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LeoPepe

Fandom: João turin

Criado: 25/06/2026

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Entre o Brilho do Tênis e a Sombra da Coroa

O eco dos passos de Daniel ressoava pelos corredores de mármore do palácio como um trovão rítmico. Ele não era apenas um membro da realeza; ele era uma presença física impossível de ignorar. Alto, com ombros largos que tencionavam o tecido de suas camisas de seda, e uma postura que exalava uma confiança quase agressiva. Mas o que realmente chamava a atenção, além de sua testa proeminente que lhe conferia um ar de intelectual invocado, eram seus pés. Daniel não usava botas de couro de dragão ou sapatos de fivela de ouro; ele calçava um par de tênis de 500 mil reais, uma relíquia tecnológica que brilhava mais que as joias da coroa.

Ele parou diante da grande janela que dava para os jardins, onde, ao longe, podia ver duas figuras sentadas sob a sombra de uma tipuana. O sangue de Daniel ferveu. Ele reconheceria aquela silhueta gordinha e desajeitada em qualquer lugar: Leonardo. O plebeu que parecia ter colado em Pedro Paulo como argila fresca.

— Aquele projeto de bufão... — rosnou Daniel para as paredes vazias, apertando os punhos.

Daniel amava Pedro Paulo. Era um amor possessivo, profundo e, acima de tudo, protetor. Ele via o príncipe como uma joia delicada que precisava ser guardada em um estojo de veludo, não alguém para ser exposto às piadinhas sem graça de um carregador de barro. E, embora Daniel mantivesse sua fachada de "bravinho" e autoritário, no fundo, ele carregava um desejo secreto que conflitava com sua imagem de guerreiro da realeza: ele queria se entregar, queria a vulnerabilidade, queria ser dominado por alguém que realmente o entendesse. Mas como admitir isso quando se tinha a reputação de ser o homem mais imponente do reino?

Ele desceu as escadarias em direção ao jardim, o sol batendo em seu rosto testudo, realçando sua expressão de poucos amigos. Ao se aproximar da dupla, ouviu a risada de Pedro Paulo — aquela risada que ele tanto adorava, mas que odiava ouvir sendo provocada por outro.

— Ora, ora, se não é o festival da mediocridade ao ar livre — exclamou Daniel, parando a poucos metros deles, os braços cruzados sobre o peito musculoso.

Leonardo olhou para cima, seu rosto redondo iluminando-se com um sorriso travesso que Daniel achava absolutamente irritante.

— Vossa Alteza Daniel! — Leonardo fez uma reverência exageradamente desajeitada, quase caindo para o lado. — Que bom que chegou. Estávamos justamente discutindo se o brilho da sua testa é o que guia os navios no porto durante a noite.

Pedro Paulo soltou uma gargalhada curta, tentando encobri-la com a mão logo em seguida ao ver o olhar mortal que Daniel lhe lançou.

— Leonardo, pare de ser insolente — disse o príncipe, embora seus olhos brilhassem de diversão. — Daniel, não fique assim. Ele só está brincando.

— Brincando? — Daniel deu um passo à frente, a sola de seu tênis caríssimo rangendo na grama perfeitamente aparada. — Esse plebeu não conhece o seu lugar, Pedro. E você, como futuro governante, deveria ter mais critério com as companhias que mantém. Especialmente agora.

O clima mudou instantaneamente. Pedro Paulo ficou tenso, a mão descendo instintivamente para o ventre, um gesto que não passou despercebido por Daniel. O segredo da gravidez de Pedro era algo que Daniel protegia com unhas e dentes, mesmo que o filho não fosse dele. Ele faria qualquer coisa por Pedro, até mesmo aceitar o fruto de um momento de fraqueza do príncipe.

— Eu sei muito bem do meu estado, Daniel — respondeu Pedro Paulo, sua voz assumindo aquele tom tsundere que misturava autoridade com uma defensividade quase infantil. — E Leonardo é o único que me faz esquecer o peso dessa coroa por cinco minutos. Você só sabe falar de deveres, de linhagens e... e de quanto custou esse seu calçado ridículo!

