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Da amizade para amor

Fandom: Kimi ni todoke

Criado: 25/06/2026

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RomanceFatias de VidaDor/ConfortoFofuraAngústiaEstudo de PersonagemCenário CanônicoCiúmes
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A Ressonância do Silêncio

O sol da tarde filtrava-se pelas janelas da sala de aula vazia, pintando o chão de madeira com tons alaranjados e longas sombras melancólicas. Kazehaya Shouta estava sentado em sua mesa, com o queixo apoiado na palma da mão, observando o movimento lá fora. Para qualquer um que passasse pelo corredor, ele ainda era o "Kazehaya-kun", o garoto que brilhava como o sol, sempre cercado de gente e sorrisos. Mas, naquele momento de quietude, o brilho parecia oscilar.

A poucos metros dali, no fundo da sala, Sanada Ryu estava com a cabeça repousada sobre os braços cruzados na mesa. Ele parecia dormir, como de costume, mas a respiração pausada indicava que ele estava apenas em seu estado habitual de repouso contemplativo.

Kazehaya suspirou, um som pesado que não condizia com sua imagem pública. Ele sentia um aperto incômodo no peito, uma mistura de cansaço e uma insegurança que ele raramente deixava transparecer. Ser o centro das atenções exigia uma energia que, às vezes, ele simplesmente não tinha.

— Você está suspirando demais hoje.

A voz de Ryu era baixa, rouca pelo desuso, mas cortou o silêncio com a precisão de uma lâmina. Ele nem sequer tinha levantado a cabeça.

Kazehaya deu um sobressalto, forçando um sorriso imediato que não chegou aos olhos.

— Ah, Ryu! Achei que estivesse dormindo. Não é nada, só pensando no treino de amanhã.

Ryu finalmente ergueu o rosto. Seus olhos escuros e semicerrados fixaram-se em Kazehaya com uma intensidade que o outro sempre achava desconcertante. Ryu não via a máscara; ele via através dela.

— Você não sabe mentir para mim, Shouta — disse Ryu, sentando-se direito e alongando os ombros. — O que foi?

Kazehaya hesitou. O orgulho era uma barreira alta, e ele detestava parecer vulnerável, especialmente diante de Ryu, que sempre parecia tão resolvido, tão imperturbável.

— É só que... às vezes sinto que todo mundo espera algo de mim que eu não consigo entregar o tempo todo — confessou Kazehaya, a voz falhando levemente. — Eu tento ser gentil, tento ajudar, mas sinto que estou me perdendo no meio disso tudo. E quando vejo você... tão calmo, sem se importar com o que os outros pensam... eu sinto inveja, eu acho.

Ryu permaneceu em silêncio por um longo tempo. Ele não era de oferecer palavras de conforto vazias ou clichês motivacionais. Ele apenas processava a informação.

— Eu não sou calmo — disse Ryu, por fim. — Eu só escolho onde gastar minha energia. Você gasta a sua com todo mundo. Eu gasto a minha com o que importa.

Kazehaya sentiu o rosto esquentar. Havia algo naquelas palavras, na forma direta como Ryu falava, que sempre o atingia de um jeito diferente.

— E o que importa para você, Ryu? — perguntou Kazehaya, quase num sussurro, o coração acelerando sem que ele entendesse o porquê.

Ryu levantou-se lentamente e caminhou até a mesa de Kazehaya. Ele parou ao lado dele, a presença física de Ryu era sólida, aterradora e, ao mesmo tempo, estranhamente reconfortante.

— Poucas coisas — respondeu Ryu, olhando para o horizonte pela janela. — O beisebol. Minha família. E você.

O ar pareceu sumir dos pulmões de Kazehaya. Ele olhou para cima, encontrando o perfil sério de Ryu. A possessividade que Kazehaya costumava sentir em relação às suas amizades, aquele desejo de ser o favorito de todos, de repente se transformou em algo mais agudo, mais focado. Ele não queria ser o favorito de "todos" naquele momento. Ele queria ser o único para Ryu.

— Eu também me sinto assim — disse Kazehaya, a voz trêmula. — Mas eu sou egoísta, Ryu. Eu sou ciumento. Eu não sou o cara legal que todo mundo pensa.

Ryu deu um meio sorriso, algo raro que iluminou seu rosto de forma súbita.

— Eu sei. Eu vejo quando você fica irritado quando alguém chega perto demais. Eu vejo como você morde o lábio quando não consegue o que quer. Você é humano, Shouta. É por isso que eu gosto de você. Não pelo sol que você finge ser, mas pelo humano teimoso que você é.

Kazehaya sentiu uma lágrima solitária escapar. Era um alívio ser visto daquela forma. Sem expectativas, sem pedestais. Apenas ele.

— Ryu... — Kazehaya levantou-se, ficando frente a frente com o amigo. — Se eu pedisse para você não olhar para mais ninguém... se eu pedisse para você ficar só do meu lado... você acharia que eu sou louco?

Ryu deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de grama e suor do treino de beisebol emanava dele, um cheiro que Kazehaya associava à segurança.

— Eu já não olho para mais ninguém, Shouta — disse Ryu, com uma sinceridade que doía. — Você é que demora para perceber as coisas.

A mão de Ryu subiu, hesitante por um segundo, antes de pousar no ombro de Kazehaya. O toque era firme, real. Kazehaya cobriu a mão de Ryu com a sua, sentindo os calos da prática esportiva contra sua pele.

— Eu sempre tive medo de que, se eu mostrasse quem eu realmente sou, as pessoas iriam embora — confessou Kazehaya, fechando os olhos para aproveitar o contato.

— Eu não vou a lugar nenhum — afirmou Ryu. — Eu sou lento para me mover, você sabe disso. Uma vez que eu decido onde quero estar, eu fico.

Kazehaya riu, um som genuíno dessa vez, embora entrecortado por um soluço. Ele se inclinou, apoiando a testa no ombro de Ryu. O silêncio que antes era pesado agora parecia preenchido por uma compreensão mútua que dispensava frases longas.

— Você é tão direto — murmurou Kazehaya contra o uniforme dele. — Às vezes eu queria ser como você.

— Não seja — Ryu respondeu, passando o braço pela cintura de Kazehaya, puxando-o para mais perto em um abraço desajeitado, mas protetor. — O mundo ficaria muito escuro sem o seu barulho. Só... aprenda a descansar em mim quando o barulho for demais.

Kazehaya apertou o tecido da camisa de Ryu. A insegurança ainda estava lá, em algum lugar, mas a presença de Ryu agia como uma âncora. Ele sempre fora o "sol" para os outros, mas Ryu era a terra firme onde ele podia finalmente pousar.

— Ryu? — chamou Kazehaya, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele.

— Hum?

— Isso que estamos sentindo... é diferente de ser apenas melhores amigos, não é?

Ryu olhou para ele por um longo tempo, a expressão suave.

— Para mim, já é diferente há muito tempo — admitiu Ryu, sem um pingo de hesitação ou vergonha. — Eu só estava esperando você parar de correr para notar.

Kazehaya sentiu o rosto arder em um vermelho profundo, o tipo de rubor que ele costumava provocar nos outros, mas que agora o dominava completamente. Ele se sentia pequeno, mas de um jeito bom.

— Eu parei — disse Kazehaya, com firmeza. — Eu não quero mais correr.

Ryu assentiu, como se aquela fosse a resposta que ele esperava há anos. Ele se inclinou lentamente, dando a Kazehaya todo o tempo do mundo para recuar. Mas Kazehaya não recuou. Ele inclinou a cabeça, fechando os olhos, e sentiu os lábios de Ryu tocarem os seus.

O beijo foi como o próprio Ryu: calmo, direto e profundo. Não havia a urgência desesperada de uma paixão adolescente comum, mas sim a solidez de anos de confiança e convivência transformados em algo novo. Era o porto seguro que Kazehaya sempre buscou sem saber.

Quando se separaram, Kazehaya estava sem fôlego, o coração batendo como um tambor no peito. Ryu, embora mantivesse a expressão tranquila, tinha as orelhas levemente avermelhadas.

— Então... — começou Kazehaya, tentando recuperar sua compostura habitual, embora o sorriso em seu rosto fosse largo e bobo. — O que fazemos agora?

Ryu voltou para sua mesa e pegou sua mochila, jogando-a sobre o ombro.

— Agora — disse ele, estendendo a mão livre para Kazehaya —, nós vamos para casa. E amanhã, você não precisa sorrir para todo mundo se não quiser. Eu estarei lá.

Kazehaya segurou a mão de Ryu, entrelaçando seus dedos. A possessividade que ele sentia agora não era um fardo, mas um laço. Ele sabia que Ryu era dele, do mesmo modo que ele pertencia a Ryu.

— Sabe, Ryu... você é muito mais esperto do que parece — comentou Kazehaya enquanto caminhavam pelo corredor vazio, o som de seus passos ecoando em uníssono.

— Eu só presto atenção — respondeu Ryu, voltando ao seu tom monossilábico, mas sem soltar a mão de Kazehaya por um segundo sequer.

Eles saíram do prédio da escola sob o céu crepuscular. Kazehaya olhou para o lado, observando o perfil constante de Ryu. Ele percebeu que não precisava ser o sol o tempo todo. Na companhia de Ryu, ele podia ser apenas a lua, refletindo uma luz que era suave, tranquila e, acima de tudo, verdadeira.

— Ryu?

— O quê?

— Obrigado. Por me encontrar.

Ryu apertou a mão dele, um gesto prático de suporte que valia mais do que mil palavras.

— Eu nunca perdi você de vista, Shouta.

E, enquanto caminhavam em direção ao pôr do sol, Kazehaya finalmente sentiu que a imagem que o mundo tinha dele não importava tanto. O que importava era o silêncio compartilhado, a mão firme na sua e a promessa silenciosa de que, não importa o quão barulhento o mundo se tornasse, ele sempre teria um lugar calmo para onde voltar.

A amizade que nascera nos campos de beisebol e nas salas de aula havia florescido em algo que nenhum dos dois sabia nomear direito ainda, mas que parecia tão natural quanto respirar. Kazehaya aprendeu que ser vulnerável não era uma fraqueza, e Ryu provou que o amor não precisava de grandes espetáculos para ser real.

Ao chegarem na esquina onde costumavam se separar, Ryu não soltou sua mão.

— Vou te levar até a porta hoje — disse o mais alto.

Kazehaya sorriu, sentindo uma onda de calor percorrer seu corpo.

— É? E por quê?

Ryu parou por um momento, olhando para Kazehaya com aquela honestidade brutal que o caracterizava.

— Porque eu quero passar mais cinco minutos com você. E porque eu sou teimoso.

Kazehaya riu abertamente, a insegurança dissipando-se como névoa.

— Tudo bem, Sanada Ryu. Você venceu.

Eles continuaram o caminho, dois garotos cujas energias opostas finalmente encontraram o equilíbrio perfeito. O sol e a terra, o barulho e o silêncio, o brilho e a sombra. Juntos, eles eram completos.
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