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Fandom: record of ragnarok

Criado: 24/06/2026

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O Espelho Quebrado do Imperador

A sala de projeção no Valhalla estava mergulhada em um silêncio sepulcral. Deuses e humanos, outrora prontos para se degolarem na arena do Ragnarok, agora estavam paralisados diante da imensa tela flutuante que Brunhilde havia convocado. O que deveria ser uma análise de táticas de combate transformara-se em uma janela para o passado traumático do Primeiro Imperador da China.

Qin Shi Huang, que minutos antes caminhava sobre as cabeças dos deuses e reivindicava qualquer lugar como seu trono, agora estava estático. Sua venda parecia pesar toneladas sobre seus olhos. Ao seu lado, Hades, o Rei do Submundo, observava a tela com uma expressão de seriedade inabalável, seus olhos carmesins captando cada nuance da dor que emanava do homem ao seu lado.

Na tela, a imagem mostrava um Qin muito mais jovem, ainda sem a armadura dourada ou a confiança absoluta. Ele estava em um penhasco, sob um céu cinzento que parecia refletir sua alma. Diante dele, um homem alto, de feições cruéis, gritava obscenidades.

— Você não é nada sem mim! — o homem no vídeo rugiu, desferindo um tapa violento no rosto do jovem Qin.

O impacto foi sentido por todos na sala. Devido à sinestesia toque-espelho de Qin, o imperador atual estremeceu visivelmente, levando a mão ao rosto como se a ferida tivesse acabado de ser aberta.

Na projeção, o namorado de Qin avançou novamente, as mãos fechando-se em torno do pescoço do jovem. O desespero brilhou nos olhos do rapaz. Em um movimento instintivo de sobrevivência, um empurrão desesperado, Qin usou toda a força que lhe restava. O agressor, pego de surpresa pelo súbito revide, tropeçou para trás. O terreno cedeu. Com um grito abafado, o homem desapareceu no abismo.

O silêncio no vídeo era interrompido apenas pelo som do vento. O jovem Qin caminhou até a beira, ofegante, os olhos arregalados de puro terror.

— Fudeu... — sussurrou o jovem na tela, a voz falhando. — Eles vão me matar. Eles vão me caçar como um animal.

Ele caiu de joelhos, o corpo tremendo violentamente. O desespero era palpável. Ele não parecia um assassino; parecia uma presa que, por um milagre terrível, havia abatido o predador e agora temia a retaliação da floresta.

A cena cortou para o retorno de Qin ao palácio. Ele estava pálido, limpando o sangue do lábio. Quando questionado pelos guardas e pela corte sobre o paradeiro de seu companheiro, ele forçou um sorriso quebrado, a primeira semente da máscara que usaria pelo resto da vida.

— Ele fugiu — disse o jovem Qin, a voz trêmula mas ganhando uma falsa firmeza. — Disse que não suportava mais a vida na corte e partiu para as montanhas.

Os nobres acreditaram. Mas a paz durou pouco. A figura imponente de seu pai, o Rei anterior, entrou no salão. Ele não carregava preocupação, apenas desprezo.

— Fugiu? — o pai rugiu, aproximando-se de Qin com passos pesados. — É claro que fugiu. Quem suportaria ficar ao lado de uma aberração como você?

O Rei agarrou Qin pelo ombro, apertando com força suficiente para deixar marcas.

— Você é um inútil — sentenciou o pai, cada palavra como uma adaga. — Não serve nem para manter uma pessoa ao seu lado. Olhe para você, sentindo a dor dos outros como um fraco. Você vai morrer sozinho, Qin. Ninguém jamais amará um monstro que afasta todos ao seu redor.

Na tela, o jovem Qin não respondeu. Ele apenas baixou a cabeça enquanto as lágrimas começavam a cair silenciosamente, manchando o chão de mármore.

A tela se apagou.

O silêncio na sala do Ragnarok era tão denso que podia ser cortado com uma espada. Lu Bu cruzou os braços, uma centelha de respeito sombrio nos olhos; ele conhecia o peso de ser odiado. Jack, o Estripador, inclinou a cabeça, reconhecendo a cor da tristeza profunda que emanava de Qin.

