Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Desejo e Medo

Fandom: Melissa

Criado: 25/06/2026

Tags

RomanceDramaAngústiaPsicológicoHistóricoCiúmesEstudo de PersonagemNoir Gótico
Índice

O Espelho da Obsessão

O sol poente tingia as cortinas de veludo do casarão com tons de um carmesim doentio, quase da cor do vinho que Melissa segurava com os nós dos dedos brancos de tanta força. Ela caminhava de um lado para o outro em seus aposentos, o farfalhar da seda de seu vestido caríssimo sendo o único som a quebrar o silêncio sufocante. A beleza de Melissa, geralmente uma ferramenta de poder, estava distorcida por uma careta de desprezo.

Ela não conseguia tirar aquela imagem da cabeça: Felipe olhando para Lívia. Não era um olhar de cortesia, nem mesmo de amizade. Era aquele brilho de devoção que ele nunca dedicara a ela, sua noiva legítima. Para Melissa, o amor era um troféu, uma posse que deveria ser guardada sob sete chaves, e Lívia — aquela ex-noviça de gestos suaves e olhar límpido — estava tentando roubar seu prêmio mais valioso.

— Ela se faz de santa... — sibilou Melissa para o próprio reflexo no espelho de moldura dourada. — Mas por trás daquela mansidão, ela o seduz. Ela o enfeitiça com esse ar de pureza que não passa de uma máscara!

Melissa não suportava mais a dúvida. Precisava confrontar a rival. Precisava humilhá-la, sentir que ainda tinha o controle da situação. Sem avisar a ninguém, atravessou os corredores da mansão Castellini com passos decididos, o ódio servindo como combustível para sua elegância predatória.

Ela encontrou Lívia no jardim de inverno, um lugar isolado onde a luz da lua começava a substituir o crepúsculo. Lívia estava de costas, organizando algumas flores em um vaso, a postura ereta e serena, vestindo um tom de azul tão pálido que parecia quase etéreo.

— Até quando pretende continuar com esse teatro, Lívia? — A voz de Melissa cortou o ar como um chicote.

Lívia sobressaltou-se levemente, virando-se com a calma que sempre irritava Melissa. Seus olhos castanhos encontraram os olhos faiscantes da aristocrata.

— Senhorita Melissa... Eu não entendo do que está falando.

— Não entende? — Melissa aproximou-se, invadindo o espaço pessoal de Lívia, o perfume forte de jasmim que exalava de sua pele contrastando com o cheiro suave de flores do campo que vinha da outra. — Você se infiltrou nesta casa, fingindo ser uma pobre moça em busca de trabalho, mas seus olhos não saem do meu noivo. Você o persegue pelos cantos, provoca encontros "acidentais"... Você é uma oportunista, Lívia!

— Isso não é verdade — respondeu Lívia com firmeza, embora sua voz fosse baixa. — Eu respeito o compromisso de vocês. Se o Conde Felipe sente algo, não foi por minha insistência.

Melissa riu, um som amargo e seco. Ela deu mais um passo, forçando Lívia a recuar até que as costas da jovem tocassem a mesa de mármore.

— Você mente tão bem quanto reza. Acha que sou cega? Acha que não percebo como você o olha? Você quer o que é meu. Você quer a minha vida, o meu título, o homem que eu escolhi!

— Eu não quero nada que pertença a você, Melissa — disse Lívia, mantendo o contato visual. — Talvez o seu problema seja não acreditar que alguém possa ser feliz sem tirar nada de ninguém.

O insulto implícito naquelas palavras calmas fez o sangue de Melissa ferver. Ela estendeu a mão, apertando o braço de Lívia com força, as unhas bem cuidadas cravando-se levemente no tecido fino da manga.

— Você me odeia, não é? — Melissa perguntou, o rosto a poucos centímetros do de Lívia. — Odeia porque eu tenho tudo o que você nunca terá. Odeia porque eu sou a dona deste lugar.

