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Diáro de uma princes

Fandom: Sem fandom

Criado: 26/06/2026

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RomanceFatias de VidaDor/ConfortoFofuraCenário CanônicoEstudo de PersonagemHistória DomésticaRealismo
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Além do Campo e das Estrelas

O final de tarde na escola Santa Cecília sempre tinha um brilho alaranjado que refletia nas janelas altas da biblioteca, criando um cenário que Isabel adorava. Ela era o tipo de garota que encontrava beleza no silêncio dos corredores e no cheiro de papel antigo. Naquele dia, porém, o silêncio foi interrompido pelo som distante dos apitos no campo de futebol e pelos gritos abafados de incentivo.

Isabel estava apressada. Carregava uma pilha de livros de literatura que precisavam ser devolvidos antes que a bibliotecária fechasse as portas. Ela caminhava com passos rápidos, os cabelos castanhos balançando levemente sobre os ombros, quando decidiu cortar caminho pela lateral da arquibancada. Foi um erro de cálculo.

O chão estava levemente úmido devido à irrigação recente do gramado. Ao tentar desviar de uma mochila largada no caminho, seu pé esquerdo escorregou em uma placa de lodo. O equilíbrio desapareceu instantaneamente. Os livros voaram de suas mãos, espalhando-se como pássaros de papel, e Isabel sentiu o impacto seco do joelho contra o concreto da borda da pista.

— Ai! — exclamou ela, a voz saindo em um fio agudo de dor.

Ela tentou se levantar imediatamente, movida pelo instinto de não ser notada, mas uma pontada aguda subiu por sua perna, forçando-a a sentar-se novamente no chão. O joelho estava ralado, o sangue começando a brotar através do tecido fino de sua calça clara.

— Ei, você está bem? — Uma voz profunda e genuinamente preocupada ecoou perto dela.

Isabel levantou o olhar e sentiu o coração falhar uma batida. Era Augusto. O capitão do time de futebol, o garoto que parecia ter saído diretamente de um comercial de perfume, com seus ombros largos, o uniforme de treino levemente suado e aquele sorriso que desarmava qualquer um. Mas, naquele momento, ele não estava sorrindo; suas sobrancelhas estavam franzidas em preocupação.

Ele correu em direção a ela, deixando para trás os companheiros de time que ainda se organizavam no campo.

— Eu... eu acho que sim. Só escorreguei — disse Isabel, tentando manter a compostura enquanto sentia as bochechas corarem.

— Não parece que foi "só" um escorregão — Augusto agachou-se ao lado dela, sem se importar com a grama sujando seus meiões. — Deixe-me ver isso.

— Não precisa, Augusto. Você está no meio do treino. Eu consigo chegar à enfermaria sozinha — insistiu ela, embora a dor latejante em seu joelho dissesse o contrário.

Augusto soltou uma risada curta e gentil, aqueles olhos castanhos brilhando com uma doçura que pouca gente fora de seu círculo íntimo conhecia.

— Isabel, eu sou o capitão do time. Parte do meu trabalho é cuidar das pessoas, e você parece estar sofrendo mais do que quer admitir. Além disso, o treino pode esperar cinco minutos.

Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza surpreendente para alguém tão forte, tocou o contorno do ferimento. Isabel estremeceu levemente, não apenas pela dor, mas pela proximidade. Ela sempre o admirou de longe, achando que ele era apenas o "atleta popular", mas havia uma aura de bondade nele que sempre a intrigava.

— Está sangrando um pouco — observou ele. — E seu tornozelo está começando a inchar. Você não vai caminhar até a enfermaria, não com esse peso todo.

Augusto levantou-se e, antes que Isabel pudesse protestar, ele começou a recolher os livros espalhados pelo chão. Ele limpou a capa de um exemplar de "Orgulho e Preconceito" com a própria camisa de treino.

— Belo livro — comentou ele, lançando-lhe um olhar rápido. — Minha mãe diz que é um clássico essencial.

— Você lê? — perguntou ela, surpresa.

— Eu tento. Mas prefiro que você me conte a história depois — ele piscou para ela, guardando os livros em uma pilha organizada. — Agora, o mais importante.

Augusto se aproximou e, com um movimento fluido, passou um braço por trás das costas dela e o outro por baixo de seus joelhos.

— O que você está fazendo? — Isabel arquejou, instintivamente passando os braços pelo pescoço dele para não cair.

— Levando você para um lugar seguro — respondeu ele, levantando-a como se ela não pesasse nada. — Segure firme.

Enquanto ele caminhava em direção ao prédio principal, Isabel podia sentir o calor que emanava dele e o ritmo constante de seu coração. O perfume dele era uma mistura de sabonete fresco e o esforço do campo, algo estranhamente reconfortante. Alguns alunos que ainda circulavam pelo pátio pararam para olhar, mas Augusto não parecia se importar. Ele estava focado apenas nela.

— Você não precisava fazer isso — sussurrou Isabel, escondendo o rosto levemente no ombro dele. — As pessoas vão falar.

— Deixe que falem — disse ele, a voz vibrando em seu peito. — Eu prefiro que falem de mim carregando a garota mais inteligente da escola do que de mim perdendo um gol.

Isabel sentiu um frio na barriga. Ele realmente sabia quem ela era?

— Você sabe quem eu sou? — ela perguntou, a curiosidade vencendo a timidez.

— Isabel, da aula de Literatura Avançada — ele respondeu prontamente, entrando no corredor que levava à enfermaria. — Você sempre senta perto da janela e faz anotações tão rápidas que eu fico tonto só de olhar. E você tem o hábito de morder o lábio quando está concentrada em um problema difícil.

Ela ficou sem palavras. Augusto, o garoto que ela pensava viver em um mundo totalmente diferente do seu, estava prestando atenção nela o tempo todo.

Ao chegarem à enfermaria, a sala estava vazia, pois a enfermeira havia saído para buscar suprimentos. Augusto a colocou com cuidado sobre a maca de metal forrada com papel branco.

— Fique aqui. Eu sei onde ficam os kits de primeiro socorros — disse ele, movendo-se com a confiança de quem já teve que tratar muitos tornozelos torcidos.

Ele pegou uma bacia com água morna, antisséptico e algumas gazes. Ajoelhou-se novamente aos pés dela, agindo com uma dedicação que comoveu Isabel.

— Vai arder um pouco — avisou ele, olhando nos olhos dela. — Se doer, pode apertar minha mão.

— Eu vou ficar bem, Augusto. Sou mais forte do que pareço — disse ela, dando-lhe um sorriso gentil.

— Eu não duvido disso — ele sorriu de volta, começando a limpar o ferimento com toques leves. — Mas até os fortes precisam de um apoio de vez em quando.

Enquanto ele cuidava do joelho dela, o silêncio da enfermaria tornou-se íntimo. A luz do sol poente entrava pelas frestas da persiana, desenhando linhas douradas no chão.

— Por que você é tão legal comigo? — perguntou Isabel, sua voz suave quebrando o silêncio. — Você mal me conhece.

Augusto parou o que estava fazendo por um momento e olhou para cima.

— Talvez eu queira conhecer — admitiu ele com sinceridade. — Todos acham que minha vida é só futebol e festas, mas às vezes eu sinto falta de conversar com alguém que veja o mundo de um jeito diferente. Alguém que prefira livros a gritos de torcida.

— O futebol é importante para você — disse ela.

— É sim. Eu amo o jogo, a dedicação, o time. Mas o futebol é o que eu faço, não é tudo o que eu sou — ele terminou de colocar um curativo limpo sobre o joelho dela e começou a enfaixar o tornozelo com uma bandagem elástica. — Pronto. Isso deve segurar até você chegar em casa.

Isabel olhou para o trabalho dele. Estava perfeito.

— Obrigada, Augusto. De verdade.

— Não precisa agradecer — ele se levantou, limpando as mãos. — Mas eu tenho uma condição para te deixar ir.

Isabel arqueou uma sobrancelha, divertida.

— E qual seria?

— Deixe-me te levar para casa. Meu carro está no estacionamento e eu não quero que você force esse tornozelo subindo no ônibus.

— Augusto, você tem o treino...

— O treino já acabou para mim hoje — ele a interrompeu, pegando a mochila dela e a pilha de livros. — Minha prioridade mudou.

Ele a ajudou a descer da maca, mantendo o braço em volta da cintura dela para dar suporte. Isabel caminhava mancando levemente, mas com o apoio dele, sentia-se flutuar.

No caminho para o carro, o clima entre eles mudou. A tensão do acidente havia passado, dando lugar a uma curiosidade mútua e vibrante.

— Então — começou ele, enquanto abria a porta do passageiro para ela —, sobre aquele livro... a Elizabeth Bennet realmente fica com o Mr. Darcy no final?

Isabel riu, uma risada clara e genuína que fez Augusto sorrir abertamente.

— Você realmente quer que eu estrague o final para você?

— Eu prefiro que você me conte pessoalmente — disse ele, fechando a porta com cuidado e dando a volta para o banco do motorista.

Dentro do carro, o ambiente era acolhedor. Augusto ligou o rádio em uma estação de música suave, e o trajeto até a casa de Isabel pareceu curto demais. Quando ele estacionou em frente à casa dela, o sol já havia se posto, deixando o céu em tons de azul escuro e violeta.

— Chegamos — disse ele, mas nenhum dos dois se moveu imediatamente para sair.

— Obrigada por tudo hoje, Augusto — repetiu Isabel, olhando para as mãos dele no volante. — Você foi um cavaleiro andante muito moderno.

— Eu faria tudo de novo — ele se virou para ela, o olhar intenso e doce. — Talvez sem a parte de você se machucar, é claro.

Ele estendeu a mão e gentilmente afastou uma mecha de cabelo do rosto dela, deixando os dedos descansarem por um segundo a mais na bochecha de Isabel. O toque foi elétrico.

— Isabel... eu sei que parece estranho, mas eu estava tentando achar uma desculpa para falar com você há semanas. Eu só não esperava que você tivesse que cair para isso acontecer.

Isabel sentiu o coração acelerar.

— Você não precisava de uma desculpa. Bastava dizer "oi".

— Às vezes, as coisas simples são as mais difíceis para caras como eu — ele confessou com um meio sorriso.

— Bem — disse ela, reunindo coragem —, agora que o gelo foi quebrado, e o meu joelho também... o que você sugere?

Augusto riu baixo, uma vibração que parecia preencher o carro.

— Sugiro que eu te acompanhe até a porta, garanta que você vai colocar gelo nesse tornozelo e que você me dê seu número para eu saber se você sobreviveu à noite.

Isabel sorriu, sentindo uma felicidade que não sentia há muito tempo.

— Parece um plano justo.

Ele a ajudou a sair do carro e a caminhou até a varanda. Quando chegaram à porta, o silêncio da noite parecia envolver os dois. Augusto entregou-lhe os livros e a mochila.

— Boa noite, Isabel.

— Boa noite, Capitão.

Ela se inclinou e depositou um beijo rápido e suave na bochecha dele. Augusto pareceu surpreso por um instante, mas logo um sorriso radiante iluminou seu rosto.

Enquanto Isabel entrava em casa, mancando levemente mas com o coração leve, ela ouviu o som do motor do carro de Augusto se afastando. Ela olhou para o curativo em seu joelho e sorriu. Às vezes, um pequeno tropeço era exatamente o que era preciso para colocar a vida no caminho certo.

Naquela noite, as anotações nos livros de Isabel foram substituídas por pensamentos sobre olhos castanhos e promessas de novas histórias. E no campo, no dia seguinte, o capitão do time jogaria com uma energia renovada, sabendo que, além das traves de gol, havia alguém especial esperando por ele na biblioteca.
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