— Então... — a voz de Zeus quebrou o silêncio, menos estridente que o habitual. — O Imperador tem esqueletos no armário.

— Não chame isso de esqueleto — sibilou Buda, ajustando seus óculos escuros, visivelmente irritado com a crueldade do que vira. — Isso foi legítima defesa contra um lixo humano.

Hades, que permanecera em silêncio absoluto, virou-se lentamente para Qin. O Imperador da China estava de pé, mas seus ombros não estavam tão eretos quanto antes. Ele ainda sorria, mas era um sorriso vazio, uma armadura emocional que estava rachando diante de todos os deuses e humanos.

— Hao... — Qin sussurrou, tentando recuperar sua postura. — Um show interessante, não acham? O trono exige sacrifícios, e o meu passado é apenas...

— Pare — a voz de Hades soou como um trovão calmo.

Qin parou de falar imediatamente. Ele sentiu a presença do Rei do Submundo se aproximando. Como alguém que sentia a dor alheia, Qin percebeu que Hades não emanava zombaria ou desprezo. Ele emanava uma compreensão profunda e uma autoridade protetora.

— Aquele homem, o seu pai... — Hades começou, seus olhos fixos nos de Qin, mesmo através da venda. — Ele não era um rei. Um rei protege seu povo, mas um verdadeiro soberano começa protegendo o valor de seu próprio sangue.

— Eu fiz o que tinha que fazer para sobreviver — disse Qin, a voz ainda vacilante. — Eu o matei. Eu menti. Eu sou o soberano que caminha sobre cadáveres.

— Você matou um carrasco — corrigiu Hades, dando mais um passo à frente. — Como governante do Submundo, eu vi bilhões de almas. Vi assassinos, vi santos e vi aqueles que foram quebrados pela vida. O que vi naquela tela não foi um monstro. Foi uma criança tentando não se afogar em um mar de dor que não pertencia a ela.

Sasaki Kojiro suspirou, limpando uma lágrima discreta.

— O peso de sentir cada golpe que se recebe e cada golpe que se dá... — murmurou o espadachim. — Como você conseguiu carregar isso sozinho por tanto tempo, garoto?

— Porque eu sou o Imperador — respondeu Qin, embora o título soasse mais como um escudo do que como uma ostentação agora. — Onde eu me sento, é o trono. E um trono não pode tremer.

— Um trono sustentado apenas por traumas é frágil — disse Beelzebub do fundo da sala, sua voz desprovida de emoção, mas seus olhos focados na dor de Qin. — Mas um trono forjado no fogo da sobrevivência é eterno.

Hades estendeu a mão, mas não para atacar. Ele tocou suavemente o ombro de Qin. O imperador estremeceu. Devido à sua sinestesia, ele sentiu a mão de Hades. Mas, pela primeira vez, não sentiu dor. Sentiu uma calma gélida e reconfortante, a estabilidade de alguém que governa o repouso final.

— Meu irmão Poseidon acreditava que deuses não precisam de companheiros, que somos perfeitos em nossa solidão — disse Hades, olhando para os outros deuses, inclusive para um Zeus incomumente calado. — Mas ele estava errado. Mesmo um rei precisa ser visto.

Qin sentiu as lágrimas que segurava há milênios começarem a queimar sob a venda. As palavras de seu pai — "você vai morrer sozinho" — ecoavam em sua mente como um feitiço maldito.

— Ele disse que eu morreria sozinho — sussurrou Qin, sua voz finalmente quebrando.

— Ele era um tolo — afirmou Hades com uma convicção absoluta. — Você está diante de deuses e heróis da humanidade. Você enfrentou a mim, o Rei do Submundo, sem recuar um centímetro. Se o destino decretasse que você deveria morrer sozinho, ele teria que passar por cima do meu cadáver primeiro. Pois eu reconheço em você não um inútil, mas um igual.

Nikola Tesla deu um passo à frente, ajustando suas luvas mecânicas.

