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Fandom: record of ragnarok

Criado: 24/06/2026

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O Espelho de Jade: A Verdade Sob a Coroa

O salão de Valhala estava mergulhado em um silêncio atípico. Deuses e humanos, separados por milênios de rancor e pelo sangue já derramado na arena do Ragnarok, encontravam-se momentaneamente unidos por uma perplexidade comum. No centro do grande anfiteatro, uma projeção etérea, conjurada pelas memórias do próprio registro cósmico da humanidade, começou a exibir imagens que ninguém esperava ver.

Qin Shi Huang, o Primeiro Imperador da China, estava sentado em uma poltrona luxuosa que ele mesmo trouxera para o meio do corredor, ignorando completamente as divisões de classe. Ele mantinha a venda sobre os olhos e um sorriso enigmático nos lábios, enquanto Hades, o Rei do Submundo, o observava de longe com uma expressão de seriedade profunda e respeito cauteloso.

A imagem na tela tremulou e se estabilizou. Não mostrava o campo de batalha, nem o trono de Xianyang. Mostrava uma adolescente.

Ela tinha o rosto idêntico ao de Qin, mas seus cabelos eram longos, adornados com fitas delicadas, e ela vestia um robe feminino tradicional, pesado e restritivo. Na projeção, a jovem Qin olhava para o próprio reflexo em um espelho de jade com uma tristeza que parecia pesar mais que as montanhas da China.

— O que é isso? — murmurou Zeus, coçando a barba rala, os olhos arregalados. — Uma irmã do Imperador?

— Não — interrompeu Brunhilde, com a voz falhando por um breve segundo. — Olhem bem.

Na projeção, a jovem viu um homem passar pelo pátio. Ele tinha cabelos curtos, vestes práticas e uma liberdade nos movimentos que ela claramente invejava.

— Eu queria ser assim... — sussurrou a jovem na imagem, sua voz carregada de um desejo proibido.

A cena mudou bruscamente. Um homem mais velho, o patriarca da família, surgiu com o rosto vermelho de fúria. O som de um tapa ecoou pelo salão de Valhala, fazendo com que alguns humanos, como Jack, o Estripador, estreitassem os olhos, e deuses como Héracles sentissem uma pontada de indignação.

— Isso não é coisa de mulher! — gritou o pai na visão. — Você nasceu para ser a joia da casa, para dar herdeiros a um clã poderoso! Esqueça essas tolices de guerreiros e imperadores. Você é uma mulher e morrerá como uma!

A imagem saltou no tempo. O pai estava morto, deitado em um leito de mármore. A jovem, agora um pouco mais velha, não chorava. Havia uma determinação gélida em seus olhos. Ela pegou uma lâmina afiada. Com movimentos precisos e sem hesitação, começou a cortar as longas mechas de cabelo, deixando-as cair ao chão como correntes quebradas.

Em seguida, a cena mostrou a agulha de tatuagem perfurando a pele, desenhando as marcas que agora adornavam o rosto do Imperador. Ela vestiu as roupas de seda masculina, ajustou a armadura sobre o peito e caminhou em direção ao espelho.

— Eu não sou o que você disse — disse a figura na tela, sua voz agora mais firme, transformando-se na voz do homem que todos conheciam. — Eu sou o Rei. Onde eu piso, é o meu caminho. Onde eu sento, é o meu trono.

A projeção se desvaneceu, deixando o salão em um silêncio sepulcral. Todos os olhares se voltaram para Qin Shi Huang.

O Imperador não se moveu. Ele continuou sentado, cruzando as pernas com uma elegância absoluta. O sorriso não vacilou, mas havia uma aura de poder renovado ao seu redor.

— Então... — começou Shiva, quebrando o gelo, coçando a cabeça com dois de seus braços. — O Imperador da China nasceu em um corpo feminino?

— O nascimento é apenas o rascunho da natureza — disse Qin, sua voz ecoando com uma autoridade que exigia submissão. — O Rei é aquele que esculpe a própria alma. Hao!

Hades, que até então permanecia em silêncio, deu um passo à frente. Sua presença como soberano de Helheim era esmagadora, mas não havia escárnio em seus olhos. Ele olhou para Qin não como um deus olha para um inseto, mas como um rei olha para outro.

— Você enfrentou a própria essência com a qual o destino tentou rotulá-lo — disse Hades, sua voz profunda e melodiosa. — Muitos deuses nascem com o poder entregue em bandejas de ouro. Você, Qin Shi Huang, parece ter tomado o seu trono não apenas do mundo, mas de si mesmo.

Qin riu, um som cristalino e audacioso.

— Rei do Submundo, você fala bem — disse Qin, levantando-se e caminhando até ficar a poucos metros de Hades. — O destino tentou me dar um papel, mas eu sou o autor da minha própria história. Para um Rei, não existem barreiras de gênero, apenas a vontade de governar e proteger seu povo.

— Isso explica muita coisa — comentou Nikola Tesla, ajustando seus óculos e anotando algo em um caderno invisível. — A resiliência, a redefinição do "eu". Uma transformação biológica e social completa através da força de vontade. Fascinante!

— É apenas um homem que sabe quem é — rosnou Leônidas I, cruzando os braços e soltando uma baforada de seu charuto. — No campo de batalha, o que importa é se você consegue segurar a linha. E esse sujeito... ele é um de nós.

Sasaki Kojiro sorriu gentilmente, limpando sua espada.