Daniel sentiu uma pontada no peito. Ele queria dizer que se importava, que seu mau humor era apenas medo de perdê-lo. Mas as palavras saíram diferentes.

— É ridículo porque você não entende de estilo, Pedro. E eu falo de deveres porque alguém tem que garantir que este reino não desmorone enquanto você ri das palhaçadas desse... desse gordinho estranho.

Leonardo levantou-se, limpando o farelo de doce das calças de linho. Ele não parecia intimidado pela estatura de Daniel.

— Sabe, Daniel, você é muito bonito quando está bravo — disse Leonardo, inclinando a cabeça para o lado. — Mas deve ser cansativo tentar ser tão grande o tempo todo. Por que não senta aqui com a gente? Eu prometo que não vou sujar seu tênis de meio milhão com o meu barro de plebeu.

— Não toque em mim — avisou Daniel, embora seu coração estivesse batendo de uma forma estranha.

Havia uma tensão ali que Daniel não conseguia explicar. Ele amava Pedro Paulo com uma devoção quase religiosa, mas havia algo em Leonardo — talvez aquela alegria indomável ou o jeito que ele não se importava com as regras — que o irritava e o atraía ao mesmo tempo. Era um triângulo caótico: Daniel amava Pedro; Leonardo amava Pedro; e Pedro, no meio de tudo, parecia ser o único capaz de unir esses dois opostos através de sua própria confusão emocional.

— Sentem-se os dois — ordenou Pedro Paulo, batendo no banco. — Agora!

Daniel obedeceu, sentando-se com uma rigidez aristocrática do lado esquerdo de Pedro, enquanto Leonardo se jogava do lado direito com sua habitual falta de modos.

— O que vamos fazer em relação ao conselho? — perguntou Pedro Paulo, o tom de voz caindo. — Eles estão pressionando. O Duque de Paranaguá virá para o jantar de noivado na próxima semana.

Leonardo fez uma careta de nojo.

— O homem-peixe? Pedro, se você casar com ele, eu juro que transformo a estátua favorita dele em um monte de estrume esculpido.

Daniel, surpreendentemente, concordou.

— Pela primeira vez, o plebeu tem razão. Paranaguá é um verme. Ele não é digno de tocar na sua mão, quanto mais de... — Daniel parou, a imagem de Pedro grávido e casado com outro homem fazendo seu estômago revirar.

— Mas o que eu posso fazer? — Pedro Paulo olhou para as próprias mãos, os olhos lacrimejando. — Eu sou um príncipe. Meu destino é garantir a sucessão.

Leonardo estendeu a mão e pegou a mão direita de Pedro. Daniel, não querendo ficar atrás, pegou a esquerda. Pedro Paulo olhou de um para o outro, sentindo o calor desses dois homens tão diferentes, mas que representavam tudo o que ele tinha de real em sua vida.

— Nós vamos dar um jeito — disse Leonardo, com uma seriedade rara. — Eu sou apenas um artista, mas o povo me ouve. Posso criar uma distração, uma lenda, algo que mude a opinião do Rei.

— E eu tenho o poder militar e financeiro — completou Daniel, apertando a mão de Pedro com força, mas sem machucar. — Se aquele Duque colocar os pés aqui, ele vai descobrir que o exército responde a mim antes de responder ao Rei. Eu não vou deixar ninguém te forçar a nada, Pedro. Nunca.

Pedro Paulo sorriu, as lágrimas finalmente caindo.

— Vocês são dois idiotas. Um que se acha um guerreiro de sola de borracha e outro que acha que pode resolver o mundo com piadas e argila.

— Mas somos os seus idiotas — riu Leonardo, puxando Pedro para um abraço de lado.