— A ciência diz que a energia não se perde, ela se transforma! — exclamou o cientista com um brilho de encorajamento. — Aquela dor que você sentiu, Qin Shi Huang, você a transformou na força para unir um império. Isso não é ser inútil. Isso é a maior demonstração de vontade humana que já vi!

— É isso aí, baixinho! — gritou Raiden Tameemon, batendo no peito. — Se alguém aqui te chamar de inútil, vai ter que se ver com os maiores músculos da história!

Qin Shi Huang soltou uma risada curta, que rapidamente se transformou em um soluço. Ele levou as mãos ao rosto, cobrindo a venda, enquanto o choro que ele suprimiu durante toda a sua vida adulta finalmente transbordava. Ele não chorava como um imperador; chorava como o jovem que se viu sozinho naquele penhasco, mas que agora percebia que a floresta não estava cheia de predadores, mas de aliados improváveis.

Hades não se afastou. Ele permaneceu ali, uma presença sólida e digna, oferecendo ao seu oponente o único luxo que um rei raramente possui: o direito de ser vulnerável.

— Chore, Imperador da China — disse Hades suavemente. — Deixe que as águas lavem as mentiras daquele velho. O Ragnarok continuará, e nós lutaremos com tudo o que temos. Mas, neste momento, você não está no seu trono. Você está entre iguais.

Leônidas I, o rei de Esparta, bufou e acendeu um charuto, exalando a fumaça para o teto.

— Um homem que mata seu opressor e depois governa um povo não é alguém que morre sozinho — disse o espartano. — Ele é alguém que abre caminho para que outros não precisem sofrer o mesmo.

Qin finalmente baixou as mãos. Seu rosto estava molhado, e sua venda um pouco desalinhada, mas seus lábios se curvaram em um sorriso diferente. Não era o sorriso exuberante e arrogante de antes, nem a máscara quebrada de minutos atrás. Era o sorriso de alguém que havia encontrado uma verdade mais profunda.

— Hao... — ele disse novamente, desta vez com uma clareza cristalina. — Vocês são realmente pessoas problemáticas. Como ousam dizer tais coisas ao Imperador?

Ele se endireitou, ajustando suas vestes com a elegância habitual. Olhou para Hades e, por um breve momento, a rivalidade do Ragnarok foi substituída por um respeito que transcendia a vida e a morte.

— Rei do Submundo — disse Qin, inclinando levemente a cabeça. — Suas palavras têm peso.

— E as suas têm valor, Qin Shi Huang — respondeu Hades, retornando para o lado dos deuses, mas mantendo o olhar sobre o homem.

O clima na sala mudara. A tensão da batalha iminente ainda existia, mas algo fundamental havia se transformado. O Imperador da China não era mais apenas uma figura de arrogância e poder; ele era um homem que havia vencido a maior das batalhas: a batalha contra o desprezo daqueles que deveriam tê-lo amado.

Brunhilde, observando de longe, fechou os olhos por um momento, sentindo um raro aperto no peito. Ela sabia que o destino de muitos ali era a extinção, mas, por um breve instante na eternidade, a humanidade e a divindade haviam se encontrado na única linguagem que ambos compartilhavam perfeitamente.

A linguagem da dor superada.

Qin Shi Huang caminhou até uma das poltronas ornamentadas da sala. Ele não caminhou sobre as cabeças de ninguém desta vez. Ele simplesmente se sentou, cruzou as pernas e recuperou sua aura de majestade.

— Podem continuar com a reunião — anunciou ele, o brilho voltando aos seus gestos. — O trono está ocupado, e o imperador está pronto para ouvir.

Mas, enquanto as discussões recomeçavam, a mão de Qin repousou discretamente sobre o peito, onde o trauma costumava pulsar. O vazio que as palavras de seu pai haviam deixado ainda estava lá, mas agora, parecia preenchido por algo novo. Ele não morreria sozinho. Ele era o Imperador, e agora, ele tinha o respeito até mesmo dos reis dos mortos.
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