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Ciúmes retroativo

Fandom: Airbag

Criado: 25/06/2026

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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoHistória DomésticaCiúmesEstudo de Personagem
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Acordes e Cicatrizes

As luzes do Luna Park pulsavam em um ritmo frenético, acompanhando as batidas pesadas da bateria de Guido e as linhas melódicas do baixo de Gastón. No centro do palco, envolto por uma aura de magnetismo que só o rock’n’roll era capaz de proporcionar, estava Patricio Sardelli. Para os milhares de fãs que gritavam seu nome, ele era um ídolo inalcançável; para Karen, ele era apenas o Pato — o homem que, meses atrás, havia colocado um anel de noivado em seu dedo e prometido que o "para sempre" deles estava apenas começando.

Karen observava o show da lateral do palco, um lugar privilegiado onde o som era cru e a energia, avassaladora. Sendo brasileira e tendo se mudado para a Argentina para viver esse amor, ela ainda se sentia, às vezes, como uma intrusa em um mundo de gigantes. O brilho das guitarras Gibson de Patricio refletia em seus olhos castanhos, mas, naquela noite, havia uma pontada de ansiedade que nem mesmo as canções de *Al Parecer Todo Ha Sido Una Trampa* conseguiam aplacar.

Quando a última nota de "Solo Aquí" ecoou e a banda se retirou sob uma chuva de aplausos ensurdecedores, Karen sorriu, preparando-se para abraçá-lo. O backstage era um caos organizado: assistentes de palco correndo, seguranças e amigos próximos circulando.

— Você foi incrível, amor! — Karen exclamou enquanto Patricio se aproximava, o cabelo suado grudado no rosto e o peito subindo e descendo com força.

— Obrigado, linda — ele ofegou, dando-lhe um beijo rápido e salgado de suor antes de ser interceptado por um técnico. — Preciso de cinco minutos para respirar e trocar de camisa. Me espera no camarim?

Karen assentiu, sentindo o calor do ambiente. Ela caminhou pelo corredor familiar, mas, antes de chegar à porta do camarim privativo, parou abruptamente. Próximo à entrada, Patricio já não estava sozinho. Ele havia sido parado por uma mulher alta, de cabelos loiros ondulados e um sorriso que parecia iluminar o corredor mal iluminado.

Era Elena.

Karen a reconheceu imediatamente das fotos antigas e das histórias que, embora Patricio contasse com naturalidade, sempre faziam o estômago de Karen dar um nó. Elena fora uma namorada de longa data, alguém que compartilhara os primeiros anos de ascensão da Airbag. Eles haviam terminado de forma amigável e, desde então, mantinham uma amizade que Patricio descrevia como "fraterna".

— Pato! Que show incrível, sério, vocês se superaram — disse Elena, a voz carregada de uma intimidade que Karen detestava.

— Elena! Que surpresa ver você por aqui — Patricio respondeu, com um brilho de genuína alegria nos olhos. Ele a envolveu em um abraço caloroso, daqueles que duram um segundo a mais do que o necessário para alguém que está noivo. — Como você está? Faz quanto tempo?

— Tempo demais — ela riu, tocando levemente o braço dele. — Eu não podia perder essa turnê. Fico tão feliz de ver onde vocês chegaram.

Karen permaneceu estática a poucos metros de distância. A insegurança, aquele monstro silencioso que ela tentava domesticar desde que se mudara para Buenos Aires, começou a roer suas entranhas. Ela olhou para baixo, para o próprio corpo, e depois para Elena. Elena falava espanhol com a perfeição de quem nasceu ali, compartilhava piadas internas com Patricio sobre turnês passadas e parecia pertencer àquele cenário de uma forma que Karen, com seu sotaque carregado e sua vida deixada para trás no Brasil, nunca sentiria.

— Lembra daquela vez em Rosário? — Elena perguntou, rindo de algo que Patricio disse.

— Como esquecer? Quase fomos presos por causa daquele amplificador — Patricio gargalhou, jogando a cabeça para trás.

Para Karen, aquele riso soou como um tiro. Ela sentiu o ar escapar de seus pulmões. Não era apenas ciúme; era a sensação devastadora de que ela era substituível. Patricio parecia tão confortável, tão... em casa com aquela mulher. A mente de Karen começou a criar cenários: "Ele sente falta disso", "Ela o entende melhor que eu", "Eu sou apenas uma fase passageira".

Sem dizer uma palavra, sem sequer tentar chamar a atenção dele, Karen deu as costas. Suas pernas tremiam enquanto ela caminhava rapidamente em direção à saída dos fundos.

— Ei, Karen! Aonde você vai? — Gastón, que passava pelo corredor com uma toalha no pescoço, tentou chamá-la.

Ela não respondeu. Apenas acelerou o passo, as lágrimas começando a embaçar sua visão. Ela atravessou o estacionamento, ignorando o frio da noite portenha, e entrou no primeiro táxi que encontrou na avenida.

***

Cerca de quarenta minutos depois, Patricio entrou no camarim, procurando por Karen. Ele estava radiante, ainda sob o efeito da adrenalina do show e do encontro nostálgico com Elena, que lhe desejara felicidades pelo noivado.

— Karen? — ele chamou, estranhando o silêncio. — Amor, cadê você?

Ele ligou para o celular dela. Três vezes. Todas caíram na caixa postal. O pânico começou a substituir a euforia. Ele correu até Gastón, que estava sentado no sofá da área comum.

— Você viu a Karen? Ela não está no camarim.

— Cara, eu vi ela saindo faz um tempo — Gastón respondeu, franzindo a testa. — Ela parecia... mal. Eu chamei, mas ela nem olhou para trás. Achei que vocês tivessem brigado.