Daniel bufou, mas não se afastou. Pelo contrário, ele inclinou-se um pouco, permitindo que seu ombro tocasse o de Pedro. Por um momento, a rivalidade entre o nobre e o plebeu pareceu suspensa no ar morno da tarde.

— Daniel — chamou Leonardo, com um brilho malicioso nos olhos. — Você está muito tenso. Quer que eu te conte a piada do escultor que tentou fazer um busto do seu bisavô e acabou criando uma gárgula por acidente?

— Não ouse, Leonardo — avisou Daniel, mas o canto de sua boca tremeu.

— Ele fez a gárgula com a testa igualzinha à sua! — Leonardo explodiu em uma gargalhada contagiante.

Pedro Paulo não aguentou e começou a rir junto, uma risada que vinha do fundo da alma, fazendo sua barriga — onde o pequeno segredo crescia — sacudir levemente. Daniel tentou manter a pose, tentou ficar bravo, mas o som da felicidade de Pedro era sua maior fraqueza.

— Vocês são insuportáveis — murmurou Daniel, finalmente deixando um pequeno sorriso escapar.

— Viu! — gritou Leonardo, apontando para o rosto de Daniel. — Ele sorriu! O monstro de Curitiba tem sentimentos!

— Cale a boca, plebeu — disse Daniel, mas não havia veneno em suas palavras.

Eles ficaram ali por um longo tempo, observando o sol começar a se pôr atrás das araucárias. O futuro era incerto, o escândalo da gravidez pairava sobre eles como uma tempestade iminente e o triângulo amoroso em que viviam era uma receita para o desastre. Daniel amava Pedro, Pedro amava Leonardo, e Leonardo parecia amar os dois à sua maneira estranha e caótica.

— Eu vou precisar de sapatos novos para o jantar de noivado — disse Pedro Paulo, quebrando o silêncio. — Algo que não seja tão... chamativo quanto os seus, Daniel.

— Eu posso te dar um par — ofereceu Daniel prontamente. — Tenho uma coleção limitada que combinaria perfeitamente com o azul da sua túnica.

— E eu posso esculpir um detalhe em argila cozida para o seu cabelo — sugeriu Leonardo. — Algo que mostre que você pertence à terra tanto quanto ao céu.

Pedro Paulo olhou para os dois, sentindo-se, pela primeira vez em semanas, verdadeiramente seguro.

— Obrigado — sussurrou o príncipe.

Daniel olhou para Leonardo por cima da cabeça de Pedro. Havia um entendimento silencioso ali. Eles podiam se odiar, podiam vir de mundos diferentes, mas ambos eram escravos do mesmo coração de ouro e barro que pulsava entre eles.

— Se você contar para alguém que eu sorri hoje — disse Daniel para Leonardo, retomando seu tom autoritário —, eu mando confiscar todo o seu estoque de argila.

— E eu conto para todo mundo que você usa meia de seda com esses tênis — rebateu Leonardo, piscando.

— Eu não uso... como você sabe disso?!

A risada de Pedro Paulo encheu o jardim novamente, e por aquele breve momento, o peso da coroa pareceu não existir. Daniel, com seus tênis de fortuna e seu coração carente; Leonardo, com suas piadas e mãos sujas de terra; e Pedro Paulo, o príncipe que carregava o futuro no ventre e o amor de dois homens improváveis nos ombros.

Eles eram um desastre real, uma obra de arte inacabada de João Turin, moldada pela dor, pela risada e por um amor que não conhecia fronteiras entre o palácio e a rua.

— Vamos entrar — disse Pedro Paulo, levantando-se com a ajuda dos dois. — Tenho um jantar para planejar e um Duque para humilhar.

— Esse é o meu príncipe — disse Daniel, orgulhoso.

— É isso aí, gatinho! — exclamou Leonardo, levando um tapa no ombro logo em seguida.

Enquanto caminhavam de volta para o palácio, as sombras deles se misturavam no chão, formando uma única figura complexa e indissociável, provando que, no fim das contas, o ouro e o barro podiam sim criar algo magnífico juntos.
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