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Grenade
Fandom: Bruno Mars
Criado: 26/06/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoSongficTentativa de SuicídioEstudo de PersonagemRealismoConserto
O Som do Metal e o Brilho nos Olhos
A fumaça do cigarro barato se misturava ao vapor do café frio sobre o tampo de madeira lascada do piano. Bruno Mars, ou apenas Peter para os poucos amigos que ainda restavam naquela Los Angeles de 2010, sentia que seu coração era um músculo cansado de bombear sangue para lugar nenhum. Ele vivia em um apartamento que mal cabia seus sonhos, um cubículo onde o teto descascado parecia desabar um pouco mais a cada nota alta que ele tentava alcançar.
Ele era um romântico incurável em uma cidade que devorava românticos no café da manhã. Para Bruno, o amor não era um conceito abstrato; era algo pelo qual se sangrava. E ele estava sangrando. Jessica era o nome da ferida.
Ela era a musa de suas melodias mais tristes e de suas promessas mais perigosas. Enquanto ele escrevia versos sobre pegar uma granada com as mãos nuas ou pular na frente de um trem em movimento por ela, Jessica parecia apenas interessada em quão alto ele poderia elevar o ego dela. Ele era o bobo da corte com um chapéu de feltro e um talento bruto, disposto a dar a vida por alguém que não lhe daria nem um copo de água se ele estivesse pegando fogo.
Naquela noite, a dor atingiu o ápice. Bruno decidiu que palavras não eram suficientes. Ele precisava de um gesto grandioso, algo que provasse que ele era o homem que ela merecia. Com um esforço sobre-humano, ele amarrou cordas ao seu piano vertical — seu único bem de valor, sua voz, sua alma — e começou a puxá-lo pelas ruas de Los Angeles.
O suor escorria pelo seu rosto, manchando a camisa branca. Seus músculos gritavam, mas a imagem de Jessica o impulsionava. Ele atravessou quilômetros, ignorando os olhares curiosos dos motoristas e o cansaço que ameaçava fechar seus olhos. Ele queria chegar à janela dela, tocar a canção definitiva e vê-la cair em seus braços.
Mas o destino tinha um senso de humor cruel.
Ao dobrar a esquina da rua dela, exausto e com as mãos em carne viva, Bruno olhou para cima. A luz do quarto estava acesa. E lá estava ela. Jessica não estava sozinha. Através da cortina fina, ele viu a silhueta dela entrelaçada à de outro homem. O riso dela, que ele tanto amava, ecoou como um tiro em seus ouvidos.
O piano pareceu pesar toneladas a mais naquele segundo. Bruno não gritou. Ele não quebrou a janela. Ele apenas deu meia volta. A humilhação era um gosto amargo de metal na boca. Ele arrastou o piano de volta, mas desta vez não havia propósito, apenas uma inércia melancólica.
Horas depois, ele chegou aos trilhos do trem perto de seu bairro. O corpo não respondia mais. A mente estava em um lugar escuro, repetindo em looping a imagem de Jessica com o outro. O som do apito do trem começou a vibrar no chão, um rugido metálico que crescia a cada segundo. Bruno parou sobre os trilhos. Ele olhou para o piano, depois para a luz ofuscante que se aproximava.
— Se eu morresse agora, ela ao menos saberia? — murmurou para si mesmo, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos olhos.
Ele não se moveu. O trem estava a poucos metros, uma massa de ferro imparável. Bruno fechou os olhos, esperando o impacto que silenciaria a música em sua cabeça.
De repente, um grito agudo cortou o ar, mais forte que o motor da locomotiva.
— SAI DAÍ, SEU IDIOTA!
Antes que Bruno pudesse processar a voz, um vulto pequeno e veloz colidiu contra ele. O impacto foi seco e violento. Ele foi arremessado para fora dos trilhos, caindo pesadamente no cascalho e no mato seco. Alguém caiu exatamente em cima dele, o peso de um corpo pequeno mas firme prendendo-o ao chão.
Um milésimo de segundo depois, o som foi ensurdecedor. O trem passou como uma besta furiosa, e o piano de Bruno, que ficara para trás sobre os trilhos, foi reduzido a estilhaços de madeira, cordas de aço retorcidas e teclas de marfim voando pelo ar.
O silêncio que se seguiu ao passar do trem foi absoluto, interrompido apenas pela respiração ofegante de quem estava sobre ele. Bruno abriu os olhos, atordoado.
— Você está maluco? — A voz era feminina, carregada de uma mistura de raiva e adrenalina.
