.

— Intenso? Querida, a palavra que você está procurando é "adulto". Mas tudo bem, Emanuel gosta de brincar de casinha com uma universitária que ainda pede benção para o papai. Deixa ela lá, pelo menos assim eu tenho a cama só para nós dois na metade da semana.

— Sara, chega — rosnou Emanuel, levantando-se. Ele caminhou até Eduarda e se inclinou, beijando o topo da cabeça dela e, em seguida, a testa de Maya. — Eu não vou pressionar você hoje, Duda. Mas minha paciência tem limite. Eu sou o provedor de vocês, eu cuido de tudo. Quero minhas duas mulheres sob o mesmo teto.

Eduarda buscou a mão de Emanuel, roçando os dedos na pele tatuada e firme dele.

— Eu te amo, Manu. Só me dá mais um pouco de tempo?

Ele não respondeu, apenas apertou a mão dela antes de se virar para Sara, que o observava com uma sobrancelha arqueada, claramente desafiando sua autoridade.

— Você tem aquela inauguração da loja hoje, não tem? — perguntou ele, tentando retomar o controle da conversa.

— Tenho. E vou levar a Ágata. Ela precisa começar a entender como o mundo funciona — Sara pegou a menina no colo, que prontamente começou a brincar com o colar de ouro da mãe. — Já a Maya... bem, ela pode ficar aí com a "tia" Duda, já que as duas são almas gêmeas de melancolia.

Sara não odiava Eduarda. Na verdade, ela a via como uma criatura curiosa, quase um animal de estimação que Emanuel insistia em manter por perto. Para Sara, que se considerava a "namorada principal" por dividir o teto, as filhas e a rotina pesada com ele, Eduarda não era uma ameaça real, apenas uma distração necessária para o temperamento protetor de Emanuel.

— Eu cuido dela, Sara — disse Eduarda, com uma coragem mansa. — Ela está com um pouco de cólica, precisa de silêncio.

Sara revirou os olhos, mas entregou uma bolsa de fraldas para Emanuel.

— Ótimo. Vamos, Emanuel? Você prometeu que passaria na loja antes de irmos jantar.

Emanuel olhou para Eduarda, que permanecia no chão, cercada por brinquedos educativos e pela aura de paz que emanava de sua timidez. O conflito interno dele era visível: a racionalidade e a força de Sara o impulsionavam, mas a fragilidade doce de Eduarda o desarmava.

— Duda, eu volto em duas horas. Jante aqui, por favor. Pedi para o motorista te levar mais tarde, se você insistir em ir embora.

— Tudo bem — respondeu ela, abrindo um sorriso pequeno e doce que fez o estresse de Emanuel diminuir um milímetro.

Assim que a porta pesada da cobertura se fechou, o silêncio se instalou. Eduarda suspirou, sentindo o peso da presença de Sara se dissipar. Ela amava Emanuel com uma intensidade que a assustava, mas a dinâmica com Sara era um campo minado. Ela sabia que Sara a via como inferior, como alguém que não aguentaria o tranco da vida real, e às vezes, Eduarda temia que Sara estivesse certa.

Maya começou a resmungar, os olhinhos castanhos se enchendo de lágrimas.

— Shhh, meu amor... a Duda está aqui — sussurrou ela, começando a balançar a bebê com um ritmo ancestral. — Você é tão sensível quanto eu, não é? Sua mãe não entende que o mundo às vezes é barulhento demais.

Eduarda caminhou até a varanda envidraçada, observando as luzes da cidade começando a acender. Ela se sentia como uma observadora da própria vida, uma estudante de arte perdida em uma galeria de emoções complexas. Emanuel era o artista, o homem que desenhava o destino de todos eles com mãos firmes e riqueza, mas ela... ela era apenas a cor suave em um quadro de tons fortes.

Duas horas depois, a porta se abriu novamente. Mas não era apenas Emanuel. Sara entrou bufando, jogando os sapatos de salto alto em um canto. Ágata estava chorando, um choro exigente e alto.

— Insuportável! — exclamou Sara. — O ar-condicionado da loja deu defeito, Ágata decidiu que queria comer o mostruário e o Emanuel não parava de olhar o celular.

Emanuel entrou logo atrás, a expressão endurecida. Ele pegou Ágata do colo de Sara com uma firmeza que silenciou a menina por um instante pelo puro choque.

— Eu estava resolvendo um problema no estúdio de Tóquio, Sara. Você sabe que o faturamento de lá caiu este mês.

— E eu sei que a minha loja é o meu foco! Você deveria estar presente! — rebateu Sara, cruzando os braços, os seios siliconados marcados pelo decote profundo.

Eduarda se levantou, segurando Maya, que dormia profundamente. Ela se aproximou de Emanuel com cautela, como quem se aproxima de um animal ferido.