— Eu sempre senti uma dualidade interessante nele — disse o espadachim. — Uma suavidade que esconde uma força absoluta. Agora faz sentido. Ele teve que lutar uma guerra antes mesmo de pegar em uma arma.

No lado dos deuses, a reação era mista. Ares parecia confuso, tentando processar a informação, enquanto Hermes observava com um sorriso divertido. Beelzebub permanecia apático, embora seus olhos mostrassem um brilho de curiosidade mórbida.

Hades, no entanto, não desviou o olhar de Qin.

— Eu valorizo a linhagem e o dever acima de tudo — disse o Deus dos Mortos. — Mas vejo que seu dever foi para com a sua própria verdade. Isso exige um tipo de coragem que muitos deuses não possuem. Eles se escondem atrás de seus títulos de nascimento. Você criou o seu.

Qin Shi Huang aproximou-se ainda mais, quebrando o espaço pessoal do deus sem o menor sinal de medo. Ele estendeu a mão e tocou levemente o ornamento no ombro de Hades. Devido à sua sinestesia toque-espelho, Qin sentiu uma pontada de cansaço e responsabilidade vinda de Hades — a dor de carregar o peso de um reino de sombras e a saudade de seus irmãos.

Qin sorriu, desta vez de forma mais suave, quase imperceptível.

— Você também carrega muitas dores, Rei do Submundo — disse Qin em voz baixa, de modo que apenas Hades pudesse ouvir. — Eu as sinto. Elas são como cicatrizes invisíveis, não são?

Hades estremeceu levemente. Ninguém jamais havia falado com ele daquela forma, com tamanha percepção.

— Como você...? — Hades começou, mas parou. Ele se lembrou da habilidade de Qin. — Entendo. Você vê através de mim.

— Eu vejo um Rei — respondeu Qin, voltando à sua postura exuberante e apontando para si mesmo. — E você vê o seu superior! Hao!

Hades soltou uma risada curta, algo raro para o estóico governante de Helheim.

— Sua arrogância é verdadeiramente divina, humano.

— Arrogância? — Qin inclinou a cabeça, fazendo as joias em seu cabelo tilintarem. — Não. É apenas a confiança de quem precisou morrer para o mundo como mulher para poder nascer para si mesmo como Imperador.

Brunhilde, observando a interação das sombras, soltou um suspiro de alívio. Ela temia que a revelação pudesse abalar a confiança de Qin ou gerar escárnio que o distraísse, mas ela deveria ter conhecido melhor seu representante. Qin Shi Huang não era definido pela opinião de deuses ou homens.

— Ele é incrível, não é, irmã? — perguntou Göll, com os olhos brilhando de admiração.

— Ele é o Primeiro Imperador — respondeu Brunhilde. — Ele não pede permissão para existir.

Enquanto isso, os outros humanos começaram a se aproximar. Lu Bu deu um aceno seco de cabeça, um sinal de respeito máximo de um guerreiro para outro. Adão, o Pai da Humanidade, caminhou até Qin e colocou uma mão em seu ombro.

— Meu filho — disse Adão com sua voz calma e terna —, você lutou bem para ser quem é. Estou orgulhoso.

Qin sentiu a onda de amor incondicional de Adão através de sua sinestesia. Por um momento, a máscara de imperador inabalável fraquejou, e ele apenas acenou, aceitando o carinho do progenitor.

Hades observava a cena, sentindo uma estranha pontada de admiração. O Ragnarok era uma luta pela sobrevivência, mas naquele momento, parecia uma celebração da identidade humana.

— Diga-me, Qin Shi Huang — disse Hades, retomando o tom sério —, por que continuar com essa fachada de superioridade absoluta, mesmo agora que todos conhecem suas origens humildes e sua luta interna?

Qin Shi Huang virou-se, o manto balançando majestosamente. Ele caminhou até o centro do salão, onde todos podiam ouvi-lo.

— Porque um Rei não é definido por como ele começou, mas por onde ele termina! — declarou ele, sua voz ressoando como um trovão. — Eu não sou o Primeiro Imperador apesar de quem eu era. Eu sou o Primeiro Imperador por causa de quem eu sou! Minha jornada, minhas dores e minha transformação são o que me tornam o trono vivo!

Ele apontou para o próprio peito.

— Se os deuses pensam que podem me menosprezar por eu ter escolhido meu próprio caminho, que venham tentar! Eu os esmagarei com o peso de dez mil anos de história chinesa!

Hades sorriu de lado, segurando seu bidente com força.

— Então, que assim seja. No campo de batalha, não haverá "homem" ou "mulher", nem "deus" ou "transgressor". Haverá apenas dois Reis.

— Exatamente — disse Qin, ajustando sua venda. — E apenas um de nós sairá de lá com a coroa intacta.

O Imperador voltou para sua cadeira improvisada, sentando-se com a mesma arrogância carismática de sempre. Ele sabia que, a partir daquele dia, a humanidade e os deuses o veriam de forma diferente. Alguns com confusão, outros com admiração, e muitos com respeito renovado.

Mas, para Qin Shi Huang, nada havia mudado de verdade. Ele ainda era o homem que unificou a China, o homem que desafiou o destino e o homem que sentia a dor do mundo em seu próprio corpo — e usava essa dor para se tornar um escudo para seu povo.

Onde ele sentava, era o trono. E ninguém, nem mesmo o Rei do Submundo, poderia dizer o contrário.
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