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Ciúmes retroativo

Fandom: Airbag

Criado: 26/06/2026

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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoCiúmesEstudo de PersonagemRealismo
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Sombras na Passarela

O flash das câmeras era um brilho familiar, quase reconfortante, para Karen. Naquela noite, em Paris, ela encerrava o desfile da Chanel com um vestido de noiva de alta-costura que parecia esculpido em nuvens e diamantes. Como uma das modelos brasileiras mais requisitadas do mundo, seu rosto estampava outdoors da Prada em Milão e campanhas da Louis Vuitton em Tóquio. Ela era a "it girl" do momento, a personificação do sucesso.

No entanto, enquanto caminhava pela passarela com a expressão serena e altiva que a tornara famosa, seu coração batia em um ritmo descompassado que nada tinha a ver com a adrenalina do show.

Ao fundo, na primeira fila, ela buscou os olhos de Patricio. Ele estava lá, como sempre prometera, com seu estilo rockeiro contrastando com a elegância polida do evento. O vocalista do Airbag sorriu quando seus olhos se cruzaram, um sorriso que, por três anos, fora o porto seguro de Karen.

Mas a paz durou pouco. Assim que Karen voltou para o camarim e pegou seu celular, a realidade digital a atingiu como um soco.

Ela abriu o Instagram para postar um agradecimento à marca. Em questão de segundos, as notificações começaram a jorrar. Entre elogios de seus fãs brasileiros e mensagens de carinho, o "lado sombrio" da base de fãs de Patricio se manifestou.

"Linda, mas nunca terá a química que ele tinha com a Melissa", dizia um comentário com centenas de curtidas.

Outro perfil postara uma montagem de Patricio e Melissa Garat de anos atrás, marcando Karen e Patricio com a legenda: "O verdadeiro amor nunca morre. Algumas pessoas são apenas passatempos de luxo".

Karen sentiu o ar sumir. Não era a primeira vez, nem seria a última, mas o cansaço acumulado das viagens e a pressão da carreira a deixavam vulnerável. Melissa era uma sombra que ela não conseguia dissipar, uma memória que alguns fãs de Airbag insistiam em manter viva como se o tempo não tivesse passado.

— Ei, você foi incrível. — A voz profunda de Patricio ecoou no camarim luxuoso. Ele se aproximou, envolvendo-a pela cintura e beijando seu ombro. — O mundo é pequeno demais para você, meu amor.

Karen forçou um sorriso, bloqueando a tela do celular rapidamente, mas não rápido o suficiente.

— O que foi? — Patricio perguntou, sentindo a rigidez no corpo dela. — De novo o pessoal da internet?

— Eles não param, Pato — desabafou ela, afastando-se para começar a tirar a maquiagem pesada. — Eles marcam a Melissa em tudo. Marcam a mim em fotos deles dois se beijando de dez anos atrás. É como se o nosso noivado não significasse nada para eles.

Patricio soltou um suspiro pesado, passando a mão pelo cabelo.

— Karen, já falamos sobre isso. São adolescentes nostálgicos ou pessoas que não têm o que fazer. Eu estou aqui, com você. Eu pedi você em casamento, não ela.

— Eu sei disso na teoria — disse Karen, a voz embargada. — Mas dói. Dói ler que eu sou um "passatempo de luxo". Eu trabalho duro, conquistei meu espaço, e para eles eu sou apenas a intrusa que ocupou o lugar de uma "musa" antiga.

— Você não é intrusa nenhuma — rebateu Patricio, o tom de voz subindo ligeiramente por causa da frustração. — Mas se você continuar dando palco para esse tipo de comentário, eles vencem. Você está deixando estranhos ditarem como você se sente na nossa relação.

— É fácil para você dizer! — Karen virou-se, com os olhos brilhando de lágrimas. — Você sobe no palco e eles te amam. Eu saio na passarela e sou julgada por cada centímetro do meu corpo e, agora, por quem eu amo. Às vezes eu sinto que você não me defende o suficiente.

Patricio cruzou os braços, o semblante fechando.

— O que você quer que eu faça? Que eu brigue com o Twitter inteiro? Que eu faça um post por dia dizendo que amo você? Eu demonstro isso na vida real, Karen. A vida real é o que importa.

— A vida real também é feita de respeito, e eu não me sinto respeitada por uma parte do seu mundo — disse ela, pegando sua bolsa. — Vou para o hotel. Preciso descansar. Amanhã tenho voo para Nova York às seis da manhã.

— Karen, espera — pediu ele, mas ela já estava saindo pela porta, deixando para trás o perfume caro e o silêncio pesado de uma briga inacabada.

Os dias seguintes foram marcados por um distanciamento gélido. Karen mergulhou no trabalho em Nova York, fotografando para uma nova campanha de joias. No entanto, a insegurança era como uma semente que brotara e crescia rapidamente. Cada vez que ela via uma nova notificação, o estômago revirava. A insistência dos fãs em ressuscitar o passado de Patricio com Melissa Garat criava uma barreira invisível entre o casal.

Patricio ligava, mas as conversas eram curtas. Ele estava em estúdio, focado no novo álbum, e o estresse da produção o tornava menos paciente com o que ele considerava "drama de internet".

Duas semanas depois, eles se reencontraram em Buenos Aires. Karen tinha alguns dias de folga e esperava que o tempo em casa acalmasse os ânimos. Mas o destino — ou o algoritmo — tinha outros planos.

