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Fandom: record of ragnarok

Criado: 24/06/2026

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O Reflexo da Dor sob a Coroa de Vidro

A poeira da batalha ainda não havia baixado completamente nos corredores do Valhalla. O ar estava pesado, saturado com o cheiro metálico de sangue divino e humano, misturado ao ozônio deixado pelos ataques de Tesla e o odor de terra queimada das chamas de Shiva. A incursão dos Titãs, que tentaram aproveitar a distração do Ragnarok para uma revolta, havia sido contida, mas o preço fora visível nos corpos dos maiores guerreiros da história e do mito.

No centro do grupo que retornava, a figura de Qin Shi Huang se destacava, mas não pela sua habitual exuberância. Ele caminhava com uma mão espalmada contra a parede de mármore, os dedos longos e finos tremendo levemente. O que mais chamava a atenção, porém, era a ausência de sua venda. Seus olhos, de uma profundidade abissal e brilhante, estavam fixos no chão, mas suas pupilas se contraíam a cada passo de seus companheiros.

Ao seu redor, o cenário era de devastação física. Lu Bu carregava um corte profundo no ombro; Raiden exibia hematomas arroxeados que cobriam metade do torso; até mesmo o grande Zeus parecia murcho, com um braço pendendo inutilmente ao lado do corpo. Hades, que caminhava logo atrás do Imperador da China, mantinha sua postura nobre, embora sua túnica estivesse rasgada e o sangue escorresse de um ferimento na lateral do rosto.

Qin soltou um gemido abafado, uma careta de agonia distorcendo suas feições delicadas. Ele sentiu uma pontada aguda no ombro — o corte de Lu Bu. Logo em seguida, uma pressão esmagadora no peito — os pulmões castigados de Raiden. E então, o latejar constante no rosto — o ferimento de Hades.

— Ei, reizinho, você parece pior do que quem realmente lutou na linha de frente — comentou Okita Soji, limpando o sangue de sua katana, sem perceber o que estava acontecendo.

— Qin? — A voz de Hades era baixa e carregada de uma preocupação incomum para o Rei do Submundo. Ele estendeu a mão para tocar o ombro do imperador, mas recuou ao ver Qin se encolher como se tivesse sido queimado.

— Não... — sibilou Qin, a voz falhando. — Não cheguem perto.

— Você está pálido, Imperador — disse Brunhilde, aproximando-se com os punhos cerrados. — Precisa ir para a enfermaria agora.

Qin não respondeu. Ele não tinha fôlego para explicar que cada ferida exposta naquele corredor estava sendo replicada em seu próprio sistema nervoso. Sua sinestesia toque-espelho, desprotegida pela venda que se perdera no caos, transformara o corredor em uma câmara de tortura sensorial. Ele era o espelho de todos os danos ali presentes.

Sem dizer uma palavra, ele se empurrou da parede e começou a andar mais rápido, ignorando os chamados de Buda e as perguntas confusas de Leônidas. Ele precisava de isolamento. Precisava de água. Precisava de silêncio para sua própria carne.

Enquanto a figura solitária de Qin desaparecia virando o corredor, os outros guerreiros ficaram parados, confusos. Foi Jack, o Estripador, que ajustou sua cartola e soltou um suspiro melancólico, observando a "cor" de Qin que desbotava para um cinza doloroso.

— Cavalheiros, temo que nossa presença seja o veneno de Sua Majestade no momento — disse Jack, sua voz calma ecoando no silêncio.

— Do que você está falando, inglês? — rosnou Thor, cruzando os braços, o que fez Qin, em algum lugar distante, sentir uma pressão nos bíceps.

— O Imperador possui uma condição... uma bênção e uma maldição — explicou Jack, olhando para as próprias mãos enluvadas. — Ele sente a dor que vê. Sua sinestesia faz com que o sofrimento alheio se torne dele. Sem a venda para filtrar o que seus olhos captam, ele está sentindo cada corte, cada osso quebrado e cada hematoma que todos os presentes carregam neste exato segundo.

Um silêncio pesado caiu sobre o grupo. Hades estreitou os olhos, a compreensão brilhando em seu olhar severo. Ele lembrou-se da luta que tiveram, da forma como Qin parecia carregar o peso do mundo.

— Então, enquanto estivermos machucados perto dele... ele estará sofrendo por nós? — perguntou Héracles, seu coração nobre apertando-se de culpa.

— Precisamente, caro herói — respondeu Jack. — Sugiro que todos visitem a enfermaria imediatamente. Se desejam o bem do Rei, curem-se.

A reação foi quase imediata. O orgulho dos deuses e a teimosia dos humanos foram deixados de lado. Zeus, que normalmente riria de um ferimento, foi o primeiro a se dirigir aos médicos, seguido por um Shiva apressado e um Beelzebub silencioso. Em poucos minutos, o corredor estava vazio, todos em busca de bandagens e néctar curativo.

