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Consequências no mechico
Fandom: Airbag
Criado: 27/06/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoFatias de VidaAbuso de ÁlcoolSongficEstudo de PersonagemCiúmesRealismo
O Eco Amargo da Tequila
A Cidade do México pulsava sob as luzes de neon e o calor úmido que subia do asfalto, uma energia que Karen conhecia bem. Como modelo internacional, ela já havia desfilado naquelas avenidas e posado em frente às fachadas coloniais de Coyoacán mais vezes do que conseguia contar. Mas, desta vez, era diferente. Ela não estava ali a trabalho; estava acompanhando a turnê da Airbag, a banda do seu noivo, Pato Sardelli.
O Auditório Nacional seria o palco do show na noite seguinte, e o clima no hotel era de uma calmaria tensa, aquele silêncio que precede a tempestade de guitarras e distorção. Pato estava imerso em partituras, trocando ideias com Guido e Gastón sobre o setlist, o cenho franzido em concentração absoluta.
Karen, encostada no batente da porta da suíte, observava o noivo. Ela o amava, amava a intensidade dele, mas o confinamento do hotel estava começando a sufocá-la. O telefone em sua mão vibrou com uma mensagem de Sofia, uma amiga de longa data que morava na capital mexicana. "Estamos no Polanco, no bar de sempre. Venha!"
— Pato? — Karen chamou suavemente, aproximando-se e colocando as mãos sobre os ombros dele.
O músico despertou de seu transe criativo, relaxando o pescoço sob o toque da noiva.
— Diga, mi amor — ele respondeu, a voz rouca de quem passou o dia ensaiando.
— As meninas estão no Polanco. Eu queria sair um pouco, respirar ar puro, sabe? — Karen deu um beijo leve na nuca dele. — Prometo não demorar. Amanhã é o grande dia e eu quero estar na primeira fila, descansada, para ver você brilhar.
Pato girou a cadeira, olhando-a nos olhos. Havia uma sombra de preocupação, ou talvez apenas o instinto protetor de quem sabia o quão caótica aquela cidade podia ser.
— Você conhece bem o caminho, não conhece? — ele perguntou, segurando as mãos dela. — E por favor, Karen, não exagere. O México tem um jeito de fazer a gente perder a noção do tempo.
— Eu sei, eu sei. Sou brasileira, Pato, eu aguento o tranco — ela riu, dando um selinho rápido nele. — Volto antes da meia-noite. Prometo.
— Tudo bem — ele cedeu, com um meio sorriso. — Vá se divertir. Mas leve o celular carregado e me avise quando estiver voltando.
Karen se arrumou em tempo recorde. Escolheu um vestido de seda preto que abraçava suas curvas de modelo e um batom vermelho que gritava confiança. Ao sair, sentiu-se livre. A noite mexicana era um convite ao excesso, e ela estava pronta para aceitá-lo.
O reencontro com as amigas foi explosivo. Risadas, fofocas da indústria da moda e, claro, a primeira rodada de tequilas.
— À Karen e ao casamento do ano! — brindou Sofia, levantando o copinho de sal e limão.
— À liberdade antes da aliança! — brincou outra amiga.
Karen riu, sentindo o líquido queimar a garganta de forma prazerosa. O problema da tequila de boa qualidade é que ela desce como seda, mas sobe como um incêndio. O que era para ser apenas um drinque se transformou em dois, depois quatro. A música alta do bar, um mix de reggaeton e rock clássico, envolvia Karen em uma bolha de euforia.
Ela olhou para o relógio de pulso às onze da noite. "Tenho tempo", pensou. Mas então veio a rodada de mezcal. E a conversa sobre os velhos tempos em Paris. E a dança.
Quando Karen finalmente olhou para o celular, a tela mostrava duas da manhã. Havia quinze chamadas perdidas de Pato e uma sucessão de mensagens que começavam com "Onde você está?" e terminavam com um seco "Não precisa mais responder".
O pânico cortou a névoa do álcool como uma lâmina fria.
— Meninas, eu preciso ir. Agora! — Karen tropeçou ao pegar a bolsa.