Bruno piscou, tentando focar a visão. A garota que o derrubara era menor do que ele — e ele sabia que não era um homem alto, mal chegando aos um metro e sessenta e cinco. Ela tinha cabelos rebeldes, olhos que pareciam conter todo o brilho das estrelas que Los Angeles insistia em esconder e um sorriso que, mesmo naquele momento de quase morte, parecia pronto para florescer.
— Meu piano... — Bruno conseguiu balbuciar, olhando para os destroços. — Ela... ela não me amava.
A garota se levantou, limpando a poeira da calça jeans rasgada, e estendeu a mão para ele.
— O piano já era, mas você ainda está inteiro. E, honestamente? Se você ia se matar por causa de uma garota que não te ama, esse piano era bom demais para você.
Bruno aceitou a mão dela, sentindo uma eletricidade estranha no toque. Ele se levantou, sentindo o corpo todo doer.
— Quem é você? — perguntou ele, limpando o sangue de um pequeno corte no lábio.
— Alicia — disse ela, com uma leve reverência irônica. — Mas meus amigos me chamam de Ali. E eu não costumo salvar aspirantes a músicos de cometerem a maior burrice da vida deles todas as noites, então considere-se com sorte.
Bruno olhou para os restos de sua vida profissional espalhados pelos trilhos. Ele sentiu uma vontade súbita de chorar, mas Ali soltou uma risada curta e vibrante.
— Por que você está rindo? — perguntou ele, indignado. — Eu perdi tudo!
— Você perdeu um monte de madeira e cordas, Peter Pan — disse Ali, aproximando-se e olhando-o nos olhos. — Mas ganhou uma história incrível. E, pelo que eu ouvi você resmungando antes do trem passar, você precisa de histórias melhores do que "eu morreria por você". Que tal "eu sobrevivi por mim"?
Bruno ficou em silêncio por um longo tempo. Havia algo em Alicia que era o oposto de Jessica. Jessica era fria, calculista e distante. Alicia era como um incêndio em uma noite de inverno: perigosa, mas irresistivelmente quente e cheia de vida.
— Eu sou o Bruno — disse ele, finalmente, tentando recompor sua dignidade.
— Prazer, Bruno. Agora, vamos sair desses trilhos antes que o próximo trem venha terminar o serviço. Você tem onde cair morto? Além de debaixo de uma locomotiva?
— Eu moro a alguns quarteirões daqui. É um lugar... pequeno.
— Perfeito — disse Ali, começando a andar e fazendo sinal para que ele a seguisse. — Eu tenho uma garrafa de vinho barato na minha mochila e aposto que você tem um violão naquele apartamento. Se você prometer não tentar se jogar de nenhuma ponte na próxima hora, eu te ajudo a escrever algo que não seja patético.
Eles caminharam sob a luz dos postes amarelados de 2010. Bruno olhava para Alicia e sentia que o peso que carregara o dia todo — o peso físico do piano e o peso emocional de Jessica — estava começando a se dissipar.
Ao chegarem ao apartamento de Bruno, Alicia entrou como se fosse a dona do lugar. Ela chutou os sapatos para um canto e sentou-se no chão, abrindo a mochila.
— Então — começou ela, servindo o vinho em dois copos de plástico que encontrou na pia —, quem era a garota que te fez querer virar purê de músico?
Bruno sentou-se no sofá velho, segurando o copo com as mãos trêmulas.
— O nome dela é Jessica. Eu faria qualquer coisa por ela, Ali. Eu atravessaria o país, eu...
— Pare! — Ela o interrompeu, rindo. — Esse é o seu problema. Você é romântico demais para o seu próprio bem. O amor não é sobre se destruir, Bruno. O amor é sobre ser livre com alguém.
— Como você pode saber? — questionou ele.
— Porque eu sou apaixonada pela vida, não pelas pessoas — explicou ela, os olhos brilhando. — As pessoas mudam, elas te traem, elas vão embora. Mas a vida? A vida está sempre aqui, oferecendo um novo nascer do sol, uma nova música, um novo susto nos trilhos do trem.
Bruno pegou seu violão, o único instrumento que lhe restara. Ele dedilhou algumas notas tristes, mas a presença de Alicia na sala parecia mudar a tonalidade da música. Onde antes havia apenas sombras, agora havia uma luz vibrante e caótica.
— Você me empurrou — disse ele, de repente, olhando para ela. — Você poderia ter se machucado.