Enquanto isso, em seus aposentos privados, Qin Shi Huang deixava a água fria escorrer por seu corpo. O banho não era apenas para limpar o sangue dos Titãs, mas para tentar "lavar" as sensações fantasmas que ainda grudavam em sua pele. Ele lavou sua venda de seda com cuidado, pendurando-a para secar perto da janela.

Após algum tempo, vestindo apenas um robe de seda leve, Qin sentiu que a tempestade de agonia em seus nervos finalmente começava a estiar. Ele se sentou em uma poltrona entalhada, pegou uma maçã de uma cesta de prata e deu uma mordida, o sabor doce e ácido servindo como uma âncora para a realidade. Ele ainda estava sem a venda, mas confiava que, em seus aposentos, estaria seguro.

Ele decidiu sair para o pátio central, buscando um pouco de ar fresco. Ao caminhar pelos jardins internos, Qin mantinha sua postura de superioridade, o queixo erguido, os olhos brilhando com a arrogância carismática que o definia.

— Onde o Rei caminha, o caminho se abre — murmurou para si mesmo, recuperando sua confiança.

No entanto, ao chegar ao pavilhão principal, ele parou bruscamente.

Lá estavam eles. Todos eles.

Sasaki Kojiro estava sentado em um banco, mas seu braço estava totalmente envolto em gaze branca. Raiden parecia uma múmia de tantos curativos no tronco. Até mesmo Poseidon, que normalmente desprezaria tal cuidado, tinha um penso limpo no pescoço. Hades estava de pé perto de uma coluna, a ferida no rosto coberta por um adesivo medicinal impecável.

Qin piscou, surpreso. Seus olhos percorreram o grupo, e ele percebeu algo estranho: ele não sentia nada. Nenhuma dor latejante, nenhum eco de sofrimento. Apenas o frescor da brisa.

— Mas o que é isso? — perguntou Qin, sua voz ecoando com uma mistura de diversão e confusão. — Por acaso o Valhalla abriu uma liquidação de bandagens e eu não fui avisado?

Os guerreiros se viraram. Ao verem Qin sem a venda, alguns desviaram o olhar, enquanto outros sorriram de forma sem jeito.

— Ah, Qin! — exclamou Nikola Tesla, apontando para sua própria perna enfaixada. — Decidimos que a eficiência da nossa recuperação era uma prioridade absoluta para a harmonia do grupo!

— É... — resmungou Leônidas, cruzando os braços (agora devidamente cuidados). — Não queríamos que ninguém ficasse "copiando" nossas cicatrizes de guerra por aí.

Hades deu um passo à frente, seus olhos encontrando os de Qin. O Rei do Submundo não desviou o olhar, mas sua expressão era mais suave do que o habitual.

— Jack nos explicou sua condição — disse Hades de forma direta, sem rodeios. — Um rei não deve carregar o fardo das feridas de seus súditos ou de seus iguais se isso puder ser evitado. Estamos todos devidamente tratados. Você se sente... melhor?

Qin Shi Huang ficou em silêncio por um longo momento. A maçã que ele segurava parecia subitamente pesada. Ele olhou para cada um deles — humanos e deuses que, horas antes, estavam prontos para se matar, mas que agora estavam ali, cobertos de curativos apenas para poupá-lo de um momento de desconforto.

Pela primeira vez em muito tempo, a máscara de arrogância de Qin rachou. Suas bochechas ganharam um tom leve de rubor, e ele desviou o olhar, tentando esconder o sorriso que teimava em aparecer.

— Que insolência... — murmurou Qin, embora não houvesse veneno em suas palavras. — Quem deu permissão para que vocês se preocupassem com o Grande Imperador? Eu sou aquele que governa, não aquele que precisa de proteção.

— Ora, não seja assim — riu Buda, mastigando um doce e exibindo um curativo no lóbulo da orelha. — Você estava andando como um bêbado pelos corredores. Foi um favor que fizemos a nós mesmos para não termos que te carregar.

Qin bufou, voltando a olhar para eles com aquele brilho travesso nos olhos, embora o rubor na face ainda denunciasse sua vergonha.

— Pois saibam que eu aceito esse tributo de vocês — declarou Qin, recuperando sua postura real e apontando a maçã para o grupo como se fosse um cetro. — É dever de todos garantir que o trono onde eu me sento — ele apontou para o banco de mármore — seja um lugar de paz.

Hades soltou um riso curto e seco, quase imperceptível, mas cheio de respeito.

— Você é impossível, Imperador.

— Eu sou o começo e o fim — rebateu Qin, dando outra mordida na maçã e sentando-se com a elegância de quem realmente possuía todo o universo. — Mas admito... o silêncio em meus nervos é agradável.

Ali, no pátio do Valhalla, a tensão do Ragnarok pareceu desaparecer por um breve instante. Entre bandagens e sorrisos contidos, o homem que sentia a dor de todos finalmente pôde sentir apenas o calor do sol e a estranha e nova sensação de ser cuidado por aqueles que ele considerava seus inferiores — mas que, naquele momento, eram simplesmente seus companheiros.
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