— Eu não a odeio — Lívia suspirou, e por um momento, houve uma centelha diferente em seu olhar, algo que Melissa não soube identificar. — Eu sinto pena de você, Melissa. Você vive em uma prisão de ouro, consumida por um ciúme que a impede de ver a beleza de qualquer outra coisa.

— Pena? Você tem pena de mim? — Melissa estava trêmula de fúria. — Como ousa?

A proximidade era perigosa. Melissa observava cada detalhe do rosto de Lívia: a boca pequena, os cílios longos, a pele que parecia brilhar sob a luz da lua. O ódio que sentia era tão intenso que começava a se transformar em outra coisa, uma fixação que ela vinha alimentando há meses. Ela passava horas pensando em como destruir Lívia, o que significava que passava horas pensando em Lívia.

— Você é uma sonsa — sussurrou Melissa, sua voz subitamente rouca. — Seus lábios dizem uma coisa, mas seus olhos... o que eles dizem quando você me olha com esse desprezo disfarçado de bondade?

Lívia não recuou desta vez. Pelo contrário, ela sustentou o toque de Melissa, e sua mão subiu, segurando o pulso da aristocrata que ainda a prendia.

— Talvez eu esteja cansada, Melissa — disse Lívia, e sua voz tinha uma nota de autoridade que Melissa nunca ouvira. — Cansada das suas ameaças, dos seus insultos e dessa sua obsessão doentia por uma disputa que só existe na sua cabeça.

— Você me desafia? — Melissa sorriu, um sorriso predatório. — Você não é nada perto de mim.

— Então por que você não consegue parar de me olhar? — Lívia rebateu, a pergunta pairando no ar como um desafio. — Por que você me persegue pelos corredores? Por que gasta tanto tempo tentando me diminuir, se eu sou "nada"?

O silêncio que se seguiu foi carregado de uma tensão eletrizante. Melissa sentiu o coração disparar. Ela queria bater em Lívia, queria expulsá-la dali, mas o que sentia era uma atração magnética e repulsiva ao mesmo tempo. A pureza de Lívia era um afronta à sua natureza corrupta, e a única forma de silenciar essa afronta era corrompê-la também.

Sem pensar nas consequências, Melissa avançou, colando seu corpo ao de Lívia contra a mesa.

— Eu vou acabar com essa sua arrogância — murmurou Melissa contra os lábios da outra.

— Tente — respondeu Lívia, em um sussurro que era metade desafio, metade rendição.

O beijo não foi doce. Foi uma colisão de ressentimento e desejo reprimido. Melissa beijou Lívia com a mesma possessividade com que tratava tudo em sua vida, tentando dominar, tentando marcar território. Mas Lívia, para sua surpresa, não se retraiu. Ela respondeu com uma intensidade que Melissa não esperava de uma "santa", suas mãos subindo para o pescoço de Melissa, puxando-a para mais perto.

O mundo exterior — Felipe, a Condessa Vitória, as convenções do século XIX — desapareceu. Ali, no jardim de inverno, só existia o calor da pele e o som da respiração ofegante. Melissa puxou Lívia para longe da mesa, guiando-a até um divã escondido entre as grandes plantas ornamentais.

Melissa desamarrou as fitas do vestido de Lívia com mãos trêmulas, a urgência substituindo a etiqueta. Quando a pele alva de Lívia foi revelada à luz do luar, Melissa sentiu um aperto no peito que não era ódio. Era uma admiração que ela se proibira de sentir.

— Você me deixa louca — confessou Melissa, a voz falhando enquanto descia beijos pelo pescoço de Lívia. — Eu deveria te odiar.

— Você me odeia — disse Lívia, arqueando o corpo quando as mãos de Melissa encontraram suas curvas. — Mas você me quer mais do que odeia.

Lívia tomou a iniciativa, invertendo as posições. Ela empurrou Melissa contra o estofado do divã, seus olhos agora escuros de desejo. A doçura habitual havia dado lugar a uma determinação ardente. Ela começou a abrir os botões do corpete de Melissa, cada movimento sendo uma pequena vitória sobre a arrogância da aristocrata.