— Eu sou rápida — ela deu de ombros, sem dar importância. — E eu vi você puxando aquele piano pela cidade. Eu estava vindo do trabalho e fiquei curiosa. Pensei: "Quem é o maluco que acha que estamos no século XIX?". Aí eu te segui. Vi você na casa da tal garota e vi quando você desistiu.
— Você me seguiu por quilômetros? — Bruno arqueou as sobrancelhas.
— Eu não tinha nada melhor para fazer e você parecia um personagem de um filme triste. Eu queria ver o final. Mas o final que você escolheu era péssimo, então eu decidi reescrever.
Bruno riu pela primeira vez em semanas. Era uma risada rouca, mas sincera.
— Obrigado, Ali. Por reescrever o final.
— Não agradeça ainda. O vinho é horrível e eu vou te obrigar a tocar até o sol nascer.
Eles passaram a noite conversando. Alicia contou sobre como fugira de uma cidade pequena no interior para encontrar a liberdade em Los Angeles, como trabalhava em três empregos diferentes apenas para poder dizer que não devia nada a ninguém. Ela era o epítome da liberdade, uma alma que não podia ser engaiolada.
Bruno, por outro lado, sentia-se pela primeira vez compreendido. Ele tocou para ela as músicas que escrevera para Jessica, e Alicia as criticou sem piedade.
— Essa parte aqui... "eu morreria por você"... é muito melosa, Bruno. Mude para algo como "eu seria capaz de tudo, mas agora eu vejo quem você é".
— Mas não rima — protestou ele, rindo.
— Então faça rimar! Você é o músico, não eu.
Perto das cinco da manhã, a luz azulada do amanhecer começou a invadir o apartamento. O cansaço finalmente atingiu Bruno, mas ele não queria que a noite acabasse. Ele olhou para Alicia, que estava deitada no tapete, olhando para o teto descascado.
— No que você está pensando? — perguntou ele em voz baixa.
— Que o seu teto parece um mapa de um mundo que eu ainda quero conhecer — respondeu ela, sem desviar o olhar. — E que você tem um talento que vai muito além de sofrer por garotas que não valem o seu piano.
Bruno se aproximou e sentou-se ao lado dela no chão.
— Eu sinto que... eu sinto que tudo o que eu escrevi até hoje era mentira — confessou ele. — Eu achava que o amor era dor. Mas agora, olhando para você... parece algo diferente.
Alicia virou a cabeça para olhá-lo. O rosto dela estava a poucos centímetros do dele.
— O amor é um salto no escuro, Bruno. Mas você não precisa saltar para a morte. Pode saltar para a vida.
— Você me ensina? — perguntou ele, o coração batendo mais forte do que quando o trem se aproximava.
— Eu não ensino nada a ninguém — disse ela, com um sorriso desafiador. — Mas eu posso te acompanhar no caminho. Enquanto for divertido.
Bruno inclinou-se e a beijou. Não foi um beijo de cinema, cheio de promessas eternas. Foi um beijo que tinha gosto de vinho barato, adrenalina e recomeço. Era o beijo de dois estranhos que se encontraram no momento mais sombrio e decidiram que a luz valia a pena.
Quando se separaram, Alicia se levantou e pegou sua mochila.
— Onde você vai? — perguntou Bruno, sentindo um súbito medo de que ela desaparecesse como um sonho.
— Tenho que entrar no trabalho às sete — disse ela, piscando para ele. — Mas eu sei onde você mora. E você me deve um piano novo.
— Eu vou escrever uma música sobre isso — prometeu ele, levantando-se também. — Sobre a garota que me atropelou para me salvar.
— É bom que seja uma música rápida — disse ela, já na porta. — Chega de baladas tristes, Bruno Mars. O mundo já tem tristeza demais. Dê a eles algo para dançar.
Ela saiu, deixando o apartamento em silêncio, mas não era mais o silêncio vazio de antes. Bruno pegou seu violão e começou a tocar um ritmo novo, algo mais rápido, mais alegre, algo que capturasse a energia selvagem de Alicia.
Ele olhou pela janela e viu o sol nascendo sobre Los Angeles. Ele ainda era um cara em um apartamento minúsculo, sem piano e com o coração em pedaços. Mas, pela primeira vez, ele não queria morrer por ninguém.
Ele queria viver. E ele queria escrever sobre isso.
— "Grenade" pode esperar — murmurou ele, ajustando as cordas do violão. — Vamos ver o que mais o destino tem guardado para mim.
