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CALÇA AZUL
Fandom: FARMADORES DA JM
Criado: 23/06/2026
Tags
DramaAngústiaFatias de VidaHumorSombrioCrimeMorte de PersonagemCiúmesSátiraRealismoCrack / Humor ParódicoEstudo de PersonagemFilme de AmigosRomanceCenário Canônico
O Azul Mais Profundo do Pátio
O sol do meio-dia castigava o asfalto do pátio, mas Rafael não sentia o calor. Para ele, o mundo havia congelado no exato momento em que ela cruzou o portão principal. Não era apenas uma garota; era a personificação de um enigma vestida em brim índigo. A "Calça Azul", como ele a apelidara carinhosamente em seus pensamentos mais profundos, caminhava com uma indiferença que beirava o divino. Ela não olhava para os lados, não mexia no celular e, definitivamente, não sabia que um rapaz chamado Rafael estava prestes a ter um colapso cardiovascular a dez metros de distância.
— Cara, você está babando. De novo — disse Miguel, dando um tapa na nuca de Rafael para trazê-lo de volta à realidade.
Rafael piscou, limpando o canto da boca de forma instintiva, embora não houvesse nada ali além de dignidade perdida.
— Você viu como o azul daquela calça realça... tudo? — Rafael suspirou, os olhos ainda fixos na silhueta que se afastava em direção à lanchonete. — É poético, Miguel. É como se o céu tivesse decidido descer e dar uma volta pelo campus.
Matheus, que estava sentado no banco de concreto tentando equilibrar uma caneta no nariz, soltou uma risada anasalada.
— O céu não usa jeans da Renner, Rafael. Acorda para a vida. Ela nem sabe que você respira o mesmo oxigênio que ela. Para ela, você é só mais um elemento da paisagem, tipo aquele hidrante ali ou um poste de luz.
— Por isso eu preciso de um plano — declarou Rafael, ignorando o pessimismo do amigo. — Eu preciso que ela saiba que eu existo. Eu preciso... de uma abordagem.
Ao lado deles, Ruan tragava seu cigarro com uma expressão de quem já tinha visto o fim do mundo e não tinha ficado impressionado. Ele soltou uma nuvem de fumaça densa que pairou sobre o grupo como uma névoa de sabedoria duvidosa.
— O segredo é o mistério, moleque — Ruan disse, com a voz rouca. — Você chega junto, pede um isqueiro, mesmo que não fume, e olha no fundo dos olhos dela. O contato visual é tudo.
— Ele não fuma, Ruan. Vai tossir na cara da menina e parecer um fumante de primeira viagem — rebateu Matheus.
— Então pede as horas — sugeriu Ruan, dando de ombros. — Todo mundo tem horas.
Gabriel, que até então estava escondido atrás de um livro de cálculo, encolheu-se visivelmente ao ouvir a conversa. Ele ajeitou os óculos e olhou ao redor, garantindo que nenhuma mulher estivesse a menos de cinco metros de raio de sua zona de conforto.
— Eu acho... — Gabriel começou, com a voz trêmula — que o melhor é mandar um e-mail. Ou um sinal de fumaça. De longe. Bem de longe. De preferência de outro estado. Mulheres são imprevisíveis, Rafael. Elas fazem perguntas. Elas esperam respostas. É aterrorizante.
— Gabriel, pelo amor de Deus, é só uma conversa — Miguel revirou os olhos. — Mas o Rafael tem o carisma de uma batata cozida quando está nervoso. Precisamos de uma estratégia de cerco.
Rafael sentou-se entre eles, o coração ainda batendo no ritmo de uma bateria de escola de samba.
— Ok, o plano é o seguinte: Matheus, você vai passar por ela e "acidentalmente" derrubar seus livros. Miguel, você entra em cena para ajudar, criando um tumulto controlado. No meio da confusão, eu apareço como o cavaleiro de armadura brilhante, devolvo a bolsa dela e inicio uma conversa intelectual sobre... sei lá, a física quântica das cores têxteis.
— Isso é a coisa mais estúpida que eu já ouvi — Matheus sentenciou. — E eu sou seu amigo.
— Funciona nos filmes — rebateu Rafael.
— Nos filmes o protagonista não tem a sua cara de desesperado — Ruan soltou mais uma fumaça, observando a Calça Azul se sentar em uma mesa distante. — Olha lá. Ela está sozinha. É agora ou nunca, campeão.