— Você fala tanto em posse, Melissa — sussurrou Lívia, seus lábios roçando a orelha de Melissa. — Mas agora, quem pertence a quem?

Melissa soltou um gemido baixo quando Lívia a tocou com uma intimidade que ela nunca permitira a ninguém, nem mesmo a Felipe em seus pensamentos mais ousados. O toque de Lívia era firme, mas carregado de uma sensibilidade que desarmava todas as defesas de Melissa. A aristocrata, sempre tão controladora, viu-se perdendo o chão, entregando-se a uma mulher que ela jurara destruir.

As mãos de Melissa se perderam nos cabelos de Lívia, puxando-a para um beijo profundo, onde o gosto de vinho e pecado se misturavam. Elas se exploraram com uma curiosidade faminta, como se estivessem descobrindo um segredo proibido que estivera escondido sob camadas de rivalidade. Cada carícia de Lívia era uma resposta aos insultos de Melissa; cada gemido de Melissa era uma confissão de que seu ódio era apenas a face visível de uma paixão avassaladora.

O ato em si foi uma dança de poder. Melissa tentava retomar o controle, mas Lívia a conhecia bem demais. Lívia sabia exatamente onde Melissa era vulnerável, como se tivesse passado o mesmo tempo observando a rival que Melissa passara observando-a. Quando os corpos finalmente se uniram em um ritmo frenético, o prazer foi tão violento que ambas sentiram como se as correntes daquela vida rígida estivessem se quebrando.

Melissa sentiu as lágrimas arderem em seus olhos enquanto chegava ao ápice, agarrada aos ombros de Lívia. Não eram lágrimas de tristeza, mas de uma libertação que ela não entendia. Por um breve momento, ela não era a herdeira orgulhosa, nem a noiva traída. Ela era apenas uma mulher sentindo-se completa nos braços da pessoa que mais temia amar.

Quando a tempestade passou, o silêncio retornou ao jardim de inverno. Elas ficaram deitadas, os corpos ainda entrelaçados, a respiração voltando ao normal. Melissa olhou para o teto, sentindo o peso do que acabara de acontecer.

Lívia foi a primeira a se mover, sentando-se e começando a recompor suas roupas com a mesma dignidade silenciosa de sempre. Melissa a observou, o orgulho tentando retornar, mas algo dentro dela havia mudado.

— Isso não muda nada — disse Melissa, embora sua voz não tivesse a convicção de antes. — Eu ainda vou me casar com Felipe.

Lívia parou, olhando para ela por cima do ombro. Havia uma tristeza suave em seus olhos, mas também uma compreensão profunda.

— Você pode se casar com ele, Melissa. Pode ter o nome, a joia e o título. Mas você sabe, agora mais do que nunca, que o que você procura não está nele.

Lívia levantou-se, ajeitando o vestido azul. Antes de sair, ela se inclinou e tocou o rosto de Melissa com a ponta dos dedos, um gesto de carinho que doeu mais do que qualquer tapa.

— O seu ódio por mim era a única coisa real que você sentia, Melissa. Agora que ele se transformou nisso... o que sobrou para você?

Lívia saiu do jardim de inverno, deixando Melissa sozinha na penumbra. A aristocrata sentou-se, sentindo o frio da noite começar a penetrar em sua pele. Ela olhou para as próprias mãos, que ainda guardavam o calor de Lívia.

Ela percebeu, com um aperto no coração, que Lívia tinha razão. A obsessão era um espelho. Melissa passara tanto tempo olhando para Lívia com ódio porque, no fundo, Lívia era a única pessoa capaz de enxergar quem Melissa realmente era por trás das máscaras de luxo.

E agora, naquele silêncio, Melissa sabia que, embora pudesse ter o mundo aos seus pés, sua alma permaneceria para sempre cativa daquela mulher que ela nunca poderia verdadeiramente possuir, mas que, por uma noite, a fizera sentir-se viva. O ódio poderia ter começado aquela história, mas o desejo a havia condenado a uma eternidade de lembranças que nenhum casamento ou título poderia apagar.
Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic