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Fandom: Nenhum

Criado: 23/06/2026

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Entre Sombras e Silicone

O motor do SUV de luxo de Emanuel roncava baixo, um som potente que combinava com a tensão silenciosa que ele carregava nos ombros. Ao seu lado, Sara retocava o batom vermelho vibrante pela décima vez, ignorando completamente a paisagem que passava pela janela. Ela usava um conjunto de couro sintético justo demais para uma viagem ao campo, mas Sara nunca foi de se adequar ao ambiente; ela forçava o ambiente a se adequar a ela.

— Você acha que a casa vai ter sinal de Wi-Fi decente, Manu? — Sara perguntou, guardando o espelho na bolsa de grife. — A Luana disse que o lugar é rústico, mas se eu não conseguir postar os looks da minha loja, eu juro que volto de Uber.

— É uma propriedade histórica, Sara. Deve ter o básico — Emanuel respondeu com sua voz grave, os olhos focados na estrada. Ele estava exausto. Gerenciar três estúdios novos em Londres e Tóquio o deixara no limite, e tudo o que ele queria era um fim de semana de silêncio.

Ele não gostava de Luana, a amiga de Sara. Achava-a fútil e barulhenta, e a ideia de passar três dias com o círculo social da namorada o irritava. Luana havia insistido em levar a irmã caçula, alegando que os pais — um casal de arquitetos modernos que vivia viajando — não queriam a menina sozinha em casa. Emanuel já visualizava mais uma garota mimada e problemática para ocupar o espaço.

Quando finalmente chegaram à imensa propriedade de estilo vitoriano, cercada por uma névoa baixa e árvores centenárias, os outros carros já estavam lá. Luana acenava freneticamente na varanda.

— Finalmente! — gritou Luana, enquanto Sara saía do carro exibindo suas curvas e o cabelo loiro platinado impecável.

Emanuel desceu, esticando o corpo alto. Foi quando ele a viu.

Atrás de Luana, quase escondida pela sombra da porta de carvalho, estava uma garota que parecia ter saído de um quadro pré-rafaelita. Ela usava um vestido de linho claro, longo e fluido, e um cardigã de tricô que parecia grande demais para seu corpo esguio. Eduarda tinha olhos grandes e expressivos, que brilhavam com uma mistura de timidez e fascínio enquanto olhava para as torres da casa.

— Essa é a minha irmã, Eduarda — apresentou Luana, puxando a garota pelo braço. — Duda, esse é o Emanuel, o namorado da Sara.

Emanuel sentiu um soco invisível no estômago. Ele, que sempre se orgulhou de seu autocontrole e de sua visão pragmática da vida, ficou sem palavras. Eduarda não era óbvia como Sara. Ela era suave, etérea, com a pele pálida e os cabelos castanhos caindo em ondas naturais sobre os ombros.

— Prazer — sussurrou Eduarda, desviando o olhar quase imediatamente. Ela apertou as mãos contra o peito, demonstrando uma fragilidade que despertou em Emanuel um instinto de proteção que ele nunca sentira por Sara.

— O prazer é meu — Emanuel respondeu, sua voz saindo mais rouca do que o pretendido.

Sara se aproximou, envolvendo o braço de Emanuel com possessividade, seus seios siliconados pressionando o bíceps dele.

— Oi, gracinha! — Sara disse para Eduarda, com um tom de superioridade que beirava a simpatia. — Luana disse que você estuda História da Arte. Deve ser um tédio, não é? Mas você é fofinha. Parece uma boneca de porcelana.

Eduarda deu um sorriso forçado, recuando um passo.

— Eu gosto... a arquitetura aqui é fascinante. Dizem que a Noiva de Cinzas assombra o sótão.

— Credo, que coisa gótica — Sara riu, puxando Emanuel para dentro. — Vamos, Manu. Quero o melhor quarto.

Ao longo da tarde, Emanuel tentou manter sua fachada de indiferença, mas seus olhos buscavam Eduarda constantemente. Ela era o oposto de tudo o que ele conhecia. Enquanto Sara gritava ao telefone sobre as vendas da loja e os amigos bebiam ruidosamente na piscina, Eduarda estava em um canto da biblioteca, passando os dedos finos pelas lombadas dos livros antigos.

Ele se aproximou dela quando ninguém estava olhando.

— Você realmente acredita nas histórias de fantasmas? — perguntou ele, encostando-se no batente da porta.

Eduarda deu um pequeno salto, assustada.

— Eu... eu gosto da estética do mistério. Acho que as histórias dão alma aos lugares.

— Você tem uma visão interessante — Emanuel deu um passo à frente, e Eduarda, percebendo a proximidade, imediatamente recuou, lembrando-se das palavras de Luana no carro: "Fique longe do Emanuel, Duda. Ele é intenso demais, um predador de negócios, e a Sara não brinca em serviço. Não se meta com eles".

— Eu preciso ajudar minha irmã com as malas — disse ela rapidamente, a voz trêmula.

Ela passou por ele como uma brisa, deixando apenas o rastro de um perfume suave de baunilha e flores do campo. Emanuel cerrou os punhos. Ele queria aquela garota. Não para substituir Sara — Sara era sua estabilidade, sua parceira de imagem, a mulher que aguentava seu ritmo frenético e suas ambições. Mas Eduarda... Eduarda era o refúgio que ele nem sabia que precisava.