O trajeto de táxi até o hotel pareceu uma eternidade de luzes borradas e náusea crescente. Ela tentou ligar para Pato, mas ele não atendia. O arrependimento pesava mais que a ressaca que já começava a dar sinal de vida.
Ao entrar na suíte, o silêncio era ensurdecedor. A luz do abajur estava acesa, e Pato estava sentado no sofá, ainda com a mesma roupa, os braços cruzados e o olhar fixo na janela. O violão estava no chão, abandonado.
Karen fechou a porta com cuidado, mas o clique do trinco pareceu um tiro no meio da sala.
— Pato... — ela começou, a voz falhando.
Ele não se virou. O silêncio se prolongou por um minuto inteiro, carregado de uma eletricidade perigosa.
— Você tem noção de que horas são? — perguntou Pato, a voz baixa, contida, o que era muito pior do que se ele estivesse gritando.
— Eu perdi a noção, me desculpe. A conversa estava boa e... — Ela tentou se aproximar, mas ele se levantou bruscamente, caminhando até o centro da sala.
— A conversa estava boa? — Ele soltou uma risada seca, sem humor nenhum. — Karen, amanhã é o show mais importante da turnê. Eu não consegui pregar o olho pensando se você tinha sido assaltada, se tinha sofrido um acidente ou se estava jogada em algum canto dessa cidade.
— Não precisa exagerar, eu conheço o México! — rebateu ela, a teimosia do álcool ainda falando por ela.
— Exagerar? — Pato finalmente a encarou. Seus olhos estavam vermelhos de cansaço e raiva. — Eu te pedi uma única coisa. Responsabilidade. Você é minha noiva, não uma adolescente em férias de primavera. Eu fiquei aqui nem um idiota, olhando para o celular a cada cinco minutos enquanto meus irmãos me perguntavam se estava tudo bem.
— Eu só queria me divertir um pouco! — Karen elevou a voz, sentindo as lágrimas arderem. — Você vive para essa banda, Pato. Tudo gira em torno dos seus ensaios, das suas turnês, do seu humor pré-show. Eu só queria uma noite que fosse sobre mim e minhas amigas!
— E você teve a sua noite — ele disse, aproximando-se dela, o cheiro de tequila agora evidente no hálito da modelo. — E olhe para você. Você mal consegue ficar em pé direito. Você cheira a destilado barato e não tem o mínimo de respeito pelo que eu sinto.
— Respeito? — Karen riu, uma risada nervosa. — Eu te amo, Pato. Isso foi só um erro de horário.
— Foi um erro de prioridade — corrigiu ele, a voz agora cortante como gelo. — Eu te dei confiança, e você a jogou fora por causa de algumas rodadas de tequila. Eu tenho um show para fazer amanhã. Milhares de pessoas esperando que eu esteja inteiro. E agora eu vou subir naquele palco com a cabeça cheia dessa sua irresponsabilidade.
— Não jogue a culpa do seu desempenho em mim! — Karen gritou, as lágrimas finalmente caindo e borrando a maquiagem perfeita.
— Eu não jogo nada em você, Karen — ele disse, dando um passo para trás, como se a distância física pudesse protegê-lo da decepção. — Vá dormir. Se conseguir.
— Pato, espera... — Ela tentou segurar o braço dele.
— Não — ele a cortou, puxando o braço com firmeza. — Eu vou dormir no quarto do Guido. Não quero ficar no mesmo ambiente que você agora.
— Você está terminando comigo por causa de uma noite? — perguntou ela, a voz trêmula, o coração disparado.
— Não estou terminando nada — Pato parou na porta, olhando-a uma última vez com uma expressão de mágoa profunda. — Mas estou me perguntando se a mulher que eu pedi em casamento é a mesma que não tem a menor consideração pelo homem que está ao lado dela.
Ele saiu, batendo a porta com força. Karen desabou no sofá, o luxo da suíte parecendo agora uma cela fria. O gosto da tequila em sua boca, antes doce e vibrante, agora era apenas um eco amargo de uma noite que deveria ter sido de celebração, mas que terminou em ruínas.
Ela olhou para o vestido preto, para os sapatos caros jogados no tapete, e percebeu que a ressaca moral seria muito mais difícil de curar do que a dor de cabeça que já começava a pulsar em suas têmporas. O show da Airbag seria um sucesso, ela sabia disso. Mas, pela primeira vez, Karen não tinha certeza se estaria na primeira fila para assistir.
O Auditório Nacional seria o palco do show na noite seguinte, e o clima no hotel era de uma calmaria tensa, aquele silêncio que precede a tempestade de guitarras e distorção. Pato estava imerso em partituras, trocando ideias com Guido e Gastón sobre o setlist, o cenho franzido em concentração absoluta.
Karen, encostada no batente da porta da suíte, observava o noivo. Ela o amava, amava a intensidade dele, mas o confinamento do hotel estava começando a sufocá-la. O telefone em sua mão vibrou com uma mensagem de Sofia, uma amiga de longa data que morava na capital mexicana. "Estamos no Polanco, no bar de sempre. Venha!"
— Pato? — Karen chamou suavemente, aproximando-se e colocando as mãos sobre os ombros dele.
O músico despertou de seu transe criativo, relaxando o pescoço sob o toque da noiva.
— Diga, mi amor — ele respondeu, a voz rouca de quem passou o dia ensaiando.
— As meninas estão no Polanco. Eu queria sair um pouco, respirar ar puro, sabe? — Karen deu um beijo leve na nuca dele. — Prometo não demorar. Amanhã é o grande dia e eu quero estar na primeira fila, descansada, para ver você brilhar.
Pato girou a cadeira, olhando-a nos olhos. Havia uma sombra de preocupação, ou talvez apenas o instinto protetor de quem sabia o quão caótica aquela cidade podia ser.
— Você conhece bem o caminho, não conhece? — ele perguntou, segurando as mãos dela. — E por favor, Karen, não exagere. O México tem um jeito de fazer a gente perder a noção do tempo.
— Eu sei, eu sei. Sou brasileira, Pato, eu aguento o tranco — ela riu, dando um selinho rápido nele. — Volto antes da meia-noite. Prometo.
— Tudo bem — ele cedeu, com um meio sorriso. — Vá se divertir. Mas leve o celular carregado e me avise quando estiver voltando.
Karen se arrumou em tempo recorde. Escolheu um vestido de seda preto que abraçava suas curvas de modelo e um batom vermelho que gritava confiança. Ao sair, sentiu-se livre. A noite mexicana era um convite ao excesso, e ela estava pronta para aceitá-lo.
O reencontro com as amigas foi explosivo. Risadas, fofocas da indústria da moda e, claro, a primeira rodada de tequilas.
— À Karen e ao casamento do ano! — brindou Sofia, levantando o copinho de sal e limão.
— À liberdade antes da aliança! — brincou outra amiga.
Karen riu, sentindo o líquido queimar a garganta de forma prazerosa. O problema da tequila de boa qualidade é que ela desce como seda, mas sobe como um incêndio. O que era para ser apenas um drinque se transformou em dois, depois quatro. A música alta do bar, um mix de reggaeton e rock clássico, envolvia Karen em uma bolha de euforia.
Ela olhou para o relógio de pulso às onze da noite. "Tenho tempo", pensou. Mas então veio a rodada de mezcal. E a conversa sobre os velhos tempos em Paris. E a dança.
Quando Karen finalmente olhou para o celular, a tela mostrava duas da manhã. Havia quinze chamadas perdidas de Pato e uma sucessão de mensagens que começavam com "Onde você está?" e terminavam com um seco "Não precisa mais responder".
O pânico cortou a névoa do álcool como uma lâmina fria.
— Meninas, eu preciso ir. Agora! — Karen tropeçou ao pegar a bolsa.
O trajeto de táxi até o hotel pareceu uma eternidade de luzes borradas e náusea crescente. Ela tentou ligar para Pato, mas ele não atendia. O arrependimento pesava mais que a ressaca que já começava a dar sinal de vida.