— Manu... quer que eu pegue a Ágata?

Emanuel olhou para ela, e por um momento, a rigidez em seus ombros cedeu.

— Não, Duda. Vá descansar um pouco. Eu cuido disso.

— Deixa que eu pego a minha filha, Emanuel — interveio Sara, pegando Ágata de volta, embora a menina estivesse nitidamente irritada. — Você está exausto e vai acabar descontando nela.

— Eu não desconto nada em ninguém! — a voz de Emanuel subiu um tom, ecoando pela sala.

Eduarda encolheu os ombros, o coração disparando. Ela odiava confrontos. O ambiente carregado de eletricidade entre Sara e Emanuel a fazia querer desaparecer.

— Eu... eu acho que vou para casa agora — murmurou Eduarda, a voz trêmula.

Emanuel virou-se para ela, a frustração transbordando.

— Não! Você fica. Eu já disse que quero você aqui. Por que é tão difícil aceitar que este é o seu lugar?

— Porque eu não me sinto em casa quando vocês estão gritando! — Eduarda disparou, as lágrimas surgindo nos olhos expressivos. — Eu amo você, Manu. Amo a Maya e a Ágata. Mas eu não sou como a Sara. Eu não sei lutar por espaço.

Sara parou de balançar Ágata e olhou para Eduarda com uma mistura de deboche e uma ponta inesperada de simpatia.

— Viu o que você faz, Emanuel? Você assusta a menina. Ela é um cristal, qualquer grito ela trinca.

Emanuel passou a mão pelo cabelo curto, soltando um suspiro longo e pesado. Ele caminhou até Eduarda e a envolveu em um abraço apertado, ignorando por um momento a presença de Sara. Eduarda se encaixou perfeitamente sob o queixo dele, o corpo esguio e leve parecendo desaparecer contra o porte forte de Emanuel.

— Desculpe — murmurou ele contra o cabelo dela. — Eu só... eu estou tentando manter tudo sob controle. Os negócios, as filhas, vocês duas... É pesado demais às vezes.

Sara sentou-se na poltrona lateral, observando a cena. Ela não sentia ciúmes, sentia uma espécie de impaciência pragmática.

— Você quer controlar o incontrolável, Manu. A Eduarda vai vir morar aqui quando ela parar de ter medo da própria sombra. E eu vou continuar sendo um problema para você porque eu não abaixo a cabeça. Aceita que dói menos.

Emanuel soltou Eduarda, mas manteve uma mão em sua cintura, como se quisesse ancorá-la ali.

— Eu não vou desistir de ter minha família unida. Nem que eu tenha que construir uma ala inteira só para seus quadros e livros, Eduarda.

Eduarda olhou para Maya, que acordara com o burburinho e agora esticava os bracinhos para Emanuel. O tatuador pegou a bebê morena, sentindo a suavidade da pele dela, tão parecida com a de Eduarda. Maya deu um sorriso banguela e manhoso, encostando a cabeça no ombro do pai.

— Ela é igualzinha a você — disse Emanuel para Eduarda, o tom de voz finalmente suavizando. — Sensível demais para esse mundo barulhento.

— E a Ágata é igual a mim — completou Sara, levantando-se e caminhando até eles, tocando o ombro de Emanuel. — O que significa que você está ferrado, meu amor. Vai passar o resto da vida tentando mediar guerras e acalmar choros.

Emanuel olhou para as duas mulheres — a loira vibrante e imponente que o desafiava, e a morena doce e tímida que o curava. Ele era o provedor, o protetor, o homem que construíra um império para sustentar aquele caos delicado.

— Eu dou conta — afirmou ele, mais para si mesmo do que para elas. — Eu sempre dou conta.

Naquela noite, Eduarda não foi embora. Ela ficou, aninhada em um canto do sofá enquanto Emanuel tentava trabalhar e Sara comandava as babás e organizava as roupas das gêmeas para o dia seguinte. A convivência era imperfeita, marcada por alfinetadas de Sara e silêncios de Eduarda, mas no centro de tudo, havia o magnetismo de Emanuel, o homem que amava duas versões opostas de feminilidade e que não descansaria até que o seu mundo estivesse, finalmente, completo sob o mesmo teto.

Eduarda observou Emanuel de longe, vendo o cansaço em seus olhos e a firmeza em seus gestos. Ela sabia que, em breve, a segurança que ele oferecia venceria sua insegurança de deixar a casa dos pais. Afinal, onde quer que Emanuel estivesse, com sua força e sua possessividade protetora, era onde ela e Maya pertenciam. E Sara, com toda sua vulgaridade luxuosa e língua afiada, era a peça que mantinha a engrenagem girando, garantindo que a doçura de Eduarda nunca fosse esmagada pela realidade.

O triângulo era instável, mas, de alguma forma bizarra e luxuosa, ele se sustentava.
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