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Fandom: record of ragnarok

Criado: 24/06/2026

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O Despertar do Rei Descalço: Barro, Honra e Velocidade

O céu sobre a arena do Valhalla estava carregado, uma massa cinzenta e opressiva que parecia refletir a tensão acumulada de inúmeras rodadas de combate. No entanto, o que ocorria naquele momento não era uma luta oficial do Ragnarok. Deuses e humanos, momentaneamente unidos pela curiosidade mórbida, estavam amontoados nas sacadas e parapeitos dos jardins suspensos.

Lá embaixo, nos campos que cercavam o palácio, uma cena absurda se desenrolava. Qin Shi Huang, o Primeiro Imperador da China, estava sendo perseguido por uma criatura abissal — um demônio das profundezas de Helheim, conhecido por sua velocidade estonteante e sede de sangue, que de alguma forma havia escapado do controle durante uma transferência de prisioneiros.

— Esse pirralho... — murmurou Zeus, acariciando a barba enquanto observava a cena de cima. — Ele realmente sabe como atrair problemas, não é, Hades?

Hades, o Rei do Submundo, permanecia imóvel, com os braços cruzados e o olhar fixo na figura de Qin. Havia uma mistura de preocupação contida e admiração em seu rosto nobre. Ele sabia que Qin era capaz, mas aquele demônio era uma anomalia de velocidade pura.

— Ele está se movendo com uma agilidade impressionante — comentou Hades, sua voz profunda e calma ecoando entre os deuses. — Mas a armadura e aqueles adornos reais estão começando a pesar.

Lá embaixo, Qin Shi Huang sentiu exatamente o que Hades descrevera. Cada passo que dava, o som metálico de seus protetores de dedos e o balanço de sua capa pesada de seda pareciam gritar sua posição para a fera. A chuva começou a cair, primeiro como um sussurro, depois como um dilúvio, encharcando suas vestes reais.

— Que incômodo... — sibilou Qin para si mesmo, um sorriso arrogante ainda brincando em seus lábios, apesar da respiração ofegante. — Um rei não deve ser perseguido, mas um rei também sabe quando deve se livrar do que o atrasa.

Em um movimento fluido que deixou os espectadores boquiabertos, Qin começou a se despir em plena corrida. Primeiro, ele arrancou a capa majestosa, deixando-a voar como um fantasma escarlate no vento. Em seguida, desfez-se do casaco ricamente bordado. Os protetores de dedos — as garras que eram sua marca registrada — foram lançados ao chão um a um, tilintando no pavimento antes de serem engolidos pela grama.

— Ele está... ficando pelado? — perguntou Jack, o Estripador, ajustando o monóculo com um interesse clínico.

— Não seja tolo, Jack — rebateu Buda, mastigando um doce enquanto observava com os olhos semicerrados. — Ele está tirando o peso morto. Olhe só para ele agora.

Sem os adornos, Qin Shi Huang parecia uma criatura diferente. Sob as roupas pesadas, revelou-se um corpo atlético e definido, marcado por cicatrizes que contavam histórias de batalhas e dores passadas. Seus cabelos, agora livres de adornos, grudavam em seu rosto pela chuva, realçando as linhas finas de sua beleza natural, que muitos haviam esquecido sob a pompa imperial.

— Pelos deuses... — murmurou Afrodite em algum lugar da plateia, mas sua voz foi abafada pelo trovão.

Qin parou por um milésimo de segundo. Seus sapatos reais, ornamentados e rígidos, faziam um som de clique-claque que ecoava nas pedras, facilitando o rastreio do demônio. Com um movimento rápido, ele os chutou para longe.

— Agora — disse Qin, sentindo a grama fria e a lama sob os pés descalços —, o trono se move para onde eu desejar.

Ele disparou como um raio. Sem o peso extra, sua velocidade dobrou. Ele era um borrão de pele e calças leves, ziguezagueando entre as árvores ornamentais. Os humanos nas galerias começaram a torcer.

— Vai, Majestade! — gritou Raiden Tameemon, socando o ar. — Mostre a esse monstro quem manda no asfalto!

— A técnica dele é impecável, mesmo em fuga — observou Sasaki Kojiro, simulando os movimentos de Qin com as mãos. — Ele está usando o vento e a chuva a seu favor.

No entanto, a natureza tinha outros planos. Ao fazer uma curva fechada em direção a um arco de pedra, os pés de Qin encontraram uma poça de lama profunda e traiçoeira. O equilíbrio que o mantinha como um soberano falhou.

Em um momento de pura comédia trágica, o Primeiro Imperador da China escorregou. Seus braços giraram no ar por um segundo antes de ele cair, com um som úmido e pesado, de cara na lama.

O silêncio caiu sobre o Valhalla. Até o demônio parou por um instante, confuso pela queda súbita de sua presa.

— Oh, não... — sussurrou Nikola Tesla, levando a mão à testa. — O coeficiente de fricção foi reduzido a quase zero pela saturação da água no solo argiloso. Era inevitável.

Hades deu um passo à frente na sacada, os nós dos dedos ficando brancos enquanto ele apertava o parapeito. Seu coração, geralmente tão controlado, deu um salto estranho.