Naquela manhã, em um pequeno cubículo em Los Angeles, a música de Bruno Mars mudou para sempre. Não era mais apenas sobre a dor de perder; era sobre a euforia de ser encontrado. E, em algum lugar da cidade, Alicia caminhava com um sorriso no rosto, sabendo que tinha acabado de dar ao mundo algo muito mais precioso do que um piano: ela tinha dado a um artista uma razão para cantar de novo.
Ele era um romântico incurável em uma cidade que devorava românticos no café da manhã. Para Bruno, o amor não era um conceito abstrato; era algo pelo qual se sangrava. E ele estava sangrando. Jessica era o nome da ferida.
Ela era a musa de suas melodias mais tristes e de suas promessas mais perigosas. Enquanto ele escrevia versos sobre pegar uma granada com as mãos nuas ou pular na frente de um trem em movimento por ela, Jessica parecia apenas interessada em quão alto ele poderia elevar o ego dela. Ele era o bobo da corte com um chapéu de feltro e um talento bruto, disposto a dar a vida por alguém que não lhe daria nem um copo de água se ele estivesse pegando fogo.
Naquela noite, a dor atingiu o ápice. Bruno decidiu que palavras não eram suficientes. Ele precisava de um gesto grandioso, algo que provasse que ele era o homem que ela merecia. Com um esforço sobre-humano, ele amarrou cordas ao seu piano vertical — seu único bem de valor, sua voz, sua alma — e começou a puxá-lo pelas ruas de Los Angeles.
O suor escorria pelo seu rosto, manchando a camisa branca. Seus músculos gritavam, mas a imagem de Jessica o impulsionava. Ele atravessou quilômetros, ignorando os olhares curiosos dos motoristas e o cansaço que ameaçava fechar seus olhos. Ele queria chegar à janela dela, tocar a canção definitiva e vê-la cair em seus braços.
Mas o destino tinha um senso de humor cruel.
Ao dobrar a esquina da rua dela, exausto e com as mãos em carne viva, Bruno olhou para cima. A luz do quarto estava acesa. E lá estava ela. Jessica não estava sozinha. Através da cortina fina, ele viu a silhueta dela entrelaçada à de outro homem. O riso dela, que ele tanto amava, ecoou como um tiro em seus ouvidos.
O piano pareceu pesar toneladas a mais naquele segundo. Bruno não gritou. Ele não quebrou a janela. Ele apenas deu meia volta. A humilhação era um gosto amargo de metal na boca. Ele arrastou o piano de volta, mas desta vez não havia propósito, apenas uma inércia melancólica.
Horas depois, ele chegou aos trilhos do trem perto de seu bairro. O corpo não respondia mais. A mente estava em um lugar escuro, repetindo em looping a imagem de Jessica com o outro. O som do apito do trem começou a vibrar no chão, um rugido metálico que crescia a cada segundo. Bruno parou sobre os trilhos. Ele olhou para o piano, depois para a luz ofuscante que se aproximava.
— Se eu morresse agora, ela ao menos saberia? — murmurou para si mesmo, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos olhos.
Ele não se moveu. O trem estava a poucos metros, uma massa de ferro imparável. Bruno fechou os olhos, esperando o impacto que silenciaria a música em sua cabeça.
De repente, um grito agudo cortou o ar, mais forte que o motor da locomotiva.
— SAI DAÍ, SEU IDIOTA!
Antes que Bruno pudesse processar a voz, um vulto pequeno e veloz colidiu contra ele. O impacto foi seco e violento. Ele foi arremessado para fora dos trilhos, caindo pesadamente no cascalho e no mato seco. Alguém caiu exatamente em cima dele, o peso de um corpo pequeno mas firme prendendo-o ao chão.
Um milésimo de segundo depois, o som foi ensurdecedor. O trem passou como uma besta furiosa, e o piano de Bruno, que ficara para trás sobre os trilhos, foi reduzido a estilhaços de madeira, cordas de aço retorcidas e teclas de marfim voando pelo ar.
O silêncio que se seguiu ao passar do trem foi absoluto, interrompido apenas pela respiração ofegante de quem estava sobre ele. Bruno abriu os olhos, atordoado.
— Você está maluco? — A voz era feminina, carregada de uma mistura de raiva e adrenalina.
Bruno piscou, tentando focar a visão. A garota que o derrubara era menor do que ele — e ele sabia que não era um homem alto, mal chegando aos um metro e sessenta e cinco. Ela tinha cabelos rebeldes, olhos que pareciam conter todo o brilho das estrelas que Los Angeles insistia em esconder e um sorriso que, mesmo naquele momento de quase morte, parecia pronto para florescer.
