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Algo que nunca devia ter acontecido

Fandom: Minha culpa

Criado: 25/06/2026

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Entre Linhas e Tensões Silenciosas

A biblioteca da escola era o único lugar onde Júlia sentia que o caos do mundo se organizava. Como representante de classe, sua vida era pautada por cronogramas, listas de tarefas e a constante busca pela perfeição acadêmica. Seus cabelos cacheados, volumosos e escuros, eram geralmente presos em um coque alto para que não caíssem sobre os livros de física, mas hoje eles estavam soltos, emoldurando seu rosto de traços calmos e determinados.

Ela revisava a lista de presença do último evento beneficente quando uma sombra se projetou sobre sua mesa. Júlia não precisou levantar os olhos para saber quem era. O perfume amadeirado, sutil mas marcante, sempre chegava antes dele.

— Júlia? Você tem um minuto? — A voz de David era baixa, quase um sussurro que contrastava com o barulho distante dos corredores.

Ela ergueu o olhar. David estava ali, com aquele jeito dele que parecia deslocado e, ao mesmo tempo, perfeitamente integrado ao ambiente. O cabelo castanho, liso com leves ondas nas pontas, caía displicentemente para o lado, cobrindo parte da testa. Ele era alto, de ombros largos, e possuía um olhar que Júlia raramente conseguia decifrar.

— Para a representante de classe ou para a Júlia? — perguntou ela, permitindo que um pequeno sorriso surgisse no canto dos lábios.

— Para a pessoa que sabe onde estão as notas extras de literatura — respondeu ele, sentando-se na cadeira à frente dela.

David era um mistério para Júlia. Ele era quieto, observador, e embora estivessem na mesma sala há dois anos, ela sentia que mal o conhecia. Havia também o fator complicador: David namorava Larissa, uma garota expansiva e popular da mesma turma, que parecia ser o oposto absoluto da serenidade de Júlia.

— Estão na pasta azul, David. Você sabe que o prazo era ontem, não sabe? — Ela empurrou a pasta para ele, mas seus dedos se tocaram por um breve segundo sobre o plástico.

Um choque elétrico percorreu o braço de Júlia. David não retirou a mão imediatamente. Ele a encarou, e por um momento, a máscara de indiferença dele caiu. Havia uma intensidade ali, uma curiosidade que a fez perder o fôlego.

— Eu sei — disse ele, a voz subitamente mais rouca. — Eu ando meio distraído ultimamente.

— Isso não combina com você — comentou Júlia, tentando retomar sua postura organizada, embora seu coração batesse contra as costelas.

— Você ficaria surpresa com as coisas que não combinam comigo, mas que eu sinto mesmo assim.

Antes que ela pudesse perguntar o que aquilo significava, Larissa apareceu na porta da biblioteca, chamando por David com sua voz estridente. O momento se quebrou. David se levantou, agradeceu com um aceno de cabeça e saiu, deixando Júlia sozinha com seus pensamentos e uma sensação estranha de que algo havia mudado entre eles.

As semanas seguintes foram um exercício de tortura silenciosa. Júlia o via nas aulas, notava como ele a observava quando achava que ela não estava olhando. Ela, por sua vez, tentava manter sua fachada de "garota correta que não fica com ninguém", mas a imagem de David e o toque de seus dedos não saíam de sua mente.

O ápice dessa tensão aconteceu na festa de aniversário de um dos colegas de classe. Júlia não era de festas, mas como representante, sentia-se na obrigação de comparecer. A música estava alta, o ar pesado com o cheiro de álcool e perfumes caros. Ela estava perto da mesa de bebidas, tentando decidir se ia embora, quando sentiu uma mão firme envolver seu pulso.

— Precisamos conversar. Agora — disse David.

Ele não esperou por uma resposta. Puxou-a pelo corredor lotado, ignorando os olhares, até chegarem a um dos banheiros da mansão. Ele a empurrou para dentro e trancou a porta.

O silêncio do banheiro, interrompido apenas pelo abafado da música lá fora, era ensurdecedor. Júlia se encostou na parede, o peito subindo e descendo com rapidez.

— David, o que você está fazendo? Você tem namorada, ela está lá fora! — exclamou ela, tentando manter a voz firme, apesar do tremor nas mãos.