Mas Qin Shi Huang não era um homem comum.

Com um movimento explosivo, ele se levantou. A lama cobria metade de seu rosto e seu peito, mas seus olhos brilhavam com uma intensidade que poderia queimar o próprio céu. Ele não limpou o rosto; ele não reclamou. Ele apenas sorriu, um sorriso selvagem e genuíno, e voltou a correr com ainda mais ímpeto.

— Ele nem hesitou — disse Leônidas I, cruzando os braços com um aceno de respeito. — Esse é o espírito de um guerreiro. A lama é apenas pintura de guerra.

Qin continuou sua fuga frenética, agora parecendo mais um espírito da floresta do que um imperador. Ele saltou sobre uma mureta, usou o tronco de uma árvore para ganhar impulso e, finalmente, avistou o portão de ferro dos jardins internos, onde as sentinelas de elite e os outros Einherjar o esperavam.

Com um último esforço, ele deslizou por baixo do portão que se fechava, deixando o demônio colidir violentamente contra o metal sagrado.

Ofegante, Qin sentou-se no chão de mármore do pátio interno, o peito subindo e descendo. Ele estava coberto de barro, descalço e semidinu, mas exalava uma aura de vitória que faria qualquer exército se ajoelhar.

— Isso... — começou Qin, cuspindo um pouco de água da chuva — ...foi divertido.

— Divertido? — A voz de Hades soou acima dele.

O Rei do Submundo havia descido das galerias com uma velocidade que poucos notaram. Ele parou diante de Qin, sua capa roxa arrastando levemente no chão limpo. Hades estendeu a mão para o homem caído.

Qin olhou para a mão enluvada e depois para o rosto sério de Hades.

— Você está uma bagunça, Imperador — disse Hades, embora houvesse um brilho de diversão em seus olhos.

— Um rei — respondeu Qin, segurando a mão de Hades e deixando-se ser puxado para cima — fica bem em qualquer traje. Até mesmo em lama.

— Você é um homem arrogante — murmurou Hades, aproximando-se o suficiente para que apenas Qin ouvisse. — Mas devo admitir... a simplicidade lhe cai bem. Você parece... mais real.

Qin Shi Huang sentiu a dor da queda através de sua sinestesia, mas o calor da mão de Hades e o respeito em sua voz serviram como um bálsamo. Ele limpou um pouco de lama da bochecha e olhou para os outros deuses e humanos que agora se aproximavam.

— Vejam bem! — gritou Qin para a multidão, abrindo os braços. — Hoje, a lama tentou reclamar o Imperador, mas até a terra sabe que deve se curvar ao meu passo!

— Ele é inacreditável — suspirou Brunhilde, aparecendo atrás de Göll, que ainda estava em choque. — Quase morre e ainda faz um discurso.

Soji Okita e Sakata Kintoki riram alto, enquanto Thor e Odin observavam de longe, o primeiro com um sorriso de canto de boca e o segundo com sua habitual expressão de indiferença pétrea.

Hades, ainda perto de Qin, retirou seu próprio lenço de seda fina e o entregou ao imperador.

— Limpe-se antes que Zeus decida que você é uma nova espécie de criatura do pântano e tente colocá-lo em um aquário — aconselhou o Deus dos Mortos.

Qin pegou o lenço, mas em vez de usá-lo imediatamente, ele olhou para Hades com um olhar que atravessava as máscaras de ambos.

— Obrigado, Rei do Submundo. Mas saiba de uma coisa... — Qin se inclinou, o cheiro de chuva e terra emanando dele. — Eu corro rápido, mas nunca fujo de um desafio que valha a pena.

Hades sustentou o olhar, sentindo o peso daquelas palavras.

— Eu sei — respondeu Hades. — E é por isso que eu estava assistindo.

Enquanto os servos traziam toalhas e novas vestes, e os outros guerreiros começavam a debater a performance atlética de Qin, o Imperador permaneceu ali por um momento, descalço no mármore frio. Ele era o homem que unificou a China, o homem que sentia a dor do mundo, e naquele momento, o homem que havia vencido a própria dignidade para sobreviver.

A chuva continuava a cair, lavando o barro do pátio, mas a imagem de Qin Shi Huang — selvagem, natural e absolutamente indomável — permaneceria na memória de deuses e homens por muito tempo depois que o Ragnarok chegasse ao fim.

— Ei, Qin! — gritou Adão, acenando de longe com uma maçã na mão. — Belo tombo! Nota oito pela técnica, zero pelo pouso!

Qin riu, uma risada clara e vibrante que ecoou pelas paredes do Valhalla.

— Da próxima vez, Pai da Humanidade, eu farei a lama pedir desculpas por estar no meu caminho!

E assim, entre risos e olhares de admiração silenciosa, o dia mais estranho do Valhalla seguiu seu curso, provando que, mesmo entre seres divinos e lendas eternas, não havia nada mais majestoso do que a vontade inquebrável de um rei que não teme sujar as mãos — ou o rosto — para continuar sua jornada.
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