— Meu piano... — Bruno conseguiu balbuciar, olhando para os destroços. — Ela... ela não me amava.
A garota se levantou, limpando a poeira da calça jeans rasgada, e estendeu a mão para ele.
— O piano já era, mas você ainda está inteiro. E, honestamente? Se você ia se matar por causa de uma garota que não te ama, esse piano era bom demais para você.
Bruno aceitou a mão dela, sentindo uma eletricidade estranha no toque. Ele se levantou, sentindo o corpo todo doer.
— Quem é você? — perguntou ele, limpando o sangue de um pequeno corte no lábio.
— Alicia — disse ela, com uma leve reverência irônica. — Mas meus amigos me chamam de Ali. E eu não costumo salvar aspirantes a músicos de cometerem a maior burrice da vida deles todas as noites, então considere-se com sorte.
Bruno olhou para os restos de sua vida profissional espalhados pelos trilhos. Ele sentiu uma vontade súbita de chorar, mas Ali soltou uma risada curta e vibrante.
— Por que você está rindo? — perguntou ele, indignado. — Eu perdi tudo!
— Você perdeu um monte de madeira e cordas, Peter Pan — disse Ali, aproximando-se e olhando-o nos olhos. — Mas ganhou uma história incrível. E, pelo que eu ouvi você resmungando antes do trem passar, você precisa de histórias melhores do que "eu morreria por você". Que tal "eu sobrevivi por mim"?
Bruno ficou em silêncio por um longo tempo. Havia algo em Alicia que era o oposto de Jessica. Jessica era fria, calculista e distante. Alicia era como um incêndio em uma noite de inverno: perigosa, mas irresistivelmente quente e cheia de vida.
— Eu sou o Bruno — disse ele, finalmente, tentando recompor sua dignidade.
— Prazer, Bruno. Agora, vamos sair desses trilhos antes que o próximo trem venha terminar o serviço. Você tem onde cair morto? Além de debaixo de uma locomotiva?
— Eu moro a alguns quarteirões daqui. É um lugar... pequeno.
— Perfeito — disse Ali, começando a andar e fazendo sinal para que ele a seguisse. — Eu tenho uma garrafa de vinho barato na minha mochila e aposto que você tem um violão naquele apartamento. Se você prometer não tentar se jogar de nenhuma ponte na próxima hora, eu te ajudo a escrever algo que não seja patético.
Eles caminharam sob a luz dos postes amarelados de 2010. Bruno olhava para Alicia e sentia que o peso que carregara o dia todo — o peso físico do piano e o peso emocional de Jessica — estava começando a se dissipar.
Ao chegarem ao apartamento de Bruno, Alicia entrou como se fosse a dona do lugar. Ela chutou os sapatos para um canto e sentou-se no chão, abrindo a mochila.
— Então — começou ela, servindo o vinho em dois copos de plástico que encontrou na pia —, quem era a garota que te fez querer virar purê de músico?
Bruno sentou-se no sofá velho, segurando o copo com as mãos trêmulas.
— O nome dela é Jessica. Eu faria qualquer coisa por ela, Ali. Eu atravessaria o país, eu...
— Pare! — Ela o interrompeu, rindo. — Esse é o seu problema. Você é romântico demais para o seu próprio bem. O amor não é sobre se destruir, Bruno. O amor é sobre ser livre com alguém.
— Como você pode saber? — questionou ele.
— Porque eu sou apaixonada pela vida, não pelas pessoas — explicou ela, os olhos brilhando. — As pessoas mudam, elas te traem, elas vão embora. Mas a vida? A vida está sempre aqui, oferecendo um novo nascer do sol, uma nova música, um novo susto nos trilhos do trem.
Bruno pegou seu violão, o único instrumento que lhe restara. Ele dedilhou algumas notas tristes, mas a presença de Alicia na sala parecia mudar a tonalidade da música. Onde antes havia apenas sombras, agora havia uma luz vibrante e caótica.
— Você me empurrou — disse ele, de repente, olhando para ela. — Você poderia ter se machucado.
— Eu sou rápida — ela deu de ombros, sem dar importância. — E eu vi você puxando aquele piano pela cidade. Eu estava vindo do trabalho e fiquei curiosa. Pensei: "Quem é o maluco que acha que estamos no século XIX?". Aí eu te segui. Vi você na casa da tal garota e vi quando você desistiu.
— Você me seguiu por quilômetros? — Bruno arqueou as sobrancelhas.
