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Wyler

Fandom: Wednesday

Criado: 27/06/2026

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O Veneno Doce da Amnésia Seletiva

A luz da manhã em Jericho não era gentil. Ela atravessava as frestas da janela com uma agressividade que Wandinha Addams consideraria ofensiva, se não estivesse ocupada demais tentando processar a pulsação martelante em suas têmporas. O silêncio do quarto era denso, quebrado apenas pelo som de uma respiração rítmica e profunda que não era a dela.

Wandinha abriu os olhos lentamente. O teto não era o de seu dormitório em Nunca Mais. As vigas de madeira eram rústicas, cheirando a mofo e café velho. Ela sentiu o frio do ar matinal contra sua pele, uma sensação estranha, considerando que ela sempre dormia com pijamas de abotoar até o pescoço.

Ao tentar se mexer, sentiu o peso de um braço sobre sua cintura.

Ela congelou. Seus olhos negros se arregalaram levemente, a única demonstração de choque que ela se permitia. Virando o rosto com a precisão mecânica de uma boneca de porcelana, ela confirmou seu pior pesadelo.

Tyler Galpin dormia ao seu lado.

Seu cabelo castanho estava bagunçado, caindo sobre a testa de uma forma que muitos chamariam de adorável, mas que Wandinha classificava como um disfarce biológico para um predador. A pele dele, marcada por cicatrizes que ela sabia serem vestígios da transformação em Hyde, parecia pálida sob o lençol desgrenhado. Eles estavam nus.

As memórias da noite anterior começaram a retornar em flashes fragmentados, como um filme de terror mal editado.

Após os eventos catastróficos em Nunca Mais, Wandinha achou que nunca mais veria o filho do xerife — ou que, se o visse, seria através da mira de uma besta. Mas o destino tinha um senso de humor mórbido. Eles se cruzaram em um bar de beira de estrada, a quilômetros de distância da escola, ambos fugitivos de suas próprias naturezas.

Houve palavras ácidas. Houve o desafio silencioso de quem odiava mais a própria existência. E, então, houve o álcool. O licor destilado ilegalmente que o barman servira parecia fogo líquido, e Wandinha, em um raro momento de imprudência niilista, decidiu que queria queimar.

— Acordada tão cedo? — A voz de Tyler saiu rouca, grave pelo sono.

Wandinha não se moveu. Ela continuou encarando o teto, a voz saindo seca como ossos triturados.

— Eu deveria ter cravado um abridor de cartas na sua jugular enquanto você roncava.

Tyler soltou um riso baixo, uma vibração que Wandinha sentiu contra suas próprias costelas devido à proximidade. Ele se apoiou no cotovelo, observando-a com aqueles olhos que alternavam entre a doçura de um barista e a sede de sangue de um monstro.

— Você estava muito ocupada arranhando minhas costas para pensar em armas, Wandinha.

Ela finalmente virou a cabeça para encará-lo. Sua expressão era uma máscara de indiferença gélida, apesar do turbilhão interno de repulsa e uma curiosidade científica perturbadora sobre como ela havia permitido que aquilo acontecesse.

— O álcool é um depressor do sistema nervoso central que obscurece o julgamento — afirmou ela. — O que aconteceu aqui foi um erro estatístico provocado por substâncias químicas de baixa qualidade. Nada mais.

Tyler inclinou a cabeça, um sorriso manipulador brincando no canto dos lábios. Ele estendeu a mão, ousando tocar uma das tranças desfeitas de Wandinha. Ela não recuou, mas seus olhos prometeram uma morte lenta.

— Um erro? — perguntou ele, a voz carregada de uma falsa vulnerabilidade. — Você parecia bem consciente quando disse que eu era o único que entendia a escuridão dentro de você.

— Eu estava delirando — rebateu ela prontamente. — A desidratação causa alucinações auditivas e perda de padrões morais.

Tyler sentou-se na cama, deixando o lençol cair até a cintura, exibindo a fisicalidade que, horas antes, Wandinha havia explorado com uma intensidade que a envergonharia se ela possuísse tal capacidade emocional.