— Eu não consigo mais fingir, Júlia — disse ele, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. — Eu olho para você na sala e não consigo me concentrar em nada. Eu tento ser o namorado que a Larissa quer, mas é em você que eu penso antes de dormir.

— Isso é errado — sussurrou ela, embora seus olhos estivessem fixos nos lábios dele. — Eu sempre faço o que é certo. Isso... isso não é certo.

— Às vezes o que é certo não é o que nos faz sentir vivos — rebateu ele.

David se aproximou mais, as mãos apoiando-se na parede, uma de cada lado da cabeça de Júlia. Ele inclinou o rosto, o nariz roçando o dela. Júlia hesitou. Ela pensou em sua reputação, em Larissa, em sua vida organizada. Mas quando David selou seus lábios nos dela, toda a lógica desmoronou.

O beijo começou lento, quase uma pergunta. Júlia tentou resistir por dois segundos, as mãos espalmadas contra o peito dele, mas o calor que emanava de David era magnético. Ela cedeu, soltando um suspiro baixo contra a boca dele, e suas mãos subiram para os cabelos ondulados dele, puxando-o para mais perto.

David soltou um som gutural de satisfação e a puxou pela cintura, guiando-a até o centro do banheiro. Ele se sentou na tampa fechada do vaso sanitário e, com um movimento ágil, puxou Júlia para o seu colo.

Ela se sentou sobre ele, as pernas envolvendo seus quadris. O beijo se tornou urgente, faminto. As mãos de David desceram pelas costas de Júlia, apertando sua cintura com força, enquanto a língua dele explorava a dela com uma possessividade que a deixava tonta. O contraste entre a calma habitual de Júlia e a chama que David despertava nela era avassalador.

— Você não tem ideia... — murmurou David entre beijos, a respiração quente no pescoço dela — ...do quanto eu desejei isso.

Júlia arqueou as costas quando ele mordiscou o lóbulo de sua orelha. O mundo lá fora não existia. Não havia escola, não havia cargos, não havia traição. Havia apenas o peso do corpo dele contra o seu, o cheiro de sua pele e a eletricidade que corria entre eles.

As mãos de Júlia se perderam nos fios de cabelo dele, desarrumando-os completamente, enquanto David subia a mão por baixo da blusa dela, sentindo a pele macia de suas costas. O clima estava carregado, a temperatura do pequeno cômodo parecia ter subido dez graus. Júlia sentia o coração dele batendo no mesmo ritmo frenético que o seu.

Eles se beijavam como se o tempo estivesse acabando, com uma intensidade que beirava o desespero. David desceu os beijos para o decote de Júlia, fazendo-a soltar um gemido baixo que ele abafou voltando a tomar sua boca.

De repente, três batidas fortes na porta cortaram o transe.

— Júlia? Você está aí dentro? A gente precisa organizar a saída das vans! — Era a voz de uma das colegas da comissão organizadora.

O choque de realidade foi como um balde de água gelada. Júlia congelou, os olhos arregalados encontrando os de David, que estavam escuros de desejo e confusão.

— Júlia? Eu vi você vindo para cá! — insistiu a voz lá fora.

— Eu... eu já saio! — gritou Júlia, a voz saindo mais falha do que pretendia.

Ela desceu do colo de David rapidamente, tentando ajeitar o vestido e o cabelo cacheado que agora estava uma bagunça selvagem. Suas bochechas queimavam de vergonha e adrenalina.

David se levantou, passando a mão pelo rosto, tentando recuperar o fôlego. Ele deu um passo em direção a ela, mas Júlia recuou, a mão na maçaneta.

— Não podemos fazer isso, David — disse ela, a voz tremendo. — Isso foi um erro.

— Você não acredita nisso — disse ele, a voz firme. — Seus olhos dizem o contrário.

— Não importa o que eu sinto. Importa o que é real. E o real é que você não é meu.

Sem dar tempo para ele responder, Júlia destrancou a porta e saiu, passando pela colega sem dar explicações, mergulhando na multidão da festa para esconder as lágrimas que começavam a embaçar sua visão. Ela era a representante de classe, a menina organizada, a garota que sempre fazia o certo. Mas, pela primeira vez na vida, o "certo" parecia a coisa mais dolorosa do mundo.
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