— Eu não tinha nada melhor para fazer e você parecia um personagem de um filme triste. Eu queria ver o final. Mas o final que você escolheu era péssimo, então eu decidi reescrever.
Bruno riu pela primeira vez em semanas. Era uma risada rouca, mas sincera.
— Obrigado, Ali. Por reescrever o final.
— Não agradeça ainda. O vinho é horrível e eu vou te obrigar a tocar até o sol nascer.
Eles passaram a noite conversando. Alicia contou sobre como fugira de uma cidade pequena no interior para encontrar a liberdade em Los Angeles, como trabalhava em três empregos diferentes apenas para poder dizer que não devia nada a ninguém. Ela era o epítome da liberdade, uma alma que não podia ser engaiolada.
Bruno, por outro lado, sentia-se pela primeira vez compreendido. Ele tocou para ela as músicas que escrevera para Jessica, e Alicia as criticou sem piedade.
— Essa parte aqui... "eu morreria por você"... é muito melosa, Bruno. Mude para algo como "eu seria capaz de tudo, mas agora eu vejo quem você é".
— Mas não rima — protestou ele, rindo.
— Então faça rimar! Você é o músico, não eu.
Perto das cinco da manhã, a luz azulada do amanhecer começou a invadir o apartamento. O cansaço finalmente atingiu Bruno, mas ele não queria que a noite acabasse. Ele olhou para Alicia, que estava deitada no tapete, olhando para o teto descascado.
— No que você está pensando? — perguntou ele em voz baixa.
— Que o seu teto parece um mapa de um mundo que eu ainda quero conhecer — respondeu ela, sem desviar o olhar. — E que você tem um talento que vai muito além de sofrer por garotas que não valem o seu piano.
Bruno se aproximou e sentou-se ao lado dela no chão.
— Eu sinto que... eu sinto que tudo o que eu escrevi até hoje era mentira — confessou ele. — Eu achava que o amor era dor. Mas agora, olhando para você... parece algo diferente.
Alicia virou a cabeça para olhá-lo. O rosto dela estava a poucos centímetros do dele.
— O amor é um salto no escuro, Bruno. Mas você não precisa saltar para a morte. Pode saltar para a vida.
— Você me ensina? — perguntou ele, o coração batendo mais forte do que quando o trem se aproximava.
— Eu não ensino nada a ninguém — disse ela, com um sorriso desafiador. — Mas eu posso te acompanhar no caminho. Enquanto for divertido.
Bruno inclinou-se e a beijou. Não foi um beijo de cinema, cheio de promessas eternas. Foi um beijo que tinha gosto de vinho barato, adrenalina e recomeço. Era o beijo de dois estranhos que se encontraram no momento mais sombrio e decidiram que a luz valia a pena.
Quando se separaram, Alicia se levantou e pegou sua mochila.
— Onde você vai? — perguntou Bruno, sentindo um súbito medo de que ela desaparecesse como um sonho.
— Tenho que entrar no trabalho às sete — disse ela, piscando para ele. — Mas eu sei onde você mora. E você me deve um piano novo.
— Eu vou escrever uma música sobre isso — prometeu ele, levantando-se também. — Sobre a garota que me atropelou para me salvar.
— É bom que seja uma música rápida — disse ela, já na porta. — Chega de baladas tristes, Bruno Mars. O mundo já tem tristeza demais. Dê a eles algo para dançar.
Ela saiu, deixando o apartamento em silêncio, mas não era mais o silêncio vazio de antes. Bruno pegou seu violão e começou a tocar um ritmo novo, algo mais rápido, mais alegre, algo que capturasse a energia selvagem de Alicia.
Ele olhou pela janela e viu o sol nascendo sobre Los Angeles. Ele ainda era um cara em um apartamento minúsculo, sem piano e com o coração em pedaços. Mas, pela primeira vez, ele não queria morrer por ninguém.
Ele queria viver. E ele queria escrever sobre isso.
— "Grenade" pode esperar — murmurou ele, ajustando as cordas do violão. — Vamos ver o que mais o destino tem guardado para mim.
Naquela manhã, em um pequeno cubículo em Los Angeles, a música de Bruno Mars mudou para sempre. Não era mais apenas sobre a dor de perder; era sobre a euforia de ser encontrado. E, em algum lugar da cidade, Alicia caminhava com um sorriso no rosto, sabendo que tinha acabado de dar ao mundo algo muito mais precioso do que um piano: ela tinha dado a um artista uma razão para cantar de novo.