— Admita, Wandinha. Você gosta do perigo. Você gosta de saber que, a qualquer momento, eu posso perder o controle. Isso te excita mais do que qualquer mistério de assassinato.

— Você é um monstro manipulador, Tyler. Um Hyde que não passa de um animal de estimação traumatizado.

— E você é uma Addams — retrucou ele, os olhos brilhando com uma intensidade perigosa. — Você não quer um herói. Você quer alguém que saiba exatamente como é o gosto do sangue. E ontem à noite, você provou o meu.

Wandinha sentou-se abruptamente, ignorando a nudez com a mesma frieza com que ignoraria um cadáver em uma mesa de autópsia. Ela buscou suas roupas espalhadas pelo chão de madeira.

— O que aconteceu foi uma anomalia — disse ela, vestindo sua camisa preta com movimentos precisos. — Se você mencionar isso a qualquer alma viva, ou morta, eu garantirei que sua próxima transformação seja a última. Eu vou dissecar você enquanto seu coração ainda estiver batendo.

Tyler observou-a se vestir, o olhar seguindo cada movimento dela com uma fome que não tinha sido saciada pela noite anterior.

— Você vai fugir de novo? — perguntou ele. — Para Nunca Mais? Para o seu clube de apicultores e sua colega de quarto colorida? Você sabe que não pertence àquele lugar.

Wandinha parou, com a mão na maçaneta da porta. Ela não olhou para trás.

— Eu não pertenço a lugar nenhum, Tyler. Especialmente não a uma cama com um experimento de laboratório mal-sucedido.

— Mentirosa — disse ele, a voz agora suave, quase um sussurro nos ouvidos dela. — Eu vi o jeito que você me olhou. Não era ódio. Era reconhecimento.

Wandinha apertou a maçaneta. O toque dele ainda parecia queimar em sua pele, uma marca invisível que ela odiava admitir que existia.

— O reconhecimento de que eu deveria ter deixado você na floresta — respondeu ela.

— Então por que não vai embora? — Tyler se levantou e caminhou até ela, parando a poucos centímetros de suas costas. Ele não a tocou, mas ela podia sentir o calor emanando dele. — A porta está destrancada. Você pode sair e fingir que isso foi apenas um pesadelo. Mas nós dois sabemos que você prefere os pesadelos à realidade.

Wandinha virou-se lentamente. A franja caía levemente sobre seus olhos, e a palidez de seu rosto contrastava com a determinação sombria em seu olhar.

— Você acha que me conhece porque compartilhamos um momento de fraqueza induzida por toxinas? — perguntou ela, a voz baixa e letal.

— Eu conheço você porque eu sou o reflexo do que você esconde — disse Tyler, aproximando o rosto do dela. — Você pode odiar o que eu sou, Wandinha. Mas você ama o que eu faço você sentir. O medo, a adrenalina... a proximidade da morte.

Por um segundo, o silêncio entre eles foi carregado de uma eletricidade estática que ameaçava explodir novamente. Wandinha observou a cicatriz no ombro dele, uma lembrança do monstro que ele escondia. Ela estendeu a mão, não para empurrá-lo, mas para segurar seu queixo com uma força surpreendente.

— Se você tentar me manipular de novo, Tyler Galpin, eu vou arrancar sua língua e usá-la como marcador de livro.

Tyler sorriu, um sorriso genuíno e aterrorizante.

— Eu não esperaria menos de você.

Wandinha soltou-o e abriu a porta. O ar frio do corredor a atingiu, trazendo-a de volta à sua realidade calculada.

— Isso nunca aconteceu — declarou ela, sem olhar para trás.

— Até a próxima vez, Wandinha — disse Tyler para as costas dela.

Ela caminhou pelo corredor com sua postura impecável, as tranças balançando levemente. Por dentro, seu coração batia em um ritmo que ela não conseguia silenciar. Não era medo. Não era arrependimento. Era a percepção perturbadora de que, naquela noite de embriaguez e sombras, ela finalmente tinha encontrado algo tão quebrado quanto ela mesma.

E isso, para Wandinha Addams, era a coisa mais perigosa de todas.
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