Durante o jantar, a dinâmica ficou clara. Sara, no centro da mesa, dominava a conversa com risadas altas e fofocas. Ela percebeu os olhares de Emanuel para a irmã de Luana. Qualquer outra mulher teria feito uma cena, mas Sara apenas sorriu de canto, bebendo seu vinho caro. Ela conhecia Emanuel. Sabia que ele era um homem de apetites grandes e que, no final do dia, ela era a rainha do império dele. Se ele queria um brinquedo novo e delicado, ela não se importava, desde que a coroa permanecesse em sua cabeça loira.

— Duda está tão quietinha — comentou Sara, provocando. — Manu, por que você não serve mais vinho para ela? Ela parece que vai quebrar se a gente falar um pouco mais alto.

— Eu estou bem, obrigada — Eduarda murmurou, olhando para o prato.

— Ela é tímida, Sara — Luana interveio, protetora, lançando um olhar de aviso para Emanuel. — E ela não está acostumada com o seu tipo de... intensidade.

— Intensidade é o meu sobrenome, querida — Sara piscou.

Após o jantar, Eduarda escapou para a varanda dos fundos, fugindo do barulho. A noite estava fria e a névoa havia engolido o jardim. Ela se abraçou, sentindo um calafrio que não era apenas pelo clima.

— Você vai acabar pegando um resfriado — a voz de Emanuel surgiu da escuridão.

Ele se aproximou e, antes que ela pudesse protestar, colocou seu paletó pesado sobre os ombros dela. O cheiro de perfume amadeirado e tabaco caro a envolveu instantaneamente.

— Não deveria estar aqui fora sozinha — continuou ele, ficando perigosamente perto. — Luana disse que você tem medo de escuro, apesar de gostar de histórias de terror.

— Eu não tenho medo do escuro — mentiu ela, a voz fraca. — Eu só... gosto do silêncio.

Emanuel estendeu a mão e tocou uma mecha do cabelo dela. Eduarda estremeceu, mas não se afastou de imediato. A tensão entre os dois era palpável, uma eletricidade que contrastava com a calma da noite.

— Por que você foge de mim, Eduarda? — perguntou ele, sua voz sendo pouco mais que um sussurro possessivo. — Eu não mordo. A menos que você queira.

— Minha irmã disse que você é perigoso — ela confessou, olhando-o nos olhos pela primeira vez.

Emanuel deu um sorriso curto e predatório.

— Ela está certa. Mas não para você. Nunca para você.

— Emanuel! — a voz de Sara ecoou de dentro da casa, chamando-o.

Eduarda aproveitou o momento para tirar o paletó e entregá-lo a ele com as mãos trêmulas.

— Sua namorada está chamando.

— Ela pode esperar — ele disse, mas Eduarda já estava correndo para dentro, desaparecendo nos corredores da mansão.

Emanuel ficou ali, segurando o paletó que ainda guardava o calor do corpo dela. Ele sentiu uma irritação profunda crescer em seu peito. Ele não estava acostumado a ser evitado. Ele era o homem que construiu um império do nada, o tatuador que as estrelas faziam fila para ver. Ele tinha Sara ao seu lado, uma mulher que era um monumento à estética moderna, mas aquela menina de 20 anos, com seus livros de arte e seu jeito manhoso, o havia desarmado completamente.

Ele entrou na sala, onde Sara o esperava sentada no sofá, lixando as unhas.

— Ela é uma gracinha, não é? — Sara perguntou, sem tirar os olhos da lixa. — Tão... intocada.

Emanuel serviu-se de um uísque puro.

— Não sei do que você está falando.

— Ah, sabe sim. Eu vi como você olhou para ela na varanda. — Sara levantou-se e caminhou até ele, passando as mãos pelo peito dele. — Eu não me importo, Manu. Ela é doce. Seria uma distração interessante para nós dois. Mas lembre-se: eu sou a sua mulher. Ela é só... uma experiência estética.

Emanuel olhou para Sara, para a confiança inabalável dela, e depois para a escadaria por onde Eduarda havia subido.

— Eu quero as duas, Sara — ele disse, com uma honestidade brutal que só existia entre eles.

— Eu sei — ela riu, beijando o pescoço dele. — E você sempre consegue o que quer. Mas vai ter que se esforçar com aquela ali. Ela parece o tipo que acredita em amor, não em arranjos.

No andar de cima, trancada em seu quarto, Eduarda encostou as costas na porta, o coração batendo como o de um pássaro enjaulado. Ela olhou para a janela, onde a lua iluminava o jardim gótico que tanto amava. Ela sentia que estava entrando em um território perigoso. Emanuel era como os heróis sombrios dos livros que lia, mas a realidade era muito mais assustadora do que a ficção.

Ela queria explorar a casa, procurar a tal noiva fantasma, mas agora tinha medo de encontrar algo muito mais real e perturbador nos corredores escuros: o olhar de Emanuel.

A noite estava apenas começando, e o ar daquela casa de campo estava carregado de promessas que Eduarda não sabia se estava pronta para cumprir, e que Emanuel não estava disposto a ignorar. Ele a teria, não importava quantas vezes ela tentasse fugir. E Sara estaria lá, assistindo a tudo com um sorriso de satisfação, garantindo que o controle, no fim das contas, permanecesse em suas mãos bem cuidadas.
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