Patricio sentiu um aperto no peito. Ele repassou os últimos minutos na cabeça. Elena. O abraço. A conversa.

— Merda — ele sussurrou, passando as mãos pelo cabelo. — Merda, merda, merda.

Ele pegou a jaqueta e as chaves do carro, saindo do estádio sem dar explicações a ninguém. O trajeto até o apartamento deles em Palermo pareceu durar horas. Quando ele finalmente abriu a porta, encontrou o lugar na penumbra. O único som era o soluçar abafado vindo do quarto.

Patricio entrou devagar. Karen estava sentada na beira da cama, ainda com a roupa do show, as mãos cobrindo o rosto.

— Karen... — ele disse suavemente, aproximando-se.

— Por que você veio? — ela perguntou, a voz rouca. — Deveria ter ficado lá com ela. Vocês pareciam ter tanto assunto.

Patricio sentou-se no chão, bem à frente dela, forçando-a a olhá-lo.

— Você está falando da Elena? Amor, não... não é o que você está pensando.

— E o que eu devo pensar, Patricio? — Ela se levantou, a frustração transbordando. — Eu vi o jeito que você olhou para ela. Eu vi como vocês se abraçaram. Ela conhece sua história, ela conhece suas piadas, ela é... ela é daqui! E eu estou aqui, tentando me encaixar, tentando não me sentir uma estranha no seu mundo, enquanto você parece perfeitamente feliz com alguém do seu passado.

— Karen, olha para mim — ele pediu, levantando-se também e tentando segurar as mãos dela. Ela recuou. — Elena é parte do meu passado, sim. Uma parte que eu respeito, mas que ficou lá atrás. Ela é uma amiga, nada mais.

— Amigas não olham para ex-namorados daquele jeito — Karen rebateu, as lágrimas escorrendo livremente. — E você... você parecia tão leve com ela. Eu sinto que estou sempre pisando em ovos, com medo de te perder para essa vida de rockstar, e aí eu vejo que o perigo não é o futuro, é o passado que eu não posso competir.

Patricio suspirou, o semblante carregado de dor ao ver o sofrimento dela. Ele deu um passo à frente, dessa vez sem deixar que ela se afastasse, envolvendo-a pelos ombros.

— Escuta bem o que eu vou te dizer — ele começou, a voz firme, mas doce. — Eu vivi muitas coisas antes de você. Tive namoradas, tive histórias, e a Airbag é a minha vida desde que eu era um garoto. Mas nenhuma daquelas pessoas, nenhuma daquelas histórias, me fez querer o que eu quero com você.

Ele buscou o olhar dela, prendendo-o no seu.

— Eu não pedi para você se casar comigo porque você "se encaixa" no meu mundo. Eu pedi porque você é o meu mundo. Se eu estava rindo com a Elena, era porque eu estou feliz, Karen. E a razão da minha felicidade hoje, no topo daquele palco ou aqui neste quarto, é você.

Karen soluçou, a resistência começando a quebrar.

— Eu me sinto tão pequena às vezes, Pato. Como se eu fosse apenas a "noiva brasileira" e ela fosse a mulher que realmente entende quem você é.

— Ninguém me entende como você — ele afirmou, encostando a testa na dela. — Ninguém me vê quando as luzes se apagam. Ela conhece o Patricio da Airbag. Você conhece o Patricio que esquece a chave de casa, que tem medo de perder a voz e que não consegue dormir sem sentir o seu cheiro.

Karen fechou os olhos, deixando-se envolver pelo calor do abraço dele. O perfume de Patricio, uma mistura de suor, perfume caro e o cheiro metálico das cordas de guitarra, começou a acalmá-la.

— Me desculpa — ela sussurrou contra o peito dele. — Eu me senti tão insegura. Eu achei que, se eu fosse embora, você nem notaria.

— Não diga isso — ele disse, apertando-a mais forte. — Eu notei no segundo em que o ar do camarim ficou vazio sem você. Eu saí de lá desesperado. Nunca mais vá embora sem falar comigo, por favor. Se você sentir ciúme, se sentir medo, me grita, me xinga, mas não me deixa no escuro.

Karen levantou o rosto, encontrando os olhos escuros de Patricio cheios de uma sinceridade avassaladora.

— Promete? — ela perguntou baixinho.

— Prometo o que você quiser — ele respondeu, com um meio sorriso que sempre a desarmava. — Mas comece acreditando que, para mim, só existe você. O resto é apenas barulho de fundo.

Ele a beijou com uma intensidade que selava aquela promessa. Não era um beijo de palco, coreografado ou para as câmeras; era um beijo de perdão e de reafirmação. Karen sentiu a insegurança recuar, não totalmente — pois o amor é um aprendizado constante —, mas o suficiente para que ela pudesse respirar novamente.

— Agora — Patricio disse, limpando as lágrimas do rosto dela com os polegares —, você vai lavar esse rosto, porque eu estou morrendo de fome e a gente vai sair para comer a melhor pizza de Buenos Aires. Só nós dois.

— E se alguém nos parar? — ela perguntou, começando a sorrir.

— Eu vou dizer que estou com a mulher mais incrível do mundo e que eles vão ter que esperar — ele piscou, puxando-a pela mão.

Naquela noite, enquanto caminhavam pelas ruas de Palermo, Karen percebeu que as cicatrizes do passado de Patricio não eram ameaças, mas partes do caminho que o levaram até ela. E, enquanto ele segurava sua mão com força, ela soube que, não importava quantas "Elenas" aparecessem, o lugar dela ao lado dele estava garantido por algo muito mais forte que a nostalgia: o presente que eles construíam a cada acorde.
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