Enquanto tomavam café em um restaurante discreto em Palermo, o celular de Patricio, que estava sobre a mesa, acendeu com uma notificação. Karen não pôde evitar olhar. Era uma marcação em um story. Uma fã havia feito um vídeo nostálgico com uma música romântica do Airbag, alternando fotos de Patricio com Melissa e, no final, uma foto de Karen com um "X" vermelho.

Karen largou o garfo, a fome desaparecendo instantaneamente.

— Você viu isso? — perguntou ela, a voz trêmula.

Patricio pegou o celular, olhou e bloqueou a tela com força.

— É uma idiota, Karen. Esquece isso.

— Eu não consigo esquecer! — exclamou ela, atraindo olhares de algumas mesas próximas. — Eles estão me atacando sistematicamente. E a Melissa... ela nunca diz nada, ela apenas curte alguns desses comentários de vez em quando. Isso alimenta eles!

— Eu não posso controlar o que a Melissa faz ou deixa de fazer — disse Patricio, tentando manter a calma, embora seus olhos mostrassem irritação. — E eu não vou entrar em uma guerra pública por causa de fofoca.

— Não é fofoca, é a minha saúde mental! — Karen sentiu as lágrimas arderem. — Eu me sinto sozinha nessa, Pato. Parece que você tem medo de ofender os fãs que ainda vivem no passado.

— Medo? Você sabe que eu não tenho medo de nada — retrucou ele, a voz agora mais ríspida. — Mas eu tenho maturidade. Coisa que parece estar faltando aqui. Eu te amo, estou com você há três anos. Se isso não é o suficiente para você se sentir segura, talvez o problema não sejam os fãs.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Karen sentiu como se tivesse levado um tapa.

— O problema sou eu, então? — perguntou ela em voz baixa.

— O problema é essa sua obsessão com o que as pessoas dizem em uma tela de cinco polegadas — disse Patricio, levantando-se. — Eu vou para o ensaio. Quando você estiver pronta para viver no mundo real, a gente conversa.

Ele saiu, deixando Karen sozinha com o café frio e o coração partido.

Naquela noite, Karen não voltou para a casa que dividiam. Ela ficou em um hotel, olhando para o anel de noivado em seu dedo. As palavras de Patricio ecoavam: "talvez o problema não sejam os fãs". Ela se perguntava se ele tinha razão, ou se ele simplesmente não entendia o peso de ser uma mulher sob constante escrutínio, onde cada comparação era uma tentativa de diminuir seu valor.

Ela pegou o celular e, em um momento de impulso, abriu o perfil de Melissa. A modelo argentina era linda, talentosa e tinha uma história com Patricio que muitos consideravam "lendária". Karen sentiu-se pequena. Como ela poderia competir com uma memória idealizada?

A insegurança criou um abismo. Nos dias que se seguiram, as trocas de mensagens tornaram-se meramente burocráticas. "Vou chegar tarde", "Tem comida na geladeira", "Esqueci minha chave". O casal vibrante e apaixonado que todos admiravam parecia estar se dissolvendo em meio a sombras digitais e falta de empatia.

Patricio, no estúdio, descontava sua frustração na guitarra. Ele amava Karen com uma intensidade que o assustava, mas não sabia como lidar com aquela vulnerabilidade dela. Para ele, o amor era um fato, não algo que precisava ser provado constantemente contra fantasmas do passado.

— Você está distraído, Pato — disse Gastón, seu irmão, durante uma pausa. — É a Karen?

— É essa história de Melissa de novo — rosnou Patricio. — Os fãs não param, e ela não consegue ignorar. Estamos brigando por causa de gente que nem conhecemos.

— Cara, para você é passado — ponderou Gastón. — Mas para ela, é um ataque constante à posição dela na sua vida. Mulheres sofrem uma pressão diferente na internet. Talvez ela só precise sentir que você é o escudo dela.

Patricio ficou em silêncio, as palavras do irmão atingindo um ponto sensível.

Enquanto isso, Karen recebia um convite para um evento de gala da Vogue em Londres. Seria a oportunidade perfeita para se afastar de Buenos Aires e daquela atmosfera pesada. Ela arrumou as malas, mas antes de sair, deixou o anel de noivado sobre a mesa de cabeceira, junto com um bilhete curto: "Preciso de um tempo para lembrar quem eu sou sem ser a 'rival' de alguém".

Quando Patricio chegou em casa e encontrou o quarto vazio, o silêncio nunca pareceu tão ensurdecedor. O anel brilhava sob a luz do abajur, um lembrete frio de que, enquanto ele ignorava as sombras, acabara perdendo a luz que realmente importava.

Ele pegou o celular. Não para olhar as redes sociais, mas para discar o número dela. Deu caixa postal.

Patricio sentou-se na beira da cama, a cabeça entre as mãos. Ele percebeu, tarde demais, que o silêncio dele não fora maturidade, fora negligência. E que, para salvar o relacionamento, ele teria que aprender a lutar as batalhas dela, mesmo aquelas que ele considerava invisíveis.

A distância entre Buenos Aires e Londres era de milhares de quilômetros, mas o abismo entre os dois, cavado por comentários maldosos e falta de compreensão, parecia muito maior. Karen, no avião, olhava pela janela as nuvens passarem, perguntando-se se o amor deles era forte o suficiente para sobreviver ao peso da fama e aos fantasmas que outros insistiam em invocar.

O capítulo terminava ali, com a incerteza pairando no ar como a névoa de Londres, enquanto dois corações que se amavam profundamente tentavam encontrar o caminho de volta um para o outro, através do ruído ensurdecedor do mundo exterior.
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