Rafael sentiu um frio na espinha. Ela estava ali, sentada, lendo um livro de capas gastas. O azul da calça parecia brilhar sob a luz do sol. Era o momento. Ele se levantou, as pernas parecendo feitas de gelatina.
— Eu vou lá — anunciou Rafael, com uma coragem que não possuía.
— Vai lá, tigre — Miguel o incentivou, embora estivesse segurando o riso.
— Se ela gritar, eu corro primeiro — murmurou Gabriel, já fechando sua mochila.
Rafael começou a caminhada. Cada passo parecia durar uma eternidade. O mundo ao redor silenciou. Ele ensaiou a frase de abertura mentalmente: "Olá, notei que você gosta de azul, eu também gosto de azul, quer casar?". Não, péssimo. "Oi, você estuda aqui sempre ou só quando quer me matar de amor?". Pior ainda.
Quando ele estava a apenas três metros da mesa, um vulto passou correndo. Era Ruan, que decidiu que o "apoio moral" envolvia passar correndo e gritar:
— ELE ESTÁ APAIXONADO PELA SUA CALÇA!
Rafael estancou. O sangue fugiu de seu rosto. A garota de Calça Azul levantou os olhos do livro, confusa, olhando para o rastro de fumaça deixado por Ruan e, em seguida, para Rafael, que estava parado como uma estátua de sal no meio do pátio.
— Oi? — disse ela. A voz dela era exatamente como Rafael imaginara: calma, melódica e carregada de uma dúvida legítima sobre a sanidade mental dele.
— Eu... eu... — Rafael gaguejou. Ele olhou para trás. Seus amigos haviam desaparecido. Miguel e Matheus estavam escondidos atrás de uma pilastra, e Gabriel provavelmente já estava no ponto de ônibus a caminho de casa.
— Você é o amigo do cara que saiu correndo? — perguntou ela, fechando o livro e inclinando a cabeça para o lado.
— Sim. Não. Quer dizer, eu conheço aquele elemento, mas não compactuo com as táticas de guerrilha dele — Rafael conseguiu articular, sentindo o suor escorrer pelas têmporas. — O que ele quis dizer é que... eu achei a cor da sua calça muito bonita. É um azul... oceânico.
A garota olhou para as próprias pernas e depois voltou a olhar para Rafael. Um pequeno sorriso começou a brotar no canto de seus lábios.
— É só uma calça jeans velha, na verdade. Mas obrigada. Eu acho.
— É que ela combina com o dia — Rafael continuou, sentindo que o desastre total estava sendo evitado por um fio de cabelo. — Eu sou o Rafael, a propósito. Estudo Engenharia.
— Eu sou a Clara — respondeu ela. — E eu estudo Letras. O que explica por que você está tentando usar metáforas sobre roupas e eu estou tentando entender se isso é um novo tipo de cantada de exatas.
Rafael soltou uma risada nervosa, a primeira demonstração de humanidade desde que a vira pela primeira vez.
— Na verdade, é só desespero mesmo. Meus amigos disseram que eu precisava de um plano para falar com você, mas o plano envolvia o Matheus derrubar livros e o Gabriel fugir de medo.
Clara riu abertamente agora, e o som fez Rafael esquecer completamente da calça, do pátio e da humilhação pública.
— Onde eles estão? — perguntou ela, olhando ao redor.
— Atrás daquela pilastra — Rafael apontou.
No mesmo instante, as cabeças de Miguel e Matheus apareceram por trás do concreto, acenando timidamente. Gabriel não foi visto em lugar nenhum.
— Seus amigos são estranhos, Rafael — disse Clara, voltando sua atenção para ele. — Mas você parece ser o tipo de estranho que ao menos pede desculpas pelo incômodo.
— Eu peço. E também posso pagar um café como pedido de desculpas formal pela intervenção do Ruan — Rafael arriscou, o coração disparado.
Clara guardou o livro na mochila e se levantou. A calça azul, de perto, era realmente apenas uma calça, mas para Rafael, ela continuaria sendo o marco zero de sua coragem.
— Aceito o café. Mas se o seu amigo fumante vier correndo de novo, eu vou usar minhas habilidades de Letras para escrever um poema muito ofensivo sobre vocês.
— Justo — concordou Rafael, caminhando ao lado dela, sentindo-se o homem mais sortudo do campus.
Enquanto se afastavam, Miguel e Matheus saíram de trás da pilastra, boquiabertos.
— Não é que funcionou? — Matheus comentou, impressionado.
— O caos é a melhor estratégia — Miguel concluiu, pegando o celular para avisar Gabriel que o perigo feminino havia sido neutralizado, pelo menos por enquanto.
Longe dali, Ruan observava a cena de longe, acendendo outro cigarro com um sorriso de satisfação no rosto. O plano, por mais torto que fosse, tinha seguido o curso natural das coisas na JM. Rafael finalmente existia para a Calça Azul, e o azul nunca pareceu tão brilhante.
— Cara, você está babando. De novo — disse Miguel, dando um tapa na nuca de Rafael para trazê-lo de volta à realidade.
Rafael piscou, limpando o canto da boca de forma instintiva, embora não houvesse nada ali além de dignidade perdida.
— Você viu como o azul daquela calça realça... tudo? — Rafael suspirou, os olhos ainda fixos na silhueta que se afastava em direção à lanchonete. — É poético, Miguel. É como se o céu tivesse decidido descer e dar uma volta pelo campus.
Matheus, que estava sentado no banco de concreto tentando equilibrar uma caneta no nariz, soltou uma risada anasalada.
— O céu não usa jeans da Renner, Rafael. Acorda para a vida. Ela nem sabe que você respira o mesmo oxigênio que ela. Para ela, você é só mais um elemento da paisagem, tipo aquele hidrante ali ou um poste de luz.
— Por isso eu preciso de um plano — declarou Rafael, ignorando o pessimismo do amigo. — Eu preciso que ela saiba que eu existo. Eu preciso... de uma abordagem.
Ao lado deles, Ruan tragava seu cigarro com uma expressão de quem já tinha visto o fim do mundo e não tinha ficado impressionado. Ele soltou uma nuvem de fumaça densa que pairou sobre o grupo como uma névoa de sabedoria duvidosa.
— O segredo é o mistério, moleque — Ruan disse, com a voz rouca. — Você chega junto, pede um isqueiro, mesmo que não fume, e olha no fundo dos olhos dela. O contato visual é tudo.
— Ele não fuma, Ruan. Vai tossir na cara da menina e parecer um fumante de primeira viagem — rebateu Matheus.
— Então pede as horas — sugeriu Ruan, dando de ombros. — Todo mundo tem horas.
Gabriel, que até então estava escondido atrás de um livro de cálculo, encolheu-se visivelmente ao ouvir a conversa. Ele ajeitou os óculos e olhou ao redor, garantindo que nenhuma mulher estivesse a menos de cinco metros de raio de sua zona de conforto.
— Eu acho... — Gabriel começou, com a voz trêmula — que o melhor é mandar um e-mail. Ou um sinal de fumaça. De longe. Bem de longe. De preferência de outro estado. Mulheres são imprevisíveis, Rafael. Elas fazem perguntas. Elas esperam respostas. É aterrorizante.
— Gabriel, pelo amor de Deus, é só uma conversa — Miguel revirou os olhos. — Mas o Rafael tem o carisma de uma batata cozida quando está nervoso. Precisamos de uma estratégia de cerco.
Rafael sentou-se entre eles, o coração ainda batendo no ritmo de uma bateria de escola de samba.
— Ok, o plano é o seguinte: Matheus, você vai passar por ela e "acidentalmente" derrubar seus livros. Miguel, você entra em cena para ajudar, criando um tumulto controlado. No meio da confusão, eu apareço como o cavaleiro de armadura brilhante, devolvo a bolsa dela e inicio uma conversa intelectual sobre... sei lá, a física quântica das cores têxteis.
— Isso é a coisa mais estúpida que eu já ouvi — Matheus sentenciou. — E eu sou seu amigo.
— Funciona nos filmes — rebateu Rafael.
— Nos filmes o protagonista não tem a sua cara de desesperado — Ruan soltou mais uma fumaça, observando a Calça Azul se sentar em uma mesa distante. — Olha lá. Ela está sozinha. É agora ou nunca, campeão.
Rafael sentiu um frio na espinha. Ela estava ali, sentada, lendo um livro de capas gastas. O azul da calça parecia brilhar sob a luz do sol. Era o momento. Ele se levantou, as pernas parecendo feitas de gelatina.
— Eu vou lá — anunciou Rafael, com uma coragem que não possuía.
— Vai lá, tigre — Miguel o incentivou, embora estivesse segurando o riso.
— Se ela gritar, eu corro primeiro — murmurou Gabriel, já fechando sua mochila.
Rafael começou a caminhada. Cada passo parecia durar uma eternidade. O mundo ao redor silenciou. Ele ensaiou a frase de abertura mentalmente: "Olá, notei que você gosta de azul, eu também gosto de azul, quer casar?". Não, péssimo. "Oi, você estuda aqui sempre ou só quando quer me matar de amor?". Pior ainda.
Quando ele estava a apenas três metros da mesa, um vulto passou correndo. Era Ruan, que decidiu que o "apoio moral" envolvia passar correndo e gritar:
— ELE ESTÁ APAIXONADO PELA SUA CALÇA!
Rafael estancou. O sangue fugiu de seu rosto. A garota de Calça Azul levantou os olhos do livro, confusa, olhando para o rastro de fumaça deixado por Ruan e, em seguida, para Rafael, que estava parado como uma estátua de sal no meio do pátio.
— Oi? — disse ela. A voz dela era exatamente como Rafael imaginara: calma, melódica e carregada de uma dúvida legítima sobre a sanidade mental dele.
— Eu... eu... — Rafael gaguejou. Ele olhou para trás. Seus amigos haviam desaparecido. Miguel e Matheus estavam escondidos atrás de uma pilastra, e Gabriel provavelmente já estava no ponto de ônibus a caminho de casa.
— Você é o amigo do cara que saiu correndo? — perguntou ela, fechando o livro e inclinando a cabeça para o lado.
— Sim. Não. Quer dizer, eu conheço aquele elemento, mas não compactuo com as táticas de guerrilha dele — Rafael conseguiu articular, sentindo o suor escorrer pelas têmporas. — O que ele quis dizer é que... eu achei a cor da sua calça muito bonita. É um azul... oceânico.
A garota olhou para as próprias pernas e depois voltou a olhar para Rafael. Um pequeno sorriso começou a brotar no canto de seus lábios.
— É só uma calça jeans velha, na verdade. Mas obrigada. Eu acho.
— É que ela combina com o dia — Rafael continuou, sentindo que o desastre total estava sendo evitado por um fio de cabelo. — Eu sou o Rafael, a propósito. Estudo Engenharia.
— Eu sou a Clara — respondeu ela. — E eu estudo Letras. O que explica por que você está tentando usar metáforas sobre roupas e eu estou tentando entender se isso é um novo tipo de cantada de exatas.
Rafael soltou uma risada nervosa, a primeira demonstração de humanidade desde que a vira pela primeira vez.
— Na verdade, é só desespero mesmo. Meus amigos disseram que eu precisava de um plano para falar com você, mas o plano envolvia o Matheus derrubar livros e o Gabriel fugir de medo.
Clara riu abertamente agora, e o som fez Rafael esquecer completamente da calça, do pátio e da humilhação pública.
— Onde eles estão? — perguntou ela, olhando ao redor.
— Atrás daquela pilastra — Rafael apontou.
No mesmo instante, as cabeças de Miguel e Matheus apareceram por trás do concreto, acenando timidamente. Gabriel não foi visto em lugar nenhum.
— Seus amigos são estranhos, Rafael — disse Clara, voltando sua atenção para ele. — Mas você parece ser o tipo de estranho que ao menos pede desculpas pelo incômodo.
— Eu peço. E também posso pagar um café como pedido de desculpas formal pela intervenção do Ruan — Rafael arriscou, o coração disparado.
Clara guardou o livro na mochila e se levantou. A calça azul, de perto, era realmente apenas uma calça, mas para Rafael, ela continuaria sendo o marco zero de sua coragem.
— Aceito o café. Mas se o seu amigo fumante vier correndo de novo, eu vou usar minhas habilidades de Letras para escrever um poema muito ofensivo sobre vocês.
— Justo — concordou Rafael, caminhando ao lado dela, sentindo-se o homem mais sortudo do campus.
Enquanto se afastavam, Miguel e Matheus saíram de trás da pilastra, boquiabertos.
— Não é que funcionou? — Matheus comentou, impressionado.
— O caos é a melhor estratégia — Miguel concluiu, pegando o celular para avisar Gabriel que o perigo feminino havia sido neutralizado, pelo menos por enquanto.
Longe dali, Ruan observava a cena de longe, acendendo outro cigarro com um sorriso de satisfação no rosto. O plano, por mais torto que fosse, tinha seguido o curso natural das coisas na JM. Rafael finalmente existia para a Calça Azul, e o azul nunca pareceu tão brilhante.