Ao entrar na suíte, o silêncio era ensurdecedor. A luz do abajur estava acesa, e Pato estava sentado no sofá, ainda com a mesma roupa, os braços cruzados e o olhar fixo na janela. O violão estava no chão, abandonado.
Karen fechou a porta com cuidado, mas o clique do trinco pareceu um tiro no meio da sala.
— Pato... — ela começou, a voz falhando.
Ele não se virou. O silêncio se prolongou por um minuto inteiro, carregado de uma eletricidade perigosa.
— Você tem noção de que horas são? — perguntou Pato, a voz baixa, contida, o que era muito pior do que se ele estivesse gritando.
— Eu perdi a noção, me desculpe. A conversa estava boa e... — Ela tentou se aproximar, mas ele se levantou bruscamente, caminhando até o centro da sala.
— A conversa estava boa? — Ele soltou uma risada seca, sem humor nenhum. — Karen, amanhã é o show mais importante da turnê. Eu não consegui pregar o olho pensando se você tinha sido assaltada, se tinha sofrido um acidente ou se estava jogada em algum canto dessa cidade.
— Não precisa exagerar, eu conheço o México! — rebateu ela, a teimosia do álcool ainda falando por ela.
— Exagerar? — Pato finalmente a encarou. Seus olhos estavam vermelhos de cansaço e raiva. — Eu te pedi uma única coisa. Responsabilidade. Você é minha noiva, não uma adolescente em férias de primavera. Eu fiquei aqui nem um idiota, olhando para o celular a cada cinco minutos enquanto meus irmãos me perguntavam se estava tudo bem.
— Eu só queria me divertir um pouco! — Karen elevou a voz, sentindo as lágrimas arderem. — Você vive para essa banda, Pato. Tudo gira em torno dos seus ensaios, das suas turnês, do seu humor pré-show. Eu só queria uma noite que fosse sobre mim e minhas amigas!
— E você teve a sua noite — ele disse, aproximando-se dela, o cheiro de tequila agora evidente no hálito da modelo. — E olhe para você. Você mal consegue ficar em pé direito. Você cheira a destilado barato e não tem o mínimo de respeito pelo que eu sinto.
— Respeito? — Karen riu, uma risada nervosa. — Eu te amo, Pato. Isso foi só um erro de horário.
— Foi um erro de prioridade — corrigiu ele, a voz agora cortante como gelo. — Eu te dei confiança, e você a jogou fora por causa de algumas rodadas de tequila. Eu tenho um show para fazer amanhã. Milhares de pessoas esperando que eu esteja inteiro. E agora eu vou subir naquele palco com a cabeça cheia dessa sua irresponsabilidade.
— Não jogue a culpa do seu desempenho em mim! — Karen gritou, as lágrimas finalmente caindo e borrando a maquiagem perfeita.
— Eu não jogo nada em você, Karen — ele disse, dando um passo para trás, como se a distância física pudesse protegê-lo da decepção. — Vá dormir. Se conseguir.
— Pato, espera... — Ela tentou segurar o braço dele.
— Não — ele a cortou, puxando o braço com firmeza. — Eu vou dormir no quarto do Guido. Não quero ficar no mesmo ambiente que você agora.
— Você está terminando comigo por causa de uma noite? — perguntou ela, a voz trêmula, o coração disparado.
— Não estou terminando nada — Pato parou na porta, olhando-a uma última vez com uma expressão de mágoa profunda. — Mas estou me perguntando se a mulher que eu pedi em casamento é a mesma que não tem a menor consideração pelo homem que está ao lado dela.
Ele saiu, batendo a porta com força. Karen desabou no sofá, o luxo da suíte parecendo agora uma cela fria. O gosto da tequila em sua boca, antes doce e vibrante, agora era apenas um eco amargo de uma noite que deveria ter sido de celebração, mas que terminou em ruínas.
Ela olhou para o vestido preto, para os sapatos caros jogados no tapete, e percebeu que a ressaca moral seria muito mais difícil de curar do que a dor de cabeça que já começava a pulsar em suas têmporas. O show da Airbag seria um sucesso, ela sabia disso. Mas, pela primeira vez, Karen não tinha certeza se estaria na primeira